quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Faxinas e faxinas

Numa postagem anterior, falei sobre jogar coisas fora. É que ultimamente ando arrumando muitos armários. Simplesmente adoro. Não que tenha mania de limpeza e de arrumação. Gosto de tudo limpo e arrumado, mas nada que configure um comportamento compulsivo. O lance dos armários é mais como uma terapia. Abrir as portas, olhar aquela bagunça, tirar tudo de dentro, e ir cerimoniosamente analisando cada coisa, limpando o que precisa ser limpo, conservando o que ainda é importante e me desfazendo de tudo o que não serve mais.
Armário ou alma, o ritual é o mesmo. Contemplar o caos de si mesmo e se libertar do que já não é mais necessário. Trabalho de uma vida inteira.
Outro dia, li de monge budista que a felicidade não significa se desenvolver ou conquistar coisas ou pessoas, mas consiste em eliminar gradualmente tudo que nos afasta do conhecimento verdadeiro de nós mesmos e da autêntica alegria de viver. Ao contrário do que estamos acostumamos a pensar, a fórmula seria a da subtração, e não a da adição. Pois, para mim, a arrumação de armários me ajuda nesse exercício de desapego e libertação.
Apesar da minha tendência e gosto por "jogar coisas fora", não compreendia muito bem como equalizar a relação entre amor e desapego. Mas hoje sei que o amor verdadeiro não precisa de realidade para existir. E o exercício continua...
Toda essa faxina de armários e alma me lembra o poema Consoada, do Manuel Bandeira, e a conquista final da leveza suprema antes de partir.

Quando a Indesejada das gentes chegar
(Não sei se dura ou caroável),
talvez eu tenha medo.
Talvez sorria, ou diga:
- Alô, iniludível!
O meu dia foi bom, pode a noite descer.
(A noite com os seus sortilégios.)
Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,
A mesa posta,
Com cada coisa em seu lugar.

6 comentários:

Juliana Fernandes disse...

Ro, simplesmente amei o texto.
Diz muita coisa de uma forma simples.
Você é ótima nisso.

Lorrayne França disse...

Adorei, Rose!!!
Eu tb adoro uma faxina... nos armários e na alma.
Afinal, como vc já me disse, pro novo vir o velho deve ir!
Saudades de vc, viu?
Se cuida
Beijão

Aline disse...

Raphaël Poulain gosta de esvaziar a caixa de ferramentas limpá-la e arrumá-la de novo.

Nathalia Geraldo disse...

pode parecer pecado, mas esses dias tirei todas as 'lembrancinhas' que recebi do meu quarto...afinal, mtas foram só um ato social estampado com coisas do tipo 'fui para ... e lembrei de vc'.
prefiro guardar o carinho.

to certa? :)

Nany disse...

Vamos desapegar geral!! Rsrsrs...
Transmimento de pensação!!
Saudades! Bjos

Rosângela Ribeiro disse...

Esses dias me dei conta do quanto de coisa que a gente vai acumulando... eu, por minha profissão, junto um tanto de notinhas e recortes de jornais que sempre acho que vou precisar um dia... até fazer uma faxina e ver que nem tudo tem que ser guardado...rs... Venha me visitar tb (numbalaiodegato.blogspot.com). Bjs e parabéns pelo texto!