segunda-feira, 22 de dezembro de 2008


"A infelicidade é uma questão de prefixo."


(Guimarães Rosa)

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Ausência

Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces.
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado.
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne como nódoa do passado.
Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face.
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada.
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos portos silenciosos.
Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.

Vinícius de Moraes

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

O ator e o poeta

No palco, Ayrton Salvanini: Vinícius de Moraes.
O ator mambembe, de tão raro, quase não existe. Diz viver para a força e a beleza da palavra. Seus espetáculos - doze ao total - resumem-se a isto: o palco e a poesia. Poesia que povoou meus quinze anos em apresentações na escola Martim Afonso. Com ele, fui seduzida por Fernando Pessoa e seus heterônimos. Com ele, vivi a grandiosidade e o frenesi da Semana de 22. Com ele, a poesia ganhou corpo e eu senti a palavra pulsando dentro do meu ser.
Já pensava que era apenas uma boa lembrança. Reencontrá-lo, ontem, no palco do Sesc, não foi voltar ao passado. Foi viver, mais uma vez e sempre, a poesia. Desta vez, a de Vinícius. Ver o ator encarnar o poetinha, declamando Operário em construção, recitando Para viver um grande amor, entre outros textos, ou cantando suas canções, sempre acompanhado de seu filho - "músico, graças a Deus!" -, fez sentir a beleza e a força da palavra. Ouvir o poeta fez lembrar, mais que a paixão, a passionalidade de um jeito de ser que simplesmente não aceita a vida pela metade.


quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Para entrar na lista dos favoritos



"Apenas Uma Vez resulta assim não um longa que usa a música apenas como linguagem, mas um que a emprega também como tema. O romance é menos físico e mais pelo processo criativo. O relacionamento se torna colaboração - e há poucas coisas tão românticas quanto isso." (Érico Borgo)







Falling Slowly (Glen Hansard/Marketa Irglova)
I don't know you
But I want you
All the more for that
Words fall through me
And always fool me
And I can't react
And games that never amount
To more than they're meant
Will play themselves out
Take this sinking boat and point it home
We've still got time
Raise your hopeful voice you have a choice
You'll make it now
Falling slowly, eyes that know me
And I can't go back
Moods that take me and erase me
And I'm painted black
You have suffered enough
And warred with yourself
It's time that you won
Take this sinking boat and point it home
We've still got time
Raise your hopeful voice you had a choice
You've made it now
Falling slowly sing your melody
I'll sing along

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Pais e filhos e sonhos de bicicletas

Ontem, estava lendo A Cidade Vazia, livro de crônicas de Fernando Sabino. Em "A bicicleta", ele conta a história, tirada de uma notícia de jornal, de um homem pobre, preso por tentar roubar uma bicicleta que daria ao filho como presente de Natal, há muitos anos prometida. É o tipo de história que me comove: pais e filhos e sonhos de bicicletas.
Pois bem. Hoje, fui na bicicletaria levar minha bicicleta para trocar a câmara do pneu. Aguardava o conserto na porta da loja, quando se aproximaram duas bicicletas: um pai e um filho. "Dá uma olhada e diz pra mim qual que te apaixona", disse o pai. O inusitado da proposta me fez sorrir. O menino, mais surpreso que feliz, parecia não entender e permaneceu parado. O pai repetiu e completou, sorrindo para ele e para mim: "Quero te dar uma bicicleta nova". A sua era realmente velha e já estava ficando pequena. Com a insistência do pai, o filho entrou na loja e começou a olhar as bicicletas, uma por uma. O menino examinava com cuidado e parecia indeciso, ainda duvidando da possibilidade verdadeira de ganhar uma bicicleta nova. Acho que se apaixonou por uma vermelha, pois foi a única em que tocou. O pai levava aquele sorriso que traduz o sentimento de dignidade e alegria por poder comprar uma bicicleta nova ao filho.
A minha bicicleta ficou pronta antes de eu me inteirar do final da história e não sei se o pai realmente comprou e qual bicicleta o filho escolheu. Mas ainda na calçada, lembrei da crônica lida no dia anterior e fiquei com os olhos cheios de lágrimas. Sim, histórias de pais e filhos e sonhos de bicicletas realmente me comovem.

domingo, 30 de novembro de 2008

Crônica do anonimato

(A lição do olhar)

O uniforme azul e branco facilita a identificação. Podemos identificá-los, mas não os reconhecemos. Simplesmente porque não os conhecemos. Eles estão em quase todos os lugares, porém não os vemos. Falar com eles, apenas em caso de necessidade. O paradoxo é sensivelmente real: por mais onipresentes que sejam, eles tornam-se invisíveis, inexistentes. Parecem compor o cenário em que estão inseridos como figurantes, e perdem-se nele. Transformados em funções, ou melhor, vistos somente como funções, perdem um pouco de sua humanidade. Afinal, quem são os funcionários da universidade?
Existem os “clássicos”, conhecidos de todos, que são referência em seus pontos de atuação: o Marcílio e a Dona Terezinha, da biblioteca de Comunicação; a Helen, da biblioteca de Educação (para aqueles que a freqüentam); a Célia, da secretaria; a Beth, da sala dos professores; o Hugo, dos auditórios. Mas há, também, um exército de anônimos, reconhecidos apenas pela calça azul e a camisa branca (ou colete azul, no caso das mulheres). Como é mesmo o nome do rapaz que fica no laboratório? E da moça que nos atende quando a Célia não está na secretaria? E daquelas duas senhoras simpáticas – uma loira, a outra negra, as duas sempre sorridentes – que trabalham na biblioteca do primeiro andar? Além destes, ainda tem os funcionários que trabalham escondidos em salas em que nunca entramos. Muito raramente cruzamos com eles pelos corredores. Deles, sabemos menos ainda: nem nome, nem o que fazem.
Seja no caso dos conhecidos ou dos apenas reconhecíveis, nossa percepção é a mesma: eles não passam de funções. Ou simples uniformes. Será que eles, por sua vez, nos vêem apenas como uma massa indistinta e perturbadora de alunos? Massa de cá, exército de lá, e perdem-se os relacionamentos humanos. Pois não se pode dizer que haja relacionamento entre nós. O contato diário resume-se à troca de sorrisos e cumprimentos e ao pedido de auxílio, quando necessário. Mas o que sabemos deles? Qual é a sua história? Seus sonhos, suas frustrações? Afinal, quem são eles? Então, damo-nos conta, tristemente, de que talvez estas questões não nos preocupem ou sequer tenham suscitado nossa curiosidade. Limitamo-nos a aceitar sua condição de função e anonimato – assim como a nossa, de massa igualmente anônima – e esquecer sua humanidade.
Às vezes, peculiaridades de temperamento e personalidade vencem estas limitações. Alguns dos funcionários, com os quais sentimos uma proximidade maior, vão se revelando a nós, formando, aos poucos, o mosaico de quem são. A revelação, porém, acontece lentamente, a partir de conversas esparsas e breves – seria perigoso, talvez, romper a barreira do uniforme de modo súbito. A aproximação exige cautela e respeito aos papéis: eles, funcionários, nós, alunos. Mas a ocorrência, ainda que casual, de conversas mais pessoais, mostra que é possível nos relacionarmos como os seres humanos que somos.
Esta seria, talvez, uma boa oportunidade para exercitar esta aproximação. Poderia ter me aventurado a conversar com um dos funcionários desconhecidos e arriscar um perfil, mas preferi fazer uma crônica do anonimato. Continuo não sabendo quem são eles, quais são seus sonhos, o que os faz chorar ou sorrir. Mas posso dizer que, com um simples exercício do olhar, eles já não são apenas uniformes para mim.

domingo, 23 de novembro de 2008

Conversatório com Fabrício Carpinejar

Foi há duas semanas, mas acho que ainda vale o comentário.
Antes do Conversatório, eu estava lendo seu livro de crônicas
O amor esquece de começar. Leve, profundo, engraçado, poético. Com várias daquelas frases perfeitas pra se anotar num caderninho. Pois encontrar o Fabrício foi encontrar o autor daquele livro, o que parece um tanto óbvio mas não é. O que eu quero dizer é que ele é exatamente o que escreve. O jeito de falar (o sotaque gaúcho já pressuposto na escrita), os assuntos (amor, mulheres, filhos, família, relacionamentos, a escrita, a poesia), a graça, o humor, o lirismo, a veia subversiva descontruindo idéias banais. Ouvi-lo falar era o mesmo que ler seu livro.
Algumas de suas frases (do Conversatório, não do livro):

"Os livros nascem conversados."

"Ensinar é seduzir porque tu ensina pra passar o contrabando pelo afeto."

"Xícaras quebradas nunca serão roubadas." (história da avó dele)

"A escrita é um próprio rosto."

"É importante conhecer a chuva."

"Tu não escreve pra falar de ti, tu escreve pra sair de ti."

"O livro é saudade que a gente tem de alguém."

"(...) começa a escrever porque os principais livros da vida dele, que são pessoas, não foram escritos."

"Se eu não escrever, ninguém vai conhecer minha vó."

"A gente escreve depois de se suportar sozinho." (em relação aos blogs)

"É importante ser cafona no amor. Quem não for cafona, nunca será nobre."

"A poesia é meu espaço de desaforo."

"O exagero reequilibra."

"A crônica devolve a intimidade das coisas (...) A crônica é um efeito colateral da poesia."

"Poesia não é escolha, é temperamento. É jeito de reconhecer minha própria casa."

*
Para mais Carpinejar: http://www.carpinejar.blogspot.com/

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Itinerário (ou a crônica de um dia perfeito)

Estamos na Luz. Lu e eu. Luz. Algo bom de se dizer. É metrô, é trem, é pinacoteca, é estado de espírito. Início de jornada. O descuido na rua e a bronca carinhosa. Primeiros sinais de uma gentileza inesperada. Cedo demais. Os caminhos sem mapa. O arco-íris de concreto ao longe. Longe? Perto. A conspiração do universo. A intuição dos passos. A supresa em cada esquina. O pensamento e o desejo mais rápidos que a imagem que surgia como mágica. Edifício Martinelli. O outro também. Sol chuvoso. Avenida Júlio Prestes. Avenida Ipiranga! Cadê a São João? A vida vivida como música. Santa Ifigênia: a rua, o largo, a igreja. Viaduto do Chá e a pureza contagiante do ar impuro de São Paulo. Mosteiro de São Bento. A lição do silêncio e dos vitrais. Cachoeira de luz. As fotos proibidas. A tempo. O café Girondino. 25 de março: uma data, uma rua, uma festa. Carinho na cabeça ao virar a esquina. Arrepio de pele. Lojas árabes. Bolsas árabes, pulseiras árabes, doces árabes. Enfeites de Natal e a caixinha de música descoberta sem querer. Mercado Municipal. O templo. Simpatia em cada barraca. Banquete de cores, de cheiros, desejos. A sardela italiana, o queijo brasileiro. Damasco com chocolate. Salada de fruta. Pão com mortadela e a descoberta de si mesmo. Pessoas. Mais simpatia, mais gentileza. Avenida Senador Queirós. Bolo de goiaba. Chuva ensolarada. Caminho de volta. Luz mais perto ainda. Sala São Paulo. Os mistérios do som, os segredos da música. Museu da Resistência. DOI-CODI. História na parede de celas. Universidade Livre de Música. Corredores musicais. A música da janela. O céu de papel crepom. Museu da Língua Portuguesa. Machado de Assis. Paredes de luz e som. A palavra comunicar no jogo do labirinto. A surpresa por trás da tela de cinema. As palavras eram mar. As palavras choviam belezas no escuro, e a gente embaixo se molhando. O piano na estação Júlio Prestes. "Toque-me. Sou todo seu". Toco. A brincadeira em dedilhado, o jazzinho infantil arranhado. Volta pelo metrô. A rememoração do dia que ainda não terminou. Muitos risos. As histórias acompanhadas por um livro de fachada. "Onde estamos? Quem somos nós?", "Ana Rosa", entregou-se o livro. Fim de linha. Destino: a praia. Mais histórias e mais risos. Amanteigados e biscoitos de leite. A serra. O verde e a lembrança de verde.
A Lu dormindo. O céu em cor-de-rosa encerrando o dia. A paisagem familiar. Canal 1. O bafo quente de Santos. Fim de jornada. A plenitude à exaustão. Pés cansados, mas felizes.

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

O lado humano das coisas

As aulas e a maioria dos professores parecem criar (ou recriar) o modelo de jornalista soldado: tem que ser agresssivo, tem que ser mal educado, nada de mostrar emoção; se importar com o "personagem" só quando for útil ou interessante à matéria, e quando a intenção for fazer da notícia sensação ou uma novelinha melodramática; tem que procurar a notícia conforme a cartilha (segundo o que a cartilha considera notícia) e escrever conforme a cartilha. O principal critério de noticiabilidade é a morte. Tal como na guerra. Morte alheia (de gente importante, melhor ainda) é alegria de jornalista. E assim, muitos candidatos à tal da "profissão repórter" se desencantam, enquanto outros, com tendências sádicas, se realizam. Os chamados "sensíveis" são delicados demais, segundo dizem. E delicadeza não tem vez no jornalismo. Será?
Ontem, a palestra com o jornalista Vladir Lemos (apresentador do programa Cartão Verde, da TV Cultura) mostrou com palavras, histórias e, mais ainda, com seu próprio jeito de ser, que ainda é possível não abraçar o lado sanguinário do jornalismo e valorizar o traço humano da profissão que, para ele, ainda é a arte de contar histórias. Trabalhando com esportes, o jornalista diz não querer saber de técnicas e táticas (em geral, o foco dos principais programas de esporte), mas de pessoas. Lembrando o início de sua carreira na TV Tribuna, quando ainda cobria assuntos gerais, falou de seu sofrimento quando era obrigado a cobrir as editorias de Política e Polícia. Certo dia, na redação, surgiu a notícia da mulher que supostamente teria matado o marido e enterrado no quintal de casa. Único repórter disponível no momento, não teve como escapar, e lá foi o Vladir fazer a matéria. Chegando ao local junto com o cinegrafista, acompanhou o interrogatório dos policiais. De início, a mulher negou. Depois, indicou o lugar em que estava o marido. Primeira enxadada, nada. Segunda, apareceu um dedão. Imediatamente, o repórter se dispôs a abandonar o local, com a justificativa de fazer uma passagem externa. "Ô, Vladir, você não vai ver?", foi a pergunta do cinegrafista. "E você acha que ela enterrou só o dedo do marido?". E saiu.
Histórias como esta, ou a entrevista em que fez o Adhemar Ferreira da Silva, conhecido pelo jeito turrão, cantar, ou a matéria com os detentos do Carandiru e a lenda de serem de maioria corinthiana, iluminam o lado humano das coisas e mostram que delicadeza não é sinônimo de frescura ou fraqueza, mas a capacidade de reconhecer no outro, uma pessoa, e na notícia, a possibilidade de uma verdadeira história.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

"Se ao menos pudesse voltar a ser tão distraída, a sentir tanto amor sem saber, tomando-o por engano pelo riso e pelo pão com um levíssimo cheiro de geléia espalhado por cima."

(A menina que roubava livros, Markus Zusak)

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Poema Se

Se, ao final desta existência,
Alguma ansiedade me restar
E conseguir me perturbar;
Se eu me debater aflito
No conflito, na discórdia...
Se ainda ocultar verdades
Para ocultar-me,
Para ofuscar-me com fantasias por mim criadas...
Se restar abatimento e revolta
Pelo que não consegui
Possuir, fazer, dizer e mesmo ser...
Se eu retiver um pouco mais
Do pouco que é necessário
E persistir indiferente ao grande pranto do mundo...
Se algum ressentimento,
Algum ferimento
Impedir-me do imenso alívio
Que é o irrestritamente perdoar,
E, mais ainda,
Se ainda não souber sinceramente orar
Por quem me agrediu e injustiçou...
Se continuar a mediocremente
Denunciar o cisco no olho do outro
Sem conseguir vencer a treva e a trave
Em meu próprio...
Se seguir protestando
Reclamando, contestando,
Exigindo que o mundo mude
Sem qualquer esforço para mudar eu...
Se, indigente da incondicional alegria interior,
Em queixas, ais e lamúrias,
Persistir e buscar consolo, conforto, simpatia
Para a minha ainda imperiosa angústia...
Se, ainda incapaz
para a beatitude das almas santas,
precisar dos prazeres medíocres que o mundo vende...
Se insistir ainda que o mundo silencie
Para que possa embeber-me de silêncio,
Sem saber realizá-lo em mim...
Se minha fortaleza e segurança
São ainda construídas com os materiais
Grosseiros e frágeis
Que o mundo empresta,
E eu neles ainda acredito...
Se, imprudente e cegamente,
Continuar desejando
Adquirir,
Multiplicar,
E reter
Valores, coisas, pessoas, posições, ideologias,
Na ânsia de ser feliz...
Se, ainda presa do grande embuste,
Insistir e persistir iludido
Com a importância que me dou...
Se, ao fim de meus dias,
Continuar
Sem escutar, sem entender, sem atender,
Sem realizar o Cristo, que,
Dentro de mim,
Eu Sou,
Terei me perdido na multidão abortada
Dos perdulários dos divinos talentos,
Os talentos que a Vida
A todos confia,
E serei um fraco a mais,
Um traidor da própria vida,
Da Vida que investe em mim,
Que de mim espera
E que se vê frustrada
Diante de meu fim.
Se tudo isto acontecer
Terei parasitado a Vida
E inutilmente ocupado
O tempo
E o espaço
De Deus.
Terei meramente sido vencido
Pelo fim,
Sem ter atingido a Meta.

Professor Hermógenes


quarta-feira, 8 de outubro de 2008

"Deixá-lo; vou descendo o caminho rápido da vida, sem temores e sem projetos, ora rindo, ora chorando; e, às vezes, rindo e chorando ao mesmo tempo, ou então cantarolando qualquer velho estribilho para me distrair ao longo do caminho. "

(Viagem à roda do meu quarto, Xavier de Maistre)

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Poema ao Seu Moço

Seu Moço
sumiu da minha vista,
sumiu da minha vida,
até das letras perdidas.
Sinal não manda mais
e as conversas de esquina
já são lembranças.
Seu Moço,
faz assim, não.
Lembra que amigo é coisa
pra se guardar
pra aproveitar
e abusar
até se perder
de vista,
mas não do coração.

(Deixar amigo assim com saudade é pecado... )

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Sobre o medo

"Medo é necessário, faz sentido. Só não dá para ter medo de ter medo, paralisar e deixar as histórias passarem sem encontrar quem as conte (...) Por mais que você escolha não viver, a vida te agarra em alguma esquina. O melhor é logo se lambuzar nela, enfiar o pé na jaca, emlamear os sapatos. Se quiser um conselho, vá. Vá com medo, apesar do medo. Se atire. Se quiser outro, não há como viver sem pecado. Então, faça um favor a si mesmo: peque sempre pelo excesso."
(Eliane Brum)

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

O mar serenou

Acordei com Clara Nunes cantando...

"Ah, e agora
Você passa e eu acho graça
Nessa vida tudo passa
E você também passou..."

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

"Mentira de água é matar a sede."
(Elomar)

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Filosofia animada

"One often meets his destiny on the road he takes to avoid it."

("Em geral, encontramos nosso destino no caminho que tomamos para evitá-lo.")

(Mestre Oogway, Kung Fu Panda)

Essa é a melhor síntese do Édipo que já encontrei! Quem não leu a tragédia de Sófocles e acha que se trata apenas da história de um filho casado com a própria mãe, foi enganado por Freud, que se apropriou de parte do mito para tentar explicar um aspecto do comportamento humano. Na verdade, Édipo Rei é uma história sobre a inevitabilidade do destino. Exatamente como a sábia fala do Mestre Oogway...

domingo, 28 de setembro de 2008

Só de farra

Só de farra
vou jogar as idéias velhas fora
e não pôr nada no lugar.
Só de farra
vou dizer as palavras guardadas
e repetir as que nunca foram ditas.
Só de farra
vou ser o avesso de mim
para ser tudo o que sou.
Só de farra
vou prever o passado, lembrar o amanhã
e desvendar a inexistência do tempo.
Só de farra
vou deixar a farra de lado
e recuperar a insensatez de todo dia.
Só para cair na farra outra vez.

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

visita incerta

não vou pular o muro
de concreto do teu ser
nem invadir tua casa, coração
espero você abrir a porta
e me chamar para entrar
talvez eu entre
talvez nem fique
talvez tome um café e vá embora
ou jogue conversa fora
como amigos em um bar
talvez eu me canse
e descanse em tua rede
só esperando o tempo passar
talvez me sinta em casa
tire os sapatos, os medos, as máscaras
talvez você goste da visita
e me peça para ficar.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

"A vida de todo ser humano é um caminho em direção a si mesmo, a tentativa de um caminho, o seguir de um simples rastro. Homem algum chegou a ser completamente ele mesmo; mas todos aspiram a sê-lo, obscuramente alguns, outros mais claramente, cada qual como pode. Todos levam consigam, até o fim, viscosidades e cascas de ovo de um mundo primitivo. Há os que não chegam jamais a ser homens, e continuam sendo rãs, esquilos ou formigas. Outros que são homens da cintura para cima e peixes da cintura para baixo. Mas, cada um deles é um impulso em direção ao ser. Todos temos origens comuns: as mães; todos proviemos do mesmo abismo, mas cada um - resultado de uma tentativa ou de um impulso inicial - tende a seu próprio fim. Assim é que podemos entender-nos uns aos outros, mas somente a si mesmo pode cada um interpretar-se."

(Demian, Herman Hesse)

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Inspiração

Tarefa para a disciplina Ética e Legislação Jornalística: treinar o olhar. Escolher um elemento absolutamente banal (algo comum, não no sentido de banalizado), daqueles que estão presentes no cotidiano mas que a gente nunca repara, e observá-lo. Pode ser uma pessoa, um aspecto do ambiente, qualquer coisa. Depois de muita observação, escrever.
Para inspirar, ler textos da jornalista Eliane Brum, autora de A vida que ninguém vê, livro de reportagens que fez para o Zero Hora, sobre personagens anônimas, pequenas histórias da vida real. Mais que inspirada, fiquei apaixonada. Encantada.
Hoje a jornalista escreve para a revista Época. Procurando textos seus na Internet, encontrei este em que ela relata um retiro de meditação de dez dias que fez. "O inimigo sou eu" é o título da matéria. Seja pelo assunto, seja pelo modo de narrar, o texto é primoroso e inspirador. Uma lição de jornalismo e de vida.
Alguns trechos:

"Manter a mente no exato momento presente é um desafio: em geral, estamos no passado (nostálgicos ou lamentosos) ou no futuro (antecipando catástrofes ou adiando possibilidades). Aqui, agora, pouco estamos."

"Descobri que um universo complexo me habitava, com manifestações novas e desconhecidas. Foi como passar a vida olhando o oceano da praia e, de repente, mergulhar."

"A verdadeira felicidade, segundo a vipássana, é a paz interior conquistada pela consciência de que não podemos controlar nem o mundo nem os outros, mas podemos controlar como vamos lidar com o mundo e com os outros."

"Disse um palavrão em perfeito silêncio. E chorei pela primeira vez. Percebi como eu havia sido prepotente ao imaginar que havia atingido uma espécie de iluminação e por me achar tão importante por causa disso. É difícil explicar, mas chorei por ter me percebido demasiado humana."

"Nessa guerra no território do corpo, o inimigo era eu. Parar de sofrer dependia apenas de mim. E eu tinha acabado de descobrir que, ao contrário do que eu acreditara até então, eu não era resistente à dor. Sempre fui orgulhosa demais para admitir que sentia dor, porque sempre confundi fragilidade com fracasso. Chorei de novo. Dessa vez, porque percebi que essa era a luta mais difícil."

"Era difícil tornar qualquer coisa permanente depois de compreender – de forma tão radical – a impermanência da realidade. Eu, que me tornei jornalista na ânsia de capturar o real, me encontrei nesse impasse. Escrever era tornar permanente o momento, o acontecimento fugaz, era impedir que algo fosse embora. Parecia impossível voltar a fazer isso."

"Neste momento, sinto minha vida mais larga. Cada dia é longo. Tenho dificuldade de me concentrar no que aconteceu ontem, e a próxima semana está longe. Percebo imediatamente quando estou vivendo algo especial, coisas muito simples que antes não perceberia. E descarto os acontecimentos desagradáveis no minuto seguinte. Quando sinto medo ou ansiedade, sei que vai passar. Só essa certeza já reduz os monstros à metade do seu tamanho."

"Este é apenas o relato de uma viagem para um lugar bem exótico – meu corpo. Você poderia estar lendo sobre uma circunavegação da Antártica ou a escalada da parede sul do Aconcágua. Mas esta é uma expedição de dez dias, mais de cem horas de olhos fechados, sem sair do lugar e sempre para dentro. Ao avesso de qualquer outra aventura, quanto mais longe, mais perto estava de mim. Neste mundo em que todas as geografias já foram devassadas – e a maioria delas devastada – talvez este seja um desafio mais real."

Aqui vai o link para a matéria completa:
http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EDG80874-8055-503-1,00-O+INIMIGO+SOU+EU.html
A espantosa realidade das coisas
É a minha descoberta de todos os dias.
Cada coisa é o que é,
E é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra
E quanto isso me basta.

Basta existir para se ser completo.

(Alberto Caeiro)

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

A vitória da crônica falida

Pode uma pessoa que não entende nada de futebol escrever uma crônica esportiva? Reconheço minha ignorância futebolística, e, mesmo assim, vou arriscar. A motivação foi o jogo de ontem.
Meu desconhecimento quase total e absoluto é um fato. Ano passado, fui à Vila Belmiro ver São Paulo e Santos com dois amigos santistas (torcendo contra o Santos, claro). Levei os dois à loucura por mais de um motivo. "O que foi aquilo? Chapéu, caneta, chaleira?", "Quem é mesmo o número seis?". Mas me diverti. E muito (principalmente porque o São Paulo ganhou de 1 a 0...).
Não sei nada de futebol. Mas amo. Amo daquela maneira que não se sabe explicar. Até tento. Principalmente para pessoas estarrecidas com esta minha paixão. Mas não adianta falar de amor para aqueles que não amam. Parece que há um entendimento mútuo e secreto, compartilhado apenas entre os amantes...
Amo ver jogo em estádio. É, sem dúvida, uma das melhores coisas da vida.Ver a Seleção Brasileira jogar contra o Uruguai, ano passado, no Morumbi, foi inesquecível. Ver o Palmeiras ser campeão paulista, este ano, no Palestra Itália, foi de uma emoção sem tamanho. Mas jogo sem tanta importância também é muito bom. Vale até jogo na Vila!
Ah, e para quem não sabe, sou palmeirense. Graças ao meu irmão. Comigo, é torcer pelo Palmeiras. Ou contra o Santos. Sempre.
Amo fazer parte da torcida. E gritar. E cantar com o repique da bateria. Abraçar desconhecidos na hora do gol. Xingar também. E chorar, às vezes. Já fiz trabalho de Antropologia sobre torcidas para tentar entender esse tipo de insanidade. Em vão. Um jogo de 90 minutos, acompanhado junto com milhares de pessoas, transcende qualquer tentativa de explicação.
Jogo pela televisão é diferente. Perde muito da emoção. Ainda assim, dá pra dar uns gritos e pulos incontroláveis do sofá.
Pois bem. O jogo de ontem: Palmeiras e Cruzeiro. A briga valia a vice-liderança do Campeonato Brasileiro. Eu, que estava meio borocochô, me animei em dois minutos. Que jogo! Não vou dizer que Fulano e Sicrano estiveram muito bem em campo, que a estratégia tática do time funcionou ou que a zaga finalmente resolveu trabalhar direito. Isso tudo fica para a crônica jornalística especializada. Além do mais, não entenderia patavina do que estaria dizendo. Apenas vou conseguir dizer que vibrei muito com um jogo quente e disputadíssimo, como há algum tempo não via. Teve grito, teve torcida, teve pulo do sofá. O gol do Diego Souza ao final do primeiro tempo aliviou um pouco a tensão. Mas o segundo tempo... Barbaridade! O que foi aquilo? Com dez em campo, o Palmeiras mostrou como sapatear levando tiro no pé e tendo que segurar as calças! Uns dizem que sem dificuldade, a vitória não tem mérito... Bom, também não vou dizer, como naqueles comentários imbecis de fim de jogo, que o time mereceu ganhar. Mereceu, não mereceu - que importa? Jogo é mérito, mas também é sorte (o goleiro Marcos que o diga, com todas aquelas bolas zunindo pelas traves de seu gol...). O que importa é o jogo bem jogado, a emoção, o inesperado. Teve tudo isso e o time ganhou? Valeu a pena. Perdeu? Também valeu! Mas é claro que meu coração alvi-verde, feliz e aliviado, contentou-se ainda mais com a conquista do campeonato mais próxima, possível...
Será isso uma crônica esportiva? Desconfio que não. Pouco rigorosa, desconexa, pessoal demais. Talvez, então, a resposta à pergunta inicial seja negativa, mas assim como vou ao estádio para me divertir e não para entender de futebol, escrever esse texto foi pura diversão.E isso me basta. Duas vitórias no dia de ontem...

domingo, 14 de setembro de 2008

Mais amor




Quando a gente ama
(Oswaldo Montenegro)
Quem vai dizer ao coração
Que a paixão não é loucura
Mesmo que pareça insano acreditar
Me apaixonei por um olhar
Por um gesto de ternura
Mesmo sem palavra alguma pra falar
Meu amor, a vida passa num instante
E um instante é muito pouco pra sonhar
Quando a gente ama simplesmente ama
É impossível explicar
Quando a gente ama simplesmente ama

sábado, 13 de setembro de 2008

Palavras de Amor

Meu amigo está amando!
Estava ele ao meu lado, lendo as bobagens que aqui escrevo, e me soltou essa revelação à queima-roupa. Eu, me divertindo observando ele se divertir com o que eu escrevo, até ver ele se interessar pelo texto do Dia dos Namorados. "Ah, um texto do dia dos namorados". Acho que fiz cara de surpresa. "Eu tô amando". "Você tá amando"?, talvez tenha falado alto demais nesse meu jeito contido e nada expressivo... "Shiuuuu". Rimos. Então compreendi que ele buscava palavras de amor.
A revelação acompanhada de um sorriso de orelha a orelha me deixou feliz e surpresa. Vi ali uma espontaneidade do gostar que já não reconhecia em mim. Como assim? Além de gostar de peito aberto, ele declarava aquilo daquele jeito! Ingenuidade? Não, é que ele tem a coragem de ser inteiro. Sem precauções. Sem as redes de segurança que criamos para proteger nossos medos. Percebi, então, que talvez o amor só exija mesmo essa espontaneidade, essa coragem, essa sinceridade. Se ele vai ser feliz ou se ele vai sofrer, é bobagem querer saber. O que importa é que ele vai amar. Ama. Simples assim.
Mais palavras de amor para meu amigo:

O amor é uma companhia.
Já não sei andar só pelos caminhos,
Porque já não posso andar só.
Um pensamento visível faz-me andar mais depressa
E ver menos, e ao mesmo tempo gostar bem de ir vendo tudo.
Mesmo a ausência dela é uma coisa que está comigo.
E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.
Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas.
Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto
[na ausência dela.
Todo eu sou qualquer força que me abandona.
Toda a realidade olha para mim como um girassol
[com a cara dela no meio.

(Alberto Caeiro, O Pastor Amoroso)

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Explicação

Um amigo assustado me disse que eu não era mais a mesma, não era mais a romântica que acreditava no amor e chorava vendo O Fabuloso Destino de Amélie Poulain.
Acho que ele não entendeu...
Não abandonei o romantismo, apenas as ilusões.
Na "acidez" do meu texto, esqueci de dizer que não foi tudo invenção. Também tive um grande amor. Um amor que me fez sentir a verdade dos poemas de Neruda e estabeleceu um padrão bem elevado para futuros amores.
Ainda sou uma romântica incurável. Ainda espero encontrar a tampa da minha panela, só não vou forçar tampas que não encaixam.
Ainda sonho com poemas como esse - mas que seja de verdade:

Não te amo como se fosses rosa de sal, topázio
ou flecha de cravos que propagam o fogo:
te amo como se amam certas coisas obscuras,
secretamente, entre a sombra e a alma.

Te amo como a planta que não floresce e leva
dentro de si, oculta, a luz daquelas flores,
e graças a teu amor vive escuro em meu corpo
o estreitado aroma que subiu da terra.

Te amo sem saber como, nem quando, nem de onde,
te amo diretamente, sem problemas nem orgulho:
assim te amo porque não sei amar de outra maneira,

a não ser deste modo em que não sou nem és
tão perto que tua mão sobre meu peito é minha,
tão perto que se fecham teus olhos com meu sono.

(Pablo Neruda, de Cien sonetos de amor)

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Sem faz-de-conta

Já inventei muitos amores. E sofri desilusões imaginárias. No jogo do gostar, respondia indiferente “eu também” ao “estou com saudade” alheio. Estava? Não estava. Mas a retórica do jogo exigia cumplicidade. E eu dava. A presença da voz ao telefone ao alcance da mão e a conversa miúda tinham ares de amor. Engano. O vazio-tédio das relações sem-sentido era maior que qualquer sentido falso que eu pudesse lhe dar. O fogo inventado ardia, mas era só exasperação. A invenção finalmente ruía e eu chorava uma dor real.
Liberta de mim mesma, aprendi.
Hoje não invento nada. Olho o sapo e vejo sapo mesmo. Também não me vejo como princesa. E não peço por contos de fada que não podem me dar. Contos de fada que eu nem mesmo queria. Não quero. Não quero invenção alguma. Não quero interpretar palavras que possam falar de amor. Quero a sinceridade do sentir, mesmo que seja sentir nada. Que me falem a palavra exata e me dêem o gesto sincero, pois vou aceitar palavra e gesto e nada mais.
Hoje tenho a paciência de um ancião e a alegria de uma criança que acabou de descobrir que brincar sem faz-de-conta é mais divertido. Quero a intensidade do instante e a calma queimando em fogo lento. Até que o real aconteça.

domingo, 7 de setembro de 2008

manhã

nasce o dia,
renasço eu.
o que de mim fica
da noite,
da vida?
queria que todo dia
fosse dia de manhã
nascer da manhã
amanhecer de mim.

sábado, 6 de setembro de 2008

Raízes
(Renato Teixeira)

Amanhecer
é uma lição do universo
Que nos ensina
Que é preciso renascer
O novo amanhece
O novo amanhece

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Sobre a tristeza

Tristeza da boa não dura muito tempo. Só o suficiente para fazer lembrar que o bom mesmo é ser feliz.
Essa parece ser uma verdade óbvia, mas tem gente que gosta de ser infeliz. Prefere, até.
Da minha parte, prefiro que a tristeza seja passageira. E, quando ela vem, gosto de sentir tudo. E chorar, se der vontade.
Às vezes, para a tristeza passar logo, ajuda ver um filme bem melodramático, daqueles que a gente sabe que vai fazer chorar. E a gente chora, chora, chora. Chora todas as pitangas e as carambolas. Sem parar para pensar, sem tentar entender ou controlar. Ao final do filme, a sensação de alívio é a mesma de quando se sai do mar depois de achar que iria se afogar.
Terminada a catarse, é só esperar pelo momento de rir de si mesmo. E ele nunca demora. Porque, assim como o choro, o riso também vem.

***

Por falar em filme, ontem vi um lindo (e triste, claro!): A vida secreta das palavras, da diretora espanhola Isabel Coixet. É a história de um relacionamento entre um homem acidentado em uma plataforma de petróleo e sua silenciosa enfermeira. Pode esquecer a bobagem da adaptação de Adeus às armas, do Hemingway, ao cinema (aquele filminho água com açúcar com a Sandra Bullock). Esse filme é simples e delicado. A cena mais "forte" é também a mais bonita. É possível viver com o peso do próprio passado?
Esse é um filme sobre dois sofrimentos e um encontro. Sobre o silêncio e as palavras.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Fragmento de uma manhã

Na lucidez do mais puro abandono, o pensamento se dissolvia e então eu era.
Coisas antigas tocavam levemente a face da memória, como um carinho inesperado, e por isso mesmo, mais terno. Imagens do passado dançavam difusas. Desfaziam-se em luz e isso já era uma espécie de libertação. Os olhos da mente acompanhavam à distância, sem se fixar em nada. Nenhum desejo, nenhum arrependimento. Só a presença.
De repente, eu era uma casa vazia no meio do nada em uma manhã iluminada e a sala de minha alma era um grande silêncio. Imersas nessa plenitude reencontrada, as janelas abertas recebiam com gratidão cada raio de sol e o cheiro fresco da terra.
Eu simplesmente era.

terça-feira, 26 de agosto de 2008

Solidão

"É necessário ficar só, conhecer esse estar só não induzido pelas circunstâncias, esse estar só que não é isolamento, esse estar só que é criatividade, condição na qual a mente já não busca a felicidade nem a virtude, nem cria resistência. A mente que está só é a única que pode encontrar - não a mente contaminada, corrompida pelas suas próprias experiências. Assim, talvez a solidão, de que todos temos consciência, possa, se soubermos como encará-la, abrir a porta para a realidade."

(Krishnamurti)

domingo, 24 de agosto de 2008

as cordas velhas do meu violão
não me dão nenhuma música
e sol é o único acorde possível
e eu que sempre me achei uma pessoa solar
descobri que o sol não me basta.

(não sai música, mas sai alguma poesia!)

domingo, 17 de agosto de 2008

"You can either live in peace or in pieces."
(Swami Chidananda, no Yoga pela Paz)

sábado, 2 de agosto de 2008

Juno

Esse filme consegue ser simples, engraçado, profundo, tudo ao mesmo tempo.
E essa cena é meiga demais!




Anyone else but you

You're a part time lover and a full time friend
The monkey on your back is the latest trend
I don't see what anyone can see in anyone else
But you
Here is the church and here is the steeple
We sure are cute for two ugly people
I don't see what anyone can see in anyone else
But you
We both have shiny happy fits of rage
I want more fans, you want more stage
I don't see what anyone can see in anyone else
But you
You are always trying to keep it real
I'm in love with how you feel
I don't see what anyone can see in anyone else
But you
I kiss you on the brain in the shadow of a train
I kiss you all starry eyed,
my body's swinging from side to side
I don't see what anyone can see in anyone else
But you
The pebbles forgive me, the trees forgive me
So why can't you forgive me?
I don't see what anyone can see in anyone else
But you
Du dududu dududu du dududu
Du dududu dududu du dududu
I don't see what anyone can see in anyone else
But you

terça-feira, 29 de julho de 2008

menino azul

menino azul,
a tarde caía
era o sol e éramos nós
os desejos secretos
as preces sussuradas
que preces eram as tuas?
menino azul,
absorto na tigela de açaí
a distância escondia um universo inteiro
mas a mão esquerda trazia a alma tatuada
(a mão direita eu não pude ver)
menino azul,
perdi o instante do teu sorriso
e o teu dicionário Aurélio não me deu a significação
da palavra "frêmito" porque eu não pedi,
já o teu olhar me deu tudo.

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Quero

Quero apenas ser
sem ter de convencer ninguém
de que me querer é bom.
Quero a liberdade das coisas simples
e a significação mais primária
em que flor é flor
e sorriso é sorriso
e tudo o mais é embuste.
Quero distância dos jogos vazios,
das poses e das dissimulações.
Quero a alegria gratuita,
o contentamento sincero
e a serenidade dos sábios.
Quero o medo transformado em coragem
e a dissolução da tristeza em luz.
Quero os domingos de bicicleta.
Quero te querer hoje
e talvez nem te querer amanhã
e a possibilidade de te querer sempre.
Quero o toque sutil da palma,
o beijo demorado,
a conversa sem palavras.
Quero a leveza do vôo
e o movimento do mar.
Quero a vida que é hoje
e só hoje.

segunda-feira, 7 de julho de 2008

"O senhor sabe o que o silêncio é? É a gente mesmo, demais."

Grande Sertão: Veredas

terça-feira, 1 de julho de 2008

Brilho eterno

Ontem revi esse filme simplesmente maravilhoso: Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças. Faz pensar que, às vezes, é preciso esquecer para poder lembrar... (ou será o contrário?)

segunda-feira, 30 de junho de 2008

Mais Grande Sertão

"Confiança - o senhor sabe - não se tira das coisas feitas ou perfeitas: ela rodeia é o quente da pessoa."

"Como não ter Deus?! Com Deus existindo, tudo dá esperança: sempre um milagre possível, o mundo se resolve. Mas, se não tem Deus, há-de a gente perdidos no vai-vem, e a vida é burra. É o aberto perigo das grandes e pequenas horas, não se podendo facilitar - é todos contra os acasos. Tendo Deus, é menos grave se descuidar um pouquinho, pois no fim dá certo."

"Deus existe mesmo quando não há."

"O inferno é um sem-fim que nem não se pode ver. Mas a gente quer Céu é porque quer um fim: mas um fim com depois dele a gente tudo vendo."

"Despedir dá febre."

"Viver é um descuido prosseguido."

"Tem horas em que senso que a gente carecia, de repente, de acordar de alguma espécie de encanto. As pessoas, as coisas, não são de verdade!"

"Muita coisa importante falta nome."

"Razão por que fiz? Sei ou não sei. De ás, eu pensava claro, acho que de bês não pensei não."

"Os olhos nossos donos de nós dois."

"Comigo, as coisas não têm hoje e ant'ontem amanhã: é sempre."

"E, o que mais foi, foi um sorriso. Isso chegasse? Às vezes chega, às vezes. Artes que morte e amor têm paragens demarcadas."

"Mas a natureza da gente é muito segundas-e-sábados. Tem dia e tem noite, versáveis, em amizade de amor."

"Acho que o espírito da gente é cavalo que escolhe estrada: quando ruma para tristeza e morte, vai não vendo o que é bonito e bom."

"Do ódio, sendo. Acho que, às vezes, é até com ajuda do ódio que se tem a uma pessoa que o amor tido a outra aumenta mais forte. Coração cresce de todo lado. Coração vige feito riacho colominhando por entre serras e varjas, matas e campinas. Coração mistura amores."

"Se amor? Era latifúndio."

"Medo, não, mas perdi a vontade de ter coragem."

"A vida é ingrata no macio de si, mas transtraz a esperança mesmo do meio do fel do desespero. Ao que, este mundo é muito misturado..."

"Hoje, eu penso, o senhor sabe: aquilo que o sentir da gente volteia, mas em certos modos, rodando em si mas por regras. O prazer muito vira medo, o medo vai vira ódio, o ódio vira esses desesperos? - desespero é bom que vire a maior tristeza, constante então para o um amor - quanta saudade... - ; aí, outra esperança já vem... Mas, a brasinha de tudo, é só o mesmo carvão só."

"A vida não dá demora em nada."

"Fui aprendendo a achar graça no dessossego. Aprendi a medir a noite em meus dedos. Achei que em qualquer hora eu podia ter coragem."

"Quando a gente dorme, vira de tudo: vira pedras, vira flor."

"Para ódio e amor que dói, amanhã não é consolo."

"Mas liberdade - aposto - ainda é só alegria de um pobre caminhozinho, no dentro do ferro de grandes prisões."

"Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanço na loucura."

"Todo caminho da gente é resvaloso. Mas, também, cair não prejudica demais - a gente levanta, a gente sobe, a gente volta!"

domingo, 29 de junho de 2008

"O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem. O que Deus quer é ver a gente aprendendo a ser capaz de ficar alegre a mais, no meio da alegria, e inda mais alegre ainda no meio da tristeza! Só assim, de repente, na horinha em que se quer, de propósito - por coragem."

Grande Sertão: Veredas

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Lições - Uma história de amor... com final feliz

O final feliz da história é que o amor morre no final! Esta é a conclusão da palestra que o Flávio Gikovate deu, ontem, no auditório da CPFL, para a gravação do programa Café Filosófico.
Pegue tudo o que pensa saber sobre o amor e jogue fora. Bom, quase tudo. Uma lição aqui, uma nota ali, a gente vai aprendendo. Mas será possível aprender o amor?
Vamos aos fatos...
"O amor é o sentimento diante da presença de uma pessoa que causa paz e aconchego."
Tudo começa antes de existir... No útero da mãe, tudo é pleno e perfeito e nós vivemos o mais puro estado de harmonia original. Então, a primeira grande tragédia da existência: o nascimento. A entrada no mundo rompe com toda aquela perfeição a que estávamos acostumados e toda a vida será, a partir daí, uma busca incessante por aquele sentimento de harmonia e completude. Lembrando a imagem da vida no paraíso e a expulsão dele descrita pelo Gênesis, a existência, uma vez iniciada, encarna a absoluta impossibilidade de voltar para trás. Irreversível. Ânsia de absoluto.
Diante deste sentimento de incompletude, o amor parece figurar um bom substituto. Assim, transferimos para a busca amorosa o mesmo significado e expectativas daquela necessidade inicial. Poderia até funcionar bem, se não fosse outra necessidade tão forte quanto aquela: a garantia de nossa individualidade. O perder-se no outro significaria a abolição do próprio ser? Talvez. Sendo melhor não arriscar (afinal, a individualidade é algo que levamos a vida a construir), o negócio é não se doar por inteiro.
Além da individualidade, outro empecilho atrapalha o amor: o medo da felicidade. A lembrança daquela primeira grande separação traumática, em que se passou de um estado feliz ao caos, criou uma espécie de reflexo condicionado, que faz com que esperemos pela tristeza mesmo quando somos felizes. A felicidade traz consigo a sensação de iminência da tragédia.
Mais uma vez, para amar é preciso ter coragem. Mas, além disso, é preciso se desfazer um pouco da idéia de amor como fusão total de dois seres, que, ao menos nessa dimensão da existência, não são completamente fundíveis. O negócio é aprender a lidar com o vazio inicial, que, afinal de contas e não importa com quem estivermos vai nos acompanhar por toda a vida, e reconhecê-lo como parte de nós enquanto indivíduos, sem a necessidade desesperada de um tapa-buraco que lhe dê jeito.
É esse o amor que tem que morrer para que o amor possa ser.
Muito mais coisas foram ditas e a graça dos modos de dizer do Gikovate e da identificação com situações descritas também se perdem aqui. Uma palestra sobre o amor com um psicoterapeuta teve suas surpresas e suas iluminações.
De novo, eu pergunto: é possível aprender o amor? Não sei, mas podemos tentar.

quarta-feira, 25 de junho de 2008

"Diz-que-direi ao senhor o que nem tanto é sabido: sempre que se começa a ter amor a alguém, no ramerrão, o amor pega e cresce é porque, de certo jeito, a gente quer que isso seja, e vai, na idéia, querendo e ajudando; mas, quando é destino dado, maior que o miúdo, a gente ama inteiriço fatal, carecendo de querer, e é um só facear com as surpresas. Amor desse, cresce primeiro; brota é depois."

Grande Sertão: Veredas

terça-feira, 24 de junho de 2008

Tudo é Grande Sertão

Finalmente comecei a ler Grande Sertão: Veredas, do Guimarães Rosa! Já no início dá pra sentir porque esse é o livro favorito de tanta gente e porque é considerado um dos principais romances da literatura brasileira e mundial.
Também dá pra entender esses versos da Adélia Prado:

Porque tudo que invento já foi dito
nos dois livros que eu li:
as escrituras de Deus,
as escrituras de João.
Tudo é Bíblias. Tudo é Grande Sertão.

Algumas passagens do livro (pelo jeito, os próximos posts serão só citações...):

"Enfim, cada um o que quer aprova, o senhor sabe: pão ou pães, é questão de opiniães..."

"De primeiro, eu fazia e mexia, e pensar não pensava. Não possuía os prazos. Vivi puxando difícil de difícel, peixe vivo no moquém: quem mói no asp'ro, não fantaseia. Mas, agora, feita a folga que me vem, e sem pequenos dessossegos, estou de range rede. E me inventei nesse gosto de especular idéia."

"Viver é muito perigoso... Querer o bem com demais força, de incerto jeito, pode já estar sendo, se querendo o mal, por principiar."

"Amor vem de amor."

"O senhor sabe? Já tenteou sofrido o ar que é saudade? Diz-se que tem saudade de idéia e saudade de coração..."

"Mas sucedia uma duvidação, ranço de desgosto: eu versava aquilo em redondos e quadrados. Só que meu coração podia mais. O corpo não traslada, mas muito sabe, adivinha se não entende. Perto de muita água, tudo é feliz."

"Ah, eu estou vivido, repassado. Eu me lembro das coisas, antes delas acontecerem..."

"Assaz o senhor sabe: a gente quer passar um rio a nado, e passa; mas vai dar na outra banda é num ponto muito mais embaixo, bem diverso do em que primeiro se pensou. Viver nem não é muito perigoso?"

"Mas ciúme é mais custoso de se sopitar do que o amor. Coração da gente - o escuro, escuros."

"Moço: saudade é uma espécie de velhice."

"Coração - isto é, esses pormenores todos. Foi um esclaro. O amor, já de si, é algum arrependimento."

"A lembrança dela me fantasiou, fraseou - só face dum momento - feito grandeza cantável, feito entre madrugar e manhecer."
*
Ô delícia! Depois tem mais!

segunda-feira, 23 de junho de 2008

é como eu acabei de ouvir de um funk vizinho (!),
"a vida é louca, mas eu tô de passagem"...

domingo, 22 de junho de 2008

manhã de domingo

minha mãe se divertindo na cozinha
com pastéis de forno e música de gil
é dessas coisas de que já sinto falta
no presente de amanhã.

sábado, 21 de junho de 2008

Empiria

A gente anda na chuva pra aprender
que molhar não dói.

Pequena crônica de uma partida de futebol

O campo era a cozinha da avó da Rafa. Os times, embora recentemente definidos, já tinham muita personalidade. De um lado, o santista Gustavo, 7 anos, o jogador profissional, entende tudo de bola e sabe tudo de futebol. Tem aquele tipo de risada que faz a gente querer rir só de ouvir. Do outro, Lucas, 6 anos, o futuro já responsável tio. Amante das artes marciais e lutas em geral, quer ser lutador de boxe. Ou pedreiro, quem sabe. Jogador de futebol? Não, ele joga capoeira. Não sabe pedalar, mas ginga como ninguém.
Primeira rodada, o jogo estava equilibrado. O Gustavo cismava em torcer para o Lucas... "Não, foi gol, eu não defendi". O Lucas parecia começar a gostar desse negócio de chutar bola...
O jogo foi ficando interessante, e a criança beirando a casa dos 30 resolveu participar. Por motivos geográficos, entrou no time do Gustavo que acabou ganhando. Como todo herói uma hora também chora, a derrota levou o Lucas às lágrimas. "Mas você tá no time dele". "Pois agora eu tô no seu. Vamos lá que a gente vai ganhar!"
O jogo esquentou. As gargalhadas e os gritos de gol eram incontroláveis. E o time de amadores vencia o profissional. 10 x 8... 12 x 10... 14 x 12... 14 x 13... 14 x 14. Ops! A vitória estava por um fio. Ganhava quem alcançasse o 15º gol primeiro. "Lucas, vamos combinar uma coisa? Mesmo se a gente perder, a gente comemora. Combinado?", "Combinado!". E eis que o provável, possível, e até certo ponto esperado, aconteceu: o Gustavo marcou, ganhou e encerrou a partida. Muita comemoração do outro lado. "Não vale! Quem ganhou fui eu!"
Na verdade, quem ganhou foi a criança beirando os 30. Dois garotos, uma cozinha e uma bola de futebol podem fazer a gente ganhar o dia e lembrar o que realmente é importante na vida.
A partida durou pouco tempo, mas foi o suficiente para durar para sempre...

p.s.: a avó da Rafa, o Henrique, o café do pai da Rafa, o bolo de chocolate da Rafa e a Rafa também fizeram minha alegria, mas são assunto pra outra crônica.

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Ideal de carne e osso

Quando a realidade encontra um ideal, o resultado pode ser a frustração ou a alegria de uma realização.
Encontrar o jornalista e escritor Zuenir Ventura na última terça-feira foi encarar um sonho encarnado. Ele veio a Santos pelo projeto Conversatório, parceria do Sesc e da livraria Realejo, para lançar seu novo livro "1968 - O que fizemos de nós". O livro faz um balanço do que permaneceu como herança daquele ano que transformou a sociedade brasileira, tanto em termos políticos quanto comportamentais. Era o ano dos movimentos estudantis, da Passeata dos Cem Mil, do AI-5 - assuntos já tratados em "1968 - O ano que não terminou", publicado há vinte anos.
Melhor que ler este livro - um dos meus favoritos - foi ouvir o próprio autor falar da desilusão de uma geração que lutava por ideais e queria transformar o mundo e, mesmo assim, manter uma postura otimista e ainda usar a palavra "esperança", tão gasta e fora de moda ultimamente...
Também foi delicioso ouvir outras histórias, como a de sua morte temporária noticiada pela Internet. A antiga proprietária de seu telefone, cansada de receber ligações à sua procura, resolveu declará-lo morto. E o repórter, ingenuamente, publicou a notícia. Muito rebuliço na imprensa e três horas depois, Zuenir ressuscitou, deixando essa história divertida, mais divertida ainda contada por ele em pessoa, vivinho da silva.
Escritor brilhante, jornalista daqueles que nos fazem continuar acreditando na profissão, Zuenir Ventura é um grande contador de histórias. Em pessoa, um homem cativante e inspirador. Tangível, de carne e osso.
Sim, o ideal permanece vivo.

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Dia dos Namorados

Sei que esse é mais um dia comercial no calendário capitalista do ano. Mas se é para celebrar o amor, why not? Se a gente esquecer as "promoções", os inúmeros anúncios e o que já se tornou o dever de comprar alguma coisa para o ser amado, este pode ser um dia realmente significativo. O presente deveria ser apenas um símbolo para lembrar a outra pessoa como ela é importante para nós, não uma obrigação que lota shoppings com namorados indiferentes à procura do "produto perfeito". Se a idéia é expressar o amor, não precisa ser com a blusa cara ou o último modelo de celular. Cada dia, os presentes se tornam mais impessoais, e o amor, onde fica? Presentes significativos podem ser os mais simples. Ainda lembro quando a gente fazia na escola presentes para os dias das mães com palitos de sorvete e elas realmente se emocionavam com aquilo. Não estou propondo novas versões de porta-jóias com palitos, mas criatividade e carinho sincero podem ser encontrados em diferentes formas e de diferentes maneiras. Gravar um cd com as músicas favoritas, copiar à mão um poema lindo de morrer, fazer um buquê com flores de jardim... Acho que ainda sou do tempo em que ser romântico era ser espontâneo e verdadeiro.
Bom, mas se as pessoas realmente se amam (e é isso o que no fundo importa), vamos deixá-las felizes com suas compras e despesas no cartão de crédito. É o romantismo à moda capitalista.
E se é para falar de amor sincero, lembrei de um texto maravilhoso do Artur da Távola. O senador, falecido este ano, apresentava o programa "Quem tem medo da música clássica?", na TV Senado. Era sua a frase "Música é vida interior e quem tem vida interior, jamais padecerá de solidão". O texto "Ter ou não ter namorado" parece sintetizar uma coisa simples e, no entanto, tão difícil de se concretizar quando se fala em amor: a coragem verdadeira de amar. Não o amor banho-maria, o pão amanhecido, o café requentado do dia anterior. Mas o amor que nos faz sentir realmente vivos e eternos.
Para os apaixonados (com namorado ou não), aqui está o texto:

Ter ou não Ter Namorado(Artur da Távola)

Quem não tem namorado é alguém que tirou férias remuneradas de si mesmo. Namorado é a mais difícil das conquistas. Difícil porque namorado de verdade é muito raro. Necessita de adivinhação, de pele, saliva, lágrima, nuvem, quindim, brisa ou filosofia. Paquera, gabira, flerte, caso, transa, envolvimento, até paixão é fácil. Mas namorado mesmo é muito difícil. Namorado não precisa ser o mais bonito, mas ser aquele a quem se quer proteger e quando se chega ao lado dele a gente treme, sua frio, e quase desmaia pedindo proteção. A proteção dele não precisa ser parruda ou bandoleira: basta um olhar de compreensão ou mesmo de aflição.
Quem não tem namorado não é quem não tem amor: É quem não sabe o gosto de namorar. Se você tem três pretendentes, dois paqueras, um envolvimento, dois amantes e um esposo; mesmo assim pode não ter nenhum namorado. Não tem namorado quem não sabe o gosto da chuva, cinema, sessão das duas, medo do pai, sanduíche da padaria ou drible no trabalho. Não tem namorado quem transa sem carinho, quem se acaricia sem vontade de virar lagartixa e quem ama sem alegria. Não tem namorado quem faz pactos de amor apenas com a infelicidade. É fazer pactos com a felicidade, ainda que rápida, escondida, fugidia ou impossível de curar. Não tem namorado quem não sabe dar o valor de mãos dadas, de carinho escondido na hora que passa o filme, da flor catada no muro e entregue de repente, de poesia de Fernando Pessoa, Vinícius de Moraes ou Chico Buarque, lida bem devagar, de gargalhada quando fala junto ou descobre a meia rasgada, de ânsia enorme de viajar junto para a Escócia, ou mesmo de metrô, bonde, nuvem, cavalo, tapete mágico ou foguete interplanetário. Não tem namorado quem não gosta de dormir, fazer sesta abraçado, fazer compra junto. Não tem namorado quem não gosta de falar do próprio amor nem de ficar horas e horas olhando o mistério do outro dentro dos olhos dele; abobalhados de alegria pela lucidez do amor. Não tem namorado quem não redescobre a criança e a do amado e vai com ela a parques, fliperamas, beira d'água, show do Milton Nascimento, bosques enluarados, ruas de sonhos ou musical da Metro. Não tem namorado quem não tem música secreta com ele, quem não dedica livros, quem não recorta artigos, quem não se chateia com o fato de seu bem ser paquerado. Não tem namorado quem ama sem gostar; quem gosta sem curtir; quem curte sem aprofundar. Não tem namorado quem nunca sentiu o gosto de ser lembrado de repente no fim de semana, na madrugada ou meio-dia do dia de sol em plena praia cheia de rivais. Não tem namorado quem ama sem se dedicar, quem namora sem brincar, quem vive cheio de obrigações; quem faz sexo sem esperar o outro ir junto com ele. Não tem namorado que confunde solidão com ficar sozinho e em paz. Não tem namorado quem não fala sozinho, não ri de si mesmo e quem tem medo de ser afetivo.
Se você não tem namorado é porque não descobriu que o amor é alegre e você vive pesando 200Kg de grilos e de medos. Ponha a saia mais leve, aquela de chita, e passeie de mãos dadas com o ar. Enfeite-se com margaridas e ternuras e escove a alma com leves fricções de esperança. De alma escovada e coração estouvado, saia do quintal de si mesma e descubra o próprio jardim. Acorde com gosto de caqui e sorria lírios para quem passe debaixo de sua janela. Ponha intenção de queimar-se em seus olhos e beba licor de contos de fada. Ande como se o chão estivesse repleto de sons de flauta e do céu descesse uma névoa de borboletas, cada qual trazendo uma pérola falante a dizer frases sutis e palavras de galanteio. Se você não tem namorado é porque não enlouqueceu aquele pouquinho necessário para fazer a vida parar e, de repente, parecer que faz sentido.
"Enlou-cresça"

quarta-feira, 11 de junho de 2008

"Tô estudando para saber ignorar."
(Tom Zé)

terça-feira, 10 de junho de 2008

Os casos da vara

“O caso da vara” é um conto de Machado de Assis que narra a fuga do seminário de Damião e seu pedido de auxílio à Sinhá Rita, amiga de seu padrinho. Todo o episódio se passa em um dia na sala de Sinhá, que se dedica a ensinar renda e bordado a criadas negras. Assegurada a intercessão da mulher junto ao padrinho, dá-se um momento de descontração e Damião põe-se a contar anedotas que fazem rir à pequena Lucrécia, criando simpatia e promessa íntima de apadrinhamento por parte do moço. Ao final do dia, não tendo terminado seu trabalho, a menina é duramente castigada por Sinhá, que pede a Damião que lhe passe a vara. Dividido entre a promessa e o dever da gratidão, Damião entrega a vara.
O filme “Quanto vale ou é por quilo?”, do diretor Sérgio Bianchi, é inspirado em “Pai contra mãe”, outro conto de Machado de Assis, mas bem poderia ter como mote “O caso da vara”. Mostrando as complexas relações que envolvem o assistencialismo no Brasil, o filme é uma história sobre imagem e cooptação – imagens que se criam e devem ser mantidas ao custo de ações cooptadas em uma intricada rede de relacionamentos. É o famoso “toma lá, dá cá” ou “uma mão lava a outra”. No constante jogo de interesses, alguém sempre acaba entregando a vara. Afinal, quanto vale uma “boa” ação?
O tema da responsabilidade social como embuste para geração de lucro é central. Empresas e organizações não-governamentais usam o disfarce do assistencialismo para ganhar dinheiro. Campanhas de auxílio a crianças carentes, doação de roupas e alimentos a moradores de rua, projetos implantados em comunidades desfavorecidas – todas elas ações que entram na pauta do politicamente correto e socialmente aplaudido, escondendo, porém, falcatruas e interesses bem menos nobres: superfaturamento por meio de doações, dedução de imposto de renda, lavagem de dinheiro, corrupção. Nesta grande encenação, o que vale é a imagem. O jogo das representações é sustentado por bem elaboradas campanhas de marketing que divulgam as boas ações e intenções das empresas e tentam convencer com imagens como a foto da madame socialmente engajada segurando a mão de crianças pobres. E sorrindo. Sempre. O sorriso – vale dizer, a imagem – é quem (res)guarda o simulacro da responsabilidade, generosidade e comprometimento social. No processo de legitimação da imagem, estes valores são apenas elementos que compõem o discurso do bem agir, tomado de empréstimo em lugar da ação propriamente dita. Mostrar que se faz é mais importante que fazer e, neste sentido, os meios de comunicação são usados e se deixam usar como veículos de cooptação, em que a aparência de realidade acaba tornando-se real e sendo aceita como tal. Dançando conforme a música do sistema, a informação desobriga-se de seu compromisso com a verdade. Mais uma vez, as varas são entregues.
Outro tema fortemente presente no filme é a questão do negro – objeto e alvo principal das ações assistencialistas – e os resquícios de escravidão em uma sociedade que se diz livre. Crônicas retiradas dos autos do Arquivo Nacional do Rio de Janeiro são atualizadas. Relações escravocratas – reflexos de relações econômicas e sociais complexas – são reencarnadas em situações contemporâneas, mostrando que a máscara da liberdade é mais uma das imagens vendidas pela retórica da democracia. O recurso narrativo empregado é a transposição, do século XIX para a atualidade, das mesmas situações históricas, fazendo uso dos mesmos atores. O resultado é eficaz. E constrangedor. Casos como o do capitão-do-mato capturando a escrava fugida que acaba por abortar o filho, transforma-se na história de Candinho, recém-casado, à espera de um filho e desempregado, que se torna matador de aluguel para ganhar dinheiro. O capitão-do-mato moderno termina matando a única pessoa disposta a denunciar os desmandos das empresas “socialmente responsáveis” e tentar mudar alguma coisa, rompendo com o sistema de cooptação. Esta é a história de “Pai contra mãe”, e, nesta luta, a mãe que se recusa a entregar a vara não sai vitoriosa.

segunda-feira, 9 de junho de 2008

"O presente é a única coisa que não tem fim."
(Erwin Schrödinger)

sábado, 17 de maio de 2008

Algumas coisas valem mais que palavras...

O Beijo, Auguste Rodin



O Beijo, Gustav Klimt

sábado, 3 de maio de 2008

Amor e seu tempo

Amor é privilégio de maduros
estendidos na mais estreita cama,
que se torna a mais larga e mais relvosa,
roçando, em cada poro, o céu do corpo.

É isto, amor: o ganho não previsto,
o prêmio subterrâneo e coruscante,
leitura de relâmpago cifrado,
que, decifrado, nada mais existe

valendo a pena e o preço do terrestre,
salvo o minuto de ouro no relógio
minúsculo, vibrando no crepúsculo.

Amor é o que se aprende no limite,
depois de se arquivar toda a ciência
herdada, ouvida. Amor começa tarde.

(Carlos Drummond de Andrade)

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Janela

Não estava lá,
não sabia.
Mas, ao longe,
o que via eram
dois mundos e
uma distância.

domingo, 20 de abril de 2008

Haikai

fim de tarde
depois do trovão
o silêncio é maior

Alice Ruiz

sábado, 19 de abril de 2008

Tapa na cara

"Velho burocrata, meu companheiro aqui presente, ninguém nunca fez com que te evadisses, e não és responsável por isso. Construíste tua paz tapando com cimento, como fazem as térmitas, todas as saídas para a luz. Ficaste enroscado em tua segurança burguesa, em tuas rotinas, nos ritos sufocantes de tua vida provinciana; ergueste essa humilde proteção contra os ventos, e as marés, e as estrelas. Não queres te inquietar com os grandes problemas e fizeste um grande esforço para esquecer a tua condição de homem. Não és o habitante de um planeta errante e não lanças perguntas sem solução: és um pequeno-burguês de Toulouse. Ninguém te sacudiu pelos ombros quando ainda era tempo. Agora a argila de que és feito já secou, e endureceu, e nada mais poderá despertar em ti o músico adormecido, ou o poeta, ou o astrônomo que talvez te habitassem."

Terra dos Homens, Antoine de Saint-Exupéry

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Felicidade realista

"Ser feliz de uma forma realista é fazer o possível e aceitar o improvável. Fazer exercícios sem almejar passarelas, trabalhar sem almejar o estrelato, amar sem almejar o eterno. Olhe para o relógio: hora de acordar. "

(Martha Medeiros)

terça-feira, 8 de abril de 2008

Acordar

Eu adoro todas as coisas
E o meu coração é um albergue aberto toda a noite.
Tenho pela vida um interesse ávido
Que busca compreendê-la sentindo-a muito.
Amo tudo, animo tudo, empresto humanidade a tudo,
Aos homens e às pedras, às almas e às máquinas,
Para aumentar com isso a minha personalidade.

Pertenço a tudo para pertencer cada vez mais a mim próprio
E a minha ambição era trazer o universo ao colo
Como uma criança a quem a ama beija.
Eu amo todas as coisas, umas mais do que as outras,
Não nenhuma mais do que outra, mas sempre mais as que estou vendo
Do que as que vi ou verei.
Nada para mim é tão belo como o movimento e as sensações.
A vida é uma grande feira e tudo são barracas e saltimbancos.
Penso nisto, enterneço-me mas não sossego nunca.

Dá-me lírios, lírios
E rosas também.
Dá-me rosas, rosas,
E lírios também,
Crisântemos, dálias,
Violetas, e os girassóis
Acima de todas as flores...

Trecho do poema "Acordar", de Álvaro de Campos (heterônimo de Fernando Pessoa)

sábado, 5 de abril de 2008

Redenção pela palavra

A gente se distrai e, quando vê, está levando a vida que não queria. Mas, assim como a distração, a redenção também vem. Pode ser uma palavra, um encontro, qualquer coisa que revele a epifania da existência e recoloque nossa alma no caminho. No meu caso, foram textos. Já não sabia por que estava fazendo o que estava fazendo, mas foi ler alguns textos e eu lembrei exatamente o que queria fazer. Os textos são do jornalista e professor Marcus Vinícius Batista. São inspiradores por mostrar o poder de articulação de idéias e a capacidade de expressá-las. É bom ter modelos.
Lembrei de uma certeza que me veio quando eu li A idade do serrote, do Murilo Mendes. Foi a de que o pecado maior da vida é ser menos do que a gente pode ser. Essa sensação de querer ser melhor do que se é... talvez seja isso o que inspirem pessoas e textos assim.
Será que uma pessoa, ao escrever, tem consciência plena do poder que exerce sobre outras pessoas? Acredito não ser possível ter noção total do alcance de algumas palavras, e, talvez, aquele que lê vê algo muito maior do que quem escreve. Mas o caso é que, para alguém apaixonado por palavras e idéias, um texto bem escrito não apenas seduz e instiga por seu conteúdo e composição, mas também fortalece algumas convicções. No meu caso, foi a de uma paixão antiga e a razão pela qual decidi me tornar jornalista.

quarta-feira, 2 de abril de 2008

Música Noturna

O poder da música de nos resgatar e transportar para outras realidades já foi proclamado em prosa e verso de muita e pouca qualidade. Músicos de rua também já renderam belas crônicas. Ontem, no ônibus das onze, fui agraciada com estes dois fenômenos.
O tocador de violão cantava e tocava como se não estivesse ali. As pessoas não viam, nem ouviam, como se ele não estivesse ali. Mas a mim, ele fez o favor de emocionar com a despretensão artística e a surpresa de encontrar alegria em um lugar inusitado.
As músicas não eram lá grande coisa, mas me fizeram sorrir. Pela graça da situação. A primeira foi Borbulhas de Amor (sim, sucesso, tempos atrás, de Fagner... "tenho um coração, dividido entre a esperança e a razão. Tenho um coração, bem melhor que não tivera..."). Sem perceber, estava cantarolando junto (em pensamento, claro) e lembrando emoções antigas... E ria sozinha. Depois veio Alma Gêmea, sucesso de Peninha. Sim, eu também fiz argh acompanhado de careta ao princípio, mas lá estava eu de novo cantarolando e relembrando... A última canção salvou um pouquinho o repertório: Maluco Beleza, de Raul Seixas. A esta altura do campeonato eu já estava em outros lugares, outras épocas, e ouvir "e este caminho que eu mesmo escolhi, é tão fácil seguir por não ter aonde ir..." foi a cereja do bolo.
Voltei para casa em estado de graça.
Abençoada seja a música (mesmo as ruins. Bom, algumas ruins...) e abençoado o seresteiro ignorado do ônibus das onze...

segunda-feira, 31 de março de 2008

Quando Nietzsche chorou

Ontem acabei de ler Quando Nietzsche chorou. Livro fascinante que mistura psicanálise com filosofia. E personagens reais! Nietzsche, Breuer, Freud, Lou Salomé... Que mais se poderia pedir?!
Logo, logo, sai a resenha. Por enquanto, coloco aqui alguns aforismos do personagem Nietzsche:

“Nossa responsabilidade para com a vida é criar o superior, não reproduzir o inferior.”
“É mais fácil, muito mais fácil, obedecer a outro do que dirigir a si mesmo.”
“É preciso ter caos e frenesi dentro de si para dar à luz uma estrela dançante.”
“(...) os amantes da verdade não temem águas tempestuosas ou turvas. O que tememos são águas rasas.”
“Uma perspectiva cósmica sempre atenua a tragédia. Se subirmos bastante, alcançaremos uma altura da qual a tragédia deixará de parecer trágica.”
“Viver de maneira segura é perigoso.”
“Torna-te quem tu és.”

domingo, 30 de março de 2008

Confissão

Às vezes, na parte de mim em que já não sou,
eu sinto você.

sexta-feira, 28 de março de 2008

Novidade

Mais uma disciplina, mais uma tarefa, mais um blog!
Este caderno que se pretendia filosófico, sempre namorou um tantinho com a poesia e a literatura. A nova cria é puramente literária (ao menos por enquanto...). É um blog dedicado a resenhas.
Aos interessados:
http://www.apontamentosliterarios.blogspot.com/

quarta-feira, 19 de março de 2008

O silêncio

Rubem Alves

Tagarelas alegres são emissários do demônio - com suas palavras tolas eles nos tiram das águas profundas

O vento frio, aos golpes, anunciava que o inverno estava se aproximando. Nuvens cinzentas cobriam os Alpes, como navios que navegavam velozes, levadas pelo vento. Era um velho mosteiro de freiras que praticavam o silêncio, costume abençoado que libertava as pessoas da obrigação de conversar com os vizinhos às mesas de refeições. Não ser obrigado a conversar é uma felicidade.
É raro que as pessoas entendam isso. Eu iria dar uma fala, faltava ainda meia hora e procurei um lugar escondido onde pudesse ficar quieto com os meus pensamentos. Achei-o sob uma escada, quase invisível e ali me escondi. Foi então que uma pessoa delicada me viu ali sozinho e bondosamente pensou: "O professor Rubem Alves está abandonado..." Dois minutos depois meu refúgio estava cheio de pessoas falantes que destruíram a minha solidão... Os tagarelas alegres são emissários do demônio porque com suas palavras tolas eles nos tiram das águas profundas em que nos encontrávamos. Deus é o Grande Mar. A alma é um peixe. Os poetas sabem disso.
T.S. Eliot escreveu: "Nosso olhar é submarino. Olhamos para cima e vemos a luz que se fratura através das águas inquietas..."Hóspede naquele mosteiro, eu deveria obedecer aos horários e participar dos eventos. Um deles me horrorizou: participar das celebrações litúrgicas às 6h, às 12h e às 18h.
O santuário era um velho celeiro de madeira octogonal, muito grande e escuro, sem janelas. Os arquitetos, para pôr luz nas sombras, abriram buracos nas paredes, cobrindo-os com vidros coloridos. A luz do sol, entrando pelos orifícios e atravessando os vidros coloridos, faziam desenhos no espaço vazio, desenhos que se deslocavam à medida em que o sol caminhava pelo céu.Os bancos, poucos, seguiam três lados do octógono; a mesa, iluminada com velas, tinha no seu centro um ícone de Jesus ao estilo bizantino. Cheguei no horário. Poucas pessoas. Os mosteiros não são lugares que atraiam turistas.
Fiquei à espera do início da liturgia, que deveria iniciar-se suiçamente ao repicar dos sinos às 6h da manhã. Os sinos repicaram mas nada aconteceu, nenhuma reza, nenhum hino, nenhuma leitura bíblica.
Pus-me a examinar o espaço e as luzes que se entrecruzavam. O exercício de simplesmente ver tem o efeito de fazer parar o pensamento. Alberto Caeiro já dizia que "pensar é estar doente dos olhos..."
Os pensamentos, produtos internos da cabeça, são perturbações que distorcem a pureza da visão.
Aí, ao misticismo do ver seguiu-se o misticismo do ouvir. O vento descia furioso das montanhas, em golpes, lufadas que torciam a estrutura de madeira, provocando aqueles ruídos típicos de navios à vela batidos pelo vento. Ao lado do santuário havia uma plantação de macieiras nuas, o vento havia arrancado suas folhas todas, somente seus galhos pelados ficaram. Quando o vento sacudia a galharia era como se houvesse um mar enraivecido quebrando ondas. Aí os sons e as cores começaram a invocar poemas ancestrais.
"E a terra era um abismo sem forma e o vento de Deus soprava violentamente sobre a superfície das águas... E disse Deus: "Haja luz..." E aí meus pensamentos foram possuídos pela poesia.
Mas e a liturgia? Já eram 6h20. Percebi então que a liturgia havia começado às 6h, quando os sinos tocaram... Só silêncio...

***
Publicado na Folha de São Paulo, em 18/03/08:
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff1803200803.htm

quinta-feira, 6 de março de 2008

Sem café e sem chocolate!

Existem coisas sem as quais a gente imagina que não poderia sobreviver. A maioria dessas coisas que me são indispensáveis está relacionada a comida, por motivos que não consigo compreender... Vivo plenamente a asserção de que comer é uma das melhores coisas da vida.
Em geral, associo visitas a lugares às delícias que experimento, o que torna esses lugares ainda mais inesquecíveis. Cuca de uva e cueca virada de Gramado, croquete de ovo, churros e chocolate quente de Salamanca, tortinha de framboesa de Paris, barra de chocolate maravilhoso a 80 centavos do mercado Champion, café da manhã num boteco à beira da estrada no Paraná, o croissant de chocolate do café da História na usp. Coisas que, depois de provadas, me levam a pergutar: e agora? Como poderei viver sem isso? À felicidade do encontro junta-se a tristeza da separação e a constatação de uma ausência prolongada. Ainda sofro enormemente a distância de minhas últimas descobertas, todas em Florianópolis. A empanada integral do barzinho da Armação, o sorvete de ferrero rocher (sim, isso existe!), o cavaco do Angeloni (lembranças de minha avó...), a torta brownie de Santo Antônio de Lisboa.
Embora cada coisa seja única e insubstituível, a gente sempre pode descobrir novas alegrias ou celebrar as antigas. Assim, tento compensar as ausências com o que se encontra perto: o kibe do Empório Beirute, os churros da divisa, os pastéis do Carioca e do Toninho, o café Caracol, a cocada do posto do canal 6, a torta de banana do Sevilla...
Atualmente, circunstâncias do meu duodeno estão restringindo meus pequenos prazeres. A pior das restrições é a proibição de café e chocolate. Como assim? Sem café e sem chocolate?!? Mas sem café eu não vivo, seu doutor! Tudo bem, mas só com leite! Ele não sabe a falta que me faz... No entanto, apesar da falta, começo a perceber que as coisas que a gente tanto preza podem não ser tão indispensáveis quanto a gente imagina. E isso, até certo ponto, é triste. Perceber que a gente não precisa de algo do qual até gostava de depender. É parte do longo e contínuo processo de dizer adeus. Dramática, não? Mas é que eu estou falando de café e chocolate...

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Paciência e humildade

"Tudo está em levar a termo e, depois, dar à luz. Deixar amadurecer inteiramente, no âmago de si, nas trevas do indizível e do inconsciente, do inacessível a seu próprio intelecto, cada impressão e cada germe de sentimento e aguardar com profunda humildade e paciência a hora do parto de uma nova claridade: só isto é viver artisticamente na compreensão e na criação."

Cartas a um jovem poeta, Rainer Maria Rilke

domingo, 17 de fevereiro de 2008

Mais Clarice

Ontem citei Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres. Neste exato momento, é o meu livro favorito. Reli e agora parece fazer muito mais sentido. É a história de Lóri, uma professora primária, apaixonada por Ulisses, professor de filosofia, seu guia e mentor na "aprendizagem". Acostumada a viver através da dor, ela deve aprender a alegria e a ser para poder vivenciar verdadeiramente o amor e a grandiosidade de sua própria existência.
Mas qualquer simplificação ou tentativa de descrição vai diminuir o livro. O melhor é ler.

Aqui vai um trecho:

"Ulisses ouvira de testa franzida. E depois dissera:
- E então você não quis mais nada disso. E parou com a possibilidade de dor, o que nunca se faz impunemente. Apenas parou e nada encontrou além disso. Eu não digo que eu tenha muito, mas tenho ainda a procura intensa e uma esperança violenta. Não esta sua voz baixa e doce. E eu não choro, se for preciso um dia eu grito, Lóri. Estou em plena luta e muito mais perto do que se chama de pobre vitória humana do que você, mas é vitória. Eu já poderia ter você com o meu corpo e minha alma. Esperarei nem que sejam anos que você também tenha corpo-alma para amar. Nós ainda somos moços, podemos perder algum tempo sem perder a vida inteira. Mas olhe para todos ao seu redor e veja o que temos feito de nós e a isso considerado vitória nossa de cada dia. Não temos amado, acima de todas as coisas. Não temos aceito o que não se entende porque não queremos passar por tolos. Temos amontoado coisas e seguranças por não termos um ao outro. Não temos nenhuma alegria que já não tenha sido catalogada. Temos construído cadetrais, e ficado do lado de fora pois as catedrais que nós mesmos construímos, tememos que sejam armadilhas. Não nos temos entregue a nós mesmos, pois isso seria o começo de uma vida larga e nós a tememos. Temos evitado cair de joelhos diante do primeiro de nós que por amor diga: tens medo. Temos organizado associações e clubes sorridentes onde se serve com ou sem soda. Temos procurado nos salvar mas sem usar a palavra salvação para não nos envergonharmos de ser inocentes. Não temos usado a palavra amor para não termos de reconhecer sua contextura de ódio, de amor, de ciúme e de tantos outros contraditórios. Temos mantido em segredo a nossa morte para tornar nossa vida possível. Muitos de nós fazem arte por não saber como é a outra coisa. Temos disfarçado com falso amor a nossa indiferença, sabendo que nossa indiferença é angústia disfarçada. Temos disfarçado com o pequeno medo o grande medo maior e por isso nunca falamos no que realmente importa. Falar no que realmente importa é considerado uma gafe. Não temos adorado por termos a sensata mesquinhez de nos lembrarmos a tempo dos falsos deuses. Não temos sido puros e ingênuos para não rirmos de nós mesmos e para que no fim do dia possamos dizer 'pelo menos não fui tolo' e assim não ficarmos perplexos antes de apagar a luz. Temos sorrido em público do que não sorriríamos quando ficássemos sozinhos. Temos chamado de fraqueza a nossa candura. Temo-nos temido um ao outro, acima de tudo. E a tudo isso consideramos a vitória nossa de cada dia. Mas eu escapei disso, Lóri, escapei com a ferocidade com que se escapa da peste, Lóri, e esperarei até você também estar mais pronta."

Para o Vinícius

Pequenos presentes... Porque ele me fez lembrar de algo tão bonito e disse as palavras perfeitas...

"Tenho que não indagar do mistério para não trair o milagre."

"Seu desespero vinha de que não sabia sequer por onde e pelo que começar. Só sabia que já começara uma coisa nova e nunca mais poderia voltar à sua dimensão antiga. E sabia também que devia começar modestamente, para não se desencorajar. E sabia que devia abandonar para sempre a estrada principal. E entrar pelo seu verdadeiro caminho que eram os atalhos estreitos."

"A tragédia de viver existe sim e nós sentimos. Mas isto não impede que tenhamos uma profunda aproximação da alegria com essa mesma vida."

"(...) de quase tudo o que importa não se sabe falar."

"Um dia será o mundo com sua impersonalidade soberba versus a minha individualidade de pessoa mas seremos um só."

"Mas já existem demais os que estão cansados. Minha alegria é áspera e eficaz, e não se compraz em si mesma, é revolucionária. Todas as pessoas poderiam ter essa alegria mas estão ocupadas demais em ser cordeiros de deuses."

"Lembrou-se de como era antes destes momentos de agora. Ela era antes uma mulher que procurava um modo, uma forma. E agora tinha o que na verdade era tão mais perfeito: era a grande liberdade de não ter modos nem formas."

Trechos do livro Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres, da Clarice Lispector.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Do Amor

Quando o amor vos chamar, segui-o,
Embora seus caminhos sejam agrestes e escarpados
E quando ele vos envolver com suas asas, cedei-lhe,
Embora a espada oculta na sua plumagem possa ferir-vos
E quando ele vos falar, acreditai nele,
Embora sua voz possa despedaçar vossos sonhos
Como o vento devasta o jardim.
Pois, da mesma forma que o amor vos coroa,
Assim ele vos crucifica.
E da mesma forma que contribui para vosso crescimento,
Trabalha para vossa poda.
E da mesma forma que alcança vossa altura
E acaricia vossos ramos mais tenros que se embalam ao sol,
Assim também desce até vossas raízes
E as sacode no seu apego à terra.
Como feixes de trigo, ele vos aperta junto ao seu coração.
Ele vos debulha para expor a vossa nudez.
Ele vos peneira para libertar-vos das palhas.
Ele vos mói até a extrema brancura.
Ele vos amassa até que vos torneis maleáveis.
Então, ele vos leva ao fogo sagrado e vos transforma
No pão místico do banquete divino.
Todas essas coisas, o amor operará em vós
Para que conheçais os segredos de vossos corações
E, com esse conhecimento,
Vos convertais no pão místico do banquete divino.
Todavia, se no vosso temor,
Procurardes somente a paz do amor e o gozo do amor,
Então seria melhor para vós que cobrísseis vossa nudez
E abandonásseis a eira do amor,
Para entrar num mundo sem estações,
Onde rireis, mas não todos os vossos risos,
E chorareis, mas não todas as vossas lágrimas.
O amor nada dá senão de si próprio
E nada recebe senão de si próprio.
O amor não possui, nem se deixa possuir.
Porque o amor basta-se a si mesmo.
Quando um de vós ama, que não diga:“Deus está no meu coração”,
Mas que diga antes:"Eu estou no coração de Deus”.
E não imagineis que possais dirigir o curso do amor,
Pois o amor, se vos achar dignos,
Determinará ele próprio o vosso curso.
O amor não tem outro desejo
Senão o de atingir a sua plenitude.
Se, contudo, amardes e precisardes ter desejos,
Sejam estes os vossos desejos:
De vos diluirdes no amor e serdes como um riacho
Que canta sua melodia para a noite
De conhecerdes a dor de sentir ternura demasiada
De ficardes feridos por vossa própria compreensão do amor
E de sangrardes de boa vontade e com alegria
De acordardes na aurora com o coração alado
E agradecerdes por um novo dia de amor
De descansardes ao meio-dia
E meditardes sobre o êxtase do amor
De voltardes para casa à noite com gratidão
E de adormecerdes com uma prece no coração para o bem-amado
E nos lábios uma canção de bem-aventurança.

Khalil Gibran, O Profeta

Poemas místicos do Oriente. Música de Marcus Viana, voz de Letícia Sabatella:
http://www.youtube.com/watch?v=GDWLZ3nBlX4

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Achado

"If love is the answer, can you please repeat the question?"

domingo, 10 de fevereiro de 2008

A próxima pergunta

Começo a aprender (e, muito lentamente, a vivenciar) aquela que, para mim, é a maior de todas as lições: o não ser, ou melhor, o Ser. Esta é uma lição e uma prática constante de desapego e despojamento para toda a vida (para muitas vidas, aliás...).
Quando se fala em desapego, geralmente se pensa na necessidade de se desapegar de pessoas, situações ou coisas externas a nós, mas acredito que o maior desafio é o desapego de nós mesmos - o despojar-se de toda e qualquer idéia que tenhamos do que nós somos, seja boa ou má, libertar-se daquilo que tanto prezamos e que chamamos "nossa personalidade". Esta é a maior ilusão de todas porque é ela quem cria todas as outras. Jogar o lixo fora, tirar todo o peso do passado e do futuro, esvaziar a xícara. Simplesmente Ser.
Mas qualquer palavra sobre isso não diz absolutamente nada, a não ser que seja de fato vivido...
Agora, a próxima pergunta, a grande questão é: será possível o amor entre dois Seres? Será possível o amor romântico (sim, o romance, o carinho, a paixão!) entre dois seres que se reconhecem como seres, em sua verdadeira natureza e essência, livres de todo apego e falsa idéia de "eu"? Suspeito que sim...
O amor romântico em si, como conceito e prática culturalmente construída e cristalizada, já é um grande apego. Até mesmo o grande ideal de amor não passa de um conceito e, portanto, está fora da esfera do Ser. Mas mesmo as maiores ilusões não são criadas por acaso (veja o mundo, por exemplo...).
Talvez esta seja a grande aprendizagem. Assim como nos foi dada a oportunidade de aprender a Ser dentro e apesar de todos os limites do ego, talvez a verdadeira experiência do amor seja a descoberta do Ser do outro, para além de toda tentativa de definição e de toda idéia que tenhamos, seja sobre o outro, seja sobre nós mesmos, seja sobre o próprio amor.
Simplesmete Ser e amar o Ser do outro que simplesmente É... isso, sim, deve ser iluminação!
De repente, tudo fica mais simples, mas, de alguma forma, agora a busca parece ser mais difícil. Ou não...

sábado, 9 de fevereiro de 2008

Qual é mesmo a pergunta?

O Guia do Mochileiro das Galáxias, do Douglas Adams, é um clássico da mais alta filosofia de todos os tempos! Inteligente e engraçado, o livro satiriza várias situações, em especial os grandes questionamentos existenciais do homem. Na trama, buscando responder à grande questão da Vida, do Universo e de Tudo o Mais, seres superinteligentes criam um supercomputador (o "Pensador Profundo") para conseguir a resposta, gerando revolta entre os filósofos:

"- Essas máquinas têm mais é que fazer contas, enquanto nós cuidamos das verdades eternas. Quer saber a sua situação perante a lei? Pela lei, a Busca da Verdade Última é uma prerrogativa inalienável dos pensadores. Se uma porcaria de uma máquina resolve procurar e acha a porcaria da Verdade, como é que fica o nosso emprego? O que adianta a gente passar a noite discutindo se Deus existe ou não pra no dia seguinte essa máquina dizer qual é o número do telefone dele?"

Alguns milhões de anos depois, o computador finalmente dá a resposta, mas qual era mesmo a pergunta? "Quando vocês souberem qual é exatamente a pergunta, vocês saberão o que significa a resposta."
Pois é! Às vezes, a gente busca desesperadamente por respostas e nem sabe muito bem que perguntas está fazendo. Ou a resposta já foi dada e tudo o que a gente tem que fazer é procurar a pergunta adequada.

***

Blowin' In The Wind
(Bob Dylan)

How many roads must a man walk down
Before you call him a man?
How many seas must a white dove sail
Before she sleeps in the sand?
Yes and how many times must cannonballs fly
Before they're forever banned?
The answer, my friend, is blowin' in the wind
The answer is blowin' in the wind

Yes and how many years can a mountain exist
Before it's washed to the seas
Yes and how many years can some people exist
Before they're allowed to be free?
Yes and how many times can a man turn his head
Pretend that he just doesn't see?
The answer, my friend, is blowin' in the wind
The answer is blowin' in the wind.

Yes and how many times must a man look up
Before he can see the sky?
Yes and how many ears must one man have
Before he can hear people cry?
Yes and how many deaths will it take till he knows
That too many people have died?
The answer, my friend, is blowin' in the wind
The answer is blowin' in the wind

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Hoje é dia de sim!

"Medo tem medo da coragem da gente..." (Tereza Freire)

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Certas coisas

Não existiria som
Se não houvesse o silêncio
Não haveria luz
Se não fosse a escuridão
A vida é mesmo assim
Dia e noite, não e sim...

(Lulu Santos)

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Intermezzo filosófico

Esse blog parece estar perdendo suas raízes e anda muito pouco filosófico ultimamente. Se bem que, como propõem as diversas fenomenologias, a apreensão do nômeno só se dá através do fenômeno, isto é, tudo é uma questão de perspectiva! Além disso, às vezes é na ausência que a presença se manifesta... (estará voltando a filosofia? : ) )
Lembrando a Adélia Prado que uma vez disse "Às vezes Deus me tira a poesia. Olho a pedra e vejo pedra mesmo", poderia dizer "Às vezes Deus me tira a filosofia. Olho a vida e vejo vida mesmo".
Nesse caso, ao contrário do lamento da Adélia, o ganho é todo meu!
No fundo, no fundo, vida, filosofia e poesia devem ser a mesma coisa...

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

A descoberta da poesia

Acompanhar o surgimento de uma nova emoção, o nascimento de um sentimento novo, pode ser tão bonito quanto compartilhar dessa emoção e desse sentimento.
É absolutamente impossível lembrar de todas as primeiras vezes em que surgiram novidades em nossas vidas. O primeiro sorriso, a primeira refeição com garfo, o primeiro banho de sol. Outras primeiras vezes são inesquecíveis e já foram tema de muita prosa e poesia: a primeira professora, o primeiro beijo, o primeiro amor.
Todo texto sobre uma primeira vez corre o sério risco de cair no lugar comum, e por isso não cometerei tal imprudência. Apenas quero dividir em palavras uma nova descoberta.
Minha querida amiga Roberta nunca tinha lido poesia. Alguns poemas lidos em pé na livraria e ela foi conquistada. Emprestei o livro do Alberto Caeiro, e a maneira como ela me descreveu hoje sua descoberta foi simplesmente... poética! (infelizmente, não escrevi na hora o que ela disse e não consigo reproduzir aqui. A beleza daquele momento vai ficar guardada em nós...)
Já estava acostumada a conviver com pessoas poéticas e poetas, para quem a poesia é tão natural que talvez elas nem consigam lembrar como entrou em suas vidas. A novidade da revelação e a revelação da novidade a mim me deixaram feliz. Felicidade que é quase tão inexplicável quanto a própria poesia. O tipo de contentamento que nos faz sorrir e agradecer em silêncio.

Poema de canção sobre a esperança

(Álvaro de Campos)

Dá-me lírios, lírios,
E rosas também.
Mas se não tens lírios
Nem rosas a dar-me,
Tem vontade ao menos
De me dar os lírios
E também as rosas.
Basta-me a vontade,
Que tens, se a tiveres,
De me dar os lírios
E as rosas também,
E terei os lírios -
Os melhores lírios -
E as melhores rosas
Sem receber nada,
a não ser a prenda
Da tua vontade
De me dares lírios
E rosas também.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

O melhor da vida é compartilhar

Retratos, sons e sabores

Irmã, amigo, quase dia.
BR-116 - um descaso com o contribuinte.
Bruce Springsteen, Rionegro e Solimões, Stones.
Pão de milho com mel e café com leite na beira da estrada.
Almoço na Barra da Lagoa.
Café, torta brownie de nozes (!!!) e amizade no Café dos Açores.
Iva e muitas risadas no Córrego Grande.
Nascer do sol, yoga e mergulho no mar da Joaquina.
Encantamento em Ribeirão da Ilha.
Silêncio e paisagem na casa de retiros Vila Fátima.
Jack Johnson, empanadas e suco de abacaxi com morango na Armação.
Banho de mar em Matadeiro.
Grito de carnaval, canto à Iemanja e Dazaranha ao vivo em Santo Antonio de Lisboa.
BR-116 parte II - sem comentários.
Mãe e cuca de uva com leite gelado na cozinha de casa.
Vida, emoção e arte!
Hoje e sempre!
Graças a Deus!!!

(Rosa Marques)

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Corazón coraza

(Mario Benedetti)

Porque te tengo y no
porque te pienso
porque la noche está de ojos abiertos
porque la noche pasa y digo amor
porque has venido a recoger tu imagen
y eres mejor que todas tus imágenes
porque eres linda desde el pie hasta el alma
porque eres buena desde el alma a mí
porque te escondes dulce en el orgullo
pequeña y dulce
corazón coraza

porque eres mía
porque no eres mía
porque te miro y muero
y peor que muero
si no te miro amor
si no te miro

porque tú siempre existes dondequiera
pero existes mejor donde te quiero
porque tu boca es sangre
y tienes frío
tengo que amarte amor

tengo que amarte
aunque esta herida duela como dos
aunque te busque y no te encuentre
y aunque
la noche pase y yo te tenga
y no.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

A ordem

A ordem ateou fogo na casa,
acelerou os moinhos e os relógios de pulso,
anoiteceu o dia em plena manhã de terça-feira.
A ordem sucumbiu aos escombros,
venceu a ilusão da calma
e descobriu que o caos era a paz.

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Mais banalidades: Sobre Homens e Mulheres - Parte II

A compreensão da natureza masculina e, por oposição, ou melhor, comparação, da feminina (ou vice-versa), é um desses assuntos que sempre surgem em rodas de amigos e sempre rendem boas risadas. Da minha parte, de modo geral, resisto às tentativas de explicar os homens e as mulheres em termos de serem homens e mulheres, ou seja, por conta de suas diferenças bizarras e particularidades antropológicas. Mas aquele meu amigo filósofo apresentou uma distinção irresistível: "Somente as mulheres se magoam. Homem não fica magoado. Homem fica puuuto!"
Além das gargalhadas, fica também desta distinção uma iluminação sutil e altamente reveladora...