domingo, 8 de agosto de 2010

Filosofia de vida


"Um homem é rico em proporção ao número de coisas de que pode prescindir." (Thoreau)

Não gosto muito da expressão "filosofia de vida", talvez por acreditar que ela não faça jus nem à filosofia, nem à vida, ou como se viver seguindo uma (ou crer que se vive de acordo com uma) fosse uma dessas ilusões que usamos para dar significado à existência. Uma bobagem, assim como "ter uma ideologia". Mas encontrei um caso, ou melhor, três, em que a expressão fez sentido pra mim. Na natureza selvagem, o filme. Into the wild, a trilha sonora. Thoreau, a inspiração.
O filme narra a história real de Christopher McCandless, que abandona tudo ao terminar a faculdade, para viver na natureza, seguindo um estilo de vida pouco usual, em nada ditado pelos padrões sociais. No caminho de desprendimento, ele se torna Alexander Supertramp. Dirigido por Sean Penn, o filme é dividido em fases que correspondem à trajetória de iluminação de McCandless/Supertramp. Surpreendente, intrigante, transformador. É praticamente impossível sair ileso ou não ser tocado em pelo menos uma ideia na teia embolorada de nossas mentes. Na natureza selvagem é um desses "filmes de cabeceira" que nos acompanha ao longo da vida, caso a nossa alma não envelheça.


A trilha sonora de Eddie Vedder é igualmente iluminadora. A sonoridade é deliciosa e emoldura a narrativa de modo perfeito. Letras como "Society, you're a crazy breed, hope you're not lonely without me" (Society), "I'll take this soul that's inside me now like a brand new friend I'll forever know" (Long Nights), "On bended knee is no way to be free" (Guaranteed), traduzem em forma de música a filosofia vivida por Christopher. A lista se completa com Setting Forth, No Ceiling, Far Behind, Rise, Tuolumme, Hard Sun, The Wolf e End of the Road. A trilha, mais um caminho de iluminação.


Henry David Thoreau (1817-1862) é um propragador dos ideais anarquistas (nesse sentido, vale a pena ler Desobediência Civil) e precursor da geração beatnik e do movimento hippie, defendendo princípios libertários, o desapego à sociedade e suas normas, e a vida simples na natureza. Absolutamente iluminador. É um dos autores que inspiram McCandless/ Supertramp. Walden, o livro que não o abandona. Na natureza selvagem é uma verdadeira materialização de suas ideias.

"Fui para os bosques porque pretendia viver deliberadamente, defrontar-me apenas com os fatos essenciais da vida, e ver se podia aprender o que tinha a me ensinar, em vez de descobrir à hora da morte que não tinha vivido. Não desejava viver o que não era vida, a vida sendo tão maravilhosa, nem desejava praticar a resignação, a menos que fosse de todo necessária. Queria viver em profundidade e sugar toda a medula da vida, viver tão vigorosa e espartanamente a ponto de pôr em debandada tudo que não fosse vida, deixando o espaço limpo e raso; encurralá-la num beco sem saída, reduzindo-a a seus elementos mais primários, e, se esta se revelasse mesquinha, adentrar-me então em sua total e genuína mesquinhez e proclamá-la ao mundo; e se fosse sublime, sabê-lo por experiência, e ser capaz de explicar tudo isso na próxima digressão." (Walden)

(Dedico essa postagem a três amigos: Vinícius, a primeira pessoa a me falar do filme e leitor antigo de Thoreau; André Rolim, por me lembrar do filme e me indicar outros também; e Igor, por ter me emprestado o filme e dividir comigo o interesse por essa "filosofia".)

5 comentários:

Nicolau Ponte Preta disse...

Ótima postagem,bom filme também aprecio! TchAU!

Kenia Cris disse...

Eu também falei desse filme, desse livro, dessa coisa de viver por um ideal, de ter uma filosofia de vida e princípios morais tão fortes que pode escolher isolar-se no meio de uma floresta ou até matar-se por uma idéia.

Belíssima postagem, Rose. Beijo!

Igorito cada de Cabrito disse...

i am suuuuuuperrtrammmmmmmmp! \o/\o/
adorei o post rose mariaa. =]
leve a vida simplesmente.

a joaninha te mandou um bjo. ahueaheua

andré disse...

Esse filme é ótimo! ele mostra que ainda existem pessoas dispostas a não concordar com tudo isso posto...bjo!

André Rolim disse...

Esse filme e a trilha sonora mexeram muito comigo também.
Obrigado pela dedicatória! Adoro seu blog e admiro seu talento para escrever. E o mais legal é que conhecendo você pessoalmente sei que só é possível escrever dessa maneira por causa de quem você é.
Lembro-me de Mário Quintana:
“Jamais deves buscar a coisa em si, a qual depende tão-somente de espelhos.
A coisa em si, nunca: a coisa em ti.
Um pintor, por exemplo, não pinta uma árvore: ele pinta-se árvore.
E um grande poeta – espécie de rei Midas à sua maneira – um grande poeta, bem que ele poderia dizer:
- Tudo o que eu toco se transforma em mim.” (Quintana, 1998)
Vejo isso no que você escreve, nos grandes atletas, poetas, músicos e outros artistas. Enfim, nas grandes pessoas!
Beijo