quinta-feira, 17 de março de 2011

Vagabundos Iluminados

(Jack Kerouac)

"Ah, pobres idéias que um homem tem, e um homem sozinho na praia, e Deus observando com atenção e sorrindo...", eu diria.

Mas parecia que eu tinha visto a tarde de antigamente daquela trilha, de pedras da pradaria e florzinhas de lupino, a repentinos reencontros com o riacho gorgolejante com suas pontes de troncos caídos salpicados pela água e seu verde do fundo do mar, havia um peso inexplicável no meu coração como se eu já tivesse vivido antes e já tivesse caminhado por aquela trilha em circunstâncias parecidas com um companheiro bodisatva, mas talvez em uma missão mais importante, tive vontade de deitar-me ao lado da trilha e me lembrar de tudo aquilo. Quando a gente está no mato, fica com essa sensação: sempre parece que você já conhece aquele lugar, há muito esquecido, como o rosto de um parente morto há muito tempo; como um sonho antigo, como o trecho de uma canção esquecida que está à deriva sobre a água, mas acima de tudo como eternidades douradas de infância passada ou de vida adulta passada e todos os vivos e os que estão à beira da morte e o coração que bateu ali há um milhão de anos e as nuvens que vão passando lá em cima parecem servir de testemunha dessa sensação (devido à sua própria familiaridade solitária). Êxtase, até, senti, com lampejos repentinos de lembranças, e me sentindo suado e sonolento, tive vontade de dormir e sonhar na relva.

"O segredo desse tipo de escalada", disse Japhy, "é como o zen. Não pense. Simplesmente dance de acordo com o ritmo. É a coisa mais fácil do mundo, aliás, é mais fácil do que andar em terreno plano, que é monótono. Probleminhas meigos se apresentam a cada passo e no entanto a gente nunca hesita e se vê em outra pedra escolhida sem nenhuma razão especial, igualzinho ao zen." O que era mesmo.

"É, cara, sabe que para mim uma montanha é um Buda. Pense na paciência, centenas de milhares de anos só paradas ali perfeitamente silenciosas e como se estivessem rezando por todas as criaturas vivas naquele silêncio e só esperando que a gente acabasse com toda a nossa complicação e nossas bobagens."

"Ah, Japhy, você me ensinou a lição mais definitiva de todas, que é impossível cair de uma montanha". "E é exatamente isso que quer dizer, 'Quando chegar ao topo de uma montanha, continue escalando', Smith".

"Vamos lá, Ray, tudo acaba alguma hora." Na verdade, percebi que não tinha mesmo coragem nenhuma, o que eu já sabia havia muito tempo. Mas tenho alegria.

Japhy pulando: "Tenho lido Whitman, sabe o que ele diz, Cheer up slaves, and horrify foreign despots, ele quer dizer que a atitude para o Bardo, o bardo zen-lunático dos antigos caminhos do deserto, vê a coisa toda como um mundo cheio de andarilhos de mochilas nas costas, Vagabundos do Darma, que se recusam a concordar com a afirmação generalizada de que consomem a produção e portanto precisam trabalhar pelo privilégio de consumir, por toda aquela porcaria que não queriam, como refrigeradores, aparelhos de TV, carros, pelo menos os carros novos e chiques, certos óleos de cabelo e desodorante e bobagens em geral que a gente acaba vendo no lixo depois de uma semana, todos eles aprisionados em um sistema de trabalho, produção, consumo, trabalho, produção, consumo, tenho a visão de uma grande revolução de mochilas, milhares ou até mesmo milhões de jovens americanos vagando por aí com mochilas nas costas, subindo montanhas para rezar, fazendo as crianças rirem e deixando os velhos contentes, deixando meninas alegres e moças ainda mais alegres, todos esses zen-lunáticos que ficam aí escrevendo poemas que aparecem na cabeça deles sem razão nenhuma e também por serem gentis e também por atos estranhos inesperados vivem proporcionando visões de liberdade para todo mundo e todas as criaturas vivas, é disso que eu gosto em vocês, Goldbook e Smith, vocês são dois caras da Costa Leste que eu achei que estava morta."

Mas eu tinha minhas próprias idéias e elas não tinham nada a ver com a parte "lunática" de tudo aquilo. Eu queria comprar um equipamento completo com tudo que é preciso para dormir, abrigar-se, comer, cozinhar, na verdade uma cozinha e um quarto completos bem nas minhas costas, e partir para algum lugar e encontrar a solidão perfeita e olhar para o perfeito vazio da minha mente e ser completamente neutro em relação a qualquer e toda idéia. Pretendo rezar, também, como minha única atividade, rezar por todas as criaturas vivas; percebi que essa era a única atividade decente que sobrara no mundo. Estar no leito de um rio em algum lugar, ou no deserto, ou nas montanhas, ou em alguma cabana no México ou em um barraco em Adirondack, e descansar e ser gentil, e não fazer nada além disso, praticar o que os chineses chamam de "não fazer nada".

Todo entusiasmado, voltei para o mato naquela noite e pensei: "O que significa eu estar neste universo infinito, pensando que sou um homem sentado sob as estrelas na varanda da terra, mas na verdade sou o vazio e estou desperto naquele vazio e despertar de todas as coisas? Significa que eu sou vazio e estou desperto, e eu sei que sou o vazio, que estou desperto, e que não há diferença entre mim e todas as outras coisas. Em outras palavras, significa que eu me transformei na mesma coisa que tudo o mais. Significa que eu me transformei no Buda".

Por que é que eu me importava com o chiado do pequeno euzinho que vagava por todos os lados? Eu atuava no campo da inspiração, isolamento, corte, expiração, exibição, decepção, desacontecimento, fim, finalização, elo cortado, nada, elo, sei lá, acabou! "A poeira dos meus pensamentos guardada em um globo", pensei, "nesta solidão atemporal", pensei, e sorri de verdade porque estava vendo a luz branca em tudo em todos os lugares afinal.

Meditei e rezei. Realmente não existe nenhum tipo de noite de sono no mundo que possa se comparar à noite de sono que se tem em uma noite de inverno no deserto, desde que se esteja bem acomodado e aquecido em um saco de dormir de pena de pato. O silêncio é tão intenso que dá para ouvir o próprio sangue rugindo nos ouvidos, mas mais alto do que isso, de longe, é o bramido misterioso que eu sempre identifico com o bramido do diamante da sabedoria, o misterioso bramido do próprio silêncio, que é um magnífico Shhhh que serve como lembrete de algo que a gente parece ter esquecido em meio à estafa dos dias desde que nascemos. Gostaria de poder explicar isso às pessoas que eu amo, à minha mãe, a Japhy, mas simplesmente não existem palavras que possam descrever o "nada" e a pureza daquilo.

"Você sabe como Kasyapa se tornou o Primeiro Patriarca? O Buda estava pronto para começar a expor um sutra e mil duzentos e cinqüenta bikkhus estavam esperando com as vestes arrumadas e os pés cruzados, e tudo que o Buda fez foi erguer uma flor. Todo mundo ficou perturbado. O Buda não disse nada. Só Kasyapa sorriu. Foi assim que o Buda escolheu Kasyapa. Isso ficou conhecido como o sermão da flor, rapaz."
Entrei na cozinha e peguei uma banana e saí e disse: "Bom, vou te contar o que é o nirvana".
"O quê?"
Comi a banana e joguei a casca fora e não disse nada. "Este é o sermão da banana."

Então, por um instante, tive a mais tremenda sensação de pena dos seres humanos, sejam eles o que forem, o rosto, a boca cheia de dor, personalidades, tentativas de ser alegres, pequenas petulâncias, sensação de perda, piadinhas chatas e vazias que logo seriam esquecidas: ah, para quê? Eu sabia que o som do silêncio estava em todo lugar e que portanto tudo em todo lugar era silêncio. Suponha que de repente acordássemos e víssemos que o que achamos ser isto ou aquilo na verdade não é nada disto nem daquilo?

Trilhas são assim: a gente flutua em um paraíso shakespeariano de Arden e espera ver ninfas e flautistas, e daqui a pouco já está se matando sob um sol quente dos infernos em meio à poeira e às urtigas e aos arbustos venenosos... igualzinho à vida.

Os três últimos quilômetros da colina foram terríveis e eu disse: "Japhy, há uma coisa que eu gostaria de ter agora mais do que qualquer outra no mundo... mais do que tudo que eu sempre quis na vida". Rajadas de vento frio do entardecer sopravam, nós nos apressávamos com o corpo curvado e a mochila nas costas pela trilha infindável.
"O quê?"
"Uma linda barra grande de chocolate, podia até ser uma pequena. Por uma razão qualquer, uma barra de chocolate salvaria a minha alma agora."

Será que somos anjos caídos que não quiseram acreditar que o nada é nada e portanto nascemos para perder aqueles que amamos e os amigos queridos um por um e afinal nossa própria vida, para ter essa comprovação?

Sessenta pores do sol eu tinha visto refletindo naquela linha vertical. A visão da liberdade da eternidade era minha para sempre. O esquilo correu para o meio das pedras e uma borboleta saiu voando. Tudo era simples assim.

Um comentário:

Johnny disse...

É um dos melhores livros do Kerouac.. sem dúvidas.. cada página vale por si só!

eu escrevi um texto agora inspirado em Kerouac, os outros beats, Bob Dylan... e, em específico este livro.. e também todo o universo do budismo.. Sidarta (livro do Herman Hesse..)
aqui no meu blog > http://thesadparadise.blogspot.com/