sábado, 15 de dezembro de 2012

Mary Poppins e eu

Mary Poppins foi meu Papai Noel. Em nenhuma época da minha infância, lembro de ter realmente acreditado que Papai Noel existisse, ou de ter me importado de verdade com ele. Mas na Mary Poppins eu acreditava. Para mim, ela de fato existia e morava em algum lugar mágico. Ou em Londres mesmo. Viajar de guarda-chuva era um de seus atributos especiais, mas não por isso impossíveis. Se havia trenós com renas e bruxas em vassouras, por que não uma babá de guarda-chuva? Não era apenas perfeitamente plausível, mas até mesmo natural. O fantástico se naturalizava porque o encantamento era mais forte que o real. E eu ansiava por aquela espécie de magia, capaz de transformar as pessoas em seres melhores e mais felizes. A verdadeira mágica estava aí, e por isso eu realmente acreditava nela.
"Uma colher de açúcar ajuda o remédio a descer" era a principal lição nessa aprendizagem da alegria. A infância recuperada como o tempo e o espaço da diversão, da descoberta. Bastava um pouquinho de açúcar, e quem, por mais miserável que fosse, não teria um pouquinho de açúcar para dar?

Por muito tempo, esperei por Mary Poppins. Sonhava em entrar num desenho no chão de uma praça, brincar com bichinhos animados que cantavam e dançavam, apostar corrida em cavalo de carrossel. Praticava diligentemente, como um mantra ou uma oração, a pronúncia da palavra mais poderosa de todas: "supercalifragilisticexpialidocious" (que, então, eu dizia "supercalifragiliexpialicious"). Também queria visitar o Tio Albert, cuja "doença" era não conseguir parar de rir. E suspirava apaixonadamente pelo Bert (nossa relação era desde cedo ambígua, porque ao mesmo tempo em que o imaginava como um tio, queria me casar com ele).

Depois de esperar por Mary Poppins, passei a querer ser ela. Assim como algumas pessoas querem ser anjos. Era minha referência mais real de ascese espiritual e de busca possível por uma bondade fundamental (bondade no sentido em que dizemos que alguém é "bom", mas principalmente  na concepção de "bondoso" - o bem aliado à benevolência e ao contentamento, simples mas difícil de se alcançar). Ainda é.
Rever Mary Poppins foi uma viagem emocional à minha infância e àquela parte de mim que ainda acredita que uma colher de açúcar ajuda a descer qualquer remédio.

3 comentários:

Paula Gomes disse...

Puxa, nunca vi Mary Poppins! E nem lembro de algo tão significativo que vi na infância...

Paula Gomes disse...

penso que poesia e outras belezas do mundo cai para nosso espírito com uma colher de açúcar. E como precisamos dela.

Emerson Henrique disse...

Também ainda não vi Mary Poppins, mas com a propriedade tamanha com que escreveu sobre ele imagino o quão significativo será se for visto no momento certo. Momento este que parece ter sido o da sua infância!

Muito bom!!!