Poema de quem não escreve poesia
Quero viver a leveza de não ser.
O lixo de cada dia jogado fora
A cortina descerrada
A conversa amanhecida
A vida descoberta nos instantes
Em que nem se sabe o que é vida.
Quero viver a leveza de não ser.
domingo, 6 de janeiro de 2008
sexta-feira, 4 de janeiro de 2008
A Última Grande Lição
Ontem reli um livro que, apesar de sua simplicidade - ou talvez exatamente por isso -, me tocou bastante: A Última Grande Lição (em inglês, Tuesdays with Morrie), de Mitch Albom. É a história real de um reencontro entre um aluno e seu professor, que sofre de ELAS, doença degenerativa que vai paralisando todos os músculos até levar à morte. Juntos, eles decidem realizar um último projeto: lições sobre a vida e sobre a morte.A serenidade, a lucidez e a imensa sabedoria de Morrie inspiram e emocionam. Seus aforismos ficam gravados na mente como música: "Quando se aprende a morrer, se aprende a viver", "O amor é o único ato racional", "A morte é o fim de uma vida, mas não de um relacionamento", "Quando somos crianças, precisamos dos outros para sobreviver. Quando estamos morrendo, precisamos dos outros para sobreviver. Mas eis um segredo: entre um e outro, precisamos dos outros mais ainda", e o mais repetido: "We must love one another or die" ("Devemos amar uns aos outros ou morrer"), parte do poema September 1, 1939, de W. H. Auden:
All I have is a voice
To undo the folded lie,
The romantic lie in the brain
Of the sensual man-in-the-street
And the lie of Authority
Whose buildings grope the sky:
There is no such thing as the State
And no one exists alone;
Hunger allows no choice
To the citizen or the police;
We must love one another or die.
To undo the folded lie,
The romantic lie in the brain
Of the sensual man-in-the-street
And the lie of Authority
Whose buildings grope the sky:
There is no such thing as the State
And no one exists alone;
Hunger allows no choice
To the citizen or the police;
We must love one another or die.
Hoje encontrei no youtube os programas de televisão realizados com o verdadeiro Morrie Schwartz (o que torna toda essa experiência emocional ainda mais significativa) e assisti ao filme baseado no livro. São dessas coisas que tornam a vida mais bonita...
As entrevistas com Morrie:
- Ouvi uma história linda outro dia - diz Morrie. - Fecha os olhos por um momento e eu espero.
- É a história de uma ondazinha saltitando no oceano, diventindo-se a valer. Está apreciando o vento e o ar fresco - até que dá com as outras ondas na frente, arrebentando-se na praia.
- "Meu Deus, que coisa horrível!", diz a ondazinha. "É isso que vai acontecer comigo!"
- Aí chega outra onda. Vê a primeira, que está triste, e pergunta: "Por que está triste?"
- "Você não está entendendo", diz a primeira onda. "Vamos todas arrebentar! Nós todas vamos acabar em nada! Não é horrível?"
- Responde a segunda onda: "Não, você é que não está entendendo. Você não é uma onda, você é parte do oceano."
Sorrio. Morrie torna a fechar os olhos.
- Parte do oceano - diz. - Parte do oceano.
Fico olhando a respiração dele, inspirando, expirando, inspirando, expirando.
segunda-feira, 31 de dezembro de 2007
Só o Amor
Como na passagem do ano a gente não se furta à tentação de fazer pedidos e renovar desejos - e é bom que seja assim pois todo ciclo que se encerra dando início a outro inspira o anseio por transformações -, deixo aqui registrado o meu desejo para o próximo ano, e o próximo e o próximo...: Amor!
Em Problemas do Homem Contemporâneo (PHC), o professor Ricardo Galvanese deu, um dia, uma aula brilhante e inspiradora sobre o Amor - Amor como meta máxima, como ápice da vida ética, emocional e espiritual do ser humano (e embora a humanidade já esteja condenada (!), insisto em acreditar na capacidade humana de amar). Só está pronto para amar, dizia o professor, quem tem maturidade emocional e é capaz de se reconhecer a si mesmo como um ser inteiro e pleno e de reconhecer no outro o outro, com suas idiossincrasias e como um ser completo em si mesmo e não como uma projeção ilusória de nós mesmos. Também falou sobre os três tipos de Amor: a Paixão (Eros), o necessitar do outro (atração); a Amizade (Philia), o alegrar-se com o outro (regozijo); e a Caridade (Ágape), o querer o bem do outro (incondicionalidade). O Amor perfeito e verdadeiro - o Sublime Amor - seria aquele que consegue unir essas três formas de amor. Ai, ai... suspiros de esperança... (não é à toa que estou escrevendo em véspera de ano novo!)
André Comte-Sponville, no seu Pequeno Tratado das Grandes Virtudes, considera o Amor como a maior das virtudes, aquela para a qual todas as outras tendem. Depois vou colocar algum trecho dele aqui (o capítulo sobre o Amor é um pouco longo, mas vale a pena...).
E por falar em Amor, lembrei da canção Monte Castelo, do Renato Russo, inspirada em um poema de Camões e em uma carta de São Paulo aos Coríntios:
Ainda que eu falasse a língua dos homens.
E falasse a língua dos anjos, sem amor eu nada seria.
É só o amor, é só o amor.
Que conhece o que é verdade.
O amor é bom, não quer o mal.
Não sente inveja ou se envaidece.
O amor é o fogo que arde sem se ver.
É ferida que dói e não se sente.
É um contentamento descontente.
É dor que desatina sem doer.
Ainda que eu falasse a língua dos homens.
E falasse a língua dos anjos, sem amor eu nada seria.
É um não querer mais que bem querer.
É solitário andar por entre a gente.
É um não contentar-se de contente.
É cuidar que se ganha em se perder.
É um estar-se preso por vontade.
É servir a quem vence, o vencedor;
É um ter com quem nos mata a lealdade.
Tão contrário a si é o mesmo amor.
Estou acordado e todos dormem todos dormem todos dormem.
Agora vejo em parte. Mas então veremos face a face.
É só o amor, é só o amor.
Que conhece o que é verdade.
Ainda que eu falasse a língua dos homens.
E falasse a língua do anjos, sem amor eu nada seria.
Em Problemas do Homem Contemporâneo (PHC), o professor Ricardo Galvanese deu, um dia, uma aula brilhante e inspiradora sobre o Amor - Amor como meta máxima, como ápice da vida ética, emocional e espiritual do ser humano (e embora a humanidade já esteja condenada (!), insisto em acreditar na capacidade humana de amar). Só está pronto para amar, dizia o professor, quem tem maturidade emocional e é capaz de se reconhecer a si mesmo como um ser inteiro e pleno e de reconhecer no outro o outro, com suas idiossincrasias e como um ser completo em si mesmo e não como uma projeção ilusória de nós mesmos. Também falou sobre os três tipos de Amor: a Paixão (Eros), o necessitar do outro (atração); a Amizade (Philia), o alegrar-se com o outro (regozijo); e a Caridade (Ágape), o querer o bem do outro (incondicionalidade). O Amor perfeito e verdadeiro - o Sublime Amor - seria aquele que consegue unir essas três formas de amor. Ai, ai... suspiros de esperança... (não é à toa que estou escrevendo em véspera de ano novo!)
André Comte-Sponville, no seu Pequeno Tratado das Grandes Virtudes, considera o Amor como a maior das virtudes, aquela para a qual todas as outras tendem. Depois vou colocar algum trecho dele aqui (o capítulo sobre o Amor é um pouco longo, mas vale a pena...).
E por falar em Amor, lembrei da canção Monte Castelo, do Renato Russo, inspirada em um poema de Camões e em uma carta de São Paulo aos Coríntios:
Ainda que eu falasse a língua dos homens.
E falasse a língua dos anjos, sem amor eu nada seria.
É só o amor, é só o amor.
Que conhece o que é verdade.
O amor é bom, não quer o mal.
Não sente inveja ou se envaidece.
O amor é o fogo que arde sem se ver.
É ferida que dói e não se sente.
É um contentamento descontente.
É dor que desatina sem doer.
Ainda que eu falasse a língua dos homens.
E falasse a língua dos anjos, sem amor eu nada seria.
É um não querer mais que bem querer.
É solitário andar por entre a gente.
É um não contentar-se de contente.
É cuidar que se ganha em se perder.
É um estar-se preso por vontade.
É servir a quem vence, o vencedor;
É um ter com quem nos mata a lealdade.
Tão contrário a si é o mesmo amor.
Estou acordado e todos dormem todos dormem todos dormem.
Agora vejo em parte. Mas então veremos face a face.
É só o amor, é só o amor.
Que conhece o que é verdade.
Ainda que eu falasse a língua dos homens.
E falasse a língua do anjos, sem amor eu nada seria.
segunda-feira, 24 de dezembro de 2007
Debaixo d'água
Debaixo d' água tudo era mais bonito
Mais azul mais colorido
Só faltava respirar
Mas tinha que respirar
Debaixo d'água se formando como um feto
Sereno confortável amado completo
Sem chão sem teto sem contato com o ar
Mas tinha que respirar
Todo dia
Todo dia, todo dia
Debaixo d'água por encanto sem sorriso e sem pranto
Sem lamento e sem saber o quanto
Esse momento poderia durar
Mas tinha que respirar
Debaixo d'água ficaria para sempre
Ficaria contente
Longe de toda gente para sempre
No fundo do mar
Mas tinha que respirar
Todo dia
Todo dia, todo dia
Debaixo d'água protegido salvo fora de perigo
Aliviado sem perdão e sem pecado
Sem fome sem frio sem medo sem vontade de voltar
Mas tinha que respirar
Debaixo d'água tudo era mais bonito
Mais azul mais colorido
Só faltava respirar
Mas tinha que respirar
Todo dia
Todo dia, todo dia
Agora
Agora que a agora é nunca
Agora posso recuar
Agora sinto minha tumba
Agora o peito a retumbar
Agora a última resposta
Agora quartos de hospitais
Agora abrem uma porta
Agora não se chora mais
Agora a chuva evapora
Agora ainda não choveu
Agora tenho mais memória
Agora tenho o que foi meu
Agora passa a paisagem
Agora não me despedi
Agora compro uma passagem
Agora ainda estou daqui
Agora sinto muita sede
Agora já é madrugada
Agora diante da parede
Agora falta uma palavra
Agora o vento no cabelo
Agora toda minha roupa
Agora volta pro novelo
Agora a língua em minha boca
Agora meu avô já vive
Agora meu filho nasceu
Agora o filho que não tive
Agora a criança sou eu
Agora sinto um gosto doce
Agora vejo a cor azul
Agora a mão de quem me trouxe
Agora é só meu corpo nu
Agora eu nasço lá de fora
Agora minha mãe é o ar
Agora eu vivo na barriga
Agora eu brigo pra voltar
Agora
Agora
(Arnaldo Antunes e Titãs, na voz de Maria Bethânia in 'Mar de Sophia')
Mais azul mais colorido
Só faltava respirar
Mas tinha que respirar
Debaixo d'água se formando como um feto
Sereno confortável amado completo
Sem chão sem teto sem contato com o ar
Mas tinha que respirar
Todo dia
Todo dia, todo dia
Debaixo d'água por encanto sem sorriso e sem pranto
Sem lamento e sem saber o quanto
Esse momento poderia durar
Mas tinha que respirar
Debaixo d'água ficaria para sempre
Ficaria contente
Longe de toda gente para sempre
No fundo do mar
Mas tinha que respirar
Todo dia
Todo dia, todo dia
Debaixo d'água protegido salvo fora de perigo
Aliviado sem perdão e sem pecado
Sem fome sem frio sem medo sem vontade de voltar
Mas tinha que respirar
Debaixo d'água tudo era mais bonito
Mais azul mais colorido
Só faltava respirar
Mas tinha que respirar
Todo dia
Todo dia, todo dia
Agora
Agora que a agora é nunca
Agora posso recuar
Agora sinto minha tumba
Agora o peito a retumbar
Agora a última resposta
Agora quartos de hospitais
Agora abrem uma porta
Agora não se chora mais
Agora a chuva evapora
Agora ainda não choveu
Agora tenho mais memória
Agora tenho o que foi meu
Agora passa a paisagem
Agora não me despedi
Agora compro uma passagem
Agora ainda estou daqui
Agora sinto muita sede
Agora já é madrugada
Agora diante da parede
Agora falta uma palavra
Agora o vento no cabelo
Agora toda minha roupa
Agora volta pro novelo
Agora a língua em minha boca
Agora meu avô já vive
Agora meu filho nasceu
Agora o filho que não tive
Agora a criança sou eu
Agora sinto um gosto doce
Agora vejo a cor azul
Agora a mão de quem me trouxe
Agora é só meu corpo nu
Agora eu nasço lá de fora
Agora minha mãe é o ar
Agora eu vivo na barriga
Agora eu brigo pra voltar
Agora
Agora
(Arnaldo Antunes e Titãs, na voz de Maria Bethânia in 'Mar de Sophia')
domingo, 23 de dezembro de 2007
O vazio da xícara (porque para Ser é preciso deixar de ser...)
É quando a roda pára que vem a náusea
(Poema de Rafaelle Donzalisky)
Eu queimo as revistas, e mesmo assim me perseguem os anúncios; produtos pra queimar a gordurinha que não vejo na modelo que o anuncia,
Eu prefiro a ferida a tal remédio!
Prefiro a dor ao tédio,
A engolir a seco o sapos cururus e as gias do brejo do vizinho , sim ,
lá tem lugar de sobra. No meu, as vacas pastam.
E sempre sobram sapos que não são meus pra empurrar goela abaixo.
Prefiro a tese, oras, a contradição, pois até a pluma leve às vezes toca ao chão.
Que a terra se exploda em cacos! [mesmo assim haverá vida nos estilhaços].
Quero encontrar vestígios de vida num copo quebrado com o meu grito de euforia ou desabafo!Quero ir até o fundo!
Beber a última gota da sopa que alimenta o vagabundo
Quero ir até o fundo!
E ver minha cara nas poças da avenida.
Quero ir até o fundo!
Mas no fundo, não há fundo se a xícara está vazia!
(Poema de Rafaelle Donzalisky)
Eu queimo as revistas, e mesmo assim me perseguem os anúncios; produtos pra queimar a gordurinha que não vejo na modelo que o anuncia,
Eu prefiro a ferida a tal remédio!
Prefiro a dor ao tédio,
A engolir a seco o sapos cururus e as gias do brejo do vizinho , sim ,
lá tem lugar de sobra. No meu, as vacas pastam.
E sempre sobram sapos que não são meus pra empurrar goela abaixo.
Prefiro a tese, oras, a contradição, pois até a pluma leve às vezes toca ao chão.
Que a terra se exploda em cacos! [mesmo assim haverá vida nos estilhaços].
Quero encontrar vestígios de vida num copo quebrado com o meu grito de euforia ou desabafo!Quero ir até o fundo!
Beber a última gota da sopa que alimenta o vagabundo
Quero ir até o fundo!
E ver minha cara nas poças da avenida.
Quero ir até o fundo!
Mas no fundo, não há fundo se a xícara está vazia!
segunda-feira, 10 de dezembro de 2007
O peso e a leveza
Na última publicação, mencionei A insustentável leveza do ser, de Milan Kundera. É um romance que narra a existência de quatro pessoas tendo como pano de fundo a invasão russa da antiga Tcheco-Eslováquia e a dureza do regime comunista lá imposto. Pensei mais sobre este livro, porque ele começa falando justamente de Nietzsche para fundamentar a oposição entre leveza e peso que permeia todo o romance. Eis o início:
O eterno retorno é uma idéia misteriosa, e Nietzsche, com essa idéia, colocou muitos filósofos em dificuldade: pensar que um dia tudo vai se repetir tal como foi vivido e que essa repetição ainda vai se repetir indefinidamente! O que significa esse mito insensato?
O mito do eterno retorno nos diz, por negação, que a vida vai desaparecer de uma vez por todas, e que não mais voltará, é semelhante a uma sombra, que ela é sem peso, que está morta desde hoje, e que, por mais atroz, mais bela, mais esplêndida que seja, essa beleza, esse horror, esse esplendor, não têm o menor sentido. Essa vida não deve ser considerada mais importante do que uma guerra entre dois reinos africanos do século XIV, que não alterou em nada a face do mundo, embora trezentos mil negros tenham encontrado nela a morte através de indescritíveis suplícios.
Será que essa guerra entre dois reinos africanos do século XIV se modifica pelo fato de se repetir um número incalculável de vezes no eterno retorno?
(...)
Se cada segundo de nossa vida deve se repetir um número infinito de vezes, estamos pregados na eternidade como Cristo na cruz. Que idéia atroz! No mundo do eterno retorno, cada gesto carrega o peso de uma insustentável leveza. Isso é o que fazia com Nietzsche dissesse que a idéia do eterno retorno é o mais pesado dos fardos.
Se o eterno retorno é o mais pesado dos fardos, nossas vidas, sobre esse pano de fundo, podem aparecer em toda a sua esplêndida leveza.
Mas, na verdade, será atroz o peso e bela a leveza?
O mais pesado fardo nos amarga, nos faz dobrar sob ele, nos esmaga contra o chão. Na poesia amorosa de todos os séculos, porém, a mulher deseja receber o peso do corpo masculino. O fardo mais pesado é, portanto, ao mesmo tempo a imagem da mais intensa realização vital. Quanto mais pesado o fardo, mais próxima da terra está nossa vida, e mais ela é real e verdadeira.
Por outro lado, a ausência total de fardo faz com que o ser humano se torne mais leve do que o ar, com que ele voe, se distancie da terra, do ser terrestre, faz com que ele se torne semi-real, que seus movimentos sejam tão livres quanto insignificantes.
Então, o que escolher? O peso ou a leveza?
Foi a pergunta que Parmênides fez a si mesmo no século VI antes de Cristo. Segundo ele, o universo está dividido em duplas de contrários: a luz e a obscuridade, o grosso e o fino, o quente e o frio, o ser e o não-ser. Ele considerava que um dos pólos da contradição é positivo (o claro, o quente, o fino, o ser), o outro, negativo. Essa divisão em pólos positivo e negativo pode nos parecer de uma facilidade pueril. Menos em um dos casos: o que é positivo, o peso ou a leveza?
Parmênides respondia: o leve é positivo, o pesado negativo. Teria ou não razão: Essa é a questão. Uma coisa é certa. A contradição pesado-leve é a mais misteriosa e a mais ambígua de todas as contradições.
O eterno retorno é uma idéia misteriosa, e Nietzsche, com essa idéia, colocou muitos filósofos em dificuldade: pensar que um dia tudo vai se repetir tal como foi vivido e que essa repetição ainda vai se repetir indefinidamente! O que significa esse mito insensato?
O mito do eterno retorno nos diz, por negação, que a vida vai desaparecer de uma vez por todas, e que não mais voltará, é semelhante a uma sombra, que ela é sem peso, que está morta desde hoje, e que, por mais atroz, mais bela, mais esplêndida que seja, essa beleza, esse horror, esse esplendor, não têm o menor sentido. Essa vida não deve ser considerada mais importante do que uma guerra entre dois reinos africanos do século XIV, que não alterou em nada a face do mundo, embora trezentos mil negros tenham encontrado nela a morte através de indescritíveis suplícios.
Será que essa guerra entre dois reinos africanos do século XIV se modifica pelo fato de se repetir um número incalculável de vezes no eterno retorno?
(...)
Se cada segundo de nossa vida deve se repetir um número infinito de vezes, estamos pregados na eternidade como Cristo na cruz. Que idéia atroz! No mundo do eterno retorno, cada gesto carrega o peso de uma insustentável leveza. Isso é o que fazia com Nietzsche dissesse que a idéia do eterno retorno é o mais pesado dos fardos.
Se o eterno retorno é o mais pesado dos fardos, nossas vidas, sobre esse pano de fundo, podem aparecer em toda a sua esplêndida leveza.
Mas, na verdade, será atroz o peso e bela a leveza?
O mais pesado fardo nos amarga, nos faz dobrar sob ele, nos esmaga contra o chão. Na poesia amorosa de todos os séculos, porém, a mulher deseja receber o peso do corpo masculino. O fardo mais pesado é, portanto, ao mesmo tempo a imagem da mais intensa realização vital. Quanto mais pesado o fardo, mais próxima da terra está nossa vida, e mais ela é real e verdadeira.
Por outro lado, a ausência total de fardo faz com que o ser humano se torne mais leve do que o ar, com que ele voe, se distancie da terra, do ser terrestre, faz com que ele se torne semi-real, que seus movimentos sejam tão livres quanto insignificantes.
Então, o que escolher? O peso ou a leveza?
Foi a pergunta que Parmênides fez a si mesmo no século VI antes de Cristo. Segundo ele, o universo está dividido em duplas de contrários: a luz e a obscuridade, o grosso e o fino, o quente e o frio, o ser e o não-ser. Ele considerava que um dos pólos da contradição é positivo (o claro, o quente, o fino, o ser), o outro, negativo. Essa divisão em pólos positivo e negativo pode nos parecer de uma facilidade pueril. Menos em um dos casos: o que é positivo, o peso ou a leveza?
Parmênides respondia: o leve é positivo, o pesado negativo. Teria ou não razão: Essa é a questão. Uma coisa é certa. A contradição pesado-leve é a mais misteriosa e a mais ambígua de todas as contradições.
domingo, 9 de dezembro de 2007
Produtos e produtos
Último trabalho do ano: discorrer sobre o tema "Sou um produto da indústria cultural mas não sou um produto da indústria cultural". A disciplina é Teorias da Comunicação. Não é Filosofia, mas é filosofia...
Indústria cultural é o sistema produtivo presente em todas as sociedades industrializadas modernas que, seguindo o modelo industrial de produção, transforma os elementos da cultura em produtos, procurando gerar produção em larga escala para o maior número de pessoas possível. Caracteriza-se, portanto, pela massificação e padronização dos bens culturais (dando origem, assim, à cultura de massa) e pela criação e, de certa forma, imposição de valores que estimulam o consumo. O consumismo, por sua vez, torna-se um valor em si, que passa a guiar e dar um sentido à vida das pessoas: a posse como valor existencial máximo, em que o ser é substituído pelo ter.
A indústria cultural, assim definida, embora tenha sido impulsionada pela Revolução Industrial no século XIX, consolidou-se no século XX com o surgimento (de novos) e fortalecimento (dos já existentes) meios de comunicação de massa. Atualmente, vivemos inseridos no sistema capitalista que impõe um modelo de globalização neoliberal, e mesmo os países considerados industrializados porém não capitalistas seguem este modelo (ainda que somente por via de efeitos indiretos). Portanto, o universo da cultura acaba sendo atingido, ou melhor, está também inserido nesta esfera globalizada.
Se pensarmos na divisão de Marx entre estrutura e superestrutura, podemos dizer que somos diretamente afetados pela indústria cultural em ambas as instâncias da organização social. Neste sentido, podemos afirmar que somos um produto direto da indústria cultural. No âmbito da produção, vivendo em uma sociedade industrializada, é praticamente impossível não fazer parte ao menos do processo final da industrialização, que é o consumo. Quando compramos um jornal, lemos um livro, ouvimos um cd ou vamos ao cinema, estamos participando e ativando os dispositivos da indústria cultual, mesmo sem se dar conta disto. Por outro lado, no âmbito dos produtos (considerando-se, principalmente, os conteúdos culturais), acabamos absorvendo e vivenciando valores que, por meio da cultura, tornam-se “naturais” e, portanto, perfeitamente aceitáveis. É neste âmbito que a atuação da indústria cultural, através da ideologia, realiza-se de modo mais intenso e mais perigoso. Embora seja um conjunto de abstrações – ou exatamente por isso –, a ideologia dominante gerada pela indústria cultual cria um modo de viver e pensar a realidade que passa a ser aceito pela grande maioria das pessoas de forma passiva e sem questionamento. É como a mão aceitando a luva que lhe dão. O problema maior é que, hoje, a luva é do tamanho do mundo, e já somos vestidos no momento em que nascemos. Como viver fora dos valores da indústria cultural?
No entanto, a constatação e a consciência crítica desta realidade social e existencial que vivemos podem transformar-se em um olhar que, mesmo encerrado no sistema imposto pela indústria cultural, abra perspectivas de questionamento e atuação. É neste sentido que podemos dizer que não somos um produto da indústria cultural. Na medida em que temos o poder de escolha e exercemos conscientemente este poder, deixamos de ser simples marionetes nas mãos da grande abstração chamada sistema para nos tornar seres responsáveis pela nossa existência e por nossas escolhas, ainda que inseridas no contexto maior da indústria cultural (isto significa que talvez nossas opções estejam limitadas a escolher entre um produto e outro). Conhecer a realidade e o funcionamento desta indústria e buscar novas formas alternativas de criar e agir dentro dela, ou apesar dela, são os modos possíveis de não vivermos apenas como mais um de seus produtos.
Lendo A insustentável leveza do ser, de Milan Kundera, e 1984, de George Orwell, percebi que talvez as coisas ainda pudessem ser bem piores... e que as discussões com o JB (João Batista, o professor-filósofo das Teorias da Comunicação) ganharam novos sentidos...
Indústria cultural é o sistema produtivo presente em todas as sociedades industrializadas modernas que, seguindo o modelo industrial de produção, transforma os elementos da cultura em produtos, procurando gerar produção em larga escala para o maior número de pessoas possível. Caracteriza-se, portanto, pela massificação e padronização dos bens culturais (dando origem, assim, à cultura de massa) e pela criação e, de certa forma, imposição de valores que estimulam o consumo. O consumismo, por sua vez, torna-se um valor em si, que passa a guiar e dar um sentido à vida das pessoas: a posse como valor existencial máximo, em que o ser é substituído pelo ter.
A indústria cultural, assim definida, embora tenha sido impulsionada pela Revolução Industrial no século XIX, consolidou-se no século XX com o surgimento (de novos) e fortalecimento (dos já existentes) meios de comunicação de massa. Atualmente, vivemos inseridos no sistema capitalista que impõe um modelo de globalização neoliberal, e mesmo os países considerados industrializados porém não capitalistas seguem este modelo (ainda que somente por via de efeitos indiretos). Portanto, o universo da cultura acaba sendo atingido, ou melhor, está também inserido nesta esfera globalizada.
Se pensarmos na divisão de Marx entre estrutura e superestrutura, podemos dizer que somos diretamente afetados pela indústria cultural em ambas as instâncias da organização social. Neste sentido, podemos afirmar que somos um produto direto da indústria cultural. No âmbito da produção, vivendo em uma sociedade industrializada, é praticamente impossível não fazer parte ao menos do processo final da industrialização, que é o consumo. Quando compramos um jornal, lemos um livro, ouvimos um cd ou vamos ao cinema, estamos participando e ativando os dispositivos da indústria cultual, mesmo sem se dar conta disto. Por outro lado, no âmbito dos produtos (considerando-se, principalmente, os conteúdos culturais), acabamos absorvendo e vivenciando valores que, por meio da cultura, tornam-se “naturais” e, portanto, perfeitamente aceitáveis. É neste âmbito que a atuação da indústria cultural, através da ideologia, realiza-se de modo mais intenso e mais perigoso. Embora seja um conjunto de abstrações – ou exatamente por isso –, a ideologia dominante gerada pela indústria cultual cria um modo de viver e pensar a realidade que passa a ser aceito pela grande maioria das pessoas de forma passiva e sem questionamento. É como a mão aceitando a luva que lhe dão. O problema maior é que, hoje, a luva é do tamanho do mundo, e já somos vestidos no momento em que nascemos. Como viver fora dos valores da indústria cultural?
No entanto, a constatação e a consciência crítica desta realidade social e existencial que vivemos podem transformar-se em um olhar que, mesmo encerrado no sistema imposto pela indústria cultural, abra perspectivas de questionamento e atuação. É neste sentido que podemos dizer que não somos um produto da indústria cultural. Na medida em que temos o poder de escolha e exercemos conscientemente este poder, deixamos de ser simples marionetes nas mãos da grande abstração chamada sistema para nos tornar seres responsáveis pela nossa existência e por nossas escolhas, ainda que inseridas no contexto maior da indústria cultural (isto significa que talvez nossas opções estejam limitadas a escolher entre um produto e outro). Conhecer a realidade e o funcionamento desta indústria e buscar novas formas alternativas de criar e agir dentro dela, ou apesar dela, são os modos possíveis de não vivermos apenas como mais um de seus produtos.
***
Lendo A insustentável leveza do ser, de Milan Kundera, e 1984, de George Orwell, percebi que talvez as coisas ainda pudessem ser bem piores... e que as discussões com o JB (João Batista, o professor-filósofo das Teorias da Comunicação) ganharam novos sentidos...
quinta-feira, 29 de novembro de 2007
Otimismo kantiano?
Em Idéia de uma história universal sob o ponto de vista cosmopolita, Kant apresenta a proposta de escrever uma história filosófica a partir de um questionamento e uma investigação central: a tentativa de descoberta das leis naturais universais que, embora sem serem totalmente conhecidas, guiam as ações do homem, de modo a realizar o propósito da natureza.
Segundo Kant, as ações humanas são regidas por leis universais impostas pela natureza que procura, através do fio condutor da razão, alcançar seu propósito: o bem, como a realização máxima de todas as disposições naturais humanas. A natureza dotou o homem com a razão e espera dele, por meio do uso racional de suas capacidades, o desenvolvimento de suas potencialidades, que levaria a humanidade a um grau de "máxima rudeza à máxima destreza e à perfeição interna do modo de pensar e, mediante isso, à felicidade."
Para conseguir atingir seu fim, a natureza faz uso do antagonismo inerente ao homem, representado pelas tendências opostas de associar-se e isolar-se - é a chamada "insociável sociabilidade", ou seja, a necessidade que o homem tem de viver em grupo e, ao mesmo tempo, assegurar seus próprios interesses. Apesar de seus traços negativos, Kant vê nesta oposição uma força propulsora que impulsiona o homem a superar a si mesmo. O antagonismo é, portanto, um dos instrumentos utilizados pela natureza para alcançar seu propósito, pois se os homens vivessem em perfeita harmonia, "de tão boa índole como as ovelhas que apascentam", não seriam impelidos a desenvolverem suas disposições naturais. Assim, a intratabilidade da natureza é necessária para a evolução moral e racional da espécie humana, uma vez que é através do conflito e da tensão de forças opostas que o homem tende ao bem.
Neste sentido, Kant vê também as guerras como algo necessário para o propósito da natureza, já que elas representam uma tentativa de criar novas relações entre os Estados. A natureza, em sua intratabilidade, serve-se de todos os meios para atingir seu fim.
Outro aspecto ditado pela natureza é a necessidade que os homens têm de um senhor, para limitar sua liberdade e instaurar uma vontade universalmente válida, ou seja, o bem comum. Este senhor ou chefe supremo deveria ser o representante máximo da justiça entre os homens, responsável por conduzir a humanidade para o bem maior. Para Kant, o líder perfeito depende de uma constituição civil perfeita, que por sua vez depende de uma melhor relação entre os Estados. Estes, refletindo o antagonismo próprio dos homens, também se opõem uns aos outros, mas, em sua evolução, dariam origem a um Estado universal.
A oitava proposição de Kant resume sua concepção:
"Pode-se considerar a história da espécie humana, em seu conjunto, como a realização de um plano oculto da natureza para estabelecer uma constituição política perfeita internamente e, quanto a este fim, também exteriormente perfeita, como o único estado no qual a natureza pode desenvolver plenamente, na humanidade, todas as suas disposições."
Embora Kant prevesse tal evolução da humanidade para tempos ainda longínquos e indeterminados, hoje, alguns séculos após seus escritos filosóficos, ainda não podemos vislumbrar, nem mesmo ao longe, a realização de um Estado universal e de todas as disposições humanas. Se considerarmos a visão evolucionista da história segundo Kant, ainda estamos na fase em que a intratabilidade da natureza não produziu seus frutos positivos e reconciliadores. A realização do grande propósito da natureza exige "conceitos exatos da natureza de uma constituição possível, grande experiência adquirida através dos acontecimentos do mundo e, acima de tudo, uma boa vontade predisposta a aceitar essa constituição." No atual estágio da humanidade, parece que nenhuma destas exigências está perto de ser satisfeita.
Segundo Kant, as ações humanas são regidas por leis universais impostas pela natureza que procura, através do fio condutor da razão, alcançar seu propósito: o bem, como a realização máxima de todas as disposições naturais humanas. A natureza dotou o homem com a razão e espera dele, por meio do uso racional de suas capacidades, o desenvolvimento de suas potencialidades, que levaria a humanidade a um grau de "máxima rudeza à máxima destreza e à perfeição interna do modo de pensar e, mediante isso, à felicidade."
Para conseguir atingir seu fim, a natureza faz uso do antagonismo inerente ao homem, representado pelas tendências opostas de associar-se e isolar-se - é a chamada "insociável sociabilidade", ou seja, a necessidade que o homem tem de viver em grupo e, ao mesmo tempo, assegurar seus próprios interesses. Apesar de seus traços negativos, Kant vê nesta oposição uma força propulsora que impulsiona o homem a superar a si mesmo. O antagonismo é, portanto, um dos instrumentos utilizados pela natureza para alcançar seu propósito, pois se os homens vivessem em perfeita harmonia, "de tão boa índole como as ovelhas que apascentam", não seriam impelidos a desenvolverem suas disposições naturais. Assim, a intratabilidade da natureza é necessária para a evolução moral e racional da espécie humana, uma vez que é através do conflito e da tensão de forças opostas que o homem tende ao bem.
Neste sentido, Kant vê também as guerras como algo necessário para o propósito da natureza, já que elas representam uma tentativa de criar novas relações entre os Estados. A natureza, em sua intratabilidade, serve-se de todos os meios para atingir seu fim.
Outro aspecto ditado pela natureza é a necessidade que os homens têm de um senhor, para limitar sua liberdade e instaurar uma vontade universalmente válida, ou seja, o bem comum. Este senhor ou chefe supremo deveria ser o representante máximo da justiça entre os homens, responsável por conduzir a humanidade para o bem maior. Para Kant, o líder perfeito depende de uma constituição civil perfeita, que por sua vez depende de uma melhor relação entre os Estados. Estes, refletindo o antagonismo próprio dos homens, também se opõem uns aos outros, mas, em sua evolução, dariam origem a um Estado universal.
A oitava proposição de Kant resume sua concepção:
"Pode-se considerar a história da espécie humana, em seu conjunto, como a realização de um plano oculto da natureza para estabelecer uma constituição política perfeita internamente e, quanto a este fim, também exteriormente perfeita, como o único estado no qual a natureza pode desenvolver plenamente, na humanidade, todas as suas disposições."
Embora Kant prevesse tal evolução da humanidade para tempos ainda longínquos e indeterminados, hoje, alguns séculos após seus escritos filosóficos, ainda não podemos vislumbrar, nem mesmo ao longe, a realização de um Estado universal e de todas as disposições humanas. Se considerarmos a visão evolucionista da história segundo Kant, ainda estamos na fase em que a intratabilidade da natureza não produziu seus frutos positivos e reconciliadores. A realização do grande propósito da natureza exige "conceitos exatos da natureza de uma constituição possível, grande experiência adquirida através dos acontecimentos do mundo e, acima de tudo, uma boa vontade predisposta a aceitar essa constituição." No atual estágio da humanidade, parece que nenhuma destas exigências está perto de ser satisfeita.
quarta-feira, 21 de novembro de 2007
Genealogia da Moral
" - Alguém quer descer o olhar sobre o segredo de como se fabricam ideais na terra? Quem tem a coragem para isso?..."
O desafio e a provocação de Nietzsche instigam a curiosidade e não desapontam as expectativas depois da leitura. Colocar todas as idéias (especialmente aquelas que consideramos as "nossas" idéias) no liquidificador, e depois de bem mexidas e batidas, sair com algo completamente... incompreensível. Não exatamente sobre Nietzsche (se bem que nada fica ou é claro e óbvio com ele), mas sobre o que pensamos (ou achamos que pensamos) e sobre nós mesmos. Perder o instinto de rebanho será o início da redenção?
Nietzsche apresenta uma genealogia da moral a partir de suas raízes históricas, procurando definir os conceitos e a origem de "bem" e "mal". Nega inicialmente a associação entre "bom" e ações não egoístas ou a utilidade das ações. Para ele, a origem de bem está na classe que o determina:
"(...) o juízo 'bom' não provém daqueles aos quais se fez o 'bem'! Foram os 'bons' mesmos, isto é, os nobres, poderosos, superiores em posição e pensamento, que sentiram e estabeleceram a si e a seus atos como bons, ou seja, de primeira ordem, em oposição a tudo que era baixo, de pensamento baixo, e vulgar e plebeu."
Um outro caminho para iluminar o estudo sobre a origem do bem está na própria linguagem. E mais uma vez, Nietzsche enfatiza as determinações de classe, seja pelo "direito" dos nobres de criar conceitos e dar nomes às coisas - "eles dizem 'isto é isto', marcam cada coisa e acontecimento com um som, como que apropriando-se assim das coisas" - seja pela própria etimologia da palavra:
"(...) em toda parte, 'nobre', 'aristocrático', no sentido social, é o conceito básico a partir do qual necessariamente se desenvolveu 'bom', no sentido de 'espiritualmente nobre', 'aristocrático', de 'espiritualmente bem-nascido', 'espiritualmente privilegiado': um desenvolvimento que sempre corre paralelo àquele outro que faz 'plebeu', 'comum', 'baixo' transmutar-se finalmente em 'ruim'."
Seguindo a regra de que "o conceito denotador de preeminência política sempre resulta em um conceito de preeminência espiritual", com os sacerdotes, a casta mais elevada socialmente, a oposição puro x impuro passou a designar a distinção de castas. O confronto entre a casta dos sacerdotes (representada pelos judeus) e a dos guerreiros (a nobreza) levou a uma inversão radical de valores: o bom passou a designar não mais o nobre, mas o seu oposto: o miserável:
"os miseráveis somente são os bons, apenas os pobres, impotentes, baixos são bons, os sofredores, necessitados, feios, doentes são os únicos beatos, os únicos abençoados, unicamente para eles há bem-aventurança - mas vocês, nobres e poderosos, vocês serão por toda a eternidade os maus, os cruéis, os lascivos, os insaciáveis, os ímpios, serão também os eternamente os desventurados, malditos e danados!..."
Assim, com os sacerdotes judeus, a partir desta inversão e da imposição de um novo conceito de "bem", teve início a "revolta dos escravos na moral":
" - A rebelião escrava na moral começa quando o próprio ressentimento se torna criador e gera valores: o ressentimento dos seres aos quais é negada a verdadeira reação, a dos atos, e que apenas por uma vingança imaginária obtêm reparação. Enquanto toda moral nobre nasce de um triunfante Sim a si mesma, já de início a moral escrava diz Não a um 'fora', um 'outro', um 'não-eu' - e este Não é seu ato criador."
Ao contrário do nobre, que define a partir de si mesmo a noção de bem, e, então, por oposição, a noção de mau, o homem do ressentimento (o "escravo") define inicialmente o "mau", como o inimigo ao qual devota ódio, e, então, elabora a idéia de "bom".
Partindo desta oposição entre moral nobre e moral escrava, Nietzsche condena esta última como aquela que deu origem à moral cristã, fundamentada, essencialmente, no apequenamento do homem, através da disseminação e introjeção das idéias de culpa (a "má consciência"), castigo e fraqueza humana.
" - 'Eu nada vejo, mas por isso ouço muito bem. É um cochichar e sussurar cauteloso, sonso, manso, vindo de todos os cantos e quinas. Parece-me que mentem; uma suavidade visguenta escorre de cada som. A fraqueza é mentirosamente mudada em mérito, não há dúvida - é como você disse" -
- Prossiga!
-'e a impotência que não acerta contas é mudada em 'bondade'; a baixeza medrosa, em 'humildade'; a submissão àqueles que se odeia em 'obediência' (há alguém que dizem impor esta submissão - chamam-no Deus). O que há de inofensivo no fraco, a própria covardia na qual é pródigo, seu aguardar-na-porta, seu inevitável ter-de-esperar, recebe aqui o bom nome de 'paciência', chama-se também a virtude; o não poder-vingar-se chama-se não-querer-vingar-se, talvez mesmo perdão ('pois eles não sabem o quem fazem - somente nós sabemos o que eles fazem!'). Falam também do 'amor aos inimigos' - e suam ao falar disso."
(...)
- E como chamam aquilo que lhes serve de consolo por todo o sofrimento da vida? - sua fantasmagoria da bem-aventurança futura antecipada?
- 'Quê? Estou ouvindo bem? A isto chamam de 'Juízo Final', o advento do seu reino, do 'Reino de Deus' - mas por enquanto vivem 'na fé', 'no amor', 'na esperança'.
- Basta! Basta!"
Com o fim deste diálogo, Nietzsche se (nos?) pergunta: fé em quê? Amor a quê? Esperança em quê?
O liquidificador na minha cabeça ainda não parou...
O desafio e a provocação de Nietzsche instigam a curiosidade e não desapontam as expectativas depois da leitura. Colocar todas as idéias (especialmente aquelas que consideramos as "nossas" idéias) no liquidificador, e depois de bem mexidas e batidas, sair com algo completamente... incompreensível. Não exatamente sobre Nietzsche (se bem que nada fica ou é claro e óbvio com ele), mas sobre o que pensamos (ou achamos que pensamos) e sobre nós mesmos. Perder o instinto de rebanho será o início da redenção?
***
Nietzsche apresenta uma genealogia da moral a partir de suas raízes históricas, procurando definir os conceitos e a origem de "bem" e "mal". Nega inicialmente a associação entre "bom" e ações não egoístas ou a utilidade das ações. Para ele, a origem de bem está na classe que o determina:
"(...) o juízo 'bom' não provém daqueles aos quais se fez o 'bem'! Foram os 'bons' mesmos, isto é, os nobres, poderosos, superiores em posição e pensamento, que sentiram e estabeleceram a si e a seus atos como bons, ou seja, de primeira ordem, em oposição a tudo que era baixo, de pensamento baixo, e vulgar e plebeu."
Um outro caminho para iluminar o estudo sobre a origem do bem está na própria linguagem. E mais uma vez, Nietzsche enfatiza as determinações de classe, seja pelo "direito" dos nobres de criar conceitos e dar nomes às coisas - "eles dizem 'isto é isto', marcam cada coisa e acontecimento com um som, como que apropriando-se assim das coisas" - seja pela própria etimologia da palavra:
"(...) em toda parte, 'nobre', 'aristocrático', no sentido social, é o conceito básico a partir do qual necessariamente se desenvolveu 'bom', no sentido de 'espiritualmente nobre', 'aristocrático', de 'espiritualmente bem-nascido', 'espiritualmente privilegiado': um desenvolvimento que sempre corre paralelo àquele outro que faz 'plebeu', 'comum', 'baixo' transmutar-se finalmente em 'ruim'."
Seguindo a regra de que "o conceito denotador de preeminência política sempre resulta em um conceito de preeminência espiritual", com os sacerdotes, a casta mais elevada socialmente, a oposição puro x impuro passou a designar a distinção de castas. O confronto entre a casta dos sacerdotes (representada pelos judeus) e a dos guerreiros (a nobreza) levou a uma inversão radical de valores: o bom passou a designar não mais o nobre, mas o seu oposto: o miserável:
"os miseráveis somente são os bons, apenas os pobres, impotentes, baixos são bons, os sofredores, necessitados, feios, doentes são os únicos beatos, os únicos abençoados, unicamente para eles há bem-aventurança - mas vocês, nobres e poderosos, vocês serão por toda a eternidade os maus, os cruéis, os lascivos, os insaciáveis, os ímpios, serão também os eternamente os desventurados, malditos e danados!..."
Assim, com os sacerdotes judeus, a partir desta inversão e da imposição de um novo conceito de "bem", teve início a "revolta dos escravos na moral":
" - A rebelião escrava na moral começa quando o próprio ressentimento se torna criador e gera valores: o ressentimento dos seres aos quais é negada a verdadeira reação, a dos atos, e que apenas por uma vingança imaginária obtêm reparação. Enquanto toda moral nobre nasce de um triunfante Sim a si mesma, já de início a moral escrava diz Não a um 'fora', um 'outro', um 'não-eu' - e este Não é seu ato criador."
Ao contrário do nobre, que define a partir de si mesmo a noção de bem, e, então, por oposição, a noção de mau, o homem do ressentimento (o "escravo") define inicialmente o "mau", como o inimigo ao qual devota ódio, e, então, elabora a idéia de "bom".
Partindo desta oposição entre moral nobre e moral escrava, Nietzsche condena esta última como aquela que deu origem à moral cristã, fundamentada, essencialmente, no apequenamento do homem, através da disseminação e introjeção das idéias de culpa (a "má consciência"), castigo e fraqueza humana.
" - 'Eu nada vejo, mas por isso ouço muito bem. É um cochichar e sussurar cauteloso, sonso, manso, vindo de todos os cantos e quinas. Parece-me que mentem; uma suavidade visguenta escorre de cada som. A fraqueza é mentirosamente mudada em mérito, não há dúvida - é como você disse" -
- Prossiga!
-'e a impotência que não acerta contas é mudada em 'bondade'; a baixeza medrosa, em 'humildade'; a submissão àqueles que se odeia em 'obediência' (há alguém que dizem impor esta submissão - chamam-no Deus). O que há de inofensivo no fraco, a própria covardia na qual é pródigo, seu aguardar-na-porta, seu inevitável ter-de-esperar, recebe aqui o bom nome de 'paciência', chama-se também a virtude; o não poder-vingar-se chama-se não-querer-vingar-se, talvez mesmo perdão ('pois eles não sabem o quem fazem - somente nós sabemos o que eles fazem!'). Falam também do 'amor aos inimigos' - e suam ao falar disso."
(...)
- E como chamam aquilo que lhes serve de consolo por todo o sofrimento da vida? - sua fantasmagoria da bem-aventurança futura antecipada?
- 'Quê? Estou ouvindo bem? A isto chamam de 'Juízo Final', o advento do seu reino, do 'Reino de Deus' - mas por enquanto vivem 'na fé', 'no amor', 'na esperança'.
- Basta! Basta!"
Com o fim deste diálogo, Nietzsche se (nos?) pergunta: fé em quê? Amor a quê? Esperança em quê?
O liquidificador na minha cabeça ainda não parou...
sábado, 3 de novembro de 2007
Tabacaria
(sempre vale a pena reler...)
Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.
(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)
Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.
(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)
Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente
Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.
Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.
Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.
Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.
Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.
(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.
Álvaro de Campos, 15-1-1928
Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.
(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)
Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.
(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)
Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente
Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.
Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.
Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.
Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.
Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.
(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.
Álvaro de Campos, 15-1-1928
sábado, 27 de outubro de 2007
Painel
Na última aula, nós tivemos que fazer um painel pensando no conceito de "sujeito ético" para Kant, Nietzsche e Sartre.
O nosso grupo - Roberta, Thatiane, Vinícius e eu - pensou em alguns valores sociais, econômicos, culturais, que fazem o homem ser o que é. Seja valor como criação histórica e imposição a partir de determinada classe social (Nietzsche), seja o projeto da natureza realizado através dos valores de um líder (Kant), ou a responsabilidade de escolha desses valores (Sartre), a questão é que é impossível não ter valor algum, e o sujeito ético é aquele que vive de acordo com os valores que ele escolhe ou que lhe são impostos.
Parece que o ideal de super-herói de Nietzsche - o sujeito que supera a ética e vive além do bem e do mal - ainda está um tanto longe de se realizar...
O trabalho foi bem interessante porque mostrou como nossa cultura é visual - ou seja, nossos valores são representados visualmente, tornam-se símbolos - e como nós criamos nossa representação de mundo através de imagens e... valores!
Eis a nossa Árvore Genealógica da Moral:
O nosso grupo - Roberta, Thatiane, Vinícius e eu - pensou em alguns valores sociais, econômicos, culturais, que fazem o homem ser o que é. Seja valor como criação histórica e imposição a partir de determinada classe social (Nietzsche), seja o projeto da natureza realizado através dos valores de um líder (Kant), ou a responsabilidade de escolha desses valores (Sartre), a questão é que é impossível não ter valor algum, e o sujeito ético é aquele que vive de acordo com os valores que ele escolhe ou que lhe são impostos.
Parece que o ideal de super-herói de Nietzsche - o sujeito que supera a ética e vive além do bem e do mal - ainda está um tanto longe de se realizar...
O trabalho foi bem interessante porque mostrou como nossa cultura é visual - ou seja, nossos valores são representados visualmente, tornam-se símbolos - e como nós criamos nossa representação de mundo através de imagens e... valores!
Eis a nossa Árvore Genealógica da Moral:
quinta-feira, 25 de outubro de 2007
Aniversário
(Álvaro de Campos )
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...
sexta-feira, 12 de outubro de 2007
Ai se
(Poema de Rafaelle Donzalisky)
Ai se tudo que ficasse girasse diferente das coisas
que ficam num impasse de "ai se..."
ai se nada mais empacasse!
O mundo seria mais redondo e os intestinos mais soltos.
Ai se tudo que ficasse girasse diferente das coisas
que ficam num impasse de "ai se..."
ai se nada mais empacasse!
O mundo seria mais redondo e os intestinos mais soltos.
quarta-feira, 19 de setembro de 2007
Los Años Mozos
(Belíssima canção do cantor e compositor cubano Pablo Milanés)
Los años mozos pasaron,
Y ahora saber que hay que ser
Y hay que estar.
Duro el camino que queda,
Y ahora saber caminar.
Y hay que andar.
Fueron los falsos valores
A mí solo llega
Quien sabe de hombre calzar,
Y hasta los tristes amores
Que tantos dolores
Me hicieron un tiempo pasar.
Y ahora tengo mis poros abiertos
Para lo que hay que hacer
Y esta hecho, o esperar mi muerte
Abriéndome el puente
Y diciéndome puedes pasar.
Los años mozos pasaron,
Y ahora saber que hay que ser
Y hay que estar.
Duro el camino que queda,
Y ahora saber caminar.
Y hay que andar.
Los años mozos pasaron,
Y ahora saber que hay que ser
Y hay que estar.
Duro el camino que queda,
Y ahora saber caminar.
Y hay que andar.
Fueron los falsos valores
A mí solo llega
Quien sabe de hombre calzar,
Y hasta los tristes amores
Que tantos dolores
Me hicieron un tiempo pasar.
Y ahora tengo mis poros abiertos
Para lo que hay que hacer
Y esta hecho, o esperar mi muerte
Abriéndome el puente
Y diciéndome puedes pasar.
Los años mozos pasaron,
Y ahora saber que hay que ser
Y hay que estar.
Duro el camino que queda,
Y ahora saber caminar.
Y hay que andar.
sábado, 15 de setembro de 2007
Outras Armas
Porque a vida ainda pode ter um pouco de graça... e rir ainda pode ser um remédio
Ontem, citei o Millôr e já há algum tempo estava pensando em falar sobre o humor como arma. Arma de formação de consciência crítica, arma de transformação, ou simplesmente uma forma de levar melhor a vida.
Em seu maravilhoso Pequeno Tratado das Grandes Virtudes, Comte-Sponville apresenta o humor como uma delas, lembrando que "toda seriedade é condenável, referindo-se a nós mesmos":
"É impolido dar-se ares de importância. É ridículo levar-se a sério. Não ter humor é não ter humildade, é não ter lucidez, é não ter leveza, é ser demasiado cheio de si, é estar demasiado enganado de si, é ser demasiado severo ou demasiado agressivo, é quase sempre carecer, com isso, de generosidade, de doçura, de misericórdia... O excesso de seriedade, mesmo na virtude, tem algo de suspeito e de inquietante: deve haver algum fanatismo nisso... É virtude que se acredita e que, por isso, carece de virtude.
(...) Um pouco de humor, um pouco de amor: um pouco de alegria. Mesmo sem razão, mesmo contra a razão. Entre desespero e futilidade, às vezes a virtude fica menos num meio-termo do que na capacidade de abraçar, num mesmo olhar ou num mesmo sorriso, esses dois extremos entre os quais vivemos, entre os quais evoluímos, e que se encontram no humor."
Mas será que dá pra rir de tudo e em qualquer situação? Essa é a lição dos criadores do Pasquim.
Em 1969, em plena ditadura militar brasileira, e um ano após a imposição do AI-5, um bando de jornalistas, cartunistas e humoristas malucos resolveu criar um jornal alternativo, dispostos a ir contra o regime, sem bala e sem canhão, mas com uma arma talvez tão poderosa quanto: o humor. Tirando sarro de tudo, inclusive deles mesmos, os caras do Pasquim revolucionaram o jornalismo brasileiro e mostraram que ainda dava pra lutar, e que os ditadores poderiam até acabar com tudo (ou seja, com tudo o que a liberdade constitucional garante a um cidadão), mas que iam ter trabalho, ah, isso iam!
"Verdade do humor. A situação é desesperadora, mas não é grave." (Comte-Sponville)
Tem um documentário fantástico que conta a história do período: Humor com gosto de Pasquim. Nele, toda a patota (lendo Millôr, muitas expressões são incorporadas, bicho!) aparece lembrando os bons e "bons" momentos. Bons porque tudo o que eles faziam era uma barbaridade: inovações e tiros pra tudo quanto é lado. E "bons" porque, mesmo falando de censura, violência e estadias na prisão, eles não conseguem perder o bom humor e não dá pra conter as gargalhadas. Millôr, Claudius, Jaguar, Chico Caruso, Ziraldo... a graça não era vã e eles tinham consciência da luta:
"O riso, o humor são uma grande brecha contra o poder, porque o humor se faz contra o que está estabelecido, contra a autoridade estabelecida, seja ela eclesiástica, parlamentar, presidencial, o que for (...) é desvelar o que está por trás, mostrar o ridículo da posição, fazer ver os mecanismos que se escondem por trás das decisões... esta é a função do humor", diz o Claudius.
Ao final das batalhas ganhas e perdidas, sobra alguma desilusão - e é o Jaguar, lúcido, quem confessa estar cada vez mais convencido de que eles, humoristas, afinal, não apitavam nada:
"Em todo caso a gente se diverte, pelo menos pensa que influencia alguma coisa, mas eu acho que a história como que segue inexoravelmente... nós ladramos e eles passam..."
Será que esses humoristas não apitaram nada mesmo? Acredito que a marca que eles deixaram na história brasileira é bem maior que simples latido de cão desesperado. A revolução das idéias é talvez tão importante quanto a transformação das estruturas. E revolução foi o que eles fizeram. Quando o ser humano perde seus direitos constitucionais mais fundamentais - a liberdade de expressão, a liberdade de ir-e-vir (sabe lá o que é ser preso - quando não morto - só por que pensa mais assim ou mais assado? Ou simplesmente porque sim? Usar camisa vermelha também não era muito aconselhável... ) - aí é que ele aprende, de fato, com quantos paus se faz uma canoa. A tal "liberdade" (abstração das infinitas possibilidades de escolha) torna-se piada de mau gosto. Seria engraçado se o Sartre tivesse vivido no Brasil durante o regime militar... Essa idéia me fez pensar em uma charge... O desenho é do meu irmão Randal:

Ontem, citei o Millôr e já há algum tempo estava pensando em falar sobre o humor como arma. Arma de formação de consciência crítica, arma de transformação, ou simplesmente uma forma de levar melhor a vida.
Em seu maravilhoso Pequeno Tratado das Grandes Virtudes, Comte-Sponville apresenta o humor como uma delas, lembrando que "toda seriedade é condenável, referindo-se a nós mesmos":
"É impolido dar-se ares de importância. É ridículo levar-se a sério. Não ter humor é não ter humildade, é não ter lucidez, é não ter leveza, é ser demasiado cheio de si, é estar demasiado enganado de si, é ser demasiado severo ou demasiado agressivo, é quase sempre carecer, com isso, de generosidade, de doçura, de misericórdia... O excesso de seriedade, mesmo na virtude, tem algo de suspeito e de inquietante: deve haver algum fanatismo nisso... É virtude que se acredita e que, por isso, carece de virtude.
(...) Um pouco de humor, um pouco de amor: um pouco de alegria. Mesmo sem razão, mesmo contra a razão. Entre desespero e futilidade, às vezes a virtude fica menos num meio-termo do que na capacidade de abraçar, num mesmo olhar ou num mesmo sorriso, esses dois extremos entre os quais vivemos, entre os quais evoluímos, e que se encontram no humor."
Mas será que dá pra rir de tudo e em qualquer situação? Essa é a lição dos criadores do Pasquim.
Em 1969, em plena ditadura militar brasileira, e um ano após a imposição do AI-5, um bando de jornalistas, cartunistas e humoristas malucos resolveu criar um jornal alternativo, dispostos a ir contra o regime, sem bala e sem canhão, mas com uma arma talvez tão poderosa quanto: o humor. Tirando sarro de tudo, inclusive deles mesmos, os caras do Pasquim revolucionaram o jornalismo brasileiro e mostraram que ainda dava pra lutar, e que os ditadores poderiam até acabar com tudo (ou seja, com tudo o que a liberdade constitucional garante a um cidadão), mas que iam ter trabalho, ah, isso iam!
"Verdade do humor. A situação é desesperadora, mas não é grave." (Comte-Sponville)
Tem um documentário fantástico que conta a história do período: Humor com gosto de Pasquim. Nele, toda a patota (lendo Millôr, muitas expressões são incorporadas, bicho!) aparece lembrando os bons e "bons" momentos. Bons porque tudo o que eles faziam era uma barbaridade: inovações e tiros pra tudo quanto é lado. E "bons" porque, mesmo falando de censura, violência e estadias na prisão, eles não conseguem perder o bom humor e não dá pra conter as gargalhadas. Millôr, Claudius, Jaguar, Chico Caruso, Ziraldo... a graça não era vã e eles tinham consciência da luta:
"O riso, o humor são uma grande brecha contra o poder, porque o humor se faz contra o que está estabelecido, contra a autoridade estabelecida, seja ela eclesiástica, parlamentar, presidencial, o que for (...) é desvelar o que está por trás, mostrar o ridículo da posição, fazer ver os mecanismos que se escondem por trás das decisões... esta é a função do humor", diz o Claudius.
Ao final das batalhas ganhas e perdidas, sobra alguma desilusão - e é o Jaguar, lúcido, quem confessa estar cada vez mais convencido de que eles, humoristas, afinal, não apitavam nada:
"Em todo caso a gente se diverte, pelo menos pensa que influencia alguma coisa, mas eu acho que a história como que segue inexoravelmente... nós ladramos e eles passam..."
Será que esses humoristas não apitaram nada mesmo? Acredito que a marca que eles deixaram na história brasileira é bem maior que simples latido de cão desesperado. A revolução das idéias é talvez tão importante quanto a transformação das estruturas. E revolução foi o que eles fizeram. Quando o ser humano perde seus direitos constitucionais mais fundamentais - a liberdade de expressão, a liberdade de ir-e-vir (sabe lá o que é ser preso - quando não morto - só por que pensa mais assim ou mais assado? Ou simplesmente porque sim? Usar camisa vermelha também não era muito aconselhável... ) - aí é que ele aprende, de fato, com quantos paus se faz uma canoa. A tal "liberdade" (abstração das infinitas possibilidades de escolha) torna-se piada de mau gosto. Seria engraçado se o Sartre tivesse vivido no Brasil durante o regime militar... Essa idéia me fez pensar em uma charge... O desenho é do meu irmão Randal:
sexta-feira, 14 de setembro de 2007
Liberdade segundo Millôr
Millôr Fernandes, no antigo Pasquim (e em que época!), também discutia essa tal liberdade:
"A liberdade é a condição (e por que não a condução?) fundamental do homem livre. Sacou? Aquele negócio de ir-e-vir. Peripatético às pampas. Largueza, ensancha e a ânsia de imensos descampados. Tamos aí. Como dizia Herbert Stengley - escritor que estou inventando neste momento - que maravilhoso arcaísmo é a liberdade. (...) Pois todo homem nasce livre, não é mesmo? Naturalmente dependente do pai, da mãe, da classe social e dos acasos genéticos. Mas decora logo a tabela dos direitos e deveres, faz as contas, e, se leva vantagem, cai de pau em cima dos outros. E assim que é, pô, não vem com essa não.
Ser livre, enfim, é bom notar, não é ser libertado. 'Eu te dou toda liberdade', tá na cara, é restrição máxima. Evita, nego. E dobra à esquerda. (...) Será a liberdade apenas uma nostalgia? Uma colagem mal feita de fatos nunca acontecidos? A política da esperança, já, assim, meio desesperada? Uma simples omissão dos poderes vigentes? O Fla x Flu do Possível contra a Aventura? O condicionamento total é a liberdade?"
"A liberdade é a condição (e por que não a condução?) fundamental do homem livre. Sacou? Aquele negócio de ir-e-vir. Peripatético às pampas. Largueza, ensancha e a ânsia de imensos descampados. Tamos aí. Como dizia Herbert Stengley - escritor que estou inventando neste momento - que maravilhoso arcaísmo é a liberdade. (...) Pois todo homem nasce livre, não é mesmo? Naturalmente dependente do pai, da mãe, da classe social e dos acasos genéticos. Mas decora logo a tabela dos direitos e deveres, faz as contas, e, se leva vantagem, cai de pau em cima dos outros. E assim que é, pô, não vem com essa não.
Ser livre, enfim, é bom notar, não é ser libertado. 'Eu te dou toda liberdade', tá na cara, é restrição máxima. Evita, nego. E dobra à esquerda. (...) Será a liberdade apenas uma nostalgia? Uma colagem mal feita de fatos nunca acontecidos? A política da esperança, já, assim, meio desesperada? Uma simples omissão dos poderes vigentes? O Fla x Flu do Possível contra a Aventura? O condicionamento total é a liberdade?"
O existencialismo é um humanismo
Na aula de ontem, a gente discutia a noção de bem em Sartre, se é que ele defende alguma idéia de bem... O bem é a própria escolha entre o bem e o mal (e entre todas as nuances de cinza que vão do preto ao branco), com a consciência da responsabilidade que essa escolha acarreta, para o bem ou para o mal. Nenhuma moral ou juízo de valor pré-estabelecido podem ajudar a realizar a escolha em situações concretas, e, assim, além da necessidade de escolher, a gente ainda tem que criar a própria moral que auxilie na escolha. O homem é invenção constante, é criação do nada. A moral sartreana, que nada tem de moralista, é uma moral da ação, do compromisso com as próprias escolhas, fazendo valer a liberdade que nos condena.
"O existencialista pensa que é muito incomodativo que Deus não exista, porque desaparece com ele toda a possibilidade de achar valores num céu inteligível; não pode existir já o bem a priori, visto não haver já uma consciência infinita e perfeita para pensá-lo; não está escrito em parte alguma que o bem existe, que é preciso ser honesto, que não devemos mentir, já que precisamente estamos num plano em que há somente homens."
Talvez a gente possa dizer que o bem supremo (de novo, se é que, alguma vez, ele pensou em bem supremo) é a própria liberdade - essa mistura de condição universal e condenação humana.
"Quando declaro que a liberdade, através de cada circunstância concreta, não pode ter outro fim senão querer-se a si própria, se alguma vez o homem reconheceu que estabelece valores no seu abandono, ele já não pode querer senão uma coisa - a liberdade como fundamento de todos os valores."
A busca constante é pela liberdade em si:
"Queremos a liberdade pela liberdade e através de cada circunstância particular. E, ao querermos a liberdade, descobrimos que ela depende inteiramente da liberdade dos outros, e que a liberdade dos outros depende da nossa. Sem dúvida, a liberdade como definição do homem não depende de outrem, mas, uma vez que existe a ligação de um compromisso, sou obrigado a querer ao mesmo tempo a minha liberdade e a liberdade dos outros ; só posso tomar a minha liberdade como um fim se tomo igualmente a dos outros como um fim."
Queremos, sim, a liberdade. Será? Paradoxo dos paradoxos, a liberdade de escolha possibilita a própria liberdade de escolher entre ser livre ou não... Porque, apesar da condenação sartreana, ou justamente por causa dela - é a tal da má-fé - a alienação consciente e deliberada está aí! Lembrei do trecho de uma música do Dazaranha (uma banda de Florianópolis):
"O peixe, ele quer a rede ou ele quer o arpão? Ele quer água ou ele quer limão?"
"O existencialista pensa que é muito incomodativo que Deus não exista, porque desaparece com ele toda a possibilidade de achar valores num céu inteligível; não pode existir já o bem a priori, visto não haver já uma consciência infinita e perfeita para pensá-lo; não está escrito em parte alguma que o bem existe, que é preciso ser honesto, que não devemos mentir, já que precisamente estamos num plano em que há somente homens."
Talvez a gente possa dizer que o bem supremo (de novo, se é que, alguma vez, ele pensou em bem supremo) é a própria liberdade - essa mistura de condição universal e condenação humana.
"Quando declaro que a liberdade, através de cada circunstância concreta, não pode ter outro fim senão querer-se a si própria, se alguma vez o homem reconheceu que estabelece valores no seu abandono, ele já não pode querer senão uma coisa - a liberdade como fundamento de todos os valores."
A busca constante é pela liberdade em si:
"Queremos a liberdade pela liberdade e através de cada circunstância particular. E, ao querermos a liberdade, descobrimos que ela depende inteiramente da liberdade dos outros, e que a liberdade dos outros depende da nossa. Sem dúvida, a liberdade como definição do homem não depende de outrem, mas, uma vez que existe a ligação de um compromisso, sou obrigado a querer ao mesmo tempo a minha liberdade e a liberdade dos outros ; só posso tomar a minha liberdade como um fim se tomo igualmente a dos outros como um fim."
Queremos, sim, a liberdade. Será? Paradoxo dos paradoxos, a liberdade de escolha possibilita a própria liberdade de escolher entre ser livre ou não... Porque, apesar da condenação sartreana, ou justamente por causa dela - é a tal da má-fé - a alienação consciente e deliberada está aí! Lembrei do trecho de uma música do Dazaranha (uma banda de Florianópolis):
"O peixe, ele quer a rede ou ele quer o arpão? Ele quer água ou ele quer limão?"
sexta-feira, 7 de setembro de 2007
quinta-feira, 6 de setembro de 2007
Filosofia de banheiro
"O banheiro é um lugar dedicado ao corpo, em sua mais natural condição. Através da produção de grafitos, serve à comunicação humana como um canal de expressão escrita disponível a todos, um meio ao monopólio dos superveículos massificadores. Sem limite de censura externa e acessível a todos, torna-se um palco discreto de confidências." (Grafiteiros de Banheiro, G. Barbosa)
Tudo bem... nos banheiros da FFLCH (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP) tem muitas coisas pesadas e escatológicas (mas mesmo assim, algumas muito engraçacadas e criativas por sinal...). Mas também tem coisas interessantes e até filosóficas, do tipo:
"Deus está morto - Nietzsche"
Resposta:"Nietzsche está morto - Deus" (banheiro da geografia)
Tese: A burguesia fede.
Antítese: Mas tem dinheiro para comprar perfume.
Lingüísticas também:
"o futuro do pretérito a deus pertenceria" (banheiro da letras)
"A porta de um dos banheiros femininos da sociais traz um debate sobre palavras 'pré cambrianas' - signifique isso o que for... alguma moça pediu, num recado, que parassem de escrever 'chulices', e outra replicou dizendo que a palavra estava na era pré-cambriana... Por fim, alguém escreveu que não existem palavras em tal era, apenas animais que desenham na porta do banheiro..."
E pra ridicularizar a própria verborragia filosofante:
"O homem é o único animal capaz de se desumanizar."
E logo abaixo: "O elefante é o único animal capaz de se deselefantizar!"
Uma vez quando limparam o banheiro teve um cara que escreveu: "inicia-se agora uma nova era de pensamentos e reflexões"
E viva o vandalismo cultural!
E pra não perder o pique, vamos de Poética com Manuel Bandeira (será que ele escreveria - escreveu? - em portas de banheiro?)
Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente
protocolo e manifestações de apreço ao Sr. diretor.
Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário
o cunho vernáculo de um vocábulo.
Abaixo os puristas
Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis
Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora de si mesmo
De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes maneiras de agradar às mulheres, etc
Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbedos
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare
— Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.
Pra quem quiser se divertir ou se instruir um pouco (tudo é uma questão de perspectiva...), aqui está um tópico da comunidade da FFLCH no orkut dedicado ao tema:
http://www.orkut.com/CommMsgs.aspx?cmm=25982&tid=432064&na=1&nst=1
E mais: uma tese analisando o discurso dos banheiros:
http://www.unicamp.br/iel/site/alunos/publicacoes/textos/a00009.htm
Tudo bem... nos banheiros da FFLCH (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP) tem muitas coisas pesadas e escatológicas (mas mesmo assim, algumas muito engraçacadas e criativas por sinal...). Mas também tem coisas interessantes e até filosóficas, do tipo:
"Deus está morto - Nietzsche"
Resposta:"Nietzsche está morto - Deus" (banheiro da geografia)
Tese: A burguesia fede.
Antítese: Mas tem dinheiro para comprar perfume.
Lingüísticas também:
"o futuro do pretérito a deus pertenceria" (banheiro da letras)
"A porta de um dos banheiros femininos da sociais traz um debate sobre palavras 'pré cambrianas' - signifique isso o que for... alguma moça pediu, num recado, que parassem de escrever 'chulices', e outra replicou dizendo que a palavra estava na era pré-cambriana... Por fim, alguém escreveu que não existem palavras em tal era, apenas animais que desenham na porta do banheiro..."
E pra ridicularizar a própria verborragia filosofante:
"O homem é o único animal capaz de se desumanizar."
E logo abaixo: "O elefante é o único animal capaz de se deselefantizar!"
Uma vez quando limparam o banheiro teve um cara que escreveu: "inicia-se agora uma nova era de pensamentos e reflexões"
E viva o vandalismo cultural!
E pra não perder o pique, vamos de Poética com Manuel Bandeira (será que ele escreveria - escreveu? - em portas de banheiro?)
Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente
protocolo e manifestações de apreço ao Sr. diretor.
Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário
o cunho vernáculo de um vocábulo.
Abaixo os puristas
Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis
Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora de si mesmo
De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes maneiras de agradar às mulheres, etc
Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbedos
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare
— Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.
Pra quem quiser se divertir ou se instruir um pouco (tudo é uma questão de perspectiva...), aqui está um tópico da comunidade da FFLCH no orkut dedicado ao tema:
http://www.orkut.com/CommMsgs.aspx?cmm=25982&tid=432064&na=1&nst=1
E mais: uma tese analisando o discurso dos banheiros:
http://www.unicamp.br/iel/site/alunos/publicacoes/textos/a00009.htm
sábado, 1 de setembro de 2007
Armas (ou Para continuar acreditando...)
Viola enluarada
(Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle)
A mão que toca um violão
Se for preciso faz a guerra,
Mata o mundo, fere a terra.
A voz que canta uma canção
Se for preciso canta um hino,
Louva a morte.
Viola em noite enluarada
No sertão é como espada,
Esperança de vingança.
O mesmo pé que dança um samba
Se preciso vai à luta,
Capoeira.
Quem tem de noite a companheira
Sabe que a paz é passageira,
Prá defendê-la se levanta
E grita: Eu vou!
Mão, violão, canção e espada
E viola enluarada
Pelo campo e cidade,
Porta bandeira, capoeira,
Desfilando vão cantando
Liberdade, liberdade, liberdade...
(Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle)
A mão que toca um violão
Se for preciso faz a guerra,
Mata o mundo, fere a terra.
A voz que canta uma canção
Se for preciso canta um hino,
Louva a morte.
Viola em noite enluarada
No sertão é como espada,
Esperança de vingança.
O mesmo pé que dança um samba
Se preciso vai à luta,
Capoeira.
Quem tem de noite a companheira
Sabe que a paz é passageira,
Prá defendê-la se levanta
E grita: Eu vou!
Mão, violão, canção e espada
E viola enluarada
Pelo campo e cidade,
Porta bandeira, capoeira,
Desfilando vão cantando
Liberdade, liberdade, liberdade...
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