domingo, 15 de maio de 2011

O amor platônico

Banquete e Fedro são os dois diálogos de Platão que têm o amor como tema.
A influência da teoria platônica sobre o pensamento ocidental foi tão grande que até hoje usamos a expressão "amor platônico" para nos referir a um tipo de forte paixão idealizada, não realizada, inspirada mais nos afetos da alma que nos desígnios do corpo. Isso porque, como não poderia deixar de ser, Platão aplicou sua teoria das ideias ao seu conceito de amor.
No Banquete, estando alguns nomes eminentes de Atenas reunidos em um jantar na casa de Agáton, surge a proposta de cada um realizar um discurso em louvor a Eros, o deus do Amor. Sócrates é o último a falar, mas, mesmo criticando os discursos que o precederam como falsos, o conteúdo de alguns deles ainda permeia nosso imaginário sobre o amor. É o caso da lenda, contada por Aristófanes, do andrógino original, cortado ao meio em punição pelos deuses, buscando, assim, por toda a vida, reencontrar a sua metade:

É daí que se origina o amor que as criaturas sentem umas pelas outras; e esse amor tende a recompor a antiga natureza, procurando de dois fazer um só, e assim restaurar a antiga perfeição.
(...) quando encontram a sua metade correspondente, são transportados por uma onda de amor, de ternura e de simpatia; para tudo dizer numa palavra, não desejam estar separadas nem um instante sequer. E são essas as pessoas que vivem juntas toda a vida, sem conseguirem aliás explicar o que mutuamente esperam uma da outra; pois não parece ser o prazer dos sentidos a causa de tanto encanto em viver juntas. É evidente que a alma de cada uma deseja outra coisa que não conseguem dizer o que seja, que pressentem e às vezes exprimem de maneira misteriosa.
(...) E a razão disso é que assim era nossa antiga natureza, pelo fato de havermos formado anteriormente um todo único. E o amor é o desejo e a ânsia dessa completude, dessa unidade.

Após os discursos de Fedro, Pausânias, Erixímaco, Aristófanes e Agáton, chega a vez Sócrates, que introduz o artifício do diálogo e a personagem Diotima, para discorrer livremente sobre o assunto, atribuindo-lhe seu conteúdo. Seguindo o método socrático do diálogo, em que se procura desconstruir as opiniões errôneas do interlocutor por meio de perguntas, alcançando, assim, a verdade, Diotima conduz Sócrates ao conceito de amor como desejo do bem e do belo, assim como desejo de imortalidade e de procriar no belo:

Os que, porém, desejam procriar pelo espírito - pois há pessoas que mais desejam com a alma do que com o corpo (e ela é mais fecunda ainda que o corpo) -, esses anseiam por criar aquilo que à alma compete criar. Que criação será esta? É do pensamento e das demais virtudes.
(...) É bem provável, caro Sócrates, que tenhas acesso a este grau de iniciação na doutrina do amor; não sei, todavia, se poderás chegar ao grau superior, o da revelação que é o fim a que irão ter todos os que praticam a boa via.

E esta revelação é a do amor, no caminho de ascese espiritual, como instrumento para se chegar a contemplar a Beleza Absoluta:

Quando, das belezas inferiores nos elevamos através de uma bem entendida pedagogia amorosa, até a beleza suprema e perfeita, que começamos então a vislumbrar, chegamos quase ao fim, pois na estrada reta do amor, quer a sigamos sozinhos quer nela sejamos guiados por outrem, cumpre sempre subir usando desses belos objetos visíveis como de degraus de uma escada: de um para dois, de dois para todos os belos corpos, dos belos corpos para as belas ocupações, destas aos belos conhecimentos - até que, de ciência em ciência, se eleve por fim o espírito à ciência das ciências que nada mais é do que o conhecimento da Beleza Absoluta. Assim, finalmente, se atinge o conhecimento da Beleza em si!
(...) Que deveremos pensar de um homem ao qual tivesse sido dado contemplar a beleza pura, simples, sem mistura, a beleza não revestida de carne, de cores, e de várias outras coisas mortais e sem valor - mas a Beleza Divina? Achas que não teria valor a vida daquele que elevasse o seu olhar para ela e a contemplasse, e com ela vivesse em comunicação? Não te parece que, vendo assim adequadamente o belo, esse homem seria o único a poder criar, não sombras de virtude, mas a verdadeira virtude, uma vez que se encontra em contato com a verdade? Ora, para aquele que em si cria e alimenta a verdadeira virtude é que vão os favores e o amor dos deuses - e, se é dado ao homem tornar-se imortal, ninguém mais do que esse o consegue!
*

No Fedro, o amor é apenas uma justificativa para Sócrates criticar a arte retórica, tal como era praticada pelos oradores e sofistas de então, para quem o "parecer verdadeiro" era mais importante do que a verdade de um discurso.
O mote do diálogo entre Fedro e Sócrates é o discurso de Lísias, em que este defende que se deve antes conceder favores ao não apaixonado que ao apaixonado. É importante lembrar que, nessa época, era costume o amor entre homens. A partir deste discurso, Sócrates realiza outros dois, um retórico e vazio, à maneira de Lísias, e outro inspirado na verdade, para, em seguida, analisar a construção retórica e definir o que seria, de fato, o bem escrever.
Apesar de ser tema secundário, o amor não deixa de ser discutido seriamente, a partir do estudo da natureza da alma. Sócrates usa a imagem do carro alado para descrever a alma, sendo esta guiada por um cocheiro e dois cavalos em eterna disputa, um bom e virtuoso, o outro, mau e arrastado por seus desejos. Assim, o amor é inspirado por delírio divino e constitui a força que direciona a alma no caminho de ascese da contemplação das Ideias Puras.

Se conseguem que o amado compartilhe com eles do mesmo interesse, do mesmo amor, a sua vitória é, ao mesmo tempo, uma iniciação.
(...) Se a melhor parte da alma é, pois, a vitoriosa e os conduz a uma vida bem ordenada e filosófica, eles passam o resto da existência felizes e em concórdia, governando-se honestamente, escravizando a parte da alma que é viciosa e libertando a outra que é virtuosa. (...) Mas se se dedicam a uma vida em comum sem filosofia, e contudo honesta, pode suceder que os dois corcéis rebeldes os dominem num momento de embriaguez ou de desordem, os corcéis indomáveis dos dois amantes, apoderando-se de suas almas pela surpresa, os conduzirão ao mesmo fim. Eles escolherão o gênero de vida mais invejado aos olhos do vulgo e se precipitarão nos gozos. Satisfeitos, gozarão ainda os mesmos prazeres mas isso será raro, porque esses mesmos prazeres não serão aprovados pela totalidade da alma. Terão uma afeição que os ligará mas que será sempre menos forte do que aquela que liga os que verdadeiramente se amam.
Quando cessa o delírio, ainda pensam que os ligam os mais preciosos compromissos. Crêem que seria sacrílego cortar essa união e abrir seus corações ao ódio. Ao findarem os seus dias, impacientes para tomarem novas asas, as almas abandonam os seus corpos, terminando assim, com recompensa, o seu delírio amoroso. A lei divina não permite, aliás, àqueles que junto iniciaram a sua viagem celeste, que se precipitem nas trevas subterrâneas. Esses passam uma vida feliz e cheia de venturas numa eterna união e, ao receberem asas, recebem-nas juntos, em virtude do amor que os uniu na terra.
São estas coisas divinas, rapaz, que te dará o amor do que ama com paixão. O amor daquele que não tem paixão, daquele que apenas possui a sabedoria mortal e que se preocupa com os bens do mundo, só gera na alma do amado a prudência do escravo à qual o vulgo dá o nome de virtude mas que o fará vagar, privado de razão, na terra e sob a terra por nove mil anos.

Um comentário:

Emerson Henrique disse...

Obra belíssima, sinto uma nostalgia desses tempos que não vivi, como Allen em Meia Noite em Paris, querendo reviver sempre aquilo que não vivi...