sábado, 14 de agosto de 2010
domingo, 8 de agosto de 2010
Filosofia de vida
"Um homem é rico em proporção ao número de coisas de que pode prescindir." (Thoreau)
Não gosto muito da expressão "filosofia de vida", talvez por acreditar que ela não faça jus nem à filosofia, nem à vida, ou como se viver seguindo uma (ou crer que se vive de acordo com uma) fosse uma dessas ilusões que usamos para dar significado à existência. Uma bobagem, assim como "ter uma ideologia". Mas encontrei um caso, ou melhor, três, em que a expressão fez sentido pra mim. Na natureza selvagem, o filme. Into the wild, a trilha sonora. Thoreau, a inspiração.
O filme narra a história real de Christopher McCandless, que abandona tudo ao terminar a faculdade, para viver na natureza, seguindo um estilo de vida pouco usual, em nada ditado pelos padrões sociais. No caminho de desprendimento, ele se torna Alexander Supertramp. Dirigido por Sean Penn, o filme é dividido em fases que correspondem à trajetória de iluminação de McCandless/Supertramp. Surpreendente, intrigante, transformador. É praticamente impossível sair ileso ou não ser tocado em pelo menos uma ideia na teia embolorada de nossas mentes. Na natureza selvagem é um desses "filmes de cabeceira" que nos acompanha ao longo da vida, caso a nossa alma não envelheça.
A trilha sonora de Eddie Vedder é igualmente iluminadora. A sonoridade é deliciosa e emoldura a narrativa de modo perfeito. Letras como "Society, you're a crazy breed, hope you're not lonely without me" (Society), "I'll take this soul that's inside me now like a brand new friend I'll forever know" (Long Nights), "On bended knee is no way to be free" (Guaranteed), traduzem em forma de música a filosofia vivida por Christopher. A lista se completa com Setting Forth, No Ceiling, Far Behind, Rise, Tuolumme, Hard Sun, The Wolf e End of the Road. A trilha, mais um caminho de iluminação.
Henry David Thoreau (1817-1862) é um propragador dos ideais anarquistas (nesse sentido, vale a pena ler Desobediência Civil) e precursor da geração beatnik e do movimento hippie, defendendo princípios libertários, o desapego à sociedade e suas normas, e a vida simples na natureza. Absolutamente iluminador. É um dos autores que inspiram McCandless/ Supertramp. Walden, o livro que não o abandona. Na natureza selvagem é uma verdadeira materialização de suas ideias.
"Fui para os bosques porque pretendia viver deliberadamente, defrontar-me apenas com os fatos essenciais da vida, e ver se podia aprender o que tinha a me ensinar, em vez de descobrir à hora da morte que não tinha vivido. Não desejava viver o que não era vida, a vida sendo tão maravilhosa, nem desejava praticar a resignação, a menos que fosse de todo necessária. Queria viver em profundidade e sugar toda a medula da vida, viver tão vigorosa e espartanamente a ponto de pôr em debandada tudo que não fosse vida, deixando o espaço limpo e raso; encurralá-la num beco sem saída, reduzindo-a a seus elementos mais primários, e, se esta se revelasse mesquinha, adentrar-me então em sua total e genuína mesquinhez e proclamá-la ao mundo; e se fosse sublime, sabê-lo por experiência, e ser capaz de explicar tudo isso na próxima digressão." (Walden)
(Dedico essa postagem a três amigos: Vinícius, a primeira pessoa a me falar do filme e leitor antigo de Thoreau; André Rolim, por me lembrar do filme e me indicar outros também; e Igor, por ter me emprestado o filme e dividir comigo o interesse por essa "filosofia".)
quinta-feira, 5 de agosto de 2010
quarta-feira, 4 de agosto de 2010
Meditação
Experiência da professora de yoga Nicole Rodrigues, em um retiro Zen Budista
Não foram 4 dias maravilhosos. Não foram. Foram dias áridos, secos e de muitos, mas muitos mesmo, diálogos internos. Eu comi o pão que Buda amassou.No Zen Budismo não se faz meditação. Se faz zazen. Zazen, literalmente, significa sentar Zen.
(...) A nossa mente é uma coisa. Tão complexa, tão intrincada, que será eternamente objeto de estudo da ciência. Somos seres condicionados. Desde sempre condicionados. Viciados em pensar. Viciados em pensamentos dicotômicos. Isso é feio, isso é bonito, ela é inteligente, ela é burra, ele é gordo, ele é magro, estou triste, estou alegre, minha vida é boa, minha vida é ruim, eu queria ser assim, mas eu não sou assim, eu queria que minha vida fosse assim, eu queria que minha vida fosse assado, a escola dela tem mais alunos que a minha, portanto a escola dela é melhor que a minha, ela sabe isso, ela sabe aquilo, eu não sei isso, eu não sei aquilo, eu sou virginiana, ela é sagitariana, virginiano é uma mala sem alça, sagitariano é tudo de bom, meu emprego tá ruim, meu emprego tá bom, hoje tá frio, hoje está quente, meu zazen tá ruim, meu zazen tá bom, estou com pouco dinheiro, estou com muito dinheiro, se eu tivesse feito isso eu teria mudado minha vida, se eu tivesse falado aquilo naquela hora, se isso, se aquilo, se não isso, se não aquilo se se se se se sesesesesese blá blá blá aaahhh. É uma forma de pensar exaustiva. Somos grandes auto-sabotadores. Todos os três dias de retiro eu pensei: "Hoje eu vou embora. Vou dizer para Sensei que minha mãe ligou ou dizer que aconteceu um imprevisto e terei que sair antes, isso, aconteceu um imprevisto é uma excelente frase, sem explicações, simplesmente um imprevisto, ok".
(...) Mais um zazen, ô parede IN-SU-POR-TÁ-VEL. Blá blá blá blá blááá. Sino, please. Sinooooo. Buda, você me paga, te pego lá fora. Ardilosa, a mente tentava de todo jeito se manter no comando como ela sempre fez, falando, falando, falaaaando. Ai, estou com vontade de gritar, de chorar, quero mexer minha perna, ai minhas costas, maldita dor no meio das costas. Ainda faltam dois dias. Caramba, dois dias. O que significa mais 25 zazens, contando com as que restam hoje. Om om om, blá blá blá. Toca o sino, que inferno.
(...) Quarto dia. Algo aconteceu. Eu pensei tanto, mas tanto, que acho que esgotei todos, quer dizer, quase todos, os pensamentos. Primeiro zazen do dia...aaahhhhh, que maravilha. Mente quieta, coluna ereta, o coração tranquilo. Oi, parede. Te amo! Buda, você é tudo.
Aiai silencio ........................................... nossa, mas se eu não pensar, vou fazer o que então? Quase não estou pensando, mas se eu não pensar vou ser o quê, vou fazer o quê? "Abra mão dos pensamentos". Nenhum om sequer. Nada...ai que gostoso ........................................ é isso, é isso! Simplesmente Ser, estar, sem julgar, sem comparar, sem questionar, sem objeto de concentração, sem me sabotar, sem me culpar, sem achar que sou isso ou sou aquilo ........................................ Segundo zazen: aiai ........................................... Terceiro e último zazen do retiro: .............................................. que maravilha, que retiro maravilhoso, por que a gente sofre tanto com os nossos pensamentos? Para onde eles nos levam, o que conseguimos pensando tanto, para quê? Por que nos identificamos tanto com os nossos pensamentos? Por que não conseguimos simplesmente Ser?
(...) Agora é que vem o grande desafio. Cultivar o zazen sozinha, sem a sangha (comunidade), sem o grupo. Sentar. Ser. Simplesmente sentar e Ser. Um pouco todo dia, um sadhana, uma prática. Só sentar. De frente para a parede. Simples assim, difícil assim. Transformador assim.
(Veja o texto completo aqui)
Não foram 4 dias maravilhosos. Não foram. Foram dias áridos, secos e de muitos, mas muitos mesmo, diálogos internos. Eu comi o pão que Buda amassou.No Zen Budismo não se faz meditação. Se faz zazen. Zazen, literalmente, significa sentar Zen.
(...) A nossa mente é uma coisa. Tão complexa, tão intrincada, que será eternamente objeto de estudo da ciência. Somos seres condicionados. Desde sempre condicionados. Viciados em pensar. Viciados em pensamentos dicotômicos. Isso é feio, isso é bonito, ela é inteligente, ela é burra, ele é gordo, ele é magro, estou triste, estou alegre, minha vida é boa, minha vida é ruim, eu queria ser assim, mas eu não sou assim, eu queria que minha vida fosse assim, eu queria que minha vida fosse assado, a escola dela tem mais alunos que a minha, portanto a escola dela é melhor que a minha, ela sabe isso, ela sabe aquilo, eu não sei isso, eu não sei aquilo, eu sou virginiana, ela é sagitariana, virginiano é uma mala sem alça, sagitariano é tudo de bom, meu emprego tá ruim, meu emprego tá bom, hoje tá frio, hoje está quente, meu zazen tá ruim, meu zazen tá bom, estou com pouco dinheiro, estou com muito dinheiro, se eu tivesse feito isso eu teria mudado minha vida, se eu tivesse falado aquilo naquela hora, se isso, se aquilo, se não isso, se não aquilo se se se se se sesesesesese blá blá blá aaahhh. É uma forma de pensar exaustiva. Somos grandes auto-sabotadores. Todos os três dias de retiro eu pensei: "Hoje eu vou embora. Vou dizer para Sensei que minha mãe ligou ou dizer que aconteceu um imprevisto e terei que sair antes, isso, aconteceu um imprevisto é uma excelente frase, sem explicações, simplesmente um imprevisto, ok".
(...) Mais um zazen, ô parede IN-SU-POR-TÁ-VEL. Blá blá blá blá blááá. Sino, please. Sinooooo. Buda, você me paga, te pego lá fora. Ardilosa, a mente tentava de todo jeito se manter no comando como ela sempre fez, falando, falando, falaaaando. Ai, estou com vontade de gritar, de chorar, quero mexer minha perna, ai minhas costas, maldita dor no meio das costas. Ainda faltam dois dias. Caramba, dois dias. O que significa mais 25 zazens, contando com as que restam hoje. Om om om, blá blá blá. Toca o sino, que inferno.
(...) Quarto dia. Algo aconteceu. Eu pensei tanto, mas tanto, que acho que esgotei todos, quer dizer, quase todos, os pensamentos. Primeiro zazen do dia...aaahhhhh, que maravilha. Mente quieta, coluna ereta, o coração tranquilo. Oi, parede. Te amo! Buda, você é tudo.
Aiai silencio ........................................... nossa, mas se eu não pensar, vou fazer o que então? Quase não estou pensando, mas se eu não pensar vou ser o quê, vou fazer o quê? "Abra mão dos pensamentos". Nenhum om sequer. Nada...ai que gostoso ........................................ é isso, é isso! Simplesmente Ser, estar, sem julgar, sem comparar, sem questionar, sem objeto de concentração, sem me sabotar, sem me culpar, sem achar que sou isso ou sou aquilo ........................................ Segundo zazen: aiai ........................................... Terceiro e último zazen do retiro: .............................................. que maravilha, que retiro maravilhoso, por que a gente sofre tanto com os nossos pensamentos? Para onde eles nos levam, o que conseguimos pensando tanto, para quê? Por que nos identificamos tanto com os nossos pensamentos? Por que não conseguimos simplesmente Ser?
(...) Agora é que vem o grande desafio. Cultivar o zazen sozinha, sem a sangha (comunidade), sem o grupo. Sentar. Ser. Simplesmente sentar e Ser. Um pouco todo dia, um sadhana, uma prática. Só sentar. De frente para a parede. Simples assim, difícil assim. Transformador assim.
(Veja o texto completo aqui)
sábado, 24 de julho de 2010
Lição de alegria
Hoje vivi a minha própria versão do Pequeno Príncipe.
Ao invés do deserto, o cenário era a praia. Manhã cinzenta de chuva e vento frio. Fui até o mar para deixar as pernas imersas na água, verdadeira salmoura. A praia estava praticamente vazia. Na beira da água, uma menina brincava sozinha enquanto a mãe, afastada, conversava com uma senhora. Após meia hora de terapia, quando me preparava para partir, uma vozinha me chamou. Ela não me pedia que lhe desenhasse um carneiro, mas fazia um convite: "Moça, quer enterrar os pés na areia comigo?". Fui para o raso. "A gente não precisa fazer nada, é só deixar o mar cobrir nossos pés". A sensação era de alegria gratuita, a infância mais perto que nunca. "Agora vamos pular onda?". Expliquei que não podia e mostrei os joelhos machucados. "Onde você fez isso?"."Caí de bicicleta."."Você não sabe andar de bicicleta? Então tem que usar rodinha." Ela pulava e eu afundava os pés. Cada onda era um riso. "Posso segurar a sua mão?" Ela pulava ondas maiores e se apoiava em mim. De repente parava, abria bem os braços e fazia uma inspiração profunda. "Agora vamos apreciar a praia". A pequena yoguini me ensinava mais que os livros de filosofia. Uma japonesinha de seis anos de idade, risada de guiso de estrela, olhos verde-escuros, da cor do mar. Marina, o nome dela. Apreciamos a praia, os navios ao longe, a promessa de sol e a faixa azul do céu limpo lá na linha do horizonte, os pássaros pertinho - "tá vendo?" -, o vento no rosto - "tá sentindo?". Tudo era bom. Estar ali, reconhecer cada coisa que se movia e encontrar prazer nisso eram a diversão e a aprendizagem. Ela me contou, como se fosse a coisa mais natural do mundo, que sabia voar. Tinha asas imaginárias. Uma onda mais forte e num impulso ela pulou no meu colo. Nem me importei por ela estar toda molhada e eu morrendo de frio. Brincamos mais de mar e fizemos mais um amigo, Giovani. "Agora vamos fazer castelo?", "Vamos, mas eu não posso me abaixar.","Você vai ser a juíza e me dizer se o meu castelo está bom.". Acabou fazendo macarrão. Não, era arroz e feijão. Ensinei a fazer castelo de gotinhas. "Parece um bolo de chocolate.". Conversamos sobre bolinho de chuva. Uma hora inteira de brincadeira. O vento soprava mais forte e finalmente ela admitiu que estava com frio. Decidimos ir embora, sem tristeza alguma na despedida, apenas gratidão.
Antes de começar a escrever esse texto, abri meu email e encontrei essa frase do Guimarães Rosa, enviada hoje por minha irmã:
"Deus nos dá pessoas e coisas, para aprendermos a alegria... Depois, retoma coisas e pessoas para ver se já somos capazes da alegria sozinhos... Essa... a alegria que ele quer."
Agradeço o presente. E agradeço à Marina, menina dos olhos da cor do mar, pela lição de alegria.
Ao invés do deserto, o cenário era a praia. Manhã cinzenta de chuva e vento frio. Fui até o mar para deixar as pernas imersas na água, verdadeira salmoura. A praia estava praticamente vazia. Na beira da água, uma menina brincava sozinha enquanto a mãe, afastada, conversava com uma senhora. Após meia hora de terapia, quando me preparava para partir, uma vozinha me chamou. Ela não me pedia que lhe desenhasse um carneiro, mas fazia um convite: "Moça, quer enterrar os pés na areia comigo?". Fui para o raso. "A gente não precisa fazer nada, é só deixar o mar cobrir nossos pés". A sensação era de alegria gratuita, a infância mais perto que nunca. "Agora vamos pular onda?". Expliquei que não podia e mostrei os joelhos machucados. "Onde você fez isso?"."Caí de bicicleta."."Você não sabe andar de bicicleta? Então tem que usar rodinha." Ela pulava e eu afundava os pés. Cada onda era um riso. "Posso segurar a sua mão?" Ela pulava ondas maiores e se apoiava em mim. De repente parava, abria bem os braços e fazia uma inspiração profunda. "Agora vamos apreciar a praia". A pequena yoguini me ensinava mais que os livros de filosofia. Uma japonesinha de seis anos de idade, risada de guiso de estrela, olhos verde-escuros, da cor do mar. Marina, o nome dela. Apreciamos a praia, os navios ao longe, a promessa de sol e a faixa azul do céu limpo lá na linha do horizonte, os pássaros pertinho - "tá vendo?" -, o vento no rosto - "tá sentindo?". Tudo era bom. Estar ali, reconhecer cada coisa que se movia e encontrar prazer nisso eram a diversão e a aprendizagem. Ela me contou, como se fosse a coisa mais natural do mundo, que sabia voar. Tinha asas imaginárias. Uma onda mais forte e num impulso ela pulou no meu colo. Nem me importei por ela estar toda molhada e eu morrendo de frio. Brincamos mais de mar e fizemos mais um amigo, Giovani. "Agora vamos fazer castelo?", "Vamos, mas eu não posso me abaixar.","Você vai ser a juíza e me dizer se o meu castelo está bom.". Acabou fazendo macarrão. Não, era arroz e feijão. Ensinei a fazer castelo de gotinhas. "Parece um bolo de chocolate.". Conversamos sobre bolinho de chuva. Uma hora inteira de brincadeira. O vento soprava mais forte e finalmente ela admitiu que estava com frio. Decidimos ir embora, sem tristeza alguma na despedida, apenas gratidão.
Antes de começar a escrever esse texto, abri meu email e encontrei essa frase do Guimarães Rosa, enviada hoje por minha irmã:
"Deus nos dá pessoas e coisas, para aprendermos a alegria... Depois, retoma coisas e pessoas para ver se já somos capazes da alegria sozinhos... Essa... a alegria que ele quer."
Agradeço o presente. E agradeço à Marina, menina dos olhos da cor do mar, pela lição de alegria.
quinta-feira, 22 de julho de 2010
A queda
Hoje fiz a coisa mais patética da minha vida. Já fiz muitas coisas patéticas, mas acho que consegui me superar. Caí de bicicleta! Ainda não sei exatamente como, mas do que eu consegui racionalizar da situação, resvalei numa tartaruga, escorreguei e caí. Feio! Provalmente, este foi o tombo mais idiota da história dos tombos. Uma pessoa sozinha, completamente sozinha, atropelar uma tartaruga e cair no meio da rua. Sorte não estar passando nenhum carro.
Uma cena de comédia pastelão materializada em plena avenida da praia! Para minha surpresa, não fiquei com vergonha. Sempre pensei que o pior das quedas é a vergonha de cair, mas a sensação foi de raiva misturada com um ímpeto de auto-superação. Devo ter acompanhado demais o Tour de France - que sempre tem aquelas cenas incríveis de acidente, e os ciclistas sempre continuam -, porque ainda no chão, só conseguia pensar "levanta e anda!". E foi o que eu fiz. Ainda na esquina de casa, poderia ter voltado. Mas não. Segui meu caminho. Ao dar as primeiras pedaladas, senti muita dor e pensei que o negócio poderia ser feio, e por um breve instante, me deu uma vontade infantil de chorar. Passou logo.
De repente, a única coisa verdadeira que eu sentia era dor. Não tinha mais raiva, nem auto-piedade nem necessidade de consolo. Não precisava correr para alguém para mostrar os machucados, fazer beicinho e pedir pra assoprarem na hora do methiolate. Apenas eu e minha dor. E pode parecer loucura, mas isso me fez um bem enorme. Reconheci concretamente a minha capacidade de cair e levantar!
Ao chegar ao meu destino, avaliei as consequências do meu momento de epifania. Os dois joelhos esfolados e muito machucados. E dor, muita dor. Como um tombo tão besta foi capaz de fazer um estrago tão grande?
Na hora do banho, mais dor, e finalmente dei o braço a torcer, admitindo que a revelação poderia ter vindo de uma forma mais branda. Mas mesmo agora, com a dor intensificada e as articulações comprometidas, valorizo a experiência e relembro a passagem de Grande Sertão: Veredas, que eu repetia como um mantra durante todo o trajeto, com um sorriso no rosto e um certo orgulho:
"Todo caminho da gente é resvaloso. Mas, também, cair não prejudica demais - a gente levanta, a gente sobe, a gente volta!"
Uma cena de comédia pastelão materializada em plena avenida da praia! Para minha surpresa, não fiquei com vergonha. Sempre pensei que o pior das quedas é a vergonha de cair, mas a sensação foi de raiva misturada com um ímpeto de auto-superação. Devo ter acompanhado demais o Tour de France - que sempre tem aquelas cenas incríveis de acidente, e os ciclistas sempre continuam -, porque ainda no chão, só conseguia pensar "levanta e anda!". E foi o que eu fiz. Ainda na esquina de casa, poderia ter voltado. Mas não. Segui meu caminho. Ao dar as primeiras pedaladas, senti muita dor e pensei que o negócio poderia ser feio, e por um breve instante, me deu uma vontade infantil de chorar. Passou logo.
De repente, a única coisa verdadeira que eu sentia era dor. Não tinha mais raiva, nem auto-piedade nem necessidade de consolo. Não precisava correr para alguém para mostrar os machucados, fazer beicinho e pedir pra assoprarem na hora do methiolate. Apenas eu e minha dor. E pode parecer loucura, mas isso me fez um bem enorme. Reconheci concretamente a minha capacidade de cair e levantar!
Ao chegar ao meu destino, avaliei as consequências do meu momento de epifania. Os dois joelhos esfolados e muito machucados. E dor, muita dor. Como um tombo tão besta foi capaz de fazer um estrago tão grande?
Na hora do banho, mais dor, e finalmente dei o braço a torcer, admitindo que a revelação poderia ter vindo de uma forma mais branda. Mas mesmo agora, com a dor intensificada e as articulações comprometidas, valorizo a experiência e relembro a passagem de Grande Sertão: Veredas, que eu repetia como um mantra durante todo o trajeto, com um sorriso no rosto e um certo orgulho:
"Todo caminho da gente é resvaloso. Mas, também, cair não prejudica demais - a gente levanta, a gente sobe, a gente volta!"
domingo, 18 de julho de 2010
On the road
Finalmente, consegui ler On the road (Pé na estrada), de Jack Kerouac, um dos principais representantes da geração beat. A leitura supera qualquer coisa que se possa dizer sobre o livro. A sensação que fica é a do desejo de viver a loucura que é ser humano, guiado por uma fome insaciável de vida e pelo compromisso único de se tornar realmente autêntico.
"Eles percorriam as ruas juntos, sacando tudo com aquele jeito que tinham nesses primeiros anos, e que mais tarde se tornaria mais amargurado, penetrante e vazio. Mas, nessa época, eles dançavam pelas ruas como peões frenéticos, e eu me arrastava na mesma direção como tenho feito toda a minha vida, sempre rastejando atrás de pessoas que me interessam, porque, para mim, pessoas mesmo são os loucos, os que estão loucos para viver, loucos para falar, loucos para serem salvos, que querem tudo ao mesmo tempo, aqueles que nunca bocejam e jamais dizem coisas comuns, mas queimam, queimam, queimam como fabulosos fogos de artifício, explodindo como constelações em cujo centro fervilhante - pop - pode-se ver um brilho azul e intenso até que todos 'aaaaaaah!'"
"A única coisa pela qual ansiamos em nossos dias de vida, e que nos faz gemer e suspirar, sujeitos a todos os tipos de dóceis náuseas, é a lembrança de uma alegria perdida, provavelmente experimentada no útero, e que somente poderá ser reproduzida (apesar de odiarmos admitir isso) na morte. Mas quem quer morrer?"
"Amarguras, recriminações, conselhos, moralidade, tristeza - tudo lhe pesava nas costas, enquanto à sua frente se descortinava a alegria esfarrapada e extasiante de simplesmente ser."
"Relembrávamos essas coisas todas e suávamos. Tínhamos nos esquecido totalmente das pessoas sentadas à frente, e elas começaram a se perguntar o que estava se passando no assento traseiro. A certa altura, o motorista falou: - Pelo amor de Deus, vocês estão fazendo o carro balançar aí atrás. - E estávamos mesmo! O carro oscilava de um lado para outro, enquanto Dean e eu balançávamos no mesmo ritmo, e AQUILO era nossa alegria excitada e derradeira, a alegria que tínhamos de falar e viver, e que nos conduzia em direção ao transe definitivo e vazio de todas as inumeráveis partículas cerimoniais e angélicas que haviam estado soterradas no fundo de nossas almas toda a vida.
- Ah, homem! homem! homem! - balbuciou Dean. - E isso é apenas o começo... agora finalmente estamos juntos, indo para o leste, nunca tínhamos ido para o leste juntos, Sal, pense nisso, vamos curtir Denver juntos e ver o que todos estão fazendo, mesmo que isso não nos interesse muito, a questão é que nós sabemos o que AQUILO significa, e sacamos a VIDA e sabemos que tudo está ÓTIMO. - Depois, puxando-me pela manga e suando, ele me segredou: - Agora dê uma olhada nesse pessoal aí na frente. Estão preocupados, contando os quilômetros, pensando onde irão dormir esta noite, quanto dinheiro vão gastar em gasolina, se o tempo estará bom, de que maneira chegarão aonde pretendem... e, quando terminarem de pensar, já terão chegado aonde queriam, percebe? Mas eles têm que se preocupar e trair seus horários, cada minuto e cada segundo, entregando-se a tarefas aparentemente urgentes, todas falsas, ou então, a desejos caprichosos angustiados e angustiantes; suas mentes jamais descansam , não encontram paz, a não ser que se agarrem a uma preocupação explícita e comprovada, e, depois de encontrar uma, assumem expressões faciais adequadas, graves e circunspectas, e seguem em frente, e tudo isso não passa, você sabe, de pura infelicidade, e durante todo esse tempo a vida passa voando por eles, e eles sabem disso, e isso também os preocupa, num círculo vicioso que não tem fim."
Aproveito pra agradecer meu amigo Alexandre Moreira, que me emprestou o livro, apesar do risco declarado que corria de não mais rever seu exemplar. Gostei da prática adotada pelo Sr. Moreira de permitir que seus amigos deixem um recado na folha de rosto do livro, com uma mensagem, o nome e a data do empréstimo. Chamou minha atenção o recado de um amigo em comum, Daniel Alexandrino, antigo companheiro de debates literários. Tomo a liberdade de reproduzi-lo aqui:
"'On the Road' é... é... REVITALIZANTE, a palavra é esta. Apesar de parecer adjetivo próprio de shampoo, desta vez, tomo-a emprestada e qualifico um livro. Valeu Moreira!! (atual dono do livro; depois do famoso e público 'furto do sebo', em 95). Muito rica a leitura!! Daniel. 05/98"
"Eles percorriam as ruas juntos, sacando tudo com aquele jeito que tinham nesses primeiros anos, e que mais tarde se tornaria mais amargurado, penetrante e vazio. Mas, nessa época, eles dançavam pelas ruas como peões frenéticos, e eu me arrastava na mesma direção como tenho feito toda a minha vida, sempre rastejando atrás de pessoas que me interessam, porque, para mim, pessoas mesmo são os loucos, os que estão loucos para viver, loucos para falar, loucos para serem salvos, que querem tudo ao mesmo tempo, aqueles que nunca bocejam e jamais dizem coisas comuns, mas queimam, queimam, queimam como fabulosos fogos de artifício, explodindo como constelações em cujo centro fervilhante - pop - pode-se ver um brilho azul e intenso até que todos 'aaaaaaah!'"
"A única coisa pela qual ansiamos em nossos dias de vida, e que nos faz gemer e suspirar, sujeitos a todos os tipos de dóceis náuseas, é a lembrança de uma alegria perdida, provavelmente experimentada no útero, e que somente poderá ser reproduzida (apesar de odiarmos admitir isso) na morte. Mas quem quer morrer?"
"Amarguras, recriminações, conselhos, moralidade, tristeza - tudo lhe pesava nas costas, enquanto à sua frente se descortinava a alegria esfarrapada e extasiante de simplesmente ser."
"Relembrávamos essas coisas todas e suávamos. Tínhamos nos esquecido totalmente das pessoas sentadas à frente, e elas começaram a se perguntar o que estava se passando no assento traseiro. A certa altura, o motorista falou: - Pelo amor de Deus, vocês estão fazendo o carro balançar aí atrás. - E estávamos mesmo! O carro oscilava de um lado para outro, enquanto Dean e eu balançávamos no mesmo ritmo, e AQUILO era nossa alegria excitada e derradeira, a alegria que tínhamos de falar e viver, e que nos conduzia em direção ao transe definitivo e vazio de todas as inumeráveis partículas cerimoniais e angélicas que haviam estado soterradas no fundo de nossas almas toda a vida.
- Ah, homem! homem! homem! - balbuciou Dean. - E isso é apenas o começo... agora finalmente estamos juntos, indo para o leste, nunca tínhamos ido para o leste juntos, Sal, pense nisso, vamos curtir Denver juntos e ver o que todos estão fazendo, mesmo que isso não nos interesse muito, a questão é que nós sabemos o que AQUILO significa, e sacamos a VIDA e sabemos que tudo está ÓTIMO. - Depois, puxando-me pela manga e suando, ele me segredou: - Agora dê uma olhada nesse pessoal aí na frente. Estão preocupados, contando os quilômetros, pensando onde irão dormir esta noite, quanto dinheiro vão gastar em gasolina, se o tempo estará bom, de que maneira chegarão aonde pretendem... e, quando terminarem de pensar, já terão chegado aonde queriam, percebe? Mas eles têm que se preocupar e trair seus horários, cada minuto e cada segundo, entregando-se a tarefas aparentemente urgentes, todas falsas, ou então, a desejos caprichosos angustiados e angustiantes; suas mentes jamais descansam , não encontram paz, a não ser que se agarrem a uma preocupação explícita e comprovada, e, depois de encontrar uma, assumem expressões faciais adequadas, graves e circunspectas, e seguem em frente, e tudo isso não passa, você sabe, de pura infelicidade, e durante todo esse tempo a vida passa voando por eles, e eles sabem disso, e isso também os preocupa, num círculo vicioso que não tem fim."
***
Aproveito pra agradecer meu amigo Alexandre Moreira, que me emprestou o livro, apesar do risco declarado que corria de não mais rever seu exemplar. Gostei da prática adotada pelo Sr. Moreira de permitir que seus amigos deixem um recado na folha de rosto do livro, com uma mensagem, o nome e a data do empréstimo. Chamou minha atenção o recado de um amigo em comum, Daniel Alexandrino, antigo companheiro de debates literários. Tomo a liberdade de reproduzi-lo aqui:
"'On the Road' é... é... REVITALIZANTE, a palavra é esta. Apesar de parecer adjetivo próprio de shampoo, desta vez, tomo-a emprestada e qualifico um livro. Valeu Moreira!! (atual dono do livro; depois do famoso e público 'furto do sebo', em 95). Muito rica a leitura!! Daniel. 05/98"
sexta-feira, 2 de julho de 2010
Futebol
Meninos jogando bola na rua depois da derrota
do Brasil pra Holanda.
O entusiasmo e os gritos de gol destoam da tristeza do dia.
Isso é Brasil: a seleção perde, o futebol continua.
do Brasil pra Holanda.
O entusiasmo e os gritos de gol destoam da tristeza do dia.
Isso é Brasil: a seleção perde, o futebol continua.
terça-feira, 22 de junho de 2010
Muito mais que um desenho
Inspirado em filosofias orientais, Avatar é uma grande alegoria, em forma de desenho animado, do caminho de transcendência do homem e do universo. E isso não é interpretação exagerada ou forçada.
A série conta as aventuras de Aang, o último Avatar, que tem como missão salvar o mundo. A grande questão - e o maior atrativo do enredo - é que Aang é apenas um menino que, além de ter essa obrigação com a humanidade, se vê às voltas com a necessidade de crescer e se tornar o Avatar.
"O Guru" - 19º episódio do segundo livro (A série é dividida em livros, em que cada capítulo é um episódio) - é bastante emblemático dessa proposta de filosofia por trás (ou por meio) de desenho. Nesse capítulo, Aang vai em busca do Guru que vai lhe ensinar a ter o controle do estado de Avatar. Para isso, ele deve aprender a ter equilíbrio, antes de levar equilíbrio para o mundo (soa familiar?). A lição: libertar os chakras.
"Há sete chakras em nosso corpo. Cada poço de energia tem um propósito e pode ser bloqueado por um tipo específico de bloqueio emocional. Um aviso: abrir os chakras é uma experiência intensa e quando começa o processo, você não pode parar até os sete estarem abertos. Você está pronto?"
A partir daí, junto com as tramas paralelas do capítulo, Aang vai liberando cada um dos seus chakras.

Terra, a sobrevivência, bloqueado pelo medo. Água, o prazer, bloqueado pela culpa. Fogo, a força de vontade, bloqueado pela vergonha, a decepção conosco. Coração, o amor, bloqueado pela dor. Som, a verdade, bloqueado pelas mentiras que contamos a nós mesmos. Luz, discernimento, bloqueado pela ilusão. Pensamento, a energia cósmica, bloqueado pela ligação terrena. Por fim, a libertação. E a surpresa do capítulo.
Para além do caráter quase didático do episódio, destacam-se, enquanto desenho, as criações visuais das representações mentais e emocionais de Aang. Cada chakra tem sua cor e os bloqueios interiores de Aang são extremamente significativos e ligados ao restante da trama.
Ao final do capítulo, fica a vontade de ler o livro inteiro.
Para quem quiser "ler" ou conhecer mais, o site Mundo Avatar tem todos os episódios, além de dados e curiosidades sobre a série. O textos "Avatar: um bodisatva não é um lenda" e "Avatar: o último dominar das delusões", de José Benetti, falam sobre a relação entre o desenho animado e os ensinamentos budistas.
A série de animação também ganhou uma versão cinematográfica pelas mãos de M. Night Shyamalan, o mesmo diretor de Sexto Sentido.
O filme deve estrear no Brasil em agosto.
domingo, 20 de junho de 2010
Star Star
(Glen Hansard)
Star star teach me how to shine shine
Teach me so I know what's going on in your mind
'Cause I don't understand these people
Who say the hill's to steep
Well they talk and talk forever
But they just never climb
Falling down into situations
Bringing out the best in you
You're flat on your back again
And star you're ever word I'm heeding
Can you help me to see
I'm lost in the marsh
Star star teach me how to shine shine
Teach me so I know what's going on in your mind
'Cause I don't understand these people
Who say we're all asleep
They'll toss and turn forever
But no rest will they find...
Versão com a Marketa Irglova: The Swell Season
Star star teach me how to shine shine
Teach me so I know what's going on in your mind
'Cause I don't understand these people
Who say the hill's to steep
Well they talk and talk forever
But they just never climb
Falling down into situations
Bringing out the best in you
You're flat on your back again
And star you're ever word I'm heeding
Can you help me to see
I'm lost in the marsh
Star star teach me how to shine shine
Teach me so I know what's going on in your mind
'Cause I don't understand these people
Who say we're all asleep
They'll toss and turn forever
But no rest will they find...
Versão com a Marketa Irglova: The Swell Season
sábado, 19 de junho de 2010
A redescoberta do twitter
Tinha criado minha conta no twitter por pura obrigação. Tarefa de Jornalismo Online. Deixei lá. Um ano depois, retomei. Cansei. Deixei pra lá. Pouca paciência para dizer o que estou fazendo. Com o perdão dos meus amigos, também não estava interessada em ter conhecimento de quem está indo pra tal balada, falando não sei o quê para não sei quem, ou fazendo sei lá o quê.
Mas, graças ao Igor Petrovich (que ultimamente anda me apresentando coisas muito interessantes...), descobri um jeito gostoso de usar o twitter. Ele me sugeriu seguir o Glen Hansard, músico irlandês que participou do filme "Apenas uma vez" (um dos meus favoritos!).
Entre os tweets do Hansard, encontrei coisas como "The only way to keep something is with an open hand" e "First they ignore you, then they laugh at you, then they fight you, then you win." (Mahatma Gandhi), além de indicações de livros, filmes e músicas. Adorei.
Redescobrindo o twitter, procurei algumas pessoas que admiro e encontrei mais bons motivos para retomar essa rede econômica de relacionamentos. Millôr Fernandes, Alice Ruiz, Rubem Alves... a busca continua...
Algumas delícias de tweets:
"Responda depressa: o que é que faz quem não gosta de fazer nada e morre de tédio por não ter o que fazer?"
(Millôr Fernandes)
"O que você tem feito? Tem feito a cabeça, as ideias. Os sonhos de alguém?"
"A vida voa sem asas, a vida passa de graça."
"Atenção: Essa vida contém cenas explícitas de tédio. Nos intervalos da emoção."
(Alice Ruiz)
"Como são diferentes as mãos ternas das mãos que desejam posse! A ternura não deseja nada."
(Rubem Alves)
Também encontrei a Mafalda, do Quino:
"Hoje meus amigos e eu decidimos brincar de governo. Não fizemos absolutamente nada."
"O grande problema da família humana é que todos querem ser o pai."
"Mamãe disse que estamos no mundo para trabalhar, nos amar e fazer deste mundo um mundo
melhor. Não sabia que ela tinha tanto senso de humor!"
"'A bondade é natural no homem'... E a maldade deve ser de alguma dessas fibras artificiais que estão em moda no mundo inteiro."
"Às vezes vocês não se sentem um tanto indefinidos? "
"Como vamos a entender a los adultos, si cuando nosotros llegamos, ellos ya estaban todos empezados!"
"Como siempre: lo urgente no deja tiempo para lo Importante."
Mas, graças ao Igor Petrovich (que ultimamente anda me apresentando coisas muito interessantes...), descobri um jeito gostoso de usar o twitter. Ele me sugeriu seguir o Glen Hansard, músico irlandês que participou do filme "Apenas uma vez" (um dos meus favoritos!).
Entre os tweets do Hansard, encontrei coisas como "The only way to keep something is with an open hand" e "First they ignore you, then they laugh at you, then they fight you, then you win." (Mahatma Gandhi), além de indicações de livros, filmes e músicas. Adorei.
Redescobrindo o twitter, procurei algumas pessoas que admiro e encontrei mais bons motivos para retomar essa rede econômica de relacionamentos. Millôr Fernandes, Alice Ruiz, Rubem Alves... a busca continua...
Algumas delícias de tweets:
"Responda depressa: o que é que faz quem não gosta de fazer nada e morre de tédio por não ter o que fazer?"
(Millôr Fernandes)
"O que você tem feito? Tem feito a cabeça, as ideias. Os sonhos de alguém?"
"A vida voa sem asas, a vida passa de graça."
"Atenção: Essa vida contém cenas explícitas de tédio. Nos intervalos da emoção."
(Alice Ruiz)
"Como são diferentes as mãos ternas das mãos que desejam posse! A ternura não deseja nada."
(Rubem Alves)
Também encontrei a Mafalda, do Quino:
"Hoje meus amigos e eu decidimos brincar de governo. Não fizemos absolutamente nada."
"O grande problema da família humana é que todos querem ser o pai."
"Mamãe disse que estamos no mundo para trabalhar, nos amar e fazer deste mundo um mundo
melhor. Não sabia que ela tinha tanto senso de humor!""'A bondade é natural no homem'... E a maldade deve ser de alguma dessas fibras artificiais que estão em moda no mundo inteiro."
"Às vezes vocês não se sentem um tanto indefinidos? "
"Como vamos a entender a los adultos, si cuando nosotros llegamos, ellos ya estaban todos empezados!"
"Como siempre: lo urgente no deja tiempo para lo Importante."
domingo, 6 de junho de 2010
Loucos e Santos
Escolho meus amigos não pela pele ou outro arquétipo qualquer, mas pela pupila.
Têm que ter brilho questionador e tonalidade inquietante.
A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos.
Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo.
Deles não quero resposta, quero meu avesso.
Que me tragam dúvidas e angústias e agüentem o que há de pior em mim.
Para isso, só sendo louco.
Quero os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças.
Escolho meus amigos pela alma lavada e pela cara exposta.
Não quero só o ombro e o colo, quero também sua maior alegria.
Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto.
Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade.
Não quero risos previsíveis, nem choros piedosos.
Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça.
Não quero amigos adultos nem chatos.
Quero-os metade crianças e outra metade velhice!
Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto; e velhos, para que nunca tenham pressa.
Tenho amigos para saber quem eu sou.
Pois os vendo loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que "normalidade" é uma ilusão imbecil e estéril.
Oscar Wilde
Têm que ter brilho questionador e tonalidade inquietante.
A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos.
Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo.
Deles não quero resposta, quero meu avesso.
Que me tragam dúvidas e angústias e agüentem o que há de pior em mim.
Para isso, só sendo louco.
Quero os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças.
Escolho meus amigos pela alma lavada e pela cara exposta.
Não quero só o ombro e o colo, quero também sua maior alegria.
Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto.
Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade.
Não quero risos previsíveis, nem choros piedosos.
Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça.
Não quero amigos adultos nem chatos.
Quero-os metade crianças e outra metade velhice!
Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto; e velhos, para que nunca tenham pressa.
Tenho amigos para saber quem eu sou.
Pois os vendo loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que "normalidade" é uma ilusão imbecil e estéril.
Oscar Wilde
sábado, 13 de março de 2010
Crítica ou resenha?
Na última aula de Jornalismo Online, descobri que não sei escrever crítica de cinema. Como assim? Eu, que adoro filmes, não sei escrever sobre eles? Escrever, até sei - ou acho que sei. Mas não é crítica, é resenha. A diferença? Boa pergunta! O choque da revelação e a urgência de ter que elaborar uma crítica em uma hora me fizeram fazer, sem saber exatamente como fazer.
A título de ilustração, publico aqui a resenha e a crítica.
A título de ilustração, publico aqui a resenha e a crítica.
Peixe Grande
O cinema é a arte de contar histórias por meio de imagens em movimento. Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas, de Tim Burton, traduz bem essa arte.William Bloom, jornalista norte-americano vivendo em Paris, volta à cidade natal para rever o pai, paciente terminal de câncer. Os dois não se falavam há três anos, por conta de uma incompatibilidade essencial: o pai vivia contando histórias, o filho já não queria ouvi-las. Agora sua última narrativa seria a da própria morte.
Quando criança, Edward Bloom viu o modo como iria morrer nos olhos de uma bruxa - conhecimento que o libertou do medo de outras ameaças. "Se você sabe como vai morrer, pode sobreviver a qualquer coisa."
Viver e narrar o fim é a última grande aventura, e a busca de William pela linha que separa os fatos da ficção e o homem do mito acaba levando-o à descoberta de quem realmente é o seu pai.
Edward Bloom é um contador de histórias. Sua vida, plena de acontecimentos mirabolantes e personagens memoráveis, girava em torno de uma lenda: a do peixe grande. O ser inalcançável simbolizava a busca incansável. "O maior peixe do rio fica desse tamanho porque nunca é pego". Ambição, perseverança e astúcia levam Edward à jornada de se tornar maior que si mesmo.
História do Gigante. História da partida, da estrada desconhecida e de Spectre, a cidade perfeita. História do circo e do encontro com a garota do seu destino. História do grande amor. História da guerra e das gêmeas cantoras. Histórias de caixeiro-viajante e do assalto ao banco. História da destruição e reconstrução de Spectre. Jennifer Hill e a história da fidelidade. A história final.
Histórias ou mentiras? A rendição do filho ao encanto das lendas do pai acontece também em forma de narrativa. William assume a narração de como Edward vai morrer. Os papéis se invertem. O filho conta uma história para o pai. "Você se torna o que sempre foi: um peixe grande. E é assim que acontece".
Peixe Grande é a história de um reencontro, de aceitação e descoberta - a incrível jornada de tornar-se quem se é.
Superação sem clichês
Filmes de superação formam um filão lucrativo na indústria cinematográfica. Roteiros melodramáticos, trilha sonora tocante e astros carismáticos garantem lágrimas e a sensação de se ter tido uma “lição de vida” ao sair da sala. O Jardim Secreto, Jack¸ Meu Nome é Rádio, À Espera de um Milagre, Um Prova de Amor - a lista pode seguir infinitamente. Filmes que conquistaram espaço nos corações de espectadores em todo o mundo, mas não são, necessariamente, uma obra de arte. Apenas entretenimento. Tire todos os ingredientes da receitinha hollywoodiana convencional, e será que ainda é possível um belo filme de superação? O Escafandro e a Borboleta mostra que sim.
Não à toa, Schnabel, diretor de Basquiat - Traços de uma vida (1996) e Antes do Anoitecer (2000), levou em 2008 dois Globos de Ouro (melhor filme estrangeiro e melhor direção), o prêmio de melhor diretor e o Grande Prêmio Técnico no Festival de Cannes. Além disso, O Escafandro e a Borboleta foi indicado ao Oscar nas categorias melhor diretor, fotografia, edição e roteiro adaptado.
O filme é, sim, uma lição de vida. Mas acima de tudo é uma grande lição de cinema.
Lançado em 2007, o filme é baseado em uma história real. Jean-Dominique Bauby (uma interpretação memorável de Mathieu Amalric) tem 43 anos, é um famoso editor da revista Elle e um reconhecido bon vivant. Após sofrer um derrame cerebral, Bauby passa a viver em uma cama de hospital, tendo que enfrentar uma paralisia rara, que lhe permite apenas o movimento do olho esquerdo. A limitação o obriga a aprender a se comunicar piscando o olho. De letra em letra, ele forma palavras, frases, um livro. Sua obra é expressão do mundo que criou para sobreviver.
O roteiro, assinado por Ronald Harwood, é baseado no livro autobiográfico de Jean-Dominique Bauby. A fidelidade ao texto original é garantida por conta do recurso da narração em off feita pelo personagem principal. Seria clichê, se não fosse a direção primorosa de Julian Schnabel. A escolha dos ângulos e os movimentos de câmera acompanham o olho esquerdo de Bauby, garantindo cenas ora poéticas, ora angustiantes. A originalidade do recurso acerta em cheio e comove, sem sentimentalismo barato.Não à toa, Schnabel, diretor de Basquiat - Traços de uma vida (1996) e Antes do Anoitecer (2000), levou em 2008 dois Globos de Ouro (melhor filme estrangeiro e melhor direção), o prêmio de melhor diretor e o Grande Prêmio Técnico no Festival de Cannes. Além disso, O Escafandro e a Borboleta foi indicado ao Oscar nas categorias melhor diretor, fotografia, edição e roteiro adaptado.
O filme é, sim, uma lição de vida. Mas acima de tudo é uma grande lição de cinema.
domingo, 10 de janeiro de 2010
A delícia de ser um corpo
Aprender a tocar é aprender a sentir. A mão que desliza encontra o limite do corpo do outro que se entrega. E deixar-se tocar é mesmo isso: um exercício de entrega. E de libertação. O verdadeiro toque é um encontro de duas liberdades. Toda indiferença do toque rotineiro e já mecanizado pelo hábito desaparece. As mãos deixam de ser levianas pois sabem que o encontro de dois corpos exige a reverência e o respeito que se tem ao entrar-se em um templo.
Aula de Yoga Massagem. Uma experiência verdadeiramente sensual, no sentido de envolver todo o corpo e os sentidos. E espiritual, por exigir o Ser. Encontro sutil de duas energias. O prazer de sentir-se tocado renovando-se no momento de tocar. Exercício de presença. E mais uma oportunidade de experimentar a delícia de ser um corpo.
Aula de Yoga Massagem. Uma experiência verdadeiramente sensual, no sentido de envolver todo o corpo e os sentidos. E espiritual, por exigir o Ser. Encontro sutil de duas energias. O prazer de sentir-se tocado renovando-se no momento de tocar. Exercício de presença. E mais uma oportunidade de experimentar a delícia de ser um corpo.
sexta-feira, 4 de dezembro de 2009
A melhor companhia
Ontem fiz uma coisa que há tempos não fazia: fui ao cinema sozinha. Vi "500 dias com ela". Mas este não é um texto sobre o filme, e sim, sobre ir ao cinema sozinha.
Muitas pessoas não conseguem, nem nos seus piores pesadelos, considerar a possibilidade, por mais remota que seja, de irem ao cinema sozinhas. Passar por uma experiência traumática como essa seria não apenas vivenciar a própria solidão, mas, mais importante e traumático ainda, expor essa solidão para outras pessoas. Só de imaginar a vergonha na sala de espera em meio a casais apaixonados, grupos de amigos, senhorinhas felizes e acompanhadas! Curtir solidão vendo filme sozinha em casa, tudo bem, mas em público?
São pessoas que realmente não conseguem ficar sozinhas. Precisam se apegar a pessoas, prazeres e até mesmo ideias para preencher o vazio que sentem. É o que geralmente fazemos quando somos acometidos pelo tédio e pela solidão. Livros, filmes, companhia... nada parece aplacar a angústia de sentir... nada! Quando estamos nesse estado, a sensação da solidão acompanhada, de estar só na multidão, é sintomática e devastadora.
Mas e se encontrarmos na solidão, neste estar só, o espaço e o tempo necessários para estarmos realmente em boa companhia? Sem escapes, sem fugas, transferências ou auto-enganação. Estar consigo mesmo. E só. Sem precisar de mais nada nem de mais ninguém. Só. Descobrindo o prazer de aprender "a dor e a delícia de ser o que é", como diria Caetano. E encontrar aquele lugar de bem-aventurança justamente no vazio.
Krishnamurti dá duras e boas lições sobre a solidão. "É necessário ficar só, conhecer esse estar só não induzido pelas circunstâncias, esse estar só que não é isolamento, esse estar só que é criatividade, condição na qual a mente já não busca a felicidade nem a virtude, nem cria resistência. A mente que está só é a única que pode encontrar - não a mente contaminada, corrompida pelas próprias experiências. Assim, talvez a solidão, de que todos temos consciência, possa, se soubermos como encará-la, abrir a porta para a realidade."
Ir ao cinema sozinha pode ser um bom exercício. Ontem senti essa plenitude do estar só de que fala Krishnamurti. Tudo bem que cheguei ao cinema atrasada, "perdi" toda a "emoção" da sala de espera e no escuro da sala de exibição, ninguém notou a minha chegada... sozinha. Mas, para minha surpresa, quando o filme acabou e as luzes se acenderam, percebi que havia outras pessoas também desacompanhadas, e uma mulher sentada a duas cadeiras de mim, sozinha, me sorriu. Não sei se o sorriso dizia simplesmente "que filme lindo!", ou "veja só: nós duas aqui, sozinhas, nos divertindo!", ou as duas coisas. Só sei que senti, naquele momento, após o êxtase da solidão plena, a alegria da solidão compartilhada.
Muitas pessoas não conseguem, nem nos seus piores pesadelos, considerar a possibilidade, por mais remota que seja, de irem ao cinema sozinhas. Passar por uma experiência traumática como essa seria não apenas vivenciar a própria solidão, mas, mais importante e traumático ainda, expor essa solidão para outras pessoas. Só de imaginar a vergonha na sala de espera em meio a casais apaixonados, grupos de amigos, senhorinhas felizes e acompanhadas! Curtir solidão vendo filme sozinha em casa, tudo bem, mas em público?
São pessoas que realmente não conseguem ficar sozinhas. Precisam se apegar a pessoas, prazeres e até mesmo ideias para preencher o vazio que sentem. É o que geralmente fazemos quando somos acometidos pelo tédio e pela solidão. Livros, filmes, companhia... nada parece aplacar a angústia de sentir... nada! Quando estamos nesse estado, a sensação da solidão acompanhada, de estar só na multidão, é sintomática e devastadora.
Mas e se encontrarmos na solidão, neste estar só, o espaço e o tempo necessários para estarmos realmente em boa companhia? Sem escapes, sem fugas, transferências ou auto-enganação. Estar consigo mesmo. E só. Sem precisar de mais nada nem de mais ninguém. Só. Descobrindo o prazer de aprender "a dor e a delícia de ser o que é", como diria Caetano. E encontrar aquele lugar de bem-aventurança justamente no vazio.
Krishnamurti dá duras e boas lições sobre a solidão. "É necessário ficar só, conhecer esse estar só não induzido pelas circunstâncias, esse estar só que não é isolamento, esse estar só que é criatividade, condição na qual a mente já não busca a felicidade nem a virtude, nem cria resistência. A mente que está só é a única que pode encontrar - não a mente contaminada, corrompida pelas próprias experiências. Assim, talvez a solidão, de que todos temos consciência, possa, se soubermos como encará-la, abrir a porta para a realidade."
Ir ao cinema sozinha pode ser um bom exercício. Ontem senti essa plenitude do estar só de que fala Krishnamurti. Tudo bem que cheguei ao cinema atrasada, "perdi" toda a "emoção" da sala de espera e no escuro da sala de exibição, ninguém notou a minha chegada... sozinha. Mas, para minha surpresa, quando o filme acabou e as luzes se acenderam, percebi que havia outras pessoas também desacompanhadas, e uma mulher sentada a duas cadeiras de mim, sozinha, me sorriu. Não sei se o sorriso dizia simplesmente "que filme lindo!", ou "veja só: nós duas aqui, sozinhas, nos divertindo!", ou as duas coisas. Só sei que senti, naquele momento, após o êxtase da solidão plena, a alegria da solidão compartilhada.
quarta-feira, 2 de dezembro de 2009
A graça do futebol
"No futebol, as sobras, a 'valorização' da posse de bola, o tempo produtivo e o tempo improdutivo, a catimba, o desperdício e a poupança, os 'olés', a impossibilidade de contabilização numérica ou gradual exaustiva, tudo faz parte do jogo. Em certos momentos, quando, por exemplo, uma bola cruza toda a extensão do gol desguarnecido depois de um toque precioso e preciso, ou quando um súbito 'chapéu' coroa inesperadamente um jogador que esboça uma reação já inútil no momento breve, o tempo se distende, como se durasse eternamente por um instante. O placar descreve e não descreve a partida, é 'justo' e 'injusto'. Ao contrário das artes em geral, a competência pode ser contabilizada porque se traduz em gols. Mas ao contrário dos outros esportes, a contabilização ná dá conta do acontecimento."
(Veneno Remédio - O futebol e o Brasil, José Miguel Wisnik)
(Veneno Remédio - O futebol e o Brasil, José Miguel Wisnik)
segunda-feira, 2 de novembro de 2009
Dia de Sol
A manhã lendo Rubem Braga sob o sol... "Mar diário e enorme, ocupando toda a vida, uma vida de bamboleio de canoa, de paciência, de força de sacrifício sem finalidade, de perigo sem sentido, de lirismo, de energia; grande e perigoso mar fabricando um homem..."
A tarde com o sobrinho, alegria da casa, rei da piscina. Meu pequeno príncipe, enfrentando baleias e tubarões imaginários. Corrida, carro flutuante, pulos no ar, batatinha, "cadê o sol, Miguel?", ginástica na escada, patinhos quein-quein, "que cor é lilás?". A procura do lilás. Tchau, Miguel.
O cheiro do sol na pele mesmo depois do banho. O cansaço bom. E aquela vertigem de felicidade. Gosto de vida bem vivida.
Dia de sol.
A tarde com o sobrinho, alegria da casa, rei da piscina. Meu pequeno príncipe, enfrentando baleias e tubarões imaginários. Corrida, carro flutuante, pulos no ar, batatinha, "cadê o sol, Miguel?", ginástica na escada, patinhos quein-quein, "que cor é lilás?". A procura do lilás. Tchau, Miguel.
O cheiro do sol na pele mesmo depois do banho. O cansaço bom. E aquela vertigem de felicidade. Gosto de vida bem vivida.
Dia de sol.
sábado, 3 de outubro de 2009
Conversa em bolinhas
- Gosto da versão dele de "Garotos".
- Gosto da versão dele do Charlie Brown.
- Essa eu não conheço.
- "Ela achou meu cabelo engraçado. Proibida pra mim, no way...". Bem baladinha.
- Ah, nunca ouvi.
O ônibus lotado, indiferente à nossa conversa musical, vira na Avenida Presidente Wilson.
- Você conhece a "Quase nada"? "De você, sei..."
- "Quase nada...". Ah! Lembrei! Já ouvi a versão do Charlie Brown, sim.
- E a "Você vai comigo aonde eu for, você vai bem se vem comigo..."?
- Não conheço.
-"Serei seu amigo e seu bem. Fica bem, mas fica só comigo...". Se você quiser te empreso o cd.
- Eu quero. Ah! O livro do Zuenir Ventura chegou!
- Me empresta? E eu preciso te emprestar o livro em inglês e o filme da Renata Agondi.
- Rose, tenho que descer nesse ponto.
A Gabi levanta, mas o semáforo fecha. Volta a sentar.
- Dá tempo de a gente falar mais alguma coisa.
- O que a gente vai falar em cinco bolinhas? Tem que ser algo importante! É mesmo, quanto tempo a gente leva pra falar o essencial? Isso daria um filme... Você tem quatro bolinhas pra me dizer alguma coisa importante!
- Ai... A gente vai no show do Zeca Baleiro!
- Isso eu já sei. Tem que ser alguma coisa que eu não sei.
- O que a gente pode dizer em três bolinhas? Ah! Pintei minha unha de vermelho! Mas isso não é importante...
- É uma banalidade, mas as banalidades também são importantes... Gabi, você tem uma bolinha! O sinal já vai abrir!
- Já sei! Ontem passei no meio de duas freiras e fiz um pedido! Dizem que se a gente passa por duas freiras, tem que fazer um pedido. É por isso que elas andam juntinhas, pra não deixar ninguém passar entre elas. É uma crença popular.
Minha vó que me contou...
Uma bolinha de semáforo e mais uma história para guardar de recordação.
- Gosto da versão dele do Charlie Brown.
- Essa eu não conheço.
- "Ela achou meu cabelo engraçado. Proibida pra mim, no way...". Bem baladinha.
- Ah, nunca ouvi.
O ônibus lotado, indiferente à nossa conversa musical, vira na Avenida Presidente Wilson.
- Você conhece a "Quase nada"? "De você, sei..."
- "Quase nada...". Ah! Lembrei! Já ouvi a versão do Charlie Brown, sim.
- E a "Você vai comigo aonde eu for, você vai bem se vem comigo..."?
- Não conheço.
-"Serei seu amigo e seu bem. Fica bem, mas fica só comigo...". Se você quiser te empreso o cd.
- Eu quero. Ah! O livro do Zuenir Ventura chegou!
- Me empresta? E eu preciso te emprestar o livro em inglês e o filme da Renata Agondi.
- Rose, tenho que descer nesse ponto.
A Gabi levanta, mas o semáforo fecha. Volta a sentar.
- Dá tempo de a gente falar mais alguma coisa.
- O que a gente vai falar em cinco bolinhas? Tem que ser algo importante! É mesmo, quanto tempo a gente leva pra falar o essencial? Isso daria um filme... Você tem quatro bolinhas pra me dizer alguma coisa importante!
- Ai... A gente vai no show do Zeca Baleiro!
- Isso eu já sei. Tem que ser alguma coisa que eu não sei.
- O que a gente pode dizer em três bolinhas? Ah! Pintei minha unha de vermelho! Mas isso não é importante...
- É uma banalidade, mas as banalidades também são importantes... Gabi, você tem uma bolinha! O sinal já vai abrir!
- Já sei! Ontem passei no meio de duas freiras e fiz um pedido! Dizem que se a gente passa por duas freiras, tem que fazer um pedido. É por isso que elas andam juntinhas, pra não deixar ninguém passar entre elas. É uma crença popular.
Minha vó que me contou...
Uma bolinha de semáforo e mais uma história para guardar de recordação.
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