"Ninguém se sente como um adulto. É o segredo do mundo."
(Peter Hoberg, em Liberal Arts, filme escrito, dirigido e estrelado por Josh Radnor)
domingo, 20 de janeiro de 2013
terça-feira, 15 de janeiro de 2013
Hunter S. Thompson por ele mesmo
Res Ipsa Loquitur. A coisa fala por si mesma. Este é o refrão. O medo é o fio condutor. O bizarro profissional, mas nada de paranoia. Com o perdão da obviedade, a única coisa que se compara à leitura da autobiografia de Hunter S. Thompson é ler o que quer que seja de Hunter S. Thompson - se é que tudo o que ele escreveu já não fosse autobiográfico. Res Ipsa Loquitur. No caso de "Reino do medo", a vida fala por si mesma.
"Sou um músico confuso que perdeu o rumo nesse maldito negócio da Palavra por tanto tempo que me esqueci de retornar à música - a não ser, talvez, quando me encontro extraordinariamente sozinho num recinto silencioso com apenas uma máquina de escrever para tocar e saudade de escrever músicas. Vai saber por quê. Talvez eu apenas sinta vontade de cantar - então bato à máquina.
Essas ágeis teclas elétricas são ao mesmo tempo meu Instrumento, minha harpa, meu microfone RCA de válvula de vidro e meu sofisticado saxofone soprano. Essa é a minha música, para o bem e para o mal, e há noites em que ela faz com que eu me sinta um deus. Veni, Vidi, Vici... É aí que começa a diversão..
(...) Então quem sabe possamos considerar que meu trabalho é em parte (ou todo, às vezes) geneticamente governado por meus frustrantes fracassos musicais, que levaram a uma presunçosa sublimação de meus instintos musicais essenciais, que com certeza me perseguem de modo tão flagrante quanto dominam minhas letras de música."
"Sempre tive e ainda tenho a ambição de escrever ficção. Nunca tive nenhuma verdadeira ambição no jornalismo, mas os acontecimentos, o destino e meu próprio senso de diversão continuam me fazendo voltar por causa de dinheiro, de razões políticas, e também porque sou um guerreiro. Nunca encontrei uma droga que chegasse perto da piração de sentar numa mesa e ficar escrevendo, tentando imaginar uma história, não importa o quão bizarra seja, ou então de sair e penetrar na bizarrice da realidade, passando um tempinho na Estrada do Orgulho." (Março de 1990, entrevista a William Mckeen)
"É o aspecto mais desconcertante desse instável personagem. Como ele consegue? Passamos a noite bebendo sem parar. Está com a cabeça cheia de THC. De vez em quando, como um tamanduá, ele enterra o nariz e volta engasgando. Dunhills são consumidos ininterruptamente. Ele segue o horário de um vampiro que chupa o sangue dos maníacos por velocidade. E ainda assim... ainda assim, ele faz sentido. Para mim, faz mais sentido que qualquer outra pessoa escrevendo hoje, porque ele ENTENDE O QUE ESTÁ ACONTECENDO.
(...) 'Fiz a minha escolha há muito tempo', diz o doutor enquanto olha pela mira. 'Alguns dizem que sou um lagarto sem pulsação. A verdade é... Jesus, vai saber. Nunca achei que passaria dos vinte e sete. Todo dia, fico tão impressionado quanto os outros quando me dou conta de que ainda estou vivo.'
É possível que ele não saiba, mas duvido disso. Percebo, através do nevoeiro em meu próprio cérebro, que o dr. Thompson está numa espécie de estado de graça psicofisiológico, porque durante todos esses anos ele permaneceu fiel a si mesmo."
(Richard Stratton, High Times, agosto de 1991)
"É por isso que venero Deus em segredo, amigos. Ele teve o bom senso de me deixar em paz para escrever sozinho algumas genuínas páginas em preto-e-branco, para variar."
(HST, setembro de 2002)
"Sou um músico confuso que perdeu o rumo nesse maldito negócio da Palavra por tanto tempo que me esqueci de retornar à música - a não ser, talvez, quando me encontro extraordinariamente sozinho num recinto silencioso com apenas uma máquina de escrever para tocar e saudade de escrever músicas. Vai saber por quê. Talvez eu apenas sinta vontade de cantar - então bato à máquina.
Essas ágeis teclas elétricas são ao mesmo tempo meu Instrumento, minha harpa, meu microfone RCA de válvula de vidro e meu sofisticado saxofone soprano. Essa é a minha música, para o bem e para o mal, e há noites em que ela faz com que eu me sinta um deus. Veni, Vidi, Vici... É aí que começa a diversão..
(...) Então quem sabe possamos considerar que meu trabalho é em parte (ou todo, às vezes) geneticamente governado por meus frustrantes fracassos musicais, que levaram a uma presunçosa sublimação de meus instintos musicais essenciais, que com certeza me perseguem de modo tão flagrante quanto dominam minhas letras de música."
"Sempre tive e ainda tenho a ambição de escrever ficção. Nunca tive nenhuma verdadeira ambição no jornalismo, mas os acontecimentos, o destino e meu próprio senso de diversão continuam me fazendo voltar por causa de dinheiro, de razões políticas, e também porque sou um guerreiro. Nunca encontrei uma droga que chegasse perto da piração de sentar numa mesa e ficar escrevendo, tentando imaginar uma história, não importa o quão bizarra seja, ou então de sair e penetrar na bizarrice da realidade, passando um tempinho na Estrada do Orgulho." (Março de 1990, entrevista a William Mckeen)
"É o aspecto mais desconcertante desse instável personagem. Como ele consegue? Passamos a noite bebendo sem parar. Está com a cabeça cheia de THC. De vez em quando, como um tamanduá, ele enterra o nariz e volta engasgando. Dunhills são consumidos ininterruptamente. Ele segue o horário de um vampiro que chupa o sangue dos maníacos por velocidade. E ainda assim... ainda assim, ele faz sentido. Para mim, faz mais sentido que qualquer outra pessoa escrevendo hoje, porque ele ENTENDE O QUE ESTÁ ACONTECENDO.
(...) 'Fiz a minha escolha há muito tempo', diz o doutor enquanto olha pela mira. 'Alguns dizem que sou um lagarto sem pulsação. A verdade é... Jesus, vai saber. Nunca achei que passaria dos vinte e sete. Todo dia, fico tão impressionado quanto os outros quando me dou conta de que ainda estou vivo.'
É possível que ele não saiba, mas duvido disso. Percebo, através do nevoeiro em meu próprio cérebro, que o dr. Thompson está numa espécie de estado de graça psicofisiológico, porque durante todos esses anos ele permaneceu fiel a si mesmo."
(Richard Stratton, High Times, agosto de 1991)
"É por isso que venero Deus em segredo, amigos. Ele teve o bom senso de me deixar em paz para escrever sozinho algumas genuínas páginas em preto-e-branco, para variar."
(HST, setembro de 2002)
sábado, 12 de janeiro de 2013
As boas coisas da vida
Rubem Braga
Uma revista mais ou menos frívola pediu a várias pessoas para dizer "dez coisas que fazem a vida valer a pena". Sem pensar demasiado, fiz esta pequena lista:
- Esbarrar às vezes com certas comidas da infância, por exemplo: aipim cozido, ainda quente, com melado de cana que vem numa garrafa cuja a rolha é um sabugo de milho. O sabugo dará um certo gosto ao melado? Dá: gosto de infância, de tarde na fazenda.
- Tomar um banho excelente num bom hotel, vestir uma roupa confortável e sair pela primeira vez pelas ruas de uma cidade estranha, achando que ali vão acontecer coisas surpreendentes e lindas. E acontecerem.
- Quando você vai andando por um lugar e há um bate-bola, sentir que a bola vem para seu lado e, de repente, dar um chute perfeito - e ser aplaudido pelos serventes de pedreiro.
- Ler pela primeira vez um poema realmente bom. Ou um pedaço de prosa, daqueles que dão inveja na gente e vontade de reler.
- Aquele momento que você sente que de um velho amor ficou uma grande amizade - ou que uma grande amizade está virando, de repente, amor.
- Sentir que você deixou de gostar de uma mulher que, afinal, para você, era apenas aflição de espírito e frustração da carne - a mulher não te deu e não te dá, essa amaldiçoada.
- Viajar, partir….
- Voltar.
- Quando se vive na Europa, voltar para Paris; quando se vive no Brasil, voltar para o Rio.
- Pensar que, por pior que estejam as coisas, há sempre uma solução, a morte - o assim chamado descanso eterno.
(Pequena homenagem ao centenário de nascimento de Rubem Braga, ele mesmo uma das melhores coisas da vida. Mais do grande cronista em "A poesia da vida real")
Uma revista mais ou menos frívola pediu a várias pessoas para dizer "dez coisas que fazem a vida valer a pena". Sem pensar demasiado, fiz esta pequena lista:
- Esbarrar às vezes com certas comidas da infância, por exemplo: aipim cozido, ainda quente, com melado de cana que vem numa garrafa cuja a rolha é um sabugo de milho. O sabugo dará um certo gosto ao melado? Dá: gosto de infância, de tarde na fazenda.
- Tomar um banho excelente num bom hotel, vestir uma roupa confortável e sair pela primeira vez pelas ruas de uma cidade estranha, achando que ali vão acontecer coisas surpreendentes e lindas. E acontecerem.
- Quando você vai andando por um lugar e há um bate-bola, sentir que a bola vem para seu lado e, de repente, dar um chute perfeito - e ser aplaudido pelos serventes de pedreiro.
- Ler pela primeira vez um poema realmente bom. Ou um pedaço de prosa, daqueles que dão inveja na gente e vontade de reler.
- Aquele momento que você sente que de um velho amor ficou uma grande amizade - ou que uma grande amizade está virando, de repente, amor.
- Sentir que você deixou de gostar de uma mulher que, afinal, para você, era apenas aflição de espírito e frustração da carne - a mulher não te deu e não te dá, essa amaldiçoada.
- Viajar, partir….
- Voltar.
- Quando se vive na Europa, voltar para Paris; quando se vive no Brasil, voltar para o Rio.
- Pensar que, por pior que estejam as coisas, há sempre uma solução, a morte - o assim chamado descanso eterno.
(Pequena homenagem ao centenário de nascimento de Rubem Braga, ele mesmo uma das melhores coisas da vida. Mais do grande cronista em "A poesia da vida real")
segunda-feira, 7 de janeiro de 2013
Submarine
"Hoje à noite, me deparei com um texto sobre ultrassom. Ultrassom é uma vibração de alta frequência que é inaudível. Foi desenvolvido para localizar objetos submersos: submarinos, bombas de profundidade, Atlantis e tal. Alguns animais, como morcegos, golfinhos e cães podem ouvir na frequência ultrassônica. Mas nenhum ser humano pode. Ninguém realmente sabe o que alguém pensa ou sente. O que há dentro da minha mãe? O que há dentro do meu pai? O que há dentro de Jordana? Estamos todos viajando sob o radar, sem sermos detectados. E ninguém pode fazer nada a respeito." (Oliver Tate, em Submarine)
Mais lindo que o filme, só a trilha sonora do Alex Turner (Arctic Monkeys):
quinta-feira, 3 de janeiro de 2013
O mar, o mar
"Então, reencontrar o grande amor da vida depois de tantos anos, era aquilo? E não havíamos sido as tímidas, francas e inocentes criaturas que certa vez havíamos sido um para o outro? A natureza de nossa conversa jamais fora corrompida, e, nessa desajeitada conversação, sua nota poderia ser inequivocamente ouvida outra vez. Talvez eu realmente pudesse, através dela e através de nosso antigo amor infantil, agora irremediavelmente casto, ser capaz de me tornar aquilo que desejei vir a ser quando vim para o mar - um puro de coração."
(O mar, o mar, Iris Murdoch)
(Fui arrastada para esse livro por dois motivos: primeiro, conhecer o trabalho da escritora e filósofa inglesa Iris Murdoch, belamente retratada em Iris, filme de 2001, estrelado por Kate Winslet e Judi Dench; e também pela história em si, a vida de Charles Arrowby, famoso diretor de teatro que abandona tudo para viver em paz e solidão perto do mar - uma espécie de Walden moderno, pensei. A surpresa (e, em parte, a decepção) foi encontrar uma história de reencontro com o primeiro amor - o patético da obsessão e a desilusão final como catarse pessoal inesperada).
(O mar, o mar, Iris Murdoch)
(Fui arrastada para esse livro por dois motivos: primeiro, conhecer o trabalho da escritora e filósofa inglesa Iris Murdoch, belamente retratada em Iris, filme de 2001, estrelado por Kate Winslet e Judi Dench; e também pela história em si, a vida de Charles Arrowby, famoso diretor de teatro que abandona tudo para viver em paz e solidão perto do mar - uma espécie de Walden moderno, pensei. A surpresa (e, em parte, a decepção) foi encontrar uma história de reencontro com o primeiro amor - o patético da obsessão e a desilusão final como catarse pessoal inesperada).
quinta-feira, 27 de dezembro de 2012
sábado, 15 de dezembro de 2012
Mary Poppins e eu
Mary Poppins foi meu Papai Noel. Em nenhuma época da minha infância, lembro de ter realmente acreditado que Papai Noel existisse, ou de ter me importado de verdade com ele. Mas na Mary Poppins eu acreditava. Para mim, ela de fato existia e morava em algum lugar mágico. Ou em Londres mesmo. Viajar de guarda-chuva era um de seus atributos especiais, mas não por isso impossíveis. Se havia trenós com renas e bruxas em vassouras, por que não uma babá de guarda-chuva? Não era apenas perfeitamente plausível, mas até mesmo natural. O fantástico se naturalizava porque o encantamento era mais forte que o real. E eu ansiava por aquela espécie de magia, capaz de transformar as pessoas em seres melhores e mais felizes. A verdadeira mágica estava aí, e por isso eu realmente acreditava nela."Uma colher de açúcar ajuda o remédio a descer" era a principal lição nessa aprendizagem da alegria. A infância recuperada como o tempo e o espaço da diversão, da descoberta. Bastava um pouquinho de açúcar, e quem, por mais miserável que fosse, não teria um pouquinho de açúcar para dar?
Por muito tempo, esperei por Mary Poppins. Sonhava em entrar num desenho no chão de uma praça, brincar com bichinhos animados que cantavam e dançavam, apostar corrida em cavalo de carrossel. Praticava diligentemente, como um mantra ou uma oração, a pronúncia da palavra mais poderosa de todas: "supercalifragilisticexpialidocious" (que, então, eu dizia "supercalifragiliexpialicious"). Também queria visitar o Tio Albert, cuja "doença" era não conseguir parar de rir. E suspirava apaixonadamente pelo Bert (nossa relação era desde cedo ambígua, porque ao mesmo tempo em que o imaginava como um tio, queria me casar com ele).Depois de esperar por Mary Poppins, passei a querer ser ela. Assim como algumas pessoas querem ser anjos. Era minha referência mais real de ascese espiritual e de busca possível por uma bondade fundamental (bondade no sentido em que dizemos que alguém é "bom", mas principalmente na concepção de "bondoso" - o bem aliado à benevolência e ao contentamento, simples mas difícil de se alcançar). Ainda é.
Rever Mary Poppins foi uma viagem emocional à minha infância e àquela parte de mim que ainda acredita que uma colher de açúcar ajuda a descer qualquer remédio.
segunda-feira, 10 de dezembro de 2012
quarta-feira, 5 de dezembro de 2012
O Pasquim
Pasquim: jornal crítico ou calunioso, geralmente impresso de forma simples; jornal de má qualidade, jornaleco; escrito satírico afixado em local público. Estas são as definições do Dicionário Aulete. Mas se você juntar Millôr Fernandes, Jaguar, Ziraldo, Sérgio Cabral, Sérgio Augusto, Fortuna, Luiz Carlos Maciel, Ivan Lessa, Henfil, Tarso de Castro, Paulo Francis, entre outros (incluindo aqui os colaboradores eventuais, como Vinicius de Moraes, Chico Buarque, Rubem Braga, Glauber Rocha, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Rubem Fonseca, Caetano Veloso...), vai saber o que realmente significa O Pasquim. Um grupo de jornalistas, escritores, cartunistas e humoristas se reúne no final dos anos 60, em pleno regime militar, para fazer um jornal de oposição. A principal arma: o humor.O primeiro volume de O Pasquim - Antologia (ao todo, foram publicado três volumes, organizados por Sérgio Augusto e Jaguar) traz o que de melhor foi produzido durante os dois primeiros anos do jornal (e é tanta coisa boa que fica difícil escolher o que citar para dar ideia da insanidade criativa da famosa patota). Na introdução, Sérgio Augusto explica o que foi O Pasquim:
"Foi o maior fenômeno editorial da imprensa brasileira. E não adianta discutir. O Cruzeiro? Tinha atrás de si uma poderosa empresa jornalística, os Diários Associados de Assis Chateubriand. Veja? Ora, veja. Com a editora Abril bancando a aventura, modéstia à parte, até eu. Atrás de O Pasquim, só havia um punhado de porras-loucas.
Assumidamente nanico, moleque, paroquial e abusado, nasceu sob a suspeita de que duraria pouco tempo; menos até que os oito números da Pif-Paf, criada em 1964 por Millôr Fernandes e inviabilizada pela censura dos milicos que naquele ano haviam assumido o poder. Mas durou, afinal, 1072 números - o equivalente a 22 anos de vida.
As suspeitas iniciais tinham razão de ser. Onde já se viu um jornal sem patrão, onde todos os colaboradores podiam escrever o que bem entendessem e como bem entendessem? Pois a velha utopia de dez em cada dez jornalistas revelou-se, mais do que factível, um sucesso - fulminante e retumbante. A tal ponto que o cético Millôr, que no primeiro número previra menos de três meses de vida para o solerte hebdomadário, admitiu, já no quarto número, que se equivocara.
(...) Foi, sem dúvida, um risco; quase uma bravata. Entre setembro de 1968, quando a ideia do jornal não era mais que um brilho nos olhos de Jaguar e Tarso de Castro, e 26 de junho de 1969, quando o primeiro número chegou às bancas, os generais haviam 'legalizado' a ditadura com o AI-5 e a censura apertara as cravelhas nas redações menos dóceis ao novo regime. O Pasquim não pagou barato pela audácia de já nascer 'do contra' (sobretudo contra as babaquices da classe média) e 'livre como um táxi', 'equilibrado como um pingente', 'incômodo como um folião num velório'. E ainda que nos primeiros tempos fosse mais folgazão, gozador, festivo (a expressão 'esquerda festiva' foi inventada por um dos seus colaboradores, Carlos Leonam) e atento a questões de comportamento, aos poucos deixou-se contaminar pelo inevitável: a indignação política. Sem, contudo, abrir mão do velho preceito de Horácio (reciclado poe Jean de Santeuil): o riso é a melhor arma contra todas as imposturas."
Segue um documentário realizado pela TV Câmara sobre a história do jornal:
terça-feira, 27 de novembro de 2012
Billy Eckstine por Ivan Lessa
"Gente é mito. Mito é você, meu bem, 10 minutos depois que eu fui embora. Mito sou eu, no meu táxi, enquanto você dá a corda no despertador. Mito é sempre ontem, mito é sempre longe. Parte do mito que deixamos com os outros e que os outros deixam com a gente está na voz. Alguém na janela dizendo que é hora de almoço, a voz do amigo repetindo que é tarde demais, o pai falando 'durma... durma, meu filho...' e as pessoas nos quadros. E as pessoas nos livros. E nos jornais. E nos cinemas. E na televisão. E nos discos. Todas, todas querendo dizer alguma coisa. Que é assim mesmo. Ou que não deveria ser assim. É sim e é não e é talvez. Isto o que fica. Este o jeito pequeno, muito pequeno, com que damos e recebemos coisas. A vida vai indo e o coro é cada vez maior. Há que apurar os ouvidos e catar as vozes que nos interessam. Para melhor ou para pior, estamos a elas afinados.Quando a telefonista do The White House Hotel, em Albany Street, Regent's Park, me deu o quarto 340 e alguém do outro lado da linha atendeu, expliquei que estava tentando localizar o sr. Eckstine. A voz me disse:
- Speaking.
23 anos depois de, na Calle Corrientes, em Buenos Aires, numa cabina de casa de discos eu ter escutado pela primeira vez (Just An Old Love Of Mine) a voz de Billy Eckstine, o mito de minha vitrola parou de cantar e começou a falar:
- Speaking.
E esperou para ouvir o que eu tinha a dizer. Não era muito. Expliquei que, na verdade, tentava localizá-lo há 23 anos. Riu. Vim com a conversa de que era um Brazilian journalist coisa e tal.
(...) Em 1949, Sinatra sussurrava que 'os tolos seguem caminhos temidos pelos anjos' (Fools Rush In). Eckstine, passando por cima do clichê, afirmava que a viagem era tudo, a paisagem o ponto principal. Sua voz era aqui e agora. Seu conceito de canção, um enorme 'sim'.
(...) Eckstine está com 50 e muitos. A voz adquiriu uma textura ainda mais profunda de couro marrom-escuro. Nela pode-se distinguir um trombone de vara, a seção de metais da orquestra de Duke Ellington, um piano de Nova Orleans, cabarés infames de Chicago, o polimento de Detroit, a poluição de Pittsburgh, a glória que foi o Carnegie Hall. E se você prestar muita atenção: tanto bate-papo entre disc-jockeys e representantes das fábricas de discos, agentes com charuto na boca discutindo preços, músicos ganhando 25 dólares para ficar a noite inteira acompanhando um boboca de violão em punho e, felizmente, Jelly, Jelly."
(Ivan Lessa, "Entrevista Billy Eckstine" - uma das melhores que já li! - O Pasquim, Antologia)
domingo, 25 de novembro de 2012
Felicidade é um cobertor quente
"Eu preciso do meu cobertor! Eu admito! Olhe para vocês. Quem entre vocês não sente insegurança? Quem entre vocês não depende de alguém ou de alguma coisa para ajudar a passar o dia? Quem entre vocês pode atirar a primeira pedra?" (Linus, Peanuts, Charles Schulz)
(Postagem inspirada pelo Emerson: http://ocinematografo.blogspot.com.br/2012/11/a-felicidade-e-um-cobertor-quente.html)
sexta-feira, 23 de novembro de 2012
Um banquinho, um violão (uma guitarra, um ukelele)
Documentário e show ou show permeado de imagens de Eddie Vedder fora do palco, viajando, escrevendo música, surfando ou cortando coco em sua casa no Havaí. Conversa e risos no palco. Versões acústicas para músicas do Pearl Jam, canções da carreira solo - algumas da trilha sonora de Na natureza selvagem (preciosidade o Vedder falando sobre o Chris McCandless entre Guaranteed e Setting Forth) -, a voz da EJ Barnes em Golden State ("We are luck, we are fate, we are the feeling you get in the golden state..."), belas interpretações de músicas de Bob Dylan (Girl from the North Country, Forever Young). Tudo isso e um pouco mais é Water on the Road: Eddie Vedder Live.
Sometimes
Large fingers pushing paint
You're God and you got big hands
The colours blend
The challenges you give man
Seek my part
Devote myself
My small self
Like a book amongst the many on a shelf
Sometimes I know
Sometimes I rise
Sometimes I fall
Sometimes I don't
Sometimes I cringe
Sometimes I live
Sometimes I walk
Sometimes I kneel
Sometimes I speak of nothing at all
Sometimes I reach to myself
dear God
Large fingers pushing paint
You're God and you got big hands
The colours blend
The challenges you give man
Seek my part
Devote myself
My small self
Like a book amongst the many on a shelf
Sometimes I know
Sometimes I rise
Sometimes I fall
Sometimes I don't
Sometimes I cringe
Sometimes I live
Sometimes I walk
Sometimes I kneel
Sometimes I speak of nothing at all
Sometimes I reach to myself
dear God
terça-feira, 13 de novembro de 2012
Poeme-se
(Poema de Vânia Jordão)
(Essa versão em pontos de ônibus de Vitória, com arte de Maiara Dias, faz parte do projeto de arquitetura e urbanismo Pontos de Arte, desenvolvido na Universidade Federal do Espírito Santo)
terça-feira, 6 de novembro de 2012
On the road, o filme (ou o livro?)
Literatura e cinema. Será que uma grande obra literária sobrevive à sua adaptação cinematográfica? Estava até com medo de assistir a On the road, só para não ter que pensar nestas questões, aliás, bem batidas. Livro é livro, filme é filme, e é inútil tentar comparar duas linguagens tão específicas e distintas entre si. Mas no caso de Jack Kerouac, não resisti à tentação da comparação.
Além de perder a forte sensação de "vida vivida" provocada pelo texto, meu maior receio antes de ver o filme era o de encontrar alguns de meus personagens literários favoritos mortos e esquartejados. Bom, Sal Paradise e Dean Moriarty até estão bem representados em sua versão cinematográfica, mas não são o Sal Paradise e o Dean Moriarty a quem contemplei, muito mais que libertários de tabus sociais, como verdadeiros espíritos livres, de uma liberdade de outra espécie, uma dimensão outra do que é ser livre.
Além da diferença - natural, por sinal - de representações mentais, quem ama o livro também corre o risco de esperar em vão pelas citações de algumas de suas passagens favoritas na narração em off. A delícia das palavras se perde...
A propósito da relação entre literatura e cinema, Gabriel García Márquez disse algo genial, em uma entrevista a Glauber Rocha:
"Um texto literário, de qualidade, é infilmável. Nada mais anticinematográfico que uma novela. Um filme baseado em roteiro não passa de uma ilustração, que pode ser bem feita, mas perderá sempre uma certa dimensão. Um poema é muito mais perto de um filme. Se eu fosse cineasta filmaria como se escrevesse um poema, inventando imagens."
Cinema e literatura. Talvez também seja válido o questionamento na direção oposta do fluxo entre as duas artes. Será que o filme, por si só, é capaz de criar o entusiasmo pela obra de Kerouac e levar os espectadores que não a conhecem a procurar e explorar seus livros? No caso de On the road, tenho minhas dúvidas...
Discussões batidas à parte, fica a dica. Do filme. E principalmente do livro.
"Amarguras, recriminações, conselhos, moralidade, tristeza - tudo lhe pesava nas costas, enquanto à sua frente se descortinava a alegria esfarrapada e extasiante de simplesmente ser."
Além de perder a forte sensação de "vida vivida" provocada pelo texto, meu maior receio antes de ver o filme era o de encontrar alguns de meus personagens literários favoritos mortos e esquartejados. Bom, Sal Paradise e Dean Moriarty até estão bem representados em sua versão cinematográfica, mas não são o Sal Paradise e o Dean Moriarty a quem contemplei, muito mais que libertários de tabus sociais, como verdadeiros espíritos livres, de uma liberdade de outra espécie, uma dimensão outra do que é ser livre.
Além da diferença - natural, por sinal - de representações mentais, quem ama o livro também corre o risco de esperar em vão pelas citações de algumas de suas passagens favoritas na narração em off. A delícia das palavras se perde...
A propósito da relação entre literatura e cinema, Gabriel García Márquez disse algo genial, em uma entrevista a Glauber Rocha:
"Um texto literário, de qualidade, é infilmável. Nada mais anticinematográfico que uma novela. Um filme baseado em roteiro não passa de uma ilustração, que pode ser bem feita, mas perderá sempre uma certa dimensão. Um poema é muito mais perto de um filme. Se eu fosse cineasta filmaria como se escrevesse um poema, inventando imagens."
Cinema e literatura. Talvez também seja válido o questionamento na direção oposta do fluxo entre as duas artes. Será que o filme, por si só, é capaz de criar o entusiasmo pela obra de Kerouac e levar os espectadores que não a conhecem a procurar e explorar seus livros? No caso de On the road, tenho minhas dúvidas...
Discussões batidas à parte, fica a dica. Do filme. E principalmente do livro.
"Amarguras, recriminações, conselhos, moralidade, tristeza - tudo lhe pesava nas costas, enquanto à sua frente se descortinava a alegria esfarrapada e extasiante de simplesmente ser."
sábado, 3 de novembro de 2012
A mulher segundo Vinicius
"Não há nada mais belo do que curtir o espetáculo de uma mulher vivendo o seu amor. Ela fica, ao mesmo tempo, intensa e transparente. Seu olhar adquire uma luz macia e parece interiorizar-se, como se estivesse sempre a prescrutar o próprio íntimo, e a beleza do que visse não pudesse ser revelada. Todos os seus gestos traduzem a posse de um segredo indizível, que é preciso guardar a qualquer preço, pois que todos o querem descobrir. E ao mesmo tempo que sua beleza física explode, ela fecha-se, no claustro de seu amor, que quer só para ela porque, de repente, tudo fica frágil, imensamente frágil."
(Vinicius de Moraes, "A mulher segundo Vinicius I", em O Pasquim - Antologia)
(Vinicius de Moraes, "A mulher segundo Vinicius I", em O Pasquim - Antologia)
quinta-feira, 18 de outubro de 2012
Poesia em comercial?
"(...) poesia é um sopro, um susto que a gente leva e logo passa, deixando dentro de nós uma beleza inteira." (Sonia Junqueira, em Poesia na varanda)
quinta-feira, 11 de outubro de 2012
quarta-feira, 10 de outubro de 2012
"Acho que a única coisa que faço muito bem é ser eu..."
(Paula Gomes, em http://quandoestiverassim.blogspot.com.br/)
(Paula Gomes, em http://quandoestiverassim.blogspot.com.br/)
quinta-feira, 4 de outubro de 2012
quinta-feira, 27 de setembro de 2012
Walden
"Talvez exista o livro que nos explique nossos milagres e nos revele outros". Henry David Thoureau escreveu isso, provavelmente sem esperar que Walden, uma de suas obras mais importantes, se tornasse esse tipo de livro para inúmeras pessoas. Sou uma delas. A narrativa do livre pensador que decide ir morar no bosque, à beira do lago, construindo sua própria morada e vivendo essencialmente da natureza, inspira uma outra espécie de existência - mais elevada, porém, possível."As coisas atualmente inexpressáveis, talvez as encontremos expressas em algum lugar." O que há de mais sagrado e fundamental em minhas crenças e aspirações está ali, e, se algum dia, alguém quisesse me conhecer realmente e compreender meus motivos interiores e minha busca por sentido, encontraria em Walden muito mais sobre mim do que qualquer ideia superficial ou pretensiosamente profunda que eu possa dar de mim mesma.
"A grande maioria dos homens leva uma vida de calado desespero. O que se chama resignação é desespero confirmado. Da cidade desesperada você vai para o campo desesperado, e tem de se consolar com a coragem das martas e dos ratos almiscarados. Um desespero estereotipado, mas inconsciente, se esconde mesmo sob os chamados jogos e prazeres da humanidade. Não há diversão neles, pois esta vem depois da obrigação. Mas uma característica da sabedoria é não fazer coisas desesperadas."
"(...) a riqueza de um homem é proporcional ao número de coisas das quais pode prescindir."
"Eu tinha três peças de calcário em minha escrivaninha, mas fiquei apavorado quando descobri que precisaria tirar o pó todo dia, enquanto a mobília de meu espírito ainda estava toda empoeirada, e de desgosto joguei fora as pedras pela janela. Então como poderia eu ter uma casa mobiliada? Prefiro sentar ao ar livre, pois o mato não junta pó, a não ser onde o homem pode fender o solo."
"Jamais homem algum decaiu em minha estima por usar uma roupa remendada; no entanto, tenho certeza de que os homens geralmente se preocupam mais em ter roupas elegantes, ou pelo menos asseadas e sem remendos, do que em ter uma consciência limpa.
(...) Uma questão interessante é até que ponto os homens conservariam sua posição social se tirassem suas roupas."
"Quando somos sábios e não temos pressa, percebemos que somente as coisas grandes e valiosas têm alguma existência absoluta e permanente - que os pequenos medos e os pequenos prazeres não passam de sombras da realidade."
"Os homens consideram a verdade muito remota, na periferia do sistema solar, atrás da estrela mais distante, antes de Adão e depois do último homem. Há, de fato, algo de verdadeiro e sublime na eternidade. Mas todos esses tempos, lugares e ocasiões existem aqui e agora. Deus culmina no momento presente, e não será mais divino no decorrer de todos os tempos. E só somos capazes de apreender o que é sublime e nobre com a perpétua instilação e absorção da realidade que nos cerca."
"Sempre lamentei não ser tão sábio quanto no dia em que nasci."
"Qual o tipo de espaço que separa um homem de seus semelhantes e o faz solitário? Descobri que nem o maior esforço das pernas consegue aproximar dois espíritos."
"Só quando nos perdemos, em outras palavras, só quando perdemos o mundo é que começamos a nos encontrar, entendemos onde estamos e compreendemos a infinta extensão de nossas relações."
"Quando um homem dá ouvidos às sugestões levíssimas, mas constantes, de seu gênio interior, que certamente são verdadeiras, ele não sabe a que extremos, ou mesmo a que loucura, pode ser levado; e no entanto é aí, à medida que se torna mais firme e fiel, que se encontra seu caminho."
"Uma voz lhe disse: Por que você fica aqui e vive esta vida mesquinha e cansativa, quando lhe é possível uma existência gloriosa? Estas mesmas estrelas cintilam em outros campos. - Mas como sair desta condição e realmente migrar para lá? A única ideia que lhe ocorreu foi praticar alguma nova austeridade, deixar a mente lhe entrar no corpo e redimi-lo, e tratar a si mesmo com respeito sempre maior."
"Um homem mais sensato é capaz de se encontrar com bastante frequência 'em oposição formal' ao que é tido como 'as leis mais sagradas da sociedade', por obedecer a leis ainda mais sagradas, e assim pode testar sua resolução sem sair de seu caminho. Próprio de homem não é adotar tal atitude em relação à sociedade, e sim manter a atitude em que se encontra em sua obediência às leis de seu ser, que nunca será de oposição a um governo justo, se vier a encontrar algum."
"Aprendi com minha experiência pelo menos isto: se o homem segue confiante rumo a seus sonhos e se empenha em viver a vida que imaginou, ele terá um sucesso inesperado em momentos comuns. Deixará algumas coisas para trás, cruzará uma fronteira invisível; novas leis universais e mais liberais começarão a se estabelecer por si sós ao redor e dentro dele; ou as velhas leis se ampliarão e serão interpretadas em seu favor num sentido mais liberal, e ele viverá com a licença de uma ordem superior de seres. À medida que ele simplifica sua vida, as leis do universo se mostrarão menos complexas, e a solidão não será solidão, nem a pobreza pobreza, nem a fraqueza fraqueza. Se você tiver construído castelos no ar, não será trabalho perdido; é ali mesmo que eles devem estar. Agora ponha-lhes os alicerces."
"Por que havemos de ter uma pressa tão desesperada em conseguir sucesso, e em empreendimentos tão desesperados? Se um homem não mantém o passo com seus companheiros, talvez seja porque ouve um outro toque de tambor. Ele que acompanhe a música que ouve, por mais marcada ou distante que seja. Não importa que amadureça ao tempo de uma macieira ou de um carvalho. Converterá sua primavera em verão? Se a condição das coisas para as quais fomos feitos ainda não existe, qual é a realidade que podemos colocar em seu lugar? Não naufragaremos contra uma realidade vã. Iremos nos esforçar em erguer um céu de vidro azul sobre nós mesmos, mesmo sabendo que, depois de pronto, ainda estaremos fitando o verdadeiro céu etéreo lá no alto, como se o primeiro não existisse?"
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