domingo, 24 de abril de 2011

Na natureza selvagem

(Jon Krakauer)

Àquela altura, Chris partira havia muito tempo. Cinco semanas antes, enfiara todas as suas coisas em seu pequeno carro e zarpara para o oeste, sem destino. A viagem seria uma odisséia no pleno sentido do termo, uma jornada épica que mudaria tudo. Ele passara os quatro anos anteriores, tal como via as coisas, preparando-se para cumprir um dever oneroso e absurdo: graduar-se na faculdade. Finalmente estava desimpedido, emancipado do mundo sufocante de seus pais e pares, um mundo de abstração, segurança e excesso material, um mundo em que ele se sentia dolorosamente isolado da pulsação vital da existência.
Saindo de Atlanta para o oeste, pretendia inventar uma vida totalmente nova para si mesmo, na qual estaria livre para mergulhar na experiência crua, sem filtros. Para simbolizar a ruptura completa com sua vida anterior, adotou um nome novo. Não mais atenderia por Chris McCandless; era agora Alexander Supertramp, senhor de seu próprio destino.

Dois anos ele caminha pela terra. Sem telefone, sem piscina, sem animal de estimação, sem cigarros. Liberdade definitiva. Um extremista. Um viajante estético cujo lar é a estrada. Fugido de Atlanta, não retomarás, porque "o Oeste é o melhor". E agora depois de dois anos errantes chega à última e maior aventura. A batalha final para matar o ser falso interior e concluir vitoriosamente a revolução espiritual. Dez dias e noites de trens de carga e pegando carona trazem-no ao grande e branco Norte. Para não mais ser envenenado pela civilização, ele foge e caminha sozinho sobre a terra para perder-se na natureza selvagem.
Alexander Supertramp, Maio de 1992

"É possível que este seja o mesmo Alex que partiu em julho de 1990? A desnutrição e a estrada fizeram estragos em seu corpo. Mais de dez quilos perdidos. Mas seu espírito está nas alturas".

“Morou nas ruas com vadios, vagabundos e bêbados durante várias semanas. Vegas, no entanto, não seria o fim da história. A 10 de maio, a comichão nos pés voltou e Alex largou seu emprego na cidade de Vegas, recuperou sua mochila e retomou à estrada, embora tenha descoberto que, se você é estúpido o suficiente para enterrar uma câmera, não vai tirar muito mais fotografias depois. Assim, a história não tem álbum de fotos para o período que vai de 10 de maio de 1991 a 7 de janeiro de 1992. Mas isso não é importante. É nas experiências, nas lembranças, na grande e triunfante alegria de viver na mais ampla plenitude que o verdadeiro sentido é encontrado. Meu Deus, como é bom estar vivo! Obrigado. Obrigado.”

Gostaria de repetir o conselho que lhe dei antes: acho que você deveria realmente promover uma mudança radical em seu estilo de vida e começar a fazer corajosamente coisas em que talvez nunca tenha pensado, ou que fosse hesitante demais para tentar. Tanta gente vive em circunstâncias infelizes e, contudo, não toma a iniciativa de mudar sua situação porque está condicionada a uma vida de segurança, conformismo e conservadorismo, tudo isso que parece dar paz de espírito, mas na realidade nada é mais maléfico para o espírito aventureiro do homem que um futuro seguro. A coisa mais essencial do espírito vivo de um homem é sua paixão pela aventura. A alegria da vida vem de nossos encontros com novas experiências e, portanto, não há alegria maior que ter um horizonte sempre cambiante, cada dia com um novo e diferente Sol.
(...) Você está errado se acha que a alegria emana somente ou principalmente das relações humanas. Deus a distribuiu em toda a nossa volta. Está em tudo e em qualquer coisa que possamos experimentar. Só temos de ter a coragem de dar as costas para nosso estilo de vida habitual e nos comprometer com um modo de viver não convencional.
O que quero dizer é que você não precisa de mim ou de qualquer outra pessoa em volta para pôr esse novo tipo de luz em sua vida. Ele está simplesmente esperando que você o pegue e tudo que tem a fazer é estender os braços. A única pessoa com quem você está lutando é você mesmo e sua teimosia em não entrar em novas situações.

Tudo mudara subitamente - o tom, o clima moral; não sabias o que penar; a quem ouvir. Como se em toda a tua vida tivesses sido conduzido pela mão como uma criança pequena e de repente tivesses de ficar por tua própria conta, tinhas de aprender a andar sozinho. Não havia ninguém por perto, nem família nem pessoas cujo julgamento respeitasses. Em tal momento, sentias a necessidade de dedicar-te a algo absoluto - vida, verdade, beleza -, de ser regido por isso, em lugar das regras feitas pelos homens que tinham sido descartadas. Precisavas render-te a um tal objetivo último de modo mais pleno, mais sem reservas do que jamais fizeras nos velhos dias familiares e tranqüilos, na velha vida que estava agora abolida e abandonada para sempre.
Boris Pasternak, Doutor Jivago
Trecho sublinhado em um dos livros encontrados com os restos de Chris McClandless
"NECESSIDADE DE UM OBJETIVO", estava escrito com a letra de McClandles na margem acima do trecho.

Nas últimas páginas do livro que lhe servia de diário, declarou:
Renasci. Esta é minha aurora. A vida verdadeira apenas começou.
Viver deliberadamente: atenção consciente ao básico da vida e uma atenção constante ao meio ambiente imediato e o que lhe diz respeito, exemplo - um emprego, uma tarefa, um livro; tudo exigindo concentração eficiente. (Circunstância não tem valor. É como a gente se relaciona com uma situação que tem valor. Todo significado verdadeiro reside na relação pessoal a um fenômeno, o que ele significa para você.)
A Grande Santidade da COMIDA, o Calor Vital.
Positivismo, a Insuperável Alegria da Estética da Vida.
Verdade Absoluta e Honestidade.
Realidade.
Independência.
Finalidade - Estabilidade - Consistência.

A 2 de julho, terminou de ler "Felicidade familiar", de Tolstoi, tendo marcado vários trechos que o emocionaram:
Ele tinha razão ao dizer que a única felicidade certa na vida é viver para os outros...
Passei por muita coisa na vida e agora penso que encontrei o que é necessário para a felicidade. Uma vida tranqüila e isolada no campo, com a possibilidade de ser útil à gente para quem é fácil fazer o bem e que não está acostumada que o façam; depois trabalhar em algo que se espera tenha alguma utilidade; depois descanso, natureza, livros, música, amor pelo próximo - essa é a minha idéia de felicidade. E depois, no topo de tudo isso, você como companheira, e filhos talvez - o que mais pode o coração de um homem desejar?

Seria fácil estereotipar Christopher McCandless como mais um garoto com sensibilidade demais, um jovem maluco que lia livros em demasia e não tinha um mínimo de bom senso. Mas o estereótipo não se encaixa. McCandless não era um indolente incapaz, perdido e confuso, torturado por desespero existencial. Ao contrário: sua vida estava cheia de significados e propósitos. Mas o significado que ele tirava da existência estava longe do caminho confortável: ele não confiava no valor das coisas que vêm facilmente. Exigia muito de si mesmo mais, no final, do que podia dar.
Tentando explicar o comportamento heterodoxo de McCandless algumas pessoas deram ênfase ao fato de que, tal como John Waterman, era de estatura baixa e talvez tivesse "complexo de baixinho", uma insegurança fundamental que o levou a provar sua masculinidade por meio de desafios físicos extremos. Outros afirmaram que um conflito edípico não resolvido estava na raiz de sua odisséia fatal. Embora possa haver alguma verdade em ambas as hipóteses, esse tipo de psicanálise póstuma de almanaque é uma iniciativa duvidosa e altamente especulativa que degrada e banaliza inevitavelmente o analisando ausente. Não está claro o que se ganha reduzindo a estranha busca espiritual de McCandless a uma lista de distúrbios psicopatológicos.

Acabara de ler Doutor Jivago, um livro que o incitara a rabiscar notas entusiasmadas nas margens e sublinhar vários trechos:
Lara caminhou ao lado dos trilhos, seguindo uma trilha gasta pelos peregrinos, e depois entrou nos campos. Ali parou e, fechando os olhos, respirou fundo o ar perfumado pelas flores da vastidão em tomo dela. Aquilo era mais querido para ela do que seus parentes, melhor que um amante, mais sábio que um livro. Por um instante, redes cobriu o objetivo de sua vida. Estava aqui na terra para captar o sentido desse encantamento selvagem e chamar cada coisa por seu nome certo, ou, se não fosse capaz disso, dar à luz, por amor à vida, sucessores que o fariam em seu lugar.
"NATUREZA/PUREZA", grafou em negrito no alto da página.
Oh, como se deseja às vezes escapar da estupidez sem sentido da eloqüência humana, de todas aquelas frases sublimes, para se refugiar na natureza, aparentemente tão inarticulada, ou na ausência de palavras da labuta longa e pesada, do sono saudável, da verdadeira música, ou de uma compreensão humana tomada muda pela emoção!
Ao lado de "E assim se concluiu que somente uma vida semelhante à vida daqueles ao nosso redor, mesclando-se a ela sem murmúrio, é vida genuína, e que uma felicidade não compartilhada não é felicidade. [...] E isso era o mais perturbador de tudo", ele escreveu: "FELICIDADE SÓ REAL QUANDO COMPARTILHADA".

*
Mais Na natureza selvagem em Filosofia de vida e Muito além da análise.

2 comentários:

Emerson disse...

Olá, adorei seu blog. Acabo de postar sobre Na Natureza Selvagem e descobri seu texto aqui.

Gostei da filosofia descrita de forma sensível de seu texto.

Ficarei honrado se me visitar:
http://ocinematografo.blogspot.com.br/

Maíra Moreno disse...

meu querido, por favor...
quero muito saber qual é o nome certo, aonde eu encontro por completo o texto "felicidade familiar" - tolstoi, já tentei e não acho...
favor responder no meu email:

mamonan@gmail.com

por favor, muito grata.abraços.(adorei o blog)