domingo, 26 de agosto de 2012

Brincando com as palavras

Já tinha colocado uma citação da Adriana Falcão aqui, mas depois de encontrá-la na Tarrafa Literária, deu vontade de mais Adriana Falcão.
"Gosto muito da palavra. Gosto muito de escrever o que quer que seja", foi uma das coisas que ela disse na conversa com o José Roberto Torero e o Roberto Muylaert. Depois de participar da contação de histórias na Tarrafinha (nessas horas, sobrinho é só desculpa para as crianças mais velhas se divertirem também...), do bate-papo sobre a arte de escrever crônicas e de ler alguns de seus livros, esse amor da Adriana pelas palavras e o gosto das palavras da Adriana ficam no fundo raso da alma, brigadeiro depois de comido, cheiro de café coado pela casa.
"Eu tenho essa brincadeira de pensar como criança", ela também disse. Pensa como criança, escreve brincando com o pensamento da gente.

"É tanto céu nesse mundo que mesmo que a gente juntasse todas as tampas, de todos os tipos, ainda ia sobrar muito céu para tampar." (A tampa do céu)

"Filósofo é quem, em vez de ver televisão, prefere ficar pensando pensamentos."
"(irritação é um alarme de carro que dispara bem no meio do seu peito)"
"Solidão é uma ilha com saudade de barco."
"Muito é quando os dedos da mão não são suficientes."
"Angústia é um nó muito apertado bem no meio do seu sossego."
"Antes é uma lagarta que ainda não virou borboleta."
"Indecisão é quando você sabe muito bem o que quer, mas acha que devia querer outra coisa."
"Certeza é quando a ideia cansa de procurar e para."
"Vaidade é um espelho em todos os lugares ao mesmo tempo."
"Ansiedade é quando faltam cinco minutos sempre para o que quer que seja."
"Interesse é um ponto de exclamação ou de interrogação no final do sentimento."
"Raiva é quando o cachorro que mora em você mostra os dentes."
"Felicidade é um agora que não tem pressa nenhuma."
(Mania de explicação)

Sem antes nem depois
O menino achava errado o antes e o depois não se encontrarem nunca.
E reclamava.
- Quando ainda é antes, o depois não chegou. Quando chega o depois, o antes já ficou pra trás.
Ele queria porque queria arranjar um encontro entre os dois.
E ficava pensando num jeito de tirar o agora do meio pra deixar o antes e o depois cara a cara.
O menino apostava que eles iam ficar amigos.
Já pensou? O antes e o depois bem unidos, tão unidos que não se largassem mais? Aí, tudo ia ser um só momento, sem antes nem depois, só agoras.
Enquanto o antes e o depois brincassem, o tempo inteiro ia ser brincadeira.
E, durante a brincadeira, os dias iam passar.
A vida ia passar brincando. Ninguém mais ia precisar tomar banho antes, arrumar o quarto depois.
Enquanto procurava um jeito de juntar o antes e o depois, o menino ficava pensando nas coisas que os dois poderiam fazer juntos.
Podiam brincar de esconder.
O antes se escondia, o depois ia procurar. Enquanto o depois não encontrasse o antes, só ia existir o daqui pra frente na vida das pessoas. Não importava o que elas tinham feito, aonde tinham ido, o que tinha acontecido. Todo mundo ia ficar sem lembranças, até o antes aparecer. E quando o antes aparecesse, trazendo de volta o passado das pessoas, era o depois que ia se esconder, deixando todo mundo sem planos, sem irei, sem farei, sem serei, sem amanhã.
O antes e o depois podiam apostar corrida.
E se o depois chegasse na frente ia fazer uma bagunça na vida das pessoas. Tudo ia ser ao contrário, se o depois chegasse primeiro que o antes. Primeiro a gente dizia alô, depois o telefone tocava. Primeiro botava a cabeça pra fora, depois é que abria a janela. Primeiro a gente ria, depois é que contavam a piada. Primeiro ganhava o jogo, depois é que fazia o gol. Primeiro a gente dizia, depois a gente pensava. Primeiro a gente chegava, depois e que a gente ia. Primeiro a gente se via, depois se olhava no espelho. Primeiro fazia a prova, e só depois estudava. Primeiro a gente comia, depois é que ficava com fome. Primeiro tinha a indigestão e depois exagerava. Primeiro a gente caía, depois é que tropeçava.
E se a gente não quisesse que acontecesse o que já sabia que ia acontecer, era só fazer outra coisa. Cada um ia ser dono do seu destino, cada um ia escrever a sua história. Não iriam mais existir consequências, resultados, surpresas, acasos.
Como achou isso bastante sem graça, o menino achou bem mais divertido deixar tudo como era antes.
(Uma das Sete histórias para contar)

Palavra
As gramáticas classificam as palavras em substantivo, adjetivo, verbo, advérbio, conjunção, pronome, numeral, artigo e preposição. Os poetas classificam as palavras pela alma porque gostam de brincar com elas e para brincar com elas é preciso ter intimidade primeiro. É a alma da palavra que define, explica, ofende ou elogia, se coloca entre o significante e o significado para dizer o que quer, dar sentimento às coisas, fazer sentido. Nada é mais fúnebre do que a palavra fúnebre. Nada é mais amarelo do que o amarelo-palavra. Nada é mais concreto do que as letras c, o, n, c, r, e, t, o, dispostas nessa ordem e ditas dessa forma, assim, concreto, e já se disse tudo, pois as palavras agem, sentem e falam por elas próprias. A palavra nuvem chove. A palavra triste chora. A palavra sono dorme. A palavra tempo passa. A palavra fogo queima. A palavra faca corta. A palavra carro corre. A palavra palavra diz. O que quer. E nunca desdiz depois. As palavras têm corpo e alma, mas são diferentes das pessoas em vários pontos. As palavras dizem o que querem, está dito, e pronto. As palavras são sinceras, as segundas intenções são das pessoas. A palavra juro não mente. A palavra mando não rouba. A palavra cor não destoa. A palavra sou não vira casaca. A palavra liberdade não se prende. A palavra amor não se acaba. A palavra ideia não muda. Palavras nunca mudam de ideia. Palavras sempre sabem o que querem. Quero não será desisto. Sim nunca jamais será não. Árvore não será madeira. Lagarta não será borboleta. Felicidade não será traição. Tesão nunca será amizade. Sexta-feira não vira sábado nem depois da meia-noite. Noite nunca vai ser manhã. Um não serão dois em tempo algum. Dois não será solidão. Dor não será constantemente. Semente nunca será flor.
(Trecho da crônica do livro Pequeno dicionário de palavras ao vento, lida pela Adriana na Tarrafa)

Um comentário:

Paula Gomes disse...

Adriana Falcão: minha próxima leitura! :) ( estou adorando seguir seu 'roteiro' ;).