segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Hunter S. Thompson, o mestre do Gonzo

Política, drogas e... jornalismo? A combinação parece explosiva. E é. Mas nada que cheire a convencionalismo ou limitação pode ser relacionado ao trabalho de Hunter S. Thompson, criador e mestre absoluto do chamado Jornalismo Gonzo.

"(...) e essa qualidade é a essência  do que, por nenhum motivo especial, decidi chamar de Jornalismo Gonzo. É um estilo de 'reportagem' baseada na ideia de William Faulkner de que a melhor ficção é muito mais verdadeira que qualquer tipo de jornalismo - e os melhores jornalistas sempre souberam disso.
Isso não significa que a Ficção seja necessariamente 'mais verdadeira' que o Jornalismo - ou vice-versa - mas que tanto 'ficção' quanto 'jornalismo' são categorias artificiais. As duas formas, em seus melhores momentos, são apenas dois meios diferentes para alcançar o mesmo fim. Isso está ficando meio pesado demais, então é melhor eu parar e explicar, a essa altura, que Medo e Delírio em Las Vegas é uma experiência fracassada de Jornalismo Gonzo. Minha ideia era compor um bloco de anotações bem grosso e registrar a coisa toda enquanto ela acontecia, e em seguida mandar as anotações para publicação - sem edição. Desse jeito, imaginei, o olho e a mente do jornalista funcionariam como uma câmera. O texto seria seletivo e necessariamente interpretativo - mas, uma vez que a imagem fosse registrada, as palavras seriam definitivas. Da mesma forma que uma fotografia de Cartier Bresson é sempre (de acordo com ele) um negativo de quadro inteiro. Nenhuma alteração no quarto escuro, nada de cortes ou aparadas, nada de procurar erros... nada de edição.
Mas isso é uma coisa difícil de fazer. No final das contas, acabei impondo uma estrutura essencialmente ficcional ao que começou como uma peça jornalística convencional/maluca. A verdadeira reportagem Gonzo requer os talentos de um mestre do jornalismo, o olho de um artista/fotógrafo e os colhões de um ator. Porque o escritor precisa participar da cena enquanto escreve sobre ela - ou pelo menos gravá-la ou mesmo desenhá-la. Ou as três coisas. Provavelmente a analogia mais próxima do ideal seria um diretor/produtor de cinema que escreve seus próprios roteiros, faz seu próprio trabalho de câmara e de algum modo consegue filmar a si mesmo em ação, como protagonista ou pelo menos um dos personagens principais." (Texto de Capa para Medo e Delírio em Las Vegas: uma Jornada Selvagem ao Coração do Sonho Americano)

A Grande Caçada aos Tubarões - Histórias estranhas de um tempo estranho reúne reportagens escritas por Thompson entre 1962 e 1978. Os bastidores e a decadência do Kentucky Derby, a cobertura das campanhas presidenciais de McGovern e Nixon, o caso Watergate, a viagem pela América do Sul (com direito a um episódio de tiroteio em Copacabana), um retrato dos hippies de San Francisco, a cidadezinha no meio do nada onde Hemingway escolheu passar os últimos anos de sua vida, a insanidade hilariante em um campeonato de pesca de tubarões em Cozumel, a entrevista com Muhammad Ali, a procura pelo sonho americano na degenerada Las Vegas. Essas e outras histórias alucinantes - e literalmente alucinadas, movidas a uma grande variedade de substâncias alucinógenas - dão forma, no entanto, a uma visão extremamente lúcida da realidade. A loucura como a única forma sã de realmente compreender o mundo. A liberdade de expressão - que, no caso de Thompson, é de fato liberdade de expressão -  ultrapassa todos os limites, normas e padrões estabelecidos, criando uma obra viva e enebriante. Impossível não se contagiar com tanta vivacidade e voracidade em cada palavra, em cada história.

"Conheci o peão andarilho na última noite. E, como ele estava duro e eu não, paguei um quarto de hotel para que ele não precisasse dormir na grama perto da estrada para Spokane. Mas, em vez de viajar no dia seguinte, ele pegou o que restava do seu dinheiro e se sentou sozinho num banquinho no bar Thunderbird, no centro de Missoula. Estava cabisbaixo e bebia seus drinques devagar, do mesmo jeito que ele tinha feito na noite anterior, enquanto punha seu troco na jukebox, que pode se tornar uma máquina muito cara para aqueles que precisam de barulho contínuo para evitar que comece a pensar.
Eram quatro da manhã quando ele bateu na porta do meu quarto de hotel. 'Desculpa te incomodar, parceiro', ele disse. 'Ouvi sua máquina de escrever, mas fiquei sozinho, cê sabe - precisava falar com alguém.'
'Bom', respondi, realmente não muito surpreso por vê-lo ainda na cidade. 'Acho que um café cairia bem pra nós dois. Vamos até o Oxford, fica aberto a noite inteira.' Descemos as escadas do hotel silencioso e atravessamos o saguão, onde um recepcionista sonolento levantou a cabeça e olhou curioso, com aquele olhar de oficial de justiça que os recepcionistas cultivam desde o início dos tempos. Parecia se perguntar que tipo de jornalista eu seria, a ponto de precisar ter vagabundos me chamando naquela hora imprópria numa manhã fria de Montana.
O que pode ser uma pergunta válida. Mas aí outra pessoa poderia perguntar que tipo de jornalista gastaria seis semanas viajando pelo Oeste sem escrever sobre Bobby Cleary, o peão andarilho sem lar, correndo ladeira abaixo para um túmulo precoce. Ou Bob Barnes, o caminhoneiro envolvido com prospecção, meio surdo, que nunca entendeu que sua vida era um desesperado jogo de dança das cadeiras. Ou o ruivo magro e gago da Pensilvânia que disse que seu nome era Ray e que tinha ido de carona até o Oeste atrás de um lugar 'onde um homem ainda pode ganhar a vida honestamente'.
Você os encontra ao longo das estradas, nas lanchonetes que abrem a noite inteira e em velhos bares tradicionais que ainda servem cerveja a 10 centavos - uma legião de homens heterogênea, variada e sempre falante, que não se encaixa em nenhum padrão exceto que todos parecem remanescentes dos dias da Grande Depressão. Você não os encontrará em nenhum lugar onde os homens usam terno e gravata ou trabalham em empregos fixos. Eles são os peões nômades, os andarilhos, os viajantes radicais e os trabalhadores sem endereço fixo que perambulam pelas estradas compridas do Oeste com a mesma regularidade e resistência que outros homens demonstram quando viajam pelo metrô de Nova York. Seu trabalho é onde eles o encontram, sua bagagem é raramente mais do que uma pequena maleta ou uma sacola de papel e sua visão do futuro é tão pessimista quanto limitada." (Vivendo no Tempo de Alger, Greeley, Debs)

Hunter S. Thompson por ele mesmo, sobre a autobiografia do escritor, aqui.

Para mais Thompson, outras duas indicações: o documentário Gonzo: a vida e obra do Dr. Hunter S. Thompson e o filme Diário de um Jornalista Bêbado, protagonizado por Johnny Depp e baseado na obra de Thompson.


Um comentário:

Por que você faz poema? disse...

Sinto apenas que Diário de um Jornalista Bêbado não tenha captado
com fidelidade o universo de Thompson.