sábado, 15 de setembro de 2007

Outras Armas

Porque a vida ainda pode ter um pouco de graça... e rir ainda pode ser um remédio

Ontem, citei o Millôr e já há algum tempo estava pensando em falar sobre o humor como arma. Arma de formação de consciência crítica, arma de transformação, ou simplesmente uma forma de levar melhor a vida.
Em seu maravilhoso Pequeno Tratado das Grandes Virtudes, Comte-Sponville apresenta o humor como uma delas, lembrando que "toda seriedade é condenável, referindo-se a nós mesmos":

"É impolido dar-se ares de importância. É ridículo levar-se a sério. Não ter humor é não ter humildade, é não ter lucidez, é não ter leveza, é ser demasiado cheio de si, é estar demasiado enganado de si, é ser demasiado severo ou demasiado agressivo, é quase sempre carecer, com isso, de generosidade, de doçura, de misericórdia... O excesso de seriedade, mesmo na virtude, tem algo de suspeito e de inquietante: deve haver algum fanatismo nisso... É virtude que se acredita e que, por isso, carece de virtude.
(...) Um pouco de humor, um pouco de amor: um pouco de alegria. Mesmo sem razão, mesmo contra a razão. Entre desespero e futilidade, às vezes a virtude fica menos num meio-termo do que na capacidade de abraçar, num mesmo olhar ou num mesmo sorriso, esses dois extremos entre os quais vivemos, entre os quais evoluímos, e que se encontram no humor."

Mas será que dá pra rir de tudo e em qualquer situação? Essa é a lição dos criadores do Pasquim.

Em 1969, em plena ditadura militar brasileira, e um ano após a imposição do AI-5, um bando de jornalistas, cartunistas e humoristas malucos resolveu criar um jornal alternativo, dispostos a ir contra o regime, sem bala e sem canhão, mas com uma arma talvez tão poderosa quanto: o humor. Tirando sarro de tudo, inclusive deles mesmos, os caras do Pasquim revolucionaram o jornalismo brasileiro e mostraram que ainda dava pra lutar, e que os ditadores poderiam até acabar com tudo (ou seja, com tudo o que a liberdade constitucional garante a um cidadão), mas que iam ter trabalho, ah, isso iam!

"Verdade do humor. A situação é desesperadora, mas não é grave." (Comte-Sponville)

Tem um documentário fantástico que conta a história do período: Humor com gosto de Pasquim. Nele, toda a patota (lendo Millôr, muitas expressões são incorporadas, bicho!) aparece lembrando os bons e "bons" momentos. Bons porque tudo o que eles faziam era uma barbaridade: inovações e tiros pra tudo quanto é lado. E "bons" porque, mesmo falando de censura, violência e estadias na prisão, eles não conseguem perder o bom humor e não dá pra conter as gargalhadas. Millôr, Claudius, Jaguar, Chico Caruso, Ziraldo... a graça não era vã e eles tinham consciência da luta:

"O riso, o humor são uma grande brecha contra o poder, porque o humor se faz contra o que está estabelecido, contra a autoridade estabelecida, seja ela eclesiástica, parlamentar, presidencial, o que for (...) é desvelar o que está por trás, mostrar o ridículo da posição, fazer ver os mecanismos que se escondem por trás das decisões... esta é a função do humor", diz o Claudius.

Ao final das batalhas ganhas e perdidas, sobra alguma desilusão - e é o Jaguar, lúcido, quem confessa estar cada vez mais convencido de que eles, humoristas, afinal, não apitavam nada:

"Em todo caso a gente se diverte, pelo menos pensa que influencia alguma coisa, mas eu acho que a história como que segue inexoravelmente... nós ladramos e eles passam..."

Será que esses humoristas não apitaram nada mesmo? Acredito que a marca que eles deixaram na história brasileira é bem maior que simples latido de cão desesperado. A revolução das idéias é talvez tão importante quanto a transformação das estruturas. E revolução foi o que eles fizeram. Quando o ser humano perde seus direitos constitucionais mais fundamentais - a liberdade de expressão, a liberdade de ir-e-vir (sabe lá o que é ser preso - quando não morto - só por que pensa mais assim ou mais assado? Ou simplesmente porque sim? Usar camisa vermelha também não era muito aconselhável... ) - aí é que ele aprende, de fato, com quantos paus se faz uma canoa. A tal "liberdade" (abstração das infinitas possibilidades de escolha) torna-se piada de mau gosto. Seria engraçado se o Sartre tivesse vivido no Brasil durante o regime militar... Essa idéia me fez pensar em uma charge... O desenho é do meu irmão Randal:


2 comentários:

Éter disse...

ah! eu bem que desconfiava dessa família...
mais um artista!

Rose Marques disse...

você viu?
esse é das artes gráficas! hehe