terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Hunter S. Thompson por ele mesmo

Res Ipsa Loquitur. A coisa fala por si mesma. Este é o refrão. O medo é o fio condutor. O bizarro profissional, mas nada de paranoia. Com o perdão da obviedade, a única coisa que se compara à leitura da autobiografia de Hunter S. Thompson é ler o que quer que seja de Hunter S. Thompson - se é que tudo o que ele escreveu já não fosse autobiográfico. Res Ipsa Loquitur. No caso de "Reino do medo", a vida fala por si mesma. 

"Sou um músico confuso que perdeu o rumo nesse maldito negócio da Palavra por tanto tempo que me esqueci de retornar à música - a não ser, talvez, quando me encontro extraordinariamente sozinho num recinto silencioso com apenas uma máquina de escrever para tocar e saudade de escrever músicas. Vai saber por quê. Talvez eu apenas sinta vontade de cantar - então bato à máquina.
Essas ágeis teclas elétricas são ao mesmo tempo meu Instrumento, minha harpa, meu microfone RCA de válvula de vidro e meu sofisticado saxofone soprano. Essa é a minha música, para o bem e para o mal, e há noites em que ela faz com que eu me sinta um deus. Veni, Vidi, Vici... É aí que começa a diversão..
(...) Então quem sabe possamos considerar que meu trabalho é em parte (ou todo, às vezes) geneticamente governado por meus frustrantes fracassos musicais, que levaram a uma presunçosa sublimação de meus instintos musicais essenciais, que com certeza me perseguem de modo tão flagrante quanto dominam minhas letras de música."

"Sempre tive e ainda tenho a ambição de escrever ficção. Nunca tive nenhuma verdadeira ambição no jornalismo, mas os acontecimentos, o destino e meu próprio senso de diversão continuam me fazendo voltar por causa de dinheiro, de razões políticas, e também porque sou um guerreiro. Nunca encontrei uma droga que chegasse perto da piração de sentar numa mesa e ficar escrevendo, tentando imaginar uma história, não importa o quão bizarra seja, ou então de sair e penetrar na bizarrice da realidade, passando um tempinho na Estrada do Orgulho." (Março de 1990, entrevista a William Mckeen)

"É o aspecto mais desconcertante desse instável personagem. Como ele consegue? Passamos a noite bebendo sem parar. Está com a cabeça cheia de THC. De vez em quando, como um tamanduá, ele enterra o nariz e volta engasgando. Dunhills são consumidos ininterruptamente. Ele segue o horário de um vampiro que chupa o sangue dos maníacos por velocidade. E ainda assim... ainda assim, ele faz sentido. Para mim, faz mais sentido que qualquer outra pessoa escrevendo hoje, porque ele ENTENDE O QUE ESTÁ ACONTECENDO.
(...) 'Fiz a minha escolha há muito tempo', diz o doutor enquanto olha pela mira. 'Alguns dizem que sou um lagarto sem pulsação. A verdade é... Jesus, vai saber. Nunca achei que passaria dos vinte e sete. Todo dia, fico tão impressionado quanto os outros quando me dou conta de que ainda estou vivo.'
É possível que ele não saiba, mas duvido disso. Percebo, através do nevoeiro em meu próprio cérebro, que o dr. Thompson está numa espécie de estado de graça psicofisiológico, porque durante todos esses anos ele permaneceu fiel a si mesmo."
(Richard Stratton, High Times, agosto de 1991)

"É por isso que  venero Deus em segredo, amigos. Ele teve o bom senso de me deixar em paz para escrever sozinho algumas genuínas páginas em preto-e-branco, para variar."
(HST, setembro de 2002)

Um comentário:

Por que você faz poema? disse...

Também fico tão impressionado quanto os outros quando me dou conta de que ainda estou vivo.