quinta-feira, 10 de maio de 2012

Onde Vivem os Monstros


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Assim começa Onde Vivem os Monstros, um dos mais conhecidos livros infantis de Maurice Sendak. O autor morreu nesta terça-feira, aos 83 anos. O coração, que, segundo ele, vivia na infância, parou.
A obra tornou-se um clássico da literatura infantil mundial e ganhou uma bela versão cinematográfica nas mãos de Spike Jonze (Quero ser John Malkovich, Adaptação).


Jonze, juntamente com Lance Bangs, também assina a direção de Tell Them Anything You Want: A Portrait of Maurice Sendak, documentário que conta a vida e obra do escritor e ilustrador.



“Tenho pensamentos e experiências de adulto na minha cabeça, mas nunca falarei sobre eles. Estarei preso na infância? Bom, acho que é lá que está o meu coração.” (Maurice Sendak)

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Vale a pena mencionar também a trilha sonora de Onde Vivem os Monstros, com músicas de Karen O. (Yeah, Yeah, Yeahs).

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Pearl Jam por Cameron Crowe

Em outubro de 1993, a capa da Rolling Stone trazia uma reportagem com o Pearl Jam, assinada por Cameron Crowe.  Em 2011, o diretor lança "Pearl Jam Twenty", documentário sobre a história dos 20 anos da banda.

Cinco contra o mundo
(Cameron Crowe)

Existem dois Eddie Vedders. Um é quieto, tímido, quase inaudível quando fala. Amando e sendo amado. O outro é torturado, um realista amargo, um homem capaz de apontar injustiça e agitar a guerra dentro do próprio país, dentro dele mesmo. Em um dia de primavera, quente e com vento, em San Rafael, Califórnia, é fácil ver qual Eddie Vedder está acertando cestas fora do Site, o estúdio de gravação onde o Pearl Jam está finalizando seu segundo álbum. É o Eddie torturado, aquele com um vinco profundo entre as sobrancelhas.
“Sua vez”, chama Jeff Ament, o baixista do grupo. Ele lança a bola para Vedder, que dá um longo salto. A bola retumba na cesta e rola para longe. Quando Ament recupera a bola, Vedder já desapareceu dentro do estúdio. Sua mente está numa nova música, “Rearviewmirror”. É o último dia de gravação no Site, e o destino da faixa está em perigo. É uma música sobre suicídio... mas é muito “contagiante”.

(...)
Sentado num café no centro de Seattle, algumas semanas depois, Stone Gossard analisa a natureza inflamável da banda. "Acho que estamos indo bem", ele diz, no ritmo cortado de um atleta. "Acho que fizemos um grande álbum. Ninguém aqui está comprando limousines e se achando a melhor banda do mundo. Existe um equilíbrio natural na banda onde cada um precisa do outro. Cada um vê as coisas do seu próprio ângulo, e todos os ângulos são os arquétipos das coisas que você precisa para ter cobertura".
E ele conhece as críticas sobre o sucesso do Pearl Jam. "Se alguém quer dizer 'Vocês eram minha banda favorita, mas ficaram muito grande' - para mim, o problema em ficar muito grande não é, intrinsecamente, ficar muito grande e de repente parar de tocar música boa", diz Gossard. "O problema é que quando você fica muito grande, você para de fazer as coisas que costumava fazer. Apenas ser grande não significa que você não pode ir para o porão e escrever uma boa canção. Acho que as pessoas são capazes de ser bem maior numa escala radical". Ele ri. "Muitas pessoas por aí são capazes de ser grandes, mas não se dão a chance".

(...)
Até cerca de um mês antes do lançamento, o álbum ia se chamar Five Against One. O nome surge durante uma reunião num quarto de hotel em Roma, enquanto a banda aprova a mixagem final do disco. Já existem interferências da gravadora. Dá pra aumentar os vocais do Eddie? E tem a questão do vídeo. Podemos decidir sobre o diretor?  E as entrevistas para a impressa. Vocês precisam fazer algumas. As respostas para as perguntas são Na verdade não, Não e Depois. Decisões rodopiam em torno deles a toda hora, mas o Pearl Jam quer fazer do seu próprio jeito. O título do álbum parece apropriado. A frase surge de uma nova música, "Animal".
"Para mim, esse título representa muitas lutas que você enfrenta ao gravar um disco", diz Gossard, que escolheu a frase. "Sua própria independência - sua prória alma - contra todo o resto. Nessa banda, e eu acho que no rock em geral, a arte de se comprometer é quase tão importante quanto a arte da expressão individual. Você pode ter cinco grandes artistas na banda, mas se eles não podem se comprometer e trabalhar juntos, você não tem uma grande banda. Pode significar algo completamente diferente para o Eddie. Mas quando escuto aquela letra, faz muito sentido pra mim."


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E por falar em Rolling Stone e Cameron Crowe, não dá pra não lembrar de Quase Famosos, filme que conta a história do próprio diretor, quando, ainda adolescente, começou a escrever para a revista. 

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Ser transparente

"Que vocês consigam não segurar o choro quando o corpo quer chorar, não esconder a gargalhada ou a piada mais inútil quando o lábio quer sorrir e que não se tornem seres tão mascaradamente invencíveis. Tem vezes que é melhor  perder a batalha do que continuar com seres que lutam com os olhos fechados e vivem contaminados por seus insetos interiores. É preferível explodir em doçura do que acumular escudos e insatisfações. Perder a luta pode ser ganhar a paz. E com bandeira branca os dias se tornam mais limpos e leves para escrevermos a nossa história."

(Ivan De Stefano, Vire o Verso)

domingo, 22 de abril de 2012

Sete anos no Tibet

Primeira entrevista com Kundun

Eu voltava à cidade, deixando o cavalo ir passo a passo; e remoia essas ideias. Chegara quase aos arredores de Lhasa, quando me alcançou, esbaforido, um soldado da guarda do corpo. Procuravam-me, em toda a cidade — disse-me ele — e eu tinha de voltar imediatamente ao Palácio de Verão. O meu primeiro pensamento foi que a instalação do cineminha não funcionasse; porque a hipótese do rei, ainda sob tutela, se sobrepor a todas as convenções e mandar-me chamar parecia-me absurda. Dei volta, no mesmo instante e, pouco depois, estava no Norbulingka já então silencioso e sossegado. À porta do jardim esperavam-me alguns monges. Mal me avistaram, puseram-se a pestanejar furiosamente, indicando-me a entrada do jardim interior. Por mais vezes que houvesse passado ali, durante o meu trabalho, nesse momento a idéia de transpor aquele limiar causava-me uma sensação estranha. Nisso, Lobsang Samten veio receber-me; cochichou-me alguma coisa ao ouvido e meteu-me na mão um laço branco. Já não havia dúvida: seu irmão queria ver-me.
Dirigi-me logo para a câmara de projeção. Antes que eu pudesse entrar, puxaram de dentro a porta e eu vi-me diante do Buda vivo. Apesar da surpresa, curvei-me profundamente e apresentei o meu laço branco. Ele tomou-o na mão esquerda e benzeu-me com um gesto impulsivo da direita, um gesto que não se parecia com a cerimoniosa imposição das mãos; dir-se-ia antes a expressão impetuosa do estado de ânimo duma criança que afinal consegue impor a sua vontade. Na sala, aguardavam-me, de cabeça baixa, três abades: os três homens de confiança do rei-deus. Eu os conhecia bem; não vieram receber-me, e não me escapou a  frieza com que responderam ao meu cumprimento. Não lhes agradava, naturalmente aquela intrusão nos seus domínios; contudo, nunca ousariam contrariar abertamente o Dalai Lama.
O jovem soberano mostrou-se, pois, tanto mais cordial. Estava radiante; e foi largando as perguntas, uma atrás da outra. Acolhia-me, como um ser humano que, anos a fio, meditou sozinho vários problemas e tem finalmente com quem falar, alguém que ao mesmo tempo responda a tudo. Não me dava tempo para pesar as respostas. Arrastou-me logo para o projetor; queria passar um filme que o interessava desde muito tempo: um documentário da capitulação japonesa. Mandara os abades à sala de espetáculos; eles seriam o público.
(...)
Atravessei o jardim deserto, puxei o ferrolho do largo portão, mal acreditando que estivera quase cinco horas conversando com o rei-deus do país dos Lamas. Um jardineiro fechou o portão atrás de mim; e a guarda — que, entretanto, mudara várias vezes — apresentou-me armas, um tanto intrigada. Pus-me em sela e tomei lentamente o caminho de Lhasa. Não fosse o embrulhinho dos bolos, que me ficara na mão, eu pensaria que fora tudo um sonho. Qual dos meus amigos me prestaria crédito, se eu lhe contasse que passara horas, dialogando a sós com o Buda vivo? Qualquer deles me responderia apenas com um sorriso de piedade, dizendo consigo: "Pobre doido!"

Amigo e mestre do Dalai Lama

Foi para mim verdadeira felicidade a bela missão que se me ofereceu.
Sim, transmitir a esse menino inteligente a ciência e os conhecimentos do mundo afigurava-se-me uma função realmente valiosa.
Nessa mesma noite, procurei revistas que tratassem pormenorizadamente da construção dos caças a jato, assunto em que me vira várias vezes em apuros, na entrevista com o Dalai Lama, e que prometera explicar, na próxima vez, baseando-me em diagramas. Mais tarde, tive de preparar a matéria sobre a qual versaria o nosso diálogo; desejava sistematizar um pouco a avidez de saber do jovem rei. Muitas vezes, o meu plano gorava, porque ele formulava perguntas que nos conduziam a setores muito diferentes; não me restava então senão responder e explicar, conforme podia. Em relação à bomba atômica, por exemplo, tive de explicar os elementos, o que acarretou uma preleção sobre os metais. Para estes, não havia denominações em idioma tibetano; tive, pois, de dar muitos pormenores e, dentro em pouco, as perguntas caíram em cima de mim como uma avalanche.
Assim comecei uma nova vida em Lhasa. A minha existência passou a ter uma finalidade; e eu me livrei da insatisfação, do sentimento de não viver completamente. Não abandonei as minhas ocupações anteriores; continuei a colecionar notícias, a desenhar mapas. Mas os dias me pareciam demasiado curtos e, não raro, eu trabalhava até alta noite. Negligenciava as diversões, os passatempos, porque precisava dispor de tempo, quando o Dalai Lama me mandava chamar. Às reuniões dos meus amigos eu já não chegava de manhã, segundo o costume; só aparecia às últimas horas da tarde. Mas isso não me doía como uma renúncia; eu vivia muito feliz, na consciência de haver encontrado um objetivo. As horas, que passava com o meu régio discípulo, eram muitas vezes tão instrutivas para mim como para ele. Eu ia adquirindo um grande conhecimento da história do Tibete e da doutrina de Buda, setores em que a cultura do Dalai Lama era profunda. Mantínhamos freqüentemente, horas a fio, debates religiosos; e ele estava plenamente convencido de que me converteria ao budismo. Dizia-me que, justamente então, se entregava ao estudo de obras de antiquíssima sabedoria sobre os vários aspectos da separação da alma do corpo. Efetivamente, a história do Tibete menciona muitos santos que tinham o dom de fazer o seu espírito agir a centenas de milhas de distância, enquanto o seu corpo permanecia mergulhado em profunda meditação. O jovem Dalai Lama acreditava que, graças à sua fé e com o auxílio dos ritos prescritos, poderia atuar em localidades distantes, como por exemplo Samye. Quando atingisse esse ponto, mandar-me-ia para lá e, de Lhasa, dirigiria as minhas ações. Lembro-me de que eu me ria e respondia: "Sim, Kundun; quando fizeres isso, eu me tornarei budista".

(Sete anos no Tibet, Heinrich Harrer)

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Quero ser Adélia

E eu não sabia que minha história 
era mais bonita que a de Robinson Crusoé.
(Carlos Drummond de Andrade)

"É muito difícil a pessoa se dar conta de que todos nós, artistas ou não, pessoas pobres ou ricas, nobres ou plebeias, só temos o cotidiano. E o cotidiano de todo mundo é absolutamente ordinário. Ele não é extraordinário. (...) A cada um de nós cabe a vida comum, o cotidiano. E eu tenho absoluta convicção que é atrás, que é através do cotidiano que se revelam a metafísica, a beleza.
(...) A gente quer uma vida heróica. Nós todos aspiramos a uma vida heróica. E fala: 'Deus me livre dessa vidinha minha, uma vidinha sem nenhum encanto'. (...) O cotidiano é na poeira, e para todos nós. E o mais bacana que tem é a gente tirar o nosso heróico, o nosso heroísmo deste cotidiano. (...) O nosso heroísmo é aqui, é no pequenininho, é  naquela paciência impossível de ter que eu tenho que ter. Fala: 'Deus me livre lidar com esse doente, com isso, com aquilo. Eu queria viver como...'. E você bota um personagem bem famoso. O personagem não existe. Caiamos na real. Bonita é a nossa vida.
(...) Admirar-se de um bezerro de duas cabeças, qualquer débil mental se admira. Mas admirar-se do que é natural, só quem tá cheio do Espírito Santo. É o outro olhar, é a sensibilidade. E o mundo é magnífico. É bom demais estar vivo, é bom demais. E eu quero essa vidinha. Essa vidinha. Essa é que é a boa.  Com todas as chaturinhas dela, as coisas difíceis. Mas é maravilhoso, porque quando você cai nesse lugar aí, você aceita a sua vida. Então você não sai mais à procura de heroísmo extraordinário. (...) Nós todos queremos que a nossa vida, o nosso currículo, tenha um ato heróico, e às vezes o ato heróico de cada vida é o mais anônimo, o mais silencioso, só Deus sabe."

Entrevista com a poeta Adélia Prado no programa Sempre um Papo:



Impressionista
Uma ocasião,
meu pai pintou a casa toda
de alaranjado brilhante.
Por muito tempo moramos numa casa,
como ele mesmo dizia,
constantemente amanhecendo.

Parâmetro
Deus é mais belo que eu.
E não é jovem.
Isto sim, é consolo.

Poema Começado no Fim
Um corpo quer outro corpo.
Uma alma quer outra alma e seu corpo.
Este excesso de realidade me confunde.
Jonathan falando:
parece que estou num filme.
Se eu lhe dissesse você é estúpido
ele diria sou mesmo.
Se ele dissesse vamos comigo ao inferno passear
eu iria.
As casas baixas, as pessoas pobres,
e o sol da tarde,
imaginai o que era o sol da tarde
sobre a nossa fragilidade.
Vinha com Jonathan
pela rua mais torta da cidade.
O Caminho do Céu.

Exausto
Eu quero uma licença de dormir,
perdão pra descansar horas a fio,
sem ao menos sonhar
a leve palha de um pequeno sonho.
Quero o que antes da vida
foi o sono profundo das espécies,
a graça de um estado.
Semente.
Muito mais que raízes.

Casamento 
Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, pesque,
mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como "este foi difícil"
"prateou no ar dando rabanadas"
e faz o gesto com a mão.

O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva.

Explicação de poesia sem ninguém pedir
Um trem-de-ferro é uma coisa mecânica,
mas atravessa a noite, a madrugada, o dia,
atravessou minha vida,
virou só sentimento.

Ensinamento
Minha mãe achava estudo
a coisa mais fina do mundo.
Não é.
A coisa mais fina do mundo é o sentimento.
Aquele dia de noite, o pai fazendo serão,
ela falou comigo:
"Coitado, até essa hora no serviço pesado".
Arrumou pão e café , deixou tacho no fogo com água quente.
Não me falou em amor.
Essa palavra de luxo.

terça-feira, 10 de abril de 2012

Medianeras

"Tenho esse livro desde os 14 anos e é, com o perdão dos grandes escritores, o livro da minha vida. É a origem da minha fobia de multidões e criou em mim uma angústia existencial particular. Ele representa, de um jeito dramático, a angústia de saber que sou alguém perdido entre milhões. Os anos passaram, e ficou uma página sem resolver. Wally na cidade. Eu o encontrei no shopping, no aeroporto e na praia, mas na cidade, não o encontro. Sei que o nervosismo cega, mas não consigo achar. Então me pergunto: se, mesmo sabendo quem eu procuro, não consigo encontrar, como vou encontrar quem eu procuro se nem sei como é?" (Mariana, personagem de Medianeras)



quarta-feira, 28 de março de 2012

O monge e o filósofo

O pai, Jean-François Revel, um dos principais pensadores franceses da filosofia contemporânea. O filho, Matthieu Ricard, um doutor em biologia molecular e pesquisador do Instituto Pasteur que abandonou tudo para se tornar monge budista. Apesar do título, que pode sugerir um daqueles livros de autoajuda oportunistas, O Monge e o Filósofo apresenta um rico debate entre a tradição espiritual do oriente e a tradição filosófica do ocidente. Metafísica budista, busca espiritual, o sentido da vida, a ação no mundo, são alguns dos questionamentos presentes no diálogo, em que budismo e filosofia são contemplados e confrontados a partir dos princípios que guiaram as escolhas de vida do monge e do filósofo. A seguir, um exemplo do embate de ideias:

M - (...) Nada existe em si, independentemente de outros fenômenos. Cada um dos elementos da cadeia de causa e efeito é, por sua vez, um composto de elementos fugidios em perpétua mudança. Este é um argumento que põe em evidência a não realidade dos fenômenos autônomos e permanentes, seja se trate de um Deus criador ou de um átomo que exista por si mesmo, sem causas nem condições, com independência dos outros fenômenos.
J.F. - Esta também é uma problemática que reaparece ao largo de toda a filosofia ocidental. Às vezes, os fenômenos existem e são a realidade, e é o que se chama escola empirista ou realista. Às vezes, os fenômenos são uma ilusão total, e é o que se chama o idealismo absoluto, a filosofia de Berkeley, por exemplo, no século XVIII. Outras vezes, os fenômenos são um caos de coisas que se sucedem, mas nas quais a relação causa e efeito é completamente ilusória: é a filosofia de Hume. E às vezes, o fenômeno não é a realidade em si, mas uma espécie de síntese, um encontro entre a realidade em si que não conhecemos, que está atrás dos fenômenos, e a atividade construtora da mente humana; uma espécie de resultado intermediário entre a matéria-prima oferecida pela realidade em si e a capacidade de elaboração da mente humana. Dito de outro modo, é ao mesmo tempo real, oferecido metade pelo mundo exterior, e metade construído pelo espírito humano. Tal é, resumida grosseiramente, a teoria de Kant em Crítica da razão pura. Todos os casos foram tratados, portanto, na filosofia ocidental. Na minha opinião, não creio que isto seja um verdadeiro problema. Se os fenômenos não existem no budismo, o que é que existe?
M - O budismo adota uma via intermediária. Não nega a realidade dos fenômenos no mundo relativo das percepções, mas o fato de que existam entidades permanentes por trás dos fenômenos. Por isso se fala de um "caminho do meio", que não cai nem no niilismo, para o qual nada existe fora das nossas percepções - tudo é nada -, nem no "eternalismo", sem dúvida o realismo ao qual você se refere, para o qual existe uma realidade única e independente de qualquer percepção, que estaria composta por entidades existentes em si. O tipo de entidades sólidas que o budismo rejeita são, por exemplo, as partículas indivisíveis da matéria e os instantes indivisíveis da consciência. Coincidimos assim com a formulação dos físicos modernos, que abandonaram a ideia de partículas comparáveis a pequenas balas de canhão ou a massas infinitamente pequenas. O que se chama massa ou matéria é antes uma espécie de condensação da energia.
(...) Quando o budismo fala da "vacuidade" dos fenômenos, diz que os fenômenos "aparecem", mas que em nenhum caso refletem a existência de entidades fixas. (...) Segundo o budismo, os átomos não podem ser considerados entidades fixas, que existem de uma maneira única e determinada; portanto, como poderia ter realidade fixa o mundo da manifestação bruta, supostamente integrado por estas partículas? Tudo isto contribui para destruir a ideia sobre a solidez das aparências. E, neste sentido, o budismo afirma que a natureza última dos fenômenos é vacuidade, e que esta vacuidade leva em si um potencial infinito de manifestações.
(...) ao demonstrar que não podem existir partículas indivisíveis, o budismo não pretende explicar fenômenos físicos no sentido em que a ciência entende atualmente: tenta antes romper o conceito intelectual da solidez do mundo fenomênico. Pois este conceito é o que faz com que nos aferremos ao "eu" e aos fenômenos e é, portanto, a causa da dualidade entre si mesmo e os demais, entre a existência e a não existência, entre o apego e a repulsão etc., e também a causa de todos os nossos sofrimentos. Em qualquer caso, o budismo entronca aqui, de uma perspectiva intelectual, com algumas teses da física contemporânea, e sua contribuição deveria ser incluída na história das ideias. Gostaria de citar, por exemplo, um dos grandes físicos de nossa época, Henri Margenau, professor da Universidade de Yale, que escreveu: "Ao final do século XIX, se afirmava que todas as interações implicavam objetos materiais. Na atualidade, isso já não costuma ser considerado uma verdade. Antes se pensa que se trata da interação de campos de energia ou de outras forças que são, em linhas gerais, não materiais". E Heisenberg dizia: "Os átomos não são coisas". Para Bertrand Russel: "A ideia de que há por aí uma bolinha, uma pequena massa sólida que seria o elétron, é uma intrusão ilegítima do senso comum, derivada da noção de tocar"; e logo acrescenta: "A matéria é uma fórmula cômoda para descrever o que ocorre ali onde, de fato, a matéria não existe, onde não há, portanto, nada". Por outro lado, sir James Jeans chegou a dizer em suas Rede's Lectures que "o universo começa a parecer-se mais com um grande pensamento que a uma grande máquina".

terça-feira, 20 de março de 2012

A todo volume

Jimmy Page (Led Zeppelin), The Edge (U2) e Jack White (The White Stripes) numa jam session, intercalada com muitas histórias e muita troca de figurinha sobre a paixão e a arte de tocar guitarra.
A todo volume (It might get loud), documentário para ver e ouvir, over and over again...







terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Sem melodia

Há pessoas nas quais um constante repousar em si mesmas e uma harmoniosa disposição das faculdades são tão próprios, que lhes repugna qualquer atividade dirigida para um fim. Eles semelham uma música que consiste apenas em acordes harmônicos sustentados por longo tempo, sem mostrar sequer o início de um movimento melódico articulado. Toda movimentação vinda de fora serve apenas para dar imediatamente a seu barco um novo equilíbrio, no lago da consonância harmônica. Em geral as pessoas modernas ficam muito impacientes, ao se defrontar com essas naturezas que nada se tornam, sem que delas se possa dizer que nada são. Mas há estados de espírito em que a sua visão desperta a pergunta inusitada: para que melodia, afinal? Por que não nos basta que a vida se espelhe quietamente num lago profundo? - A Idade Média era mais rica em tais naturezas do que o nosso tempo. Como é raro ainda encontrarmos alguém capaz de seguir vivendo de maneira pacífica e alegre consigo também no torvelinho, dizendo a si mesmo as palavras de Goethe: "O melhor é a calma profunda em que diante do mundo eu vivo e cresço, e adquiro o que não me podem tirar com o fogo e com a espada".

(Humano, demasiado humano, Friedrich Nietzsche)


quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

O silêncio da Centre Court

“O que chama a atenção quando se joga na quadra central de Wimbledon é o silêncio.  Você bate a bola contra o gramado e não se ouve nenhum som; lança-a ao ar para sacar; golpeia e escuta o eco do golpe. E depois disso, o eco de cada golpe posterior, os seus e os do adversário.  Clac... clac; clac... clac. A grama bem cortada, a história do lugar, a entrada do estádio, o uniforme branco dos jogadores, a multidão respeitosamente calada, a tradição venerável – não há um único anúncio publicitário –, tudo se combina para você se fechar e isolar do mundo exterior. Esta sensação me faz bem; esse silêncio de catedral que reina na Centre Court convém ao meu jogo. Porque em uma partida de tênis, a batalha mais amarga que enfrento é com as vozes que ressoam dentro da minha cabeça: você quer silenciar tudo dentro da mente, eliminar tudo menos a competição, quer concentrar cada átomo do seu ser no ponto que está jogando. Se cometi um erro no ponto anterior, esqueço; se se insinua no fundo de minha cabeça a ideia da vitória, a reprimo.
O silêncio da Centre Court se rompe quando termina a luta pelo ponto. Se foi um bom ponto – os espectadores de Wimbledon conhecem a diferença –, explode o clamor: aplausos, aclamações, gente que grita o seu nome. Escuto, mas é como se viesse de um lugar distante. Não sou consciente de que tem quinze mil pessoas na expectativa no recinto, seguindo com o olhar cada movimento meu e do meu rival. Estou tão concentrado que não tomo conhecimento – não como agora quando recordo a final de 2008 contra Roger Federer, a maior partida da minha vida – de que há milhões de pessoas em todo o mundo me olhando.”

“Poderia se pensar que, depois de golpear milhões e milhões de bolas, devo saber de memória os golpes básicos e que dar um golpe certeiro, limpo e seguro, é fácil, mas não é assim. Não apenas porque cada dia a gente levanta com um ânimo diferente, mas porque cada golpe é distinto; cada um é único. Desde  o momento em que a bola se põe em movimento, corre em sua direção descrevendo um número infinito de ângulos possíveis e uma quantidade infinita de velocidades possíveis; pode chegar com topspin ou com efeito retrocesso – em ambos os casos se trata de efeitos de rotação –, em trajetória rasante ou alta. As diferenças podem ser mínimas, microscópicas, mas o mesmo pode-se dizer das variantes dos movimentos do corpo (ombros, cotovelos, pulsos, quadris, tornozelos, joelhos) quando se golpeia a bola. Além disso, intervêm muitos outros fatores: o clima, a superfície, o rival. Nenhuma bola é igual a outra; nenhum golpe é idêntico a outro. Assim, cada vez que você se coloca numa posição para dar um golpe, tem que calcular em uma fração de segundo a trajetória e velocidade da bola e em seguida  tomar uma decisão também muito rápida sobre como, com que força e até onde devolvê-la. E tem que fazer uma e outra vez, em geral cinquenta vezes num só game, quinze vezes em vinte segundos, em rachas contínuos durante mais de duas ou três, quatro horas, e todo esse tempo correndo com os nervos em tensão. Quando a coordenação é correta e o ritmo flui, vêm as boas sensações, você se sente mais capacitado para levar a cabo a façanha biológica e mental de golpear a bola corretamente com o centro da raquete, apontando com acerto, com força e sob uma pressão mental imensa, um vez atrás da outra. Se há algo de não tenho a menor dúvida é de que quanto mais se treina, melhores são as suas sensações. O tênis, mais que muitos outros esportes, é um exercício mental. O jogador que tem essas boas sensações quase todos os dias, o que consegue isolar-se melhor de seus medos e altos e baixos psicológicos que gera inevitavelmente uma competição, é o que termina sendo o número um do mundo. Tal era a meta que me havia fixado durante os três pacientes anos em que fui segundo, atrás de Federer, e que estaria muito perto de alcançar se ganhasse a final de Wimbledon de 2008.”

Estes trechos são do primeiro capítulo de Rafa, minha história, escrita pelo próprio Rafael Nadal com o jornalista John Carlin (mesmo autor de O fator humano: Nelson Mandela e o jogo que salvou uma nação, livro que ganhou versão cinematográfica com Invictus, de Clint Eastwood). 
O universo físico e mental do tênis exposto de maneira fascinante. A cabeça de um tenista revelada no ponto a ponto. O livro traz a vida e a trajetória profissional de um dos maiores jogadores da história do tênis contadas a partir da final de Wimbledon de 2008, contra Roger Federer, considerada por muitos a melhor partida de tênis de todos os tempos.


segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Para tranquilizar

Mas nossa filosofia não se torna assim uma tragédia? A verdade não se torna hostil à vida, ao que é melhor? (...) Sendo isso verdadeiro, restaria apenas um modo de pensar que traz o desespero como conclusão pessoal e uma filosofia da destruição como conclusão teórica? - Creio que o temperamento de um homem decidirá quanto ao efeito posterior do conhecimento: eu poderia imaginar um outro efeito que não o descrito, igualmente possível em naturezas individuais, mediante o qual surgiria uma vida muito mais simples e mais pura de paixões que a atual: de modo que inicialmente os velhos motivos do cobiçar violento ainda teriam força, em consequência do velho costume herdado, mas aos poucos se tornariam mais fracos, sob influência do conhecimento purificador. Afinal se viveria, entre os homens e consigo, tal como na natureza, sem louvor, censura ou exaltação, deleitando-se com muitas coisas, como um espetáculo do qual até então se tinha apenas medo. Estaríamos livre da ênfase*, e não mais seríamos aguilhoados pelo pensamento de ser apenas natureza ou mais que natureza. Certamente, como disse, isto exigiria um temperamento bom, uma alma segura, branda e no fundo alegre, uma disposição que não precisasse estar alerta contra perfídias e erupções repentinas, e em cujas manifestações não houvesse traço de resmungo e teimosia - essas características notórias e desagradáveis de cães e homens velhos que ficaram muito tempo acorrentados. Um homem do qual caíram os costumeiros grilhões da vida, a tal ponto que ele só continua a viver para conhecer sempre mais, deve poder renunciar, sem inveja e desgosto, a muita coisa, a quase tudo o que tem valor para os outros homens; deve-lhe bastar, como a condição mais desejável, pairar livre e destemido sobre os homens, costumes, leis e avaliações tradicionais das coisas. Com prazer ele comunica a alegria dessa condição, e talvez não tenha outra coisa a comunicar - o que certamente envolve uma privação, uma renúncia a mais. Se não obstante quisermos mais dele, meneando a cabeça com indulgência ele indicará seu irmão, o livre homem de ação, e não ocultará talvez um pouco de ironia: pois a "liberdade" deste é um caso à parte.

* (N.T.) Emphasis, no original. Também pode ser traduzido como "aparência, exterior", retomando o sentido primordial da palavra grega emphasis (do verbo emphaino, "fazer ver, fazer-se visível")

(Humano, demasiado humano, Friedrich Nietzsche)

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

The Sunset Limited

- Bom, em que é que você acredita?
- Em um monte de coisas.
- Tudo bem.
- Tudo bem o quê?
- Tudo bem, que coisas?
- Eu acredito em coisas.
- Dá um exemplo.
- Hum, coisas culturais, por exemplo. Livros, música, arte, coisas assim.
- Tudo bem.
- Essas são as coisas que têm valor pra mim. São as bases da civilização. Bom, costumavam ter valor pra mim. Elas não têm mais tanto valor, eu acho.
- O que aconteceu com elas?
- As pessoas pararam de valorizá-las. Eu parei de valorizá-las, até certo ponto. Não tenho certeza se posso dizer por quê.  O mundo, em grande parte, já se foi. Em breve, terá desaparecido.
- Não tenho certeza se estou te entendendo, professor.
- Não há nada pra entender. Está tudo bem. As coisas que amei eram muito frágeis, muito frágeis. Eu não sabia disso. Pensei que fossem indestrutíveis. Elas não eram.
- E foi isso que te mandou pra borda da plataforma? Não foi nada pessoal?
- Ah, é pessoal. Isso é o que a educação faz. Torna o mundo pessoal.
- Bem, essas são palavras muito poderosas, professor. E não posso dizer que eu tenho uma resposta pra nada disso. E é possível que não haja nenhuma resposta. Mas, mesmo assim, tenho que perguntar: qual é a utilidade de ter noções como essas se elas não vão te manter colado na plataforma quando o Sunset Limited vier a 130 Km/h?
- Boa pergunta.

*
Um apartamento. Dois homens. Um crente e um intelectual suicida. O filme: um longo e instigante diálogo sobre a vida, a morte, Deus.

sábado, 14 de janeiro de 2012

O que Sócrates diria a Woody Allen

Em O que Sócrates diria a Woody Allen, Juan Antonio Rivera apresenta uma maneira interessante de se pensar algumas questões filosóficas a partir do cinema, e, ao mesmo tempo, de (re-)ver alguns filmes à luz da filosofia: 

Este livro pretende ser simultaneamente uma introdução à filosofia para amantes do cinema e uma introdução ao cinema para amantes da filosofia (filofilósofos). Quanto ao primeiro, os aficcionados ao cinema encontrarão aqui algumas de seus filmes favoritos, peças do calibre de Casablanca, Cidadão Kane ou A lei do silêncio, para dar alguns exemplos. Também encontrarão - talvez com um pouco de inquietude ou de suspeita - obras menos afamadas, material menos distinto, como Um homem de família, a cujo comentário, além disso, se dedica uma boa quantidadde de papel. Que não se estranhe: o critério para selecionar um filme foi, em primeiro lugar, a força com que nele fica ilustrada uma determinada questão filosófica, e só depois levei em conta sua qualidade estética.
(...) Embora nas seguintes páginas entram em cena alguns dos filósofos clássicos (Sócrates, Platão, Aristóteles, Santo Agostinho, Kant ou Nietzsche), também comparecem outros mais atuais e que provavelmente, com o correr do tempo, passem a engrossar a lista dos clássicos: figuras como John Rawl, Robert Nozick ou Jon Elster. Boa parte das matérias tratadas são também as indispensáveis e perenes da filosofia: o amor, a morte, a felicidade, a racionalidade, a maldade, a falta de vontade, o acaso... Mas outras podem ser insólitas até para os mais versados em filosofia: os subprodutos, a formação do gosto moral, a tentação do bem (muito menos conhecida que a tentação do mal), o apetite fáustico ou as dificuldades da escolha racional.

Algumas questões

O que é gosto moral?
Acabo de usar esta expressão "gosto moral", e é o momento de esclarecer o que quero dizer com ela. Suponhamos que digo que gosto do cinema de Ernst Lubitsch; com isso estou me referindo à minha predileção estética por seus filmes, expressando minha relação de fervor por elas. Por outro lado, suponhamos que digo, além disso, que gosto de gostar do cinema de Lubitsch. Aqui estou afirmando algo significamente distinto: não estou manifestando minha admiração estética pelas realizações do diretor alemão (...); estou antes expressando que, ao menos neste ponto, minha relação comigo mesmo é boa, que estou encantado de ter me conhecido cinematograficamente, que o que eu gostaria de ser coincide com o que sou no que diz respeito aos filmes de Lubitsch. Veremos mais à frente que isso não é sempre assim, ou que pode ser assim em uns terrenos e não em outros. Mas no momento atente que o gosto moral está integrado por metapreferencias; não tanto pelo que eu gosto, mas pelo que eu gosto de gostar. Posso gostar de gostar de muitas coisas diferentes: não fumar, apreciar bons vinhos, a música clássica, o romance do século XIX, ser um entomólogo de renome ou chegar pontualmente nos compromissos. Algumas destas metapreferencias podem se refletir com plenitude na minha conduta efetiva; outras de maneira mais desvaída, e outras, enfim, simplesmente serem desmentidas e socavadas pela minha maneira habitual de proceder. Mas, seja qual for o grau de cumprimento real das minhas metapreferencias, o que é certo é que o conjunto delas configura minha autoimagem favorita, o que eu queria ser ou não ser (para voltar a lembrar o mestre Lubitsch).

O mito da autenticidade pessoal
A fita de Brett Raner não apenas mostra a possibilidade de efeitos borboleta intraindividuais (ou verticais) na árvore de decisão de Jack: como uma flutuação entre duas opções em certo momento da existência tem repercussões desproporcionadas a longo prazo. Também ensina algo mais sutil: a maneira em que, passo a passo, teria mudado o perfil moral desejado de Jack; como, se tivesse ficado em Nova Jersey, a metapreferencia de ser pai de família e ter uma vida caseira teria acabado triunfando sobre a metapreferencia do êxito profissional.
(...) Em Um homem de família se observa o jogo característico do acaso e da racionalidade na construção progressiva de uma vida concreta, e como as variações (mesmo insignificantes) nos componentes específicos desse acaso e dessa racionalidade são muito capazes de conseguir com que a vida do mesmo indivíduo tome rumos muito díspares. Voltamos então à pergunta: qual é o Jack autêntico? A resposta é que não existe tal coisa como um Jack autêntico. A crença na autenticiadade pessoal é o resultado de se supervalorizar o peso da racionalidade nas nossas vidas, de dar muita importância à persuasão ilusória de que as controlamos e encaminhamos em direção ao que queremos ser. Também é o resultado da falsa crença de que há somente uma coisa que queremos ser.

Manter o rumo fixo?
As descobertas, no sentido em que uso esta palavra, se diferenciam da busca. Supor que nossa existência discorre em um terreno perfeitamente plano e consiste sobretudo em buscar as vias que melhor nos aproximem a umas metas que ficaram esclarecidas de uma vez por todas é algo própio de uma mentalidade racionalista ao extremo. Ao contrário, reconhecer que a vida se desenvolve em um terreno montanhoso, em que nem todas as paragens são abarcadas ao primeiro golpe de vista, e no qual - ao caminhar pelas asperezas desta paisagem irregular e iacidentada - é possível realizar descobertas, significa começar a admitir que o curso dos acontecimentos futuros pode nos surpreender, e que nem todas as surpresas têm que ser desagradáveis.
As descobertas são acontecimentos ao mesmo tempo fortuitos e colaterais (subproductos). Para distingui-los da busca, usemos um exemplo simples: estamos buscando em um dicionário uma palavra cujo significado desconhecemos, e que sabemos que desconhecemos ("emetropia", digamos), e, enquanto fazemos isso, descobrimos o significado de outra palavra próxima ("emetologia"), que nem sequer sabíamos que existia e sobre a qual fortuitamente colocamos a vista. Ignorávamos o significado de "emetologia" tanto como o de "emetropia", mas além disso (e aqui reside a diferença), ignorávamos que ignorávamos. Quando buscávamos "emetropia", partíamos de uma ignorância conhecida (no que pese o oxímoro), que é a que além do mais estimulava nossa busca; no caso de "emetologia", ao contrário, o que há como ponto de partida é uma metaignorância, um não saber que não se sabe, de modo que aqui não tínhamos incentivo algum para empreender uma busca racional de nada: simplesmente é impossível buscar o que não se sabe que não se sabe. De maneira que não há forma iracional de fazer descobertas. As descobertas, como subprodutos que são, surgem quando não se busca ou quando se está buscando outra coisa. Além disso, as descobertas chegam a nós transportadas no ar pelo acaso, e só se trata - e não é pouca coisa - de estar alerta para perceber sua fugitiva presença.
No processo da busca, por outro lado, se produz um lapso temporal entre a consciência da ignorância e a supressão dela. (...) Ao contrário, quando acontece uma descoberta, a ignorância se dissipa enquanto percebos que existia; no mesmo instante em que se produz o reconhecimento da ignorância, se produz também seu desvanecimento. (...) Para que seja possível a descoberta, deve existir uma ignorância desconhecida de algo, e quando esse algo é notado, produz uma sacudida de surpresa que está caracteristicamente ausente no processo da busca: não contávamos com aquilo, não havia entrado em nossos cálculos; em outras palavras, o que aconteceu, aconteceu à margem de nossas faculdades racionais. Mas isso não significa que não seja valioso; antes tende a ser o contrário. Lembre-se do que dizia Elster: as coisas mais importantes na vida são essencialmente subprodutos.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Simplicidade

"Simplicidade não é inconsciência, simplicidade não é tolice; o espírito simples não é um simples de espírito! A simplicidade constitui, ao contrário, o 'antídoto da reflexividade' e da inteligência, que evita que estas se envaideçam, se percam em si e com isso percam o real, se deem demasiada importância, dissimulem, façam enfim obstáculo àquilo mesmo que pretendem revelar ou desvelar. A simplicidade aprende a se desprender, ou antes, ela é esse desprendimento de tudo e de si mesmo: 'Largar de mão', como diz Bobin, 'acolher o que vem, sem nada guardar como coisa sua...' Simplicidade é nudez, despojamento, pobreza. Sem outra riqueza senão tudo. Sem outro tesouro senão nada. Simplicidade é liberdade, leveza, transparência. Simples como o ar, livre como o ar: a simplicidade é o ar do pensamento, como uma janela aberta para o grande sopro do mundo, para a infinita e silenciosa presença de tudo...
(...) A simplicidade é esquecimento de si, de seu orgulho e de seu medo: é quietude contra inquietude, alegria contra preocupação, ligeireza contra seriedade, espontaneidade contra reflexão, amor contra amor-próprio, verdade contra pretensão... O eu subsiste nela, é claro, mas como que mais leve, purificado, libertado ('desligado de si', como diz Bobin, 'desprendido de todo reino'). Faz muito tempo, até, que ele renunciou a buscar sua salvação, que já não se preocupa com sua perda. A religião é complicada demais para ele. A própria moral é complicada demais para ele. Para que essas perpétuas voltas sobre si mesmo? Nunca acabaríamos de nos avaliar, de nos julgar, de nos condenar... Nossas melhores ações são suspeitas; nossos melhores sentimentos, equívocos. O simples sabe disso e nem se importa. Ele não se interessa suficientemente para se julgar. Para ele, a misericórdia faz as vezes de inocência, ou a inocência, talvez, de misericórdia. Ele não se leva nem a sério nem a trágico. Segue seu pequeno caminho, de coração leve, alma em paz, sem objetivo, sem nostalgia, sem impaciência. O mundo é seu reino, e lhe basta. O presente é sua eternidade, e o satisfaz. Nada tem a provar, pois não quer parecer nada. Nada tem a buscar, pois tudo está ali. Há coisa mais simples que a simplicidade? Há coisa mais leve? É a virtude dos sábios, e a sabedoria dos santos."

(Pequeno tratado das grandes virtudes, André Comte-Sponville)

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Amor como philia (ou amor-amizade)

Se alguém lhe disser: "Fico feliz com a idéia de que você existe"; ou então: "Quando penso que você existe, fico feliz"; ou ainda: "Há uma felicidade em mim, e a causa da minha felicidade é a idéia de que você existe...", você tomará isso por uma declaração de amor, e terá razão, é claro. Mas terá também muita sorte: não apenas porque uma declaração spinozista de amor não é para qualquer um, mas também e principalmente porque é uma declaração de amor, ó surpresa, que não lhe pede nada! Bem sei que quando se diz "eu te amo" também não se pede nada, aparentemente. Tudo depende no entanto do amor de que se trata. Se o amor é falta, dizer "eu te amo" é pedir não apenas que o outro responda "eu também", mas é pedir o outro mesmo, já que você o ama, já que ele lhe faz falta e já que toda falta, por definição, quer possuir! Que peso para aquele ou aquela que você ama! Que angústia! Que prisão! Regozijar-se, ao contrário, é não pedir absolutamente nada: é celebrar uma presença, uma existência, uma graça! Que leveza, para você e para o outro! Que liberdade! Que felicidade! Não é pedir, é agradecer. Não é possuir, é gozar e se regozijar. Não é falta, é gratidão. Quem não gosta de agradecer, quando ama? Quem não gosta de declarar seu amor, quando está feliz? E por isso mesmo é dom, é oferenda, é graça em troca. Quem não gosta de ser amado? Quem não se regozija com o regozijo que proporciona? Por isso o amor nutre o amor e o dobra, tanto mais forte, tanto mais leve, tanto mais ativo, diria Spinoza, quanto é sem falta. Essa leveza tem um nome: é a alegria. E uma prova: a felicidade dos amantes. Eu te amo: tenho alegria por existires.

(...) Tentemos, porém, compreender o que acontece nos outros casais, os que dão mais ou menos certo, os que dão inveja, os que parecem felizes e ainda parecem se amar, e se amar sempre... A paixão intacta, hoje mais que ontem e bem menos que amanhã? Não acredito nisso (...) Simplesmente esses amantes continuam a se desejar e, por certo, se vivem juntos há anos, é mais potência que falta, mais prazer que paixão, e quanto ao mais souberam transformar em alegria, em doçura, em gratidão, em lucidez, em confiança, em felicidade por estar juntos, em suma em philia, a grande loucura amorosa do começo. A ternura? É uma dimensão de seu amor, mas não a única. Também há a cumplicidade, a fidelidade, o humor, a intimidade do corpo e da alma, o prazer visitado e revisitado ("o amor realizado do desejo que permanece desejo", como diz Char), há o animal aceito, domesticado, ao mesmo tempo triunfante e vencido, há essas duas solidões tão próximas, tão atentas, tão respeitosas, como que habitadas uma pela outra, como que sustentadas uma pela outra, há essa alegria leve e simples, essa familiaridade, essa evidência, essa paz, há essa luz, o olhar do outro, há esse silêncio, sua escuta, há essa força de ser dois, essa abertura de ser dois, essa fragilidade de ser dois... Constituir apenas um? Faz muito tempo que renunciaram a isso, se é que um dia acreditaram nisso. Amam demais seu duo, com seus harmônicos, seu contraponto, suas dissonâncias às vezes, para querer transformá-lo em impossível monólogo! Passaram do amor louco ao amor sensato, se quisermos, e bem louco seria quem visse nisso uma perda, uma diminuição, uma banalização, quando é ao contrário um aprofundamento, mais amor, mais verdade, e a verdadeira exceção da vida afetiva. O que há de mais fácil de amar do que seu sonho? O que há de mais difícil de amar do que a realidade? O que há de mais fácil do que querer possuir? O que há de mais difícil do que saber aceitar? O que há de mais fácil do que a paixão? O que há de mais difícil do que o casal? Apaixonar-se está ao alcance de qualquer um. Amar não.

(Pequeno tratado das grandes virtudes, André Comte-Sponville)

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Manoel de Barros

Agora não quero saber mais nada, só quero aperfeiçoar o que não sei. 

VI
Descobri aos 13 anos que o que me dava prazer nas leituras
não era a beleza das frases, mas a doença delas.
Comuniquei ao Padre Ezequiel, um meu Preceptor, esse gosto esquisito.
Eu pensava que fosse um sujeito escaleno.
-Gostar de fazer defeitos na frase é muito saudável, o Padre me disse.
Ele fez um limpamento em meus receios.
O Padre falou ainda: Manoel, isso não é doença, pode muito
que você carregue para o resto da vida um certo gosto por nadas. . .
E se riu.
Você não é de bugre? - ele continuou.
Que sim, eu respondi.
Veja que bugre só pega por desvios, não anda em estradas -
Pois é nos desvios que encontra as melhores surpresas e os ariticuns maduros.
Há que apenas saber errar bem o seu idioma.
Esse Padre Ezequiel foi o meu primeiro professor de agramática.

XI
Bernardo é quase árvore.
Silêncio dele é tão alto que os passarinhos
ouvem de longe
E vêm pousar em seu ombro.
Seu olho renova as tardes.
Guarda num velho baú seus instrumentos de trabalho
1 abridor de amanhecer
1 prego que farfalha
1 encolhedor de rios - e
1 esticador de horizontes.
(Bernardo consegue esticar o horizonte usando 3
fios de teias de aranha. A coisa fica bem esticada.)
Bernardo desregula a natureza:
Seu olho aumenta o poente.
(Pode um homem enriquecer a natureza com a sua
incompletude?).

Auto-retrato Falado
Venho de um Cuiabá garimpo e de ruelas entortadas,
Meu pai teve uma venda de bananas no Beco da Marinha, onde nasci.
Me criei no Pantanal de Corumbá, entre bichos do chão,
pessoas humildes, aves, árvores e rios.
Aprecio viver em lugares decadentes por gosto de estar
entre pedras e lagartos.
Fazer o desprezível ser prezado é coisa que me apraz.
Já publiquei 10 livros de poesia; ao publicá-los me sinto
como que desonrado e fujo para o Pantanal onde sou
abençoado a garças.
Me procurei a vida inteira e não me achei - pelo que fui salvo.
Descobri que todos os caminhos levam a ignorância.
Não fui para a sarjeta porque herdei uma fazenda de gado. Os
bois me recriam.
Agora eu sou tão ocaso!
Estou na categoria de sofrer do moral, porque só faço coisas inúteis.
No meu morrer tem uma dor de árvore.

(Livro das Ignorãças)
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2.3 Eu queria crescer pra passarinho...

13.9 A mãe bateu no Mano Preto. Falou que eu não apanhava porque não dei motivo. Subi no pico do telhado para dar motivo. Aqui de cima a lua prateava. A mãe disse que aquilo não era motivo.

12.1 Choveu de noite até encostar em mim. O rio deve estar mais gordo. Escutei um perfume de sol nas águas.

1.3 As árvores me começam.

1.4 Uma violeta me pensou. Me encostei no azul de sua tarde.

10.4 Os patos prolongam meu olhar... Quando passam levando a tarde para longe eu acompanho...

22.4
Hoje completei 10 anos. Fabriquei um brinquedo com palavras. Minha mãe gostou. É assim:
De noite o silêncio estica os lírios.

3.
Não é por me gavar
mas eu não tenho esplendor.
Sou referente pra ferrugem
mais do que referente pra fulgor.
Trabalho arduamente para fazer o que é desnecessário.
O que presta não tem confirmação,
o que não presta, tem.
Não serei mais um pobre diabo que sofre de nobrezas.
Só as coisas rasteiras me celestam.
Eu tenho cacoete pra vadio.
As violetas me imensam.

8.
Nasci para administrar o à-toa
o em vão
o inútil.
Pertenço de fazer imagens.
Opero por semelhanças.
Retiro semelhanças de pessoas com árvores
de pessoas com rãs
de pessoas com pedras
etc etc.
Retiro semelhanças de árvores comigo.
Não tenho habilidade pra clarezas.
Preciso de obter sabedoria vegetal.
(Sabedoria vegetal é receber com naturalidade uma rã no talo.)
E quando esteja apropriado para pedra, terei também sabedoria mineral.

9. (...)
Quem acumula muita informação perde o condão de
adivinhar: divinare.

Os sabiás divinam.

10. É no ínfimo que eu vejo a exuberância.

11.
Todas as coisas inapropriadas ao abandono me religam
a Deus.
Senhor, eu tenho orgulho do imprestável!

(O abandono me protege.)

14.
O que não sei fazer desmancho em frases.

Eu fiz o nada aparecer.

(Represente que o homem é um poço escuro.
Aqui de cima não se vê nada.
Mas quando se chega ao fundo do poço já se pode ver
o nada.)

Perder o nada é um empobrecimento.

*
Para ter mais certezas tenho que me saber de imperfeições.
*
A inércia é meu ato principal.
*
Não saio de dentro de mim nem pra pescar.
*
Sabedoria pode ser que seja estar uma árvore.
*
Aonde eu não estou as palavras me acham.
*
Não gosto de palavra acostumada.
*
Não preciso do fim para chegar.

(Livro sobre o nada)
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Caso de Amor
(...) Eu estou imaginando que a estrada pensa que eu também sou como ela: uma coisa bem esquecida. Pode ser. Nem cachorro passa mais por nós. Mas eu ensino para ela como se deve comportar na solidão. Eu falo: deixe deixe meu amor, tudo vai acabar. Numa boa: a gente vai desaparecendo igual quando Carlitos vais desaparecendo no fim de uma estrada... Deixe, deixe, meu amor.

O Apanhador de Desperdícios
Uso a palavra  para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas.
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim esse atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso palavra para compor meus silêncios.

O Menino que Ganhou um Rio
Minha mãe me deu um rio.
Era dia de meu aniversário e ela não sabia
o que me presentear.
Fazia tempo que os mascates não passavam
naquele lugar esquecido.
Se o mascate passasse a minha mãe compraria
rapadura
Ou bolachinhas para me dar.
Mas como não passara o mascate, minha mãe me
deu um rio.
Era o mesmo rio que passava atrás de casa.
Eu estimei o presente mais do que fosse uma
rapadura do mascate.
Meu irmão ficou magoado porque ele gostava
do rio igual aos outros.
A mãe prometeu que no aniversáriod o meu
irmão
Ela iria dar uma árvore para ele.
Uma que fosse coberta de pássaros.
Eu bem ouvi a promessa que a mãe fizera ao
meu irmão
E achei legal.
Os pássaros ficavam durante o dia nas margens
do meu rio
E de noite eles iriam dormir na árvore do
meu irmão.
Meu irmão me provocava assim: a minha árvore
deu flores lindas em setembro.
E o seu rio não dá flores!
Eu respondia que a árvore dele não dava piraputanga.
Era verdade, mas o que nos unia demais eram
os banhos nus no rio entre pássaros.
Nesse ponto nossa vida era um afago!

Bocó
Quando o moço estava a catar caracóis e pedrinhas na beira do rio até duas horas da tarde, ali também Nhá Velina Cuê estava. A velha paraguaua de ver aquele moço a catar caracóis na beira do rio até duas horas da tarde, balançou a cabeça de um lado para o outro ao gesto de quem estivesse com pena do moço, e disse a palavra bocó. O moço ouviu a palavra bocó e foi para casa correndo a ver nos seus trinta e dois dicionários que coisa era bocó. Achou cerca de nove expressões que sugeriam símiles a tonto. E se riu de gostar. E separou para ele os nove símiles. Tais: Bocó é sempre alguém acrescentado de criança. Bocó é uma exceção de árvore. Bocó é um que gosta de conversar bobagens profundas com as águas. Bocó é aquele que fala sempre com sotaque das suas origens. É sempre alguém obscuro de mosca. É alguém que constrói sua casa com pouco cisco. É um que descobriu que as tardes fazem parte de haver beleza nos pássaros. Bocó é aquele que olhando para o chão enxerga um verme sendo-o. Bocó é uma espécie de sânie com alvoradas. Foi o que o moço colheu em seus trinta e dois dicionários. E ele se estimou.
(Memórias inventadas)
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segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

À sombra das chuteiras imortais

"Pobres de nós, que não sabemos respeitar as grandes paixões!"
Nelson Rodrigues

Em um domingo incontestavelmente corintiano, com a morte de Sócrates e a vitória no Campeonato Brasileiro, a centelha do meu amor por futebol, que há algum tempo andava um pouco apagada, voltou a me inspirar alguma comoção.
O entusiasmo aumentou com "Poderoso Timão, o filme". Iludida ou alienada, o fato é que não resisti às muitas histórias sobre um time e uma paixão, como à da "invasão corinthiana", "marcha" de 70 mil torcedores paulistas para o Rio de Janeiro, para acompanhar a semifinal do Campeonato Brasileiro de 76, com vitória de 4 x 1 do Corinthians sobre o  Fluminense, nos pênaltis. Ou à da final de 77 sobre a Ponte Preta, após 22 anos sem conquistar o título.
Apesar de não fazer parte do "bando de louco", a emoção corintiana no dia de ontem fez lembrar porque o futebol é fonte de tantas paixões humanas.


*
Tomada pela renovada empolgação futebolística, finalmente iniciei a leitura de "À sombra das chuteiras imortais", seleção de crônicas de Nelson Rodrigues, que, em sua prosa poética deliciosa, mostra porque futebol - e literatura! - podem ser tão apaixonantes.
Com tantos textos sedutores, ficou difícil escolher um única crônica para colocar aqui. Seguem três.

Bocage no futebol
Quando eu tinha meus cinco, meus seis anos, morava, ao lado de minha casa, um garoto que era tido e havido como o anticristo da rua. Sua idade regulava com a minha. E justiça se lhe faça: — não havia palavrão que ele não praticasse. Eu, na minha candura pânica, vivia cercado de conselhos, por todos os lados: — “Não brinca com Fulano, que ele diz nome feio!”. E o Fulano assumia, aos meus olhos, as proporções feéricas de um Drácula, de um Nero de fita de cinema. Mas o tempo passou. E acabei descobrindo que, afinal de contas, o anjo de boca suja estava com a razão. Sim, amigos: — cada nome feio que a vida extrai de nós é um estímulo vital irresistível. Por exemplo: — os nautas camonianos. Sem uma sólida, potente e jucunda pornografia, um Vasco da Gama, um Colombo, um Pedro Álvares Cabral não teriam sido almirantes nem de barca da Cantareira. O que os virilizava era o bom, o cálido, o inefável palavrão.
Mas, se nas relações humanas em geral, o nome feio produz esse impacto criador e libertário, que dizer do futebol? Eis a verdade: — retire-se a pornografia do futebol e nenhum jogo será possível, Como jogar ou como torcer se não podemos xingar ninguém? O craque ou o torcedor é um Bocage. Não o Bocage fidedigno, que nunca existiu. Para mim, o verdadeiro Bocage é o falso, isto é, o Bocage de anedota. Pois bem: — está para nascer um jogador ou um torcedor que não seja bocagiano. O craque brasileiro não sabe ganhar partidas sem o incentivo constante dos rijos e imortais palavrões da língua. Nós, de longe, vemos os 22 homens correndo em campo, matando-se, agonizando, rilhando os dentes. Parecem dopados e realmente o estão: — o chamado nome feio é o seu excitante eficaz, o seu afrodisíaco insuperável.
Exagero? Nem tanto, nem tanto. A propósito, vou citar aqui o caso de Jaguaré. No seu tempo, os clubes não tinham Departamento Médico e um jogador podia andar com a boca em petição de miséria, desfraldando cáries gigantescas. Assim era Jaguaré: — não tinha dentes, só cáries. E seu riso sem obturações, docemente alvar, era largo, permanente e terrível. E acontece o seguinte: — a época de Jaguaré coincidiu com a infância do profissionalismo. Morria-se de fome no futebol. O sujeito que tinha para a média, para o pão com manteiga, podia se considerar um Rockefeller, de tanga, mas Rockefeller.
Até que, um dia, apareceu por aqui o emissário de um clube estrangeiro. E o homem esfregou na cara de Jaguaré propostas dignas de um rajá. A princípio, o nosso patrício opôs uma recusa inexpugnável. Não queria aceitar nem por um decreto. Acabou cedendo. Andou pela Espanha e até por Paris. Mas era outro, como homem e como craque. Como jogar sem a pornografia lusobrasileira?
Sem as expressões obscenas que dinamizam, que transfiguram, que iluminam os jogadores? Traduzi-las seria uma traição. E Jaguaré vivia sob a persistente, a dilacerada nostalgia dos nomes feios intransportáveis.
Finalmente, não pôde mais: — voltou correndo para o Brasil. Aqui, agonizou e morreu na mais horrenda miséria. Mas feliz, porque pôde soltar, no idioma próprio, seus últimos palavrões terrenos.
[Manchete Esportiva, 14/1/1956]

É chato ser brasileiro!
Dizem que o Brasil tem analfabetos demais. E, no entanto, vejam vocês: — a vitória final, na Copa da Suécia, operou o milagre. Se analfabetos existiam, sumiram-se na vertigem do triunfo. A partir do momento em que o rei Gustavo da Suécia veio apertar as mãos dos Pelés, dos Didis, todo mundo aqui sofreu uma alfabetização
súbita. Sujeitos que não sabiam se gato se escreve com “x” iam ler a vitória no jornal. Sucedeu essa coisa sublime: — analfabetos natos e hereditários devoravam vespertinos, matutinos, revistas e liam tudo com uma ativa, uma devoradora curiosidade, que ia do “lance a lance” da partida até os anúncios de missa. Amigos, nunca se leu e, digo mais, nunca se releu tanto no Brasil.
E a quem devemos tanto? Ao escrete, amigos, ao escrete que, hoje, é o meu personagem da semana, meu múltiplo personagem. Personagem meu, do Brasil e do mundo. Graças aos 22 jogadores, que formaram a maior equipe de futebol da Terra em todos os tempos, graças a esses jogadores, dizia eu, o Brasil descobriu-se a si mesmo. Os simples, os bobos, os tapados hão de querer sufocar a vitória nos seus limites estritamente esportivos. Ilusão! Os 5 x 2, lá fora, contra tudo e contra todos, são um maravilhoso triunfo vital de todos nós e de cada um de nós. Do presidente da República ao apanhador de papel, do ministro do Supremo ao pé-rapado, todos aqui percebemos o seguinte: — é chato ser brasileiro!
Já ninguém tem mais vergonha de sua condição nacional. E as moças na rua, as datilógrafas, as comerciárias, as colegiais, andam pelas calçadas com um charme de Joana d’Arc. O povo já não se julga mais um vira-latas. Sim, amigos: — o brasileiro tem de si mesmo uma nova imagem. Ele já se vê na generosa totalidade de suas imensas virtudes pessoais e humanas.
Vejam como tudo mudou. A vitória passará a influir em todas as nossas relações com o mundo. Eu pergunto: — que éramos nós? Uns humildes. O brasileiro fazia-me lembrar aquele personagem de Dickens que vivia batendo no peito: — “Eu sou humilde! Eu sou o sujeito mais humilde do mundo!”. Vivia desfraldando essa humildade e a esfregando na cara de todo mundo. E, se alguém punha em dúvida a sua humildade, eis o Fulano esbravejante e querendo partir caras. Assim era o brasileiro. Servil com a namorada, com a mulher, com os credores. Mal comparando, um são Francisco de Assis, de camisola e alpercatas.
Mas vem a deslumbrante vitória do escrete e o brasileiro já trata a namorada, a mulher, os credores de outra maneira; reage diante do mundo com um potente, um irresistível élan vital. E vou mais além: — diziam de nós que éramos a flor de três raças tristes. A partir do título mundial, começamos a achar que a nossa tristeza é uma piada fracassada. Afirmava-se também que éramos feios. Mentira! Ou, pelo menos, o triunfo embelezou-nos. Na pior das hipóteses, somos uns ex-buchos.
E a quem devemos tanto? Ao meu personagem da semana. Ninguém aqui admitia que fôssemos os “maiores” em futebol. Rilhando os dentes de humildade, o brasileiro já não se considerava o melhor nem de cuspe à distância. E o escrete vem e dá um banho de bola, um show de futebol, um baile imortal na Suécia. Como se isso não bastasse, ainda se permite o luxo de vencer de goleada a última peleja. Foi uma lavagem total.
Outra característica da jornada: — o brasileiro sempre se achou um cafajeste irremediável e invejava o inglês. Hoje, com a nossa impecabilíssima linha disciplinar no Mundial, verificamos o seguinte: — o verdadeiro inglês, o único inglês, é o brasileiro.
[Manchete Esportiva, 12/7/1958]

A vingança de Julinho
Amigos, Julinho começou a ser o meu personagem da semana a partir do momento em que o vaiaram. Foi até, se me permitem a expressão, trágico. Insisto: — trágico! Quem estava lá viu ou, por outra, ouviu. No instante em que o alto-falante do Maracanã anunciou Julinho em lugar de Garrincha, o estádio entupido foi uma vaia só. Menos eu. Eis a verdade: — eu não apupei, embora preferisse Garrincha. Parecia-me que o escrete sem o “seu” Mané era um mutilado. Na pior das hipóteses, eu achava que Feola devia ter posto os dois: Julinho na ponta direita e Garrincha na esquerda.Mas um técnico tem razões que a razão desconhece. Puseram só Julinho e esqueceram Garrincha.
Verificou-se, então, o amargo e ululante desagrado da multidão. Naquele momento, ninguém se lembrou, no Maracanã e fora dele, de quem é Julinho na história do futebol brasileiro. Sim, amigos: — o homem andou pela Itália e quando voltou nós o olhamos, de alto a baixo, como se fosse um gringo qualquer ou, pior do que isso, como se fosse um perna-de-pau. Não há nada mais relapso do que a memória. Atrevo-me mesmo a dizer que a memória é uma vigarista, uma emérita falsificadora de fatos e de figuras. Por exemplo: — ninguém se lembrava de que, no Mundial da Suíça, contra os húngaros, Julinho fizera um carnaval medonho. De certa feita, driblara toda a defesa contrária para finalizar com uma bomba, e que bomba! O arqueiro nem viu por onde a bola entrou. Esse gol foi uma obra-prima e devia estar numa vitrine de turismo, para a admiração pateta dos visitantes. Pois bem: — ao ser anunciada a escalação de Julinho, a nossa memória apresentou-nos a imagem não autêntica, não fidedigna do craque, mas de um quase penetra do escrete.
Ao ouvir o apupo, eu fui um pouco oracular para mim mesmo. Imaginei o seguinte vaticínio: — “Julinho vai comer a bola!”. Podia parecer uma piada e, no entanto, era uma grave profecia. Eis a verdade: — para o jogador de caráter uma vaia é um incentivo fabuloso, um afrodisíaco infalível. Imagino que Julinho há de ter entrado em campo crispado da cabeça aos sapatos ou, retifico, às chuteiras. Nunca um craque foi tão só. Era um único contra 200 mil.Mas, homem de brio indomável, Julinho aceitou a luta: — bateu-se contra a multidão que o cercava por todos os lados, disposta a crucificá-lo em outras vaias. Mas, se nós tínhamos esquecido Julinho, Julinho não estava esquecido de si mesmo. Foi Julinho em cada um dos 45 minutos, foi sempre Julinho e só Julinho. Em inúmeras ocasiões o que ele fez com o adversário foi pior que xingar a mãe. E o primeiro gol, ah, o primeiro gol! Ele o marcou contra os ingleses, sim, mas também contra os que o vaiaram. Enfiou a bola de uma maneira, por assim dizer, sádica. Jamais houve um gol tão amorosamente sofrido como este. A partir da abertura da contagem, todo mundo passou a reconhecê-lo, todo mundo admitiu para si mesmo: — “Este é o Julinho!”. E era.
Ele não parou mais. Aquela multidão se arremessara contra ele como um touro enfurecido. Pois bem: — ele agarra o touro a unha e lhe quebra os chifres. Então, aconteceu o milagre. O ex-touro brabo, já manso, tornou-se em outro bicho. Sim, amigos: — do primeiro gol em diante, a multidão transformou-se em macaca-de-auditório” de Julinho. Se ele apanhava a bola, os 200 mil espectadores arreganhavam o riso enorme e já gozavam, por antecipação, o que Julinho iria fazer. Vejam vocês as ironias da vida e do futebol: — de um momento para outro, o vaiado, o apupado, o quase cuspido, transformava-se num triunfador. E, de fato, Julinho foi grande. Nos pés de Julinho a jogada se enfeitava como um índio de Carnaval. De certa feita, comeu um, dois, três, quatro e quase entrou com bola e tudo. Imagino que, nesse momento, lord Nelson há de ter perguntado, lá do alto, para o mais próximo companheiro de eternidade: — “Quem é esse cara?”. O “cara” era Julinho, sempre Julinho.
Assim é o brasileiro de brio. Dêem-lhe uma boa vaia e ele sai por aí, fazendo milagres, aos borbotões. Amigos, cada jogada de Julinho foi exatamente isto: — um milagre de futebol.
[Manchete Esportiva, 16/5/1959]

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Crime e castigo

"Lembro-me também de que eu, no meu artigo, desenvolvia a idéia de que todos... digamos, por exemplo, os legisladores e os fundadores da humanidade, começando pelos mais antigos e continuando por Licurgo, Sólon, Maomé, Napoleão etc. etc., todos, desde o primeiro até o último, tinham sido criminosos, mais não fosse senão porque, ao promulgarem leis novas, aboliam as antigas, tidas por sagradas pela sociedade e pelos antepassados, e certamente que não se teriam detido perante o sangue, sempre que isso (derramado às vezes com toda a inocência e virtude, em defesa das velhas leis) pudesse ser-lhes útil. Também é significativo que a maior parte desses benfeitores e fundadores da humanidade fossem uns sanguinários, especialmente ferozes. Em resumo: eu concluía daqui que todos os indivíduos, não só os grandes, como também aqueles que se afastassem um pouco da vulgaridade, isto é, também aqueles que são capazes de dizer qualquer coisa de novo, teriam a obrigação, pela sua própria natureza, de serem infalivelmente criminosos... em maior ou menos grau, naturalmente. De outro modo, ser-lhes-ia difícil saírem da vulgaridade, e eles não podem conformar-se a ficar nela, até pela mesma razão da sua natureza e, a meu ver, têm até a obrigação de não se conformarem. Em resumo: como o senhor vê, até aqui, isto não tem nada de particularmente novo. Isto já se imprimiu e foi lido milhares de vezes. Pelo que diz respeito à minha distinção entre homens vulgares e extraordinários, concordo em que é um tanto arbitrária; mas eu não citava números exatos. Eu só tenho fé na minha ideia essencial, que é aquela que consiste em dizer concretamente que os indivíduos se dividem, segundo a lei da natureza, em duas categorias: a inferior (dos vulgares), isto é, se me permite a expressão, a material, que unicamente é proveitosa para a procriação da espécie, e a dos indivíduos que possuem o dom ou a inteligência para dizerem no seu meio uma palavra nova. É claro que as subdivisões são infinitas, mas os traços diferenciais de ambas as categorias são bem nítidos: a primeira categoria, ou seja, a matéria, falando em termos gerais, é formada por indivíduos conservadores por natureza, disciplinados, que vivem na obediência e gostam de viver nela. A meu ver têm a obrigação de ser obedientes, por ser esse o seu destino e não ter, de maneira nenhuma, para eles, nada de humilhante. A segunda categoria é composta por aqueles que infringem as leis, os destrutores e os propensos a sê-lo, a julgar pelas suas faculdades. Os crimes destes são, naturalmente, relativos e muito diferentes; na sua maior parte exigem, segundo os mais diversos métodos, a destruição do presente em nome de qualquer coisa de melhor. Mas se necessitarem, para bem da sua ideia, de saltar ainda que seja por cima de um cadáver, por cima do sangue, atendendo unicamente à ideia e ao seu conteúdo, repare bem. É só nesse sentido que eu falo no meu artigo do seu direito ao crime. (Lembre-se, o senhor, que partimos de uma questão jurídica.) Embora, no fim de contas, não haja razão nenhuma para se ficar demasiado assustado; quase nunca a massa lhes reconhece esse direito, e até os castiga e os manda enforcar (mais ou menos); e assim, com absoluta justiça, cumpre o seu destino conservador, o que não é obstáculo para que, nas gerações seguintes, essa mesma massa erga os castigos sobre pedestais e se incline diante deles (mais ou menos). A primeira categoria é sempre a verdadeira dominadora: a segunda é... a futura dominadora. Os primeiros conservam o mundo e multiplicam-no matematicamente; os segundos movem-no e conduzem para a sua finalidade. Tanto uns como outros têm perfeito direito de existir. Em resumo: para mim, todos têm o mesmo direito, e... vive la guerre éternelle!... até a nova Jerusalém, naturalmente..."

(Crime e castigo, F. Dostoiévski)

sábado, 26 de novembro de 2011

Amor é pra quem ama

Qualquer amor já é
um pouquinho de saúde
um montão de claridade
contribuição
pra cura dos problemas da cidade

Qualquer amor que vem
desse vagabundo e bobo
coração atrapalhado
procurando o endereço
de outro coração fechado

Amor é pra quem ama
Amor matéria-prima
A chama
O sumo
A soma
O tema
Amor é pra quem vive
Amor que não prescreve
Eterno
Terno
Pleno
Insano

Luz do sol da noite escura

"qualquer amor já é
um pouquinho de saúde
um descanso na loucura"



*
A última frase é do Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa. A canção é de Chão, novo álbum de Lenine, com participação especial, sem edição (e sem convite!), do canário Frederico VI.
Se um disco, com sua sequência de faixas, pode ser considerado uma coletânea de contos, Chão foi concebido, segundo o compositor, como um romance, para ser lido-ouvido de uma só vez.
Um ditongo e uma palavra foram a inspiração. "No início, havia apenas a palavra e meu principal significado de chão: tudo aquilo que me sustenta. Chão, quase onomatopeia do andar - que soa nasal, reverbera no corpo todo".

terça-feira, 15 de novembro de 2011

O caminho

"Caminho" sempre serve de metáfora para diferentes coisas, apontando diversos sentidos. Mas, quando o caminho é, de fato, o próprio caminho, para que servem as metáforas?
"Não se escolhe uma vida. Vive-se uma." É a frase que separa pai e filho em "O caminho de Santiago". Thomas Avery (Martin Sheen), um médico oftalmologista da Califórnia, recebe a notícia inesperada da morte do filho Daniel (Emilio Estevez), nos Pirineus, ao iniciar o caminho de Santiago. Ao buscar o corpo do filho, Thomas decide, ele mesmo, realizar o caminho.
Dirigida por Estevez, esta é a história de uma bela produção, com imagens arrebatadoras e excelente trilha sonora. Mas não se deve esperar por respostas ou experiências místicas. Totalmente despretensioso - e nisto está, em grande parte, a sua beleza -, o filme não traz nenhuma grande revelação ou pedagogia religiosa. Talvez a própria vida seja maior que toda busca de sentido. Abandone as metáforas e apenas siga o caminho. Afinal, o caminho pode ser simplesmente o caminho.