segunda-feira, 2 de novembro de 2009
Dia de Sol
A tarde com o sobrinho, alegria da casa, rei da piscina. Meu pequeno príncipe, enfrentando baleias e tubarões imaginários. Corrida, carro flutuante, pulos no ar, batatinha, "cadê o sol, Miguel?", ginástica na escada, patinhos quein-quein, "que cor é lilás?". A procura do lilás. Tchau, Miguel.
O cheiro do sol na pele mesmo depois do banho. O cansaço bom. E aquela vertigem de felicidade. Gosto de vida bem vivida.
Dia de sol.
sábado, 3 de outubro de 2009
Conversa em bolinhas
- Gosto da versão dele do Charlie Brown.
- Essa eu não conheço.
- "Ela achou meu cabelo engraçado. Proibida pra mim, no way...". Bem baladinha.
- Ah, nunca ouvi.
O ônibus lotado, indiferente à nossa conversa musical, vira na Avenida Presidente Wilson.
- Você conhece a "Quase nada"? "De você, sei..."
- "Quase nada...". Ah! Lembrei! Já ouvi a versão do Charlie Brown, sim.
- E a "Você vai comigo aonde eu for, você vai bem se vem comigo..."?
- Não conheço.
-"Serei seu amigo e seu bem. Fica bem, mas fica só comigo...". Se você quiser te empreso o cd.
- Eu quero. Ah! O livro do Zuenir Ventura chegou!
- Me empresta? E eu preciso te emprestar o livro em inglês e o filme da Renata Agondi.
- Rose, tenho que descer nesse ponto.
A Gabi levanta, mas o semáforo fecha. Volta a sentar.
- Dá tempo de a gente falar mais alguma coisa.
- O que a gente vai falar em cinco bolinhas? Tem que ser algo importante! É mesmo, quanto tempo a gente leva pra falar o essencial? Isso daria um filme... Você tem quatro bolinhas pra me dizer alguma coisa importante!
- Ai... A gente vai no show do Zeca Baleiro!
- Isso eu já sei. Tem que ser alguma coisa que eu não sei.
- O que a gente pode dizer em três bolinhas? Ah! Pintei minha unha de vermelho! Mas isso não é importante...
- É uma banalidade, mas as banalidades também são importantes... Gabi, você tem uma bolinha! O sinal já vai abrir!
- Já sei! Ontem passei no meio de duas freiras e fiz um pedido! Dizem que se a gente passa por duas freiras, tem que fazer um pedido. É por isso que elas andam juntinhas, pra não deixar ninguém passar entre elas. É uma crença popular.
Minha vó que me contou...
Uma bolinha de semáforo e mais uma história para
guardar de recordação.
domingo, 20 de setembro de 2009
A medida da loucura

Documentário de Paulo Henrique Fontenelle sobre a vida, a trajetória e a genialidade de Arnaldo Baptista, líder dos Mutantes.
Trailer do filme: http://www.youtube.com/watch?v=izGLQUGZZMs&feature=related
quarta-feira, 16 de setembro de 2009
Um apaixonado
Christian Petermann, crítico de cinema, participou hoje de um bate-bapo no Festival Universitário de Cinema, pequena mostra que integra a programação do Curta Santos. Conhecedor incontestável, ele consegue romper o círculo elistista que parece restringir o acesso ao chamado "cinema de arte" a um pequeno número de iniciados. Saber tudo sobre cinema, ele sabe. A diferença é que ele fala tudo com paixão. E paixão assim é coisa que inspira.
Confessou que, aos 11 anos já sabia que queria escrever sobre cinema e, por isso, foi estudar jornalismo. Cineasta frustrado? Nada disso! A paixão que o levava a devorar listas de fichas técnicas, sinopses e críticas - lendo inclusive sinopses de filme pornô - foi a que o guiou na mesma direção: tornar-se o tradutor de uma arte. Em qualquer que seja o veículo - jornal impresso, televisão, internet -, seu texto aproxima leitor e cinema, disseminando, assim, seu interesse e seu amor pela sétima arte.
A breve conversa particular, furtada ao final do bate-papo coletivo, cristalizou ainda mais a impressão gerada pelo encontro. O entusiamo, o brilho nos olhos, eram de um menino de 11 anos.
Sim, estava diante de um apaixonado.
sábado, 12 de setembro de 2009
O mar é uma tarrafa
Tarrafa Literária, encontro sobre literatura, novidade em Santos. Promete. De peixinho, que vire tubarão, leão marinho, baleia jubarte. No último dia da Tarrafa, teve Xico Sá, Matthew Shirts e Vladir Lemos falando sobre futebol; Amyr Klink, Tim Winton e Arthur Dapieve falando sobre mar. Mar, futebol e literatura – junte tudo isso e estou em casa. Faltava um texto sobre isso. Mas consegui algo melhor: presente da Adriana, que, depois de muito tempo e para meu contentamento, voltou a escrever. Aqui está, pelo blog que ela ainda não tem, mas já, já, vai criar...
Meu blog: OBRIGADA POR ESSES MOMENTOS
O meu obrigada de hoje vai para o Amyr Klink.
Carinho de pinguim para você.
O mar é uma tarrafa
Ele nos engole, sempre. E por que não? Participar dessa noite foi verdadeiramente um mergulho. No eu, no meu, no seu, no eles. Poucos, mas tantos. Não são super, mas simples. E essa é a beleza. Mil histórias pra contar, tantos lugares para navegar, mas pode-se fazer uma parada. Sim, um porto a mais. Algumas palavras que nos tomam como ondas, e ficamos ali à deriva. Balançando, como em suspenso, no ar, na água, no nada... Absorvendo um pouco do tudo. Em êxtase. Em síntese. Sintaxe. Construindo novos pensamentos, descobrindo absurdos. Elefantes marinhos. Quem são eles? Seres falantes... Quase inexistentes em seus abismos abissais. Até então. Porque depois dessa noite, serão mais que Teobaldos. Guilherme, homens de preto, Eduardo, abaixa mais o banner... Pessoas que estão ali. Que te acompanham mesmo em silêncio. Mas que ao mesmo tempo dizem tanto. Identifico-me tanto com esse tema. O mar sempre me fascinou, desde pequena. A força que mete medo, mas a beleza que deleita. Essa noite teve um cheiro específico: maresia. Peculiar, não poderia deixar de ser, em uma tarrafa literária. Mas pra nós, teve também um sabor. Individual. E misturado. Pra mim, café, brigadeiro com morango. Pra Rose, açúcar com canela. Na verdade “pra que os olhos se podemos sentir?”.
Pós Tarrafa Literária em Santos. Teatro Guarani
07/09/09
Eu, Rose, Mi e Sil
Adriana Vicente Antolin
segunda-feira, 24 de agosto de 2009
Correspondências com Tatiana
Outro dia, reencontrei algumas. Li com carinho e saudade. Coloco aqui uma, como forma de homenagear minha amiga, não só por seu aniversário no dia de hoje, mas também como agradecimento pela amizade e por ter compartilhado comigo tantos devaneios deliciosos.
E ainda espero abrir um dia a caixa do correio e voltar a encontrar uma carta selada...
São Paulo, 14 de agosto de 2004.
Olá querida Bud, como estás? Hoje é sábado, quase meio-dia e eu estou aqui no meu quarto com os pés super-aquecidos. Ai que delícia! É que a minha mãe comprou um aquecedor que está ligado aqui embaixo da escrivaninha enquanto eu te escrevo.
Eu estava lendo aquela revista “Cadernos de Literatura Brasileira” e na seção que os amigos do escritor dão depoimentos sobre ele, tinha uma carta de Caio Fernando Abreu para a Hilda Hilst (a revista é sobre ela) e aí me deu vontade de escrever uma também, não para Hilda Hilst, pra você (ha ha ha!).
Vamos começar, então, por uma coisa que eu li nessa revista e que acho que você vai gostar. Você sabia que o seu querido Cyro dos Anjos lia mãos? É, isso mesmo. Quem conta é a Lygia Fagundes Telles: “Nessa tarde, no nosso apartamento da Rua Aires Saldanha, tínhamos marcado, Goffredo e eu, um encontro com alguns amigos, Carlos Drummond de Andrade, Cyro dos Anjos, Breno Alcioli, José Condé... Lá estava a Hilda toda de preto, falando em Santa Teresa D’Ávila, a do 'amor duro e inflexível como o inferno'. Pedi-lhe que dissesse o seu poema mais recente. Então (Rose, preste atenção agora), eu me lembro, Cyro dos Anjos cumprimentou-a com entusiasmo. E voltando-se para mim, em voz baixa, lamentou: ‘Nunca sou o amado senhor de nenhuma poeta.’ E começou a examinar a pequena palma da mão que ela lhe estendeu, ele sabia ler o destino nas linhas da mão.” Aí, o seu Cyro sempre tão preocupado com o amor como você Rosebud.
Agora, voltando à carta do Caio Fernando de Abreu, e juntando com o comentário final, gostei de uma coisa que ele diz e vou acreditar, ou talvez já acredite, também no que ele chamava de “mecanismo do infinito”, que faz com que as coisas aconteçam sempre na hora exata. O que você acha disso? Eu acho que é meio parecido com aquela coisa “Deus escreve certo por linhas tortas”... Vou explicar: é acreditar que existe algo misterioso, obscuro, inexplicável, inacessível etc. que faz com que as coisas aconteçam e as pessoas se encontrem no momento que te tem que ser; só que falar em Deus... parece que a fonte de todo mistério é única (talvez seja uma visão contaminada pela minha, de certa forma, educação católica, fiz primeira comunhão, blá, blá, blá) em oposição à multiplicidade de um mecanismo que seria cósmico atuando como um gerenciador de coincidências e aí eu me lembro do Saramago em “Jangada de Pedra”: “ainda há quem não acredite em coincidências, quando coincidências é o que mais se encontra e prepara no mundo, se não são coincidências a própria lógica do mundo.” Para colocar um exemplo: o fato de nós termos nos tornado amigas neste momento de nossas vidas, num dado lugar (a faculdade) e tal parece ser uma dessas confluências cósmicas como tudo na vida pois se não, como se explica o fato de você ter tido certos amigos e amantes em dado momento e ter nascido numa dada família em um tal lugar... ao infinito! Será que é muita paranóia? Eu penso nisso no mesmo grau que você pensa no Amor, isto é, muito. Olha, eu sei que você não acha legal receber uma carta toda rasurada mas eu não vou passar a limpo porque eu vou acabar mudando alguma coisa e eu não quero então, me desculpe pelos rabiscos. Beijos da
terça-feira, 4 de agosto de 2009
Bem-aventurança
Meu mundo só tem começo
Meus desejos não têm fim
Bem-aventurança: estado de profundo bem-estar; felicidade completa; beatitude, segundo definição do dicionário Houaiss. Bem-aventurança. Bela palavra para descrever momentos em que se pressente e sente o divino nas pequenas grandes coisas. Enlevo. Alegria. Encontro. Instantes perfeitos em que a alma sorri. E dança.
O show da cantora Ceumar foi um desses momentos. Tudo era som. E beleza. A alma, incontida, parecia crescer, e, entre lágrimas, sorria e dizia: eis-me. A epifania compartilhada com amigos queridos que vislumbravam na revelação suas próprias buscas. O reencontro com aquele lugar que se chama Ser.
Estes momentos são, para Joseph Campbell, pequenos mapas que nos guiam no reconhecimento de nós mesmos. "Estamos vivendo, o tempo todo, experiências que podem, ocasionalmente, conduzir a isso, uma breve intuição de onde está nossa bem-aventurança. Agarre-a. Ninguém pode dizer-lhe o que será. Você precisa aprender a reconhecer sua própria profundidade." (O Poder do Mito)
Reinvento, Parque da paz, Planeta coração, Oração ao anjo, Mãe, Jabuticaba madura, Parede-meia, O seu olhar, Meu mundo, Avesso... Na voz de Ceumar, cada canção é bem-aventurança.
Aqui, Oração ao anjo (em versão diferente da do show de domingo):
O blog da cantora: http://ceumar.active24blog.com/
(Dedico este post a duas amigas queridas: Adriana, por estar no show e dividir um momento de bem-aventurança comigo, e Nathália, por nossa conversa sobre bem-aventurança, que, por si só, foi um desses momentos.)
