sexta-feira, 8 de abril de 2011

Aprendiz de Alberto Caeiro

Hoje, Marcéu e eu demos o nosso primeiro passeio no parque. A intenção era fazer ele dormir depois do almoço. Marcéu é o meu sobrinho lindo, de quase um ano, filho da minha irmã, que escolheu esse nome porque queria juntar o mar e o céu em uma só pessoa. Os pais da cantora Ceumar tiveram a mesma ideia. Eu brincava com a minha irmã, dizendo que ele seria a linha do horizonte. ..
Dia de outono perfeito, com sol, céu azul e brisa fresquinha. O passeio pelo Parque Ipupiara (a Praça 22 de Janeiro, lugar que marcou a minha infância) foi um deslumbre para os olhos. Os do Marcéu e, por causa dele, os meus também. Tudo chamava a atenção, tudo tinha o seu encanto. As árvores, os pássaros, os peixinhos, os anões e a Branca de Neve, os cachorros que passavam, as crianças que brincavam. Até aquele monstro horrível do Ipupiara se tornou uma atração.
Depois, fomos até a Biquinha. O Marcéu, que, no parque, já tinha gostado muito do Benedito Calixto, então se encantou com o Padre Anchieta. E pediu pela água fresca da bica, saída da boca de um leão e servida na mão em conchinha.
Seguimos para o deque dos pescadores. Mais atrações irresistíveis para os olhos. O mar, os barquinhos, as gaivotas e garças no céu, os pescadores e as varas de pescar. Fascinado, ele tentava compreender aquele negócio com fio comprido que era lançado para trás e arremessado para frente com uma bola colorida na ponta.
No último trecho do caminho de volta para casa, o Marcéu dormiu. Deve ter sonhado com árvores e pássaros e peixes e varas de pescar...
Dia de prazer puro e simples. Lição de olhar e ver tudo muito bem. Como o Alberto Caeiro, para quem aprender a ver (e desaprender a pensar) é a maior filosofia. Não é à toa que ele é considerado mestre por Álvaro de Campos, outro heterônimo de Fernando Pessoa. Hoje, os aprendizes fomos nós, mas desconfio que o mestre, no fundo, no fundo, tenha aprendido essa lição com os pequenos...

*

O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de, vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do mundo...

Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...
O mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo.

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar...

Amar é a eterna inocência,
E a única inocência é não pensar...

(Poema II, do livro O Guardador de Rebanhos, de Alberto Caeiro)

*

(Comentário à parte... Depois, tenho que escrever também sobre o Miguel, meu outro sobrinho lindo, de 5 anos, filho do meu irmão. Já falei aqui sobre o meu "rei da piscina", mas ultimamente ele anda mais para caçador de aranhas e super-herói da Marvel... Digo isso porque descobri que, quando se trata de sobrinhos, tudo o que a gente faz para um, tem que fazer para o outro, mesmo que seja mordida no pé ou ataque de cócegas...
Mais um comentário. Com estas duas criaturinhas enchendo nossa vida de amor e alegria, minha mãe deu para me perguntar quando vai ser a minha vez. Falta uma neta, é o que ela diz. Bom, não sei quando vai ser a minha vez, nem sequer se eu vou ter vez. Mas é com alegria e gratidão que digo que, no momento atual da minha vida, não só fiquei para titia, mas simplesmente nasci para ser a tia do Miguel e do Marcéu.)

terça-feira, 29 de março de 2011

Com nada, já dá para começar.

(Paulo Leminski)

domingo, 27 de março de 2011

quinta-feira, 17 de março de 2011

Vagabundos Iluminados

(Jack Kerouac)

"Ah, pobres idéias que um homem tem, e um homem sozinho na praia, e Deus observando com atenção e sorrindo...", eu diria.

Mas parecia que eu tinha visto a tarde de antigamente daquela trilha, de pedras da pradaria e florzinhas de lupino, a repentinos reencontros com o riacho gorgolejante com suas pontes de troncos caídos salpicados pela água e seu verde do fundo do mar, havia um peso inexplicável no meu coração como se eu já tivesse vivido antes e já tivesse caminhado por aquela trilha em circunstâncias parecidas com um companheiro bodisatva, mas talvez em uma missão mais importante, tive vontade de deitar-me ao lado da trilha e me lembrar de tudo aquilo. Quando a gente está no mato, fica com essa sensação: sempre parece que você já conhece aquele lugar, há muito esquecido, como o rosto de um parente morto há muito tempo; como um sonho antigo, como o trecho de uma canção esquecida que está à deriva sobre a água, mas acima de tudo como eternidades douradas de infância passada ou de vida adulta passada e todos os vivos e os que estão à beira da morte e o coração que bateu ali há um milhão de anos e as nuvens que vão passando lá em cima parecem servir de testemunha dessa sensação (devido à sua própria familiaridade solitária). Êxtase, até, senti, com lampejos repentinos de lembranças, e me sentindo suado e sonolento, tive vontade de dormir e sonhar na relva.

"O segredo desse tipo de escalada", disse Japhy, "é como o zen. Não pense. Simplesmente dance de acordo com o ritmo. É a coisa mais fácil do mundo, aliás, é mais fácil do que andar em terreno plano, que é monótono. Probleminhas meigos se apresentam a cada passo e no entanto a gente nunca hesita e se vê em outra pedra escolhida sem nenhuma razão especial, igualzinho ao zen." O que era mesmo.

"É, cara, sabe que para mim uma montanha é um Buda. Pense na paciência, centenas de milhares de anos só paradas ali perfeitamente silenciosas e como se estivessem rezando por todas as criaturas vivas naquele silêncio e só esperando que a gente acabasse com toda a nossa complicação e nossas bobagens."

"Ah, Japhy, você me ensinou a lição mais definitiva de todas, que é impossível cair de uma montanha". "E é exatamente isso que quer dizer, 'Quando chegar ao topo de uma montanha, continue escalando', Smith".

"Vamos lá, Ray, tudo acaba alguma hora." Na verdade, percebi que não tinha mesmo coragem nenhuma, o que eu já sabia havia muito tempo. Mas tenho alegria.

Japhy pulando: "Tenho lido Whitman, sabe o que ele diz, Cheer up slaves, and horrify foreign despots, ele quer dizer que a atitude para o Bardo, o bardo zen-lunático dos antigos caminhos do deserto, vê a coisa toda como um mundo cheio de andarilhos de mochilas nas costas, Vagabundos do Darma, que se recusam a concordar com a afirmação generalizada de que consomem a produção e portanto precisam trabalhar pelo privilégio de consumir, por toda aquela porcaria que não queriam, como refrigeradores, aparelhos de TV, carros, pelo menos os carros novos e chiques, certos óleos de cabelo e desodorante e bobagens em geral que a gente acaba vendo no lixo depois de uma semana, todos eles aprisionados em um sistema de trabalho, produção, consumo, trabalho, produção, consumo, tenho a visão de uma grande revolução de mochilas, milhares ou até mesmo milhões de jovens americanos vagando por aí com mochilas nas costas, subindo montanhas para rezar, fazendo as crianças rirem e deixando os velhos contentes, deixando meninas alegres e moças ainda mais alegres, todos esses zen-lunáticos que ficam aí escrevendo poemas que aparecem na cabeça deles sem razão nenhuma e também por serem gentis e também por atos estranhos inesperados vivem proporcionando visões de liberdade para todo mundo e todas as criaturas vivas, é disso que eu gosto em vocês, Goldbook e Smith, vocês são dois caras da Costa Leste que eu achei que estava morta."

Mas eu tinha minhas próprias idéias e elas não tinham nada a ver com a parte "lunática" de tudo aquilo. Eu queria comprar um equipamento completo com tudo que é preciso para dormir, abrigar-se, comer, cozinhar, na verdade uma cozinha e um quarto completos bem nas minhas costas, e partir para algum lugar e encontrar a solidão perfeita e olhar para o perfeito vazio da minha mente e ser completamente neutro em relação a qualquer e toda idéia. Pretendo rezar, também, como minha única atividade, rezar por todas as criaturas vivas; percebi que essa era a única atividade decente que sobrara no mundo. Estar no leito de um rio em algum lugar, ou no deserto, ou nas montanhas, ou em alguma cabana no México ou em um barraco em Adirondack, e descansar e ser gentil, e não fazer nada além disso, praticar o que os chineses chamam de "não fazer nada".

Todo entusiasmado, voltei para o mato naquela noite e pensei: "O que significa eu estar neste universo infinito, pensando que sou um homem sentado sob as estrelas na varanda da terra, mas na verdade sou o vazio e estou desperto naquele vazio e despertar de todas as coisas? Significa que eu sou vazio e estou desperto, e eu sei que sou o vazio, que estou desperto, e que não há diferença entre mim e todas as outras coisas. Em outras palavras, significa que eu me transformei na mesma coisa que tudo o mais. Significa que eu me transformei no Buda".

Por que é que eu me importava com o chiado do pequeno euzinho que vagava por todos os lados? Eu atuava no campo da inspiração, isolamento, corte, expiração, exibição, decepção, desacontecimento, fim, finalização, elo cortado, nada, elo, sei lá, acabou! "A poeira dos meus pensamentos guardada em um globo", pensei, "nesta solidão atemporal", pensei, e sorri de verdade porque estava vendo a luz branca em tudo em todos os lugares afinal.

Meditei e rezei. Realmente não existe nenhum tipo de noite de sono no mundo que possa se comparar à noite de sono que se tem em uma noite de inverno no deserto, desde que se esteja bem acomodado e aquecido em um saco de dormir de pena de pato. O silêncio é tão intenso que dá para ouvir o próprio sangue rugindo nos ouvidos, mas mais alto do que isso, de longe, é o bramido misterioso que eu sempre identifico com o bramido do diamante da sabedoria, o misterioso bramido do próprio silêncio, que é um magnífico Shhhh que serve como lembrete de algo que a gente parece ter esquecido em meio à estafa dos dias desde que nascemos. Gostaria de poder explicar isso às pessoas que eu amo, à minha mãe, a Japhy, mas simplesmente não existem palavras que possam descrever o "nada" e a pureza daquilo.

"Você sabe como Kasyapa se tornou o Primeiro Patriarca? O Buda estava pronto para começar a expor um sutra e mil duzentos e cinqüenta bikkhus estavam esperando com as vestes arrumadas e os pés cruzados, e tudo que o Buda fez foi erguer uma flor. Todo mundo ficou perturbado. O Buda não disse nada. Só Kasyapa sorriu. Foi assim que o Buda escolheu Kasyapa. Isso ficou conhecido como o sermão da flor, rapaz."
Entrei na cozinha e peguei uma banana e saí e disse: "Bom, vou te contar o que é o nirvana".
"O quê?"
Comi a banana e joguei a casca fora e não disse nada. "Este é o sermão da banana."

Então, por um instante, tive a mais tremenda sensação de pena dos seres humanos, sejam eles o que forem, o rosto, a boca cheia de dor, personalidades, tentativas de ser alegres, pequenas petulâncias, sensação de perda, piadinhas chatas e vazias que logo seriam esquecidas: ah, para quê? Eu sabia que o som do silêncio estava em todo lugar e que portanto tudo em todo lugar era silêncio. Suponha que de repente acordássemos e víssemos que o que achamos ser isto ou aquilo na verdade não é nada disto nem daquilo?

Trilhas são assim: a gente flutua em um paraíso shakespeariano de Arden e espera ver ninfas e flautistas, e daqui a pouco já está se matando sob um sol quente dos infernos em meio à poeira e às urtigas e aos arbustos venenosos... igualzinho à vida.

Os três últimos quilômetros da colina foram terríveis e eu disse: "Japhy, há uma coisa que eu gostaria de ter agora mais do que qualquer outra no mundo... mais do que tudo que eu sempre quis na vida". Rajadas de vento frio do entardecer sopravam, nós nos apressávamos com o corpo curvado e a mochila nas costas pela trilha infindável.
"O quê?"
"Uma linda barra grande de chocolate, podia até ser uma pequena. Por uma razão qualquer, uma barra de chocolate salvaria a minha alma agora."

Será que somos anjos caídos que não quiseram acreditar que o nada é nada e portanto nascemos para perder aqueles que amamos e os amigos queridos um por um e afinal nossa própria vida, para ter essa comprovação?

Sessenta pores do sol eu tinha visto refletindo naquela linha vertical. A visão da liberdade da eternidade era minha para sempre. O esquilo correu para o meio das pedras e uma borboleta saiu voando. Tudo era simples assim.

terça-feira, 8 de março de 2011

dia azul

meus olhos tomaram banho de mar.
meu corpo banhou-se de céu.
a alma inundada de azul,
voltei para casa azulada.

(azul: cor ou estado?)

segunda-feira, 7 de março de 2011

Bliss

"O que pode alguém fazer quando tem trinta anos e, virando a esquina de repente, é tomado por um sentimento de absoluta felicidade — felicidade absoluta! — como se tivesse engolido um brilhante pedaço daquele sol da tardinha e ele estivesse queimando o peito, irradiando um pequeno chuveiro de chispas para dentro de cada partícula do corpo, para cada ponta de dedo?"

"Quase não tinha coragem de olhar-se no espelho frio; mas olhou, e ele mostrou-lhe uma mulher radiante, com lábios trêmulos, sorridentes, grandes olhos escuros e um ar de quem está à espera de que alguma coisa... divina aconteça. Ela sabia que iria acontecer infalivelmente."

(Bliss, Katherine Mansfield)

terça-feira, 1 de março de 2011

“O homem, quando jovem, é só, apesar de suas múltiplas experiências. Ele pretende, nessa época, conformar a realidade com suas mãos, servindo-se dela, pois acredita que, ganhando o mundo, conseguirá ganhar-se a si próprio. Acontece, entretanto, que nascemos para o encontro com o outro, e não o seu domínio. Encontrá-lo é perdê-lo, é contemplá-lo na sua libérrima existência, é respeitá-lo e amá-lo na sua total e gratuita inutilidade. O começo da sabedoria consiste em perceber que temos e teremos as mãos vazias, na medida em que tenhamos ganho ou pretendamos ganhar o mundo. Neste momento, a solidão nos atravessa como um dardo. É meio-dia em nossa vida, e a face do outro nos contempla como um enigma. Feliz daquele que, ao meio-dia, se percebe em plena treva, pobre e nu. Este é o preço do encontro, do possível encontro com o outro. A construção de tal possibilidade passa a ser, desde então, o trabalho do homem que merece o seu nome.” (De uma carta de Hélio Pellegrino a Fernando Sabino, citada em O Encontro Marcado).

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Faxinas e faxinas

Numa postagem anterior, falei sobre jogar coisas fora. É que ultimamente ando arrumando muitos armários. Simplesmente adoro. Não que tenha mania de limpeza e de arrumação. Gosto de tudo limpo e arrumado, mas nada que configure um comportamento compulsivo. O lance dos armários é mais como uma terapia. Abrir as portas, olhar aquela bagunça, tirar tudo de dentro, e ir cerimoniosamente analisando cada coisa, limpando o que precisa ser limpo, conservando o que ainda é importante e me desfazendo de tudo o que não serve mais.
Armário ou alma, o ritual é o mesmo. Contemplar o caos de si mesmo e se libertar do que já não é mais necessário. Trabalho de uma vida inteira.
Outro dia, li de monge budista que a felicidade não significa se desenvolver ou conquistar coisas ou pessoas, mas consiste em eliminar gradualmente tudo que nos afasta do conhecimento verdadeiro de nós mesmos e da autêntica alegria de viver. Ao contrário do que estamos acostumamos a pensar, a fórmula seria a da subtração, e não a da adição. Pois, para mim, a arrumação de armários me ajuda nesse exercício de desapego e libertação.
Apesar da minha tendência e gosto por "jogar coisas fora", não compreendia muito bem como equalizar a relação entre amor e desapego. Mas hoje sei que o amor verdadeiro não precisa de realidade para existir. E o exercício continua...
Toda essa faxina de armários e alma me lembra o poema Consoada, do Manuel Bandeira, e a conquista final da leveza suprema antes de partir.

Quando a Indesejada das gentes chegar
(Não sei se dura ou caroável),
talvez eu tenha medo.
Talvez sorria, ou diga:
- Alô, iniludível!
O meu dia foi bom, pode a noite descer.
(A noite com os seus sortilégios.)
Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,
A mesa posta,
Com cada coisa em seu lugar.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Livro do Desassossego

(Fernando Pessoa)

A glória nocturna de ser grande não sendo nada!

Deus é o existirmos e isto não ser tudo.

Assim como lavamos o corpo deveríamos lavar o destino, mudar de vida como mudamos de roupa - não para salvar a vida, como comemos e dormimos, mas por aquele respeito alheio por nós mesmos, a que propriamente chamamos asseio.

Viver uma vida desapaixonada e culta, ao relento das ideias, lendo, sonhando, e pensando em escrever, uma vida suficientemente lenta para estar sempre à beira do tédio, bastante meditada para se nunca encontrar nele. Viver essa vida longe das emoções e dos pensamentos, só no pensamento das emoções e na emoção dos pensamentos. Estagnar, ao sol, douradamente, como um lago obscuro rodeado de flores. Ter, na sombra, aquela fidalguia da individualidade que consiste em não insistir para nada com a vida.

A gramática, definindo o uso, faz divisões legítimas e falsas. Divide, por exemplo, os verbos em transitivos e intransitivos; porém, o homem de saber dizer tem muitas vezes que converter um verbo transitivo em intransitivo para fotografar o que sente, e não para, como o comum dos animais homens, o ver às escuras. Se quiser dizer que existo, direi "Sou". Se quiser dizer que existo como alma separada, direi "Sou eu". Mas se quiser dizer que existo como entidade que a si mesma se dirige e forma, que exerce junto de si mesma a função divina de se criar, como hei-de empregar o verbo "ser" senão convertendo-o subitamente em transitivo? E então, triunfalmente, antigramaticalmente supremo, direi "Sou-me".

Viver é ser outro. Nem sentir é possível se hoje se sente como ontem se sentiu: sentir hoje o mesmo que ontem não é sentir - é lembrar hoje o que se sentiu ontem, ser hoje o cadáver vivo do que ontem foi a vida perdida.
Apagar tudo do quadro de um dia para o outro, ser novo com cada nova madrugada, numa revirgindade perpétua da emoção - isto, e só isto, vale a pena ser ou ter, para ser ou ter o que imperfeitamente somos.

Melhores, e mais felizes, os que, reconhecendo a ficção de tudo, fazem o romance antes que ele lhes seja feito.

Cada qual tem o seu álcool. Tenho álcool bastante em existir. Bêbado de me sentir, vagueio e ando certo. Se são horas, recolho ao escritório como qualquer outro. Se não são horas, vou até ao rio fitar o rio, como qualquer outro. Sou igual. E por detrás de isso, céu meu, constelo-me às escondidas e tenho o meu infinito.

Transeuntes eternos por nós mesmos, não há paisagem senão o que somos. Nada possuímos, porque nem a nós possuímos. Nada temos porque nada somos. Que mãos estenderei para que universo? O universo não é meu: sou eu.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Água Viva

(Clarice Lispector)

Meus dias são um só clímax: vivo à beira.

Assim como me lanço no traço de meu desenho, este é um exercício de vida sem planejamento. O mundo não tem ordem visível e eu só tenho a ordem da respiração. Deixo-me acontecer.

Quero lonjuras. Minha selvagem intuição de mim mesma. Mas o meu principal está sempre escondido. Sou implícita. E quando vou me explicitar perco a úmida intimidade.

Comprazo-me com a harmonia difícil dos ásperos contrários. Para onde vou? e a resposta é: vou.

E nada planejo no meu trabalho intuitivo de viver: trabalho com o indireto, o informal e o imprevisto.

Quanto à música, depois de tocada para onde ela vai? Música só tem de concreto o instrumento. Bem atrás do pensamento tenho um fundo musical. Mas ainda mais atrás há o coração batendo. Assim o mais profundo pensamento é um coração batendo.

Já entrei contigo em comunicação tão forte que deixei de existir sendo. Você tornou-se um eu. É tão difícil falar e dizer coisas que não podem ser ditas. É tão silencioso. Como traduzir o silêncio do encontro real entre nós dois? Dificílimo contar: olhei para você fixamente por uns instantes. Tais momentos são meu segredo. Houve o que se chama de comunhão perfeita. Eu chamo isto de estado agudo de felicidade.

Mesmo para os descrentes há o instante do desespero que é divino: a ausência de Deus é um ato de religião.

A coragem de viver: deixo oculto o que precisa ser oculto e precisa irradiar-se em segredo.

O que me guia apenas é um senso de descoberta. Atrás do atrás do pensamento.

Todas as vidas são vidas heróicas.

Tu és uma forma de ser eu, e eu uma forma de te ser: eis os limites de minha possibilidade.

Antes de me organizar, tenho que me desorganizar internamente. Para experimentar o primeiro e passageiro estado primário de liberdade. Da liberdade de errar, cair e levantar-me.

Mas se eu esperar compreender para aceitar as coisas - nunca o ato de entrega se fará. Tenho que dar o mergulho de uma só vez, mergulho que abrange a compreensão e sobretudo a incompreensão. E quem sou eu para ousar pensar? Devo é entregar-me. Como se faz? Sei porém que só andando é que se sabe andar e - milagre - se anda.

Para cada um de nós e - em algum momento perdido na vida - anuncia-se uma missão a cumprir? Recuso-me porém a qualquer missão. Não cumpro nada: apenas vivo.

Eu não tenho enredo de vida? sou inopinadamente fragmentária. Sou aos poucos. Minha história é viver. E não tenho medo do fracasso. Que o fracasso me aniquile, quero a glória de cair.

Cada um de nós é um símbolo que lida com símbolos - tudo ponto de apenas referência ao real. Procuramos desesperadamente encontrar um identidade própria e a identidade do real. E se nos entendemos através do símbolo é porque temos os mesmos símbolos e a mesma experiência da coisa em si: mas a realidade não tem sinônimos.

Estou me encontrando comigo mesma: é mortal porque só a morte me conclui. Mas eu aguento até o fim. Vou lhe contar um segredo: a vida é mortal.

O estado de graça de que falo não é usado para nada. É como se viesse apenas para que se soubesse que realmente se existe e existe o mundo. Nesse estado, além da tranquila felicidade que se irradia de pessoas e coisas, há uma lucidez que só chamo de leve porque na graça tudo é tão leve. É uma lucidez de quem não precisa mais adivinhar: sem esforço, sabe. Apenas isto: sabe. Não me pergunte o quê, porque só posso responder do mesmo modo: sabe-se.

Essa beatitude não é em si leiga ou religiosa. E tudo isso não implica necessariamente no problema da existência ou não-existência de um Deus. Estou falando é que o pensamento do homem e o modo como esse pensar-sentir pode chegar a um grau extremo de incomunicabilidade - que, sem sofisma ou paradoxo, é ao mesmo tempo, para esse homem, o ponto de comunicabilidade maior. Ele se comunica com ele mesmo.

Tudo acaba mas o que te escrevo continua. O que é bom, muito bom. O melhor ainda não foi escrito. O melhor está nas entrelinhas.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Conversa entre amigos

Hoje de manhã, encontrei por acaso meu amigo Vinícius na ciclovia. Paramos um pouco para conversar. Pelo modo como nós costumamos conversar, hoje percebi que, na verdade, parece que nós sempre temos uma única, longa conversa, retomada toda vez que nos encontramos. Em geral, falamos sobre a vida, filosofia, filmes, livros...
Hoje não foi diferente. Japamala, meditação, iniciação, tempo e a falta de tempo; Comer, rezar, amar, O poder do mito (preciso devolver o seu livro), O tempo na literatura, Mr. Nobody e, de novo, o tempo. Afinal qual é a do Mr. Nobody? A luta pela escolha de uma possibilidade ou a vivência simultânea de todas as possibilidades? Você entende, eu não. "Mas é um filme bonito". O Jared Leto é bonito.
Além da vida, A origem, O último mestre do ar, o desenho Avatar (se um dia eu tiver um filho...).
Simplesmente amor (se eu já vi Simplesmente Amor?!), Três vezes amor, Coincidências do amor (ou o amor vende filme ou é muita falta de criatividade dos tradutores...).
E por falar em amor, Apenas o fim. Comecei a ver por acaso, zapeando na tevê. Amei. É daqueles filmes que a gente assiste com um sorriso no rosto, sem perceber. Conversas sobre o amor, McDonald's e fanta uva. Ao final, veio na minha cabeça sua voz dizendo "é o Antes do amanhecer brasileiro". É exatamente o tipo de filme que você me indicaria, mas indicou? Não lembrava. Foi você que falou desse filme? "Claro, é o Antes do amanhacer brasileiro!".
House, tema obrigatório, não foi discutido como de costume, mas não podia deixar de ser citado.
Autobiografia de um iogue (quando acabar o seu Bhavagad Gita, versão bíblia, me avisa pra eu emprestar). Os livros que a gente relê (afinal, por que a gente relê tanto, em vez de ler?).
Teve outros assuntos, mas não daria para escrever sobre tudo. Como a gente conseguiu falar tanta coisa em tão pouco tempo?
Engraçado eu querer publicar nossa conversa aqui (aliás, já, já vou pedir a sua devida autorização). Mas é que eu também percebi que esse blog não passa de uma longa e única conversa, e que, afinal, tudo é uma coisa só. Só posso dizer, que, de um modo que não consigo explicar, todas essas conversas me fazem bem e me apontam algum sentido.
Para encerrar, deixo aqui a indicação de Apenas o fim, filme que é também uma longa e prazerosa conversa.



(o filme está todo disponível no youtube)

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

A poesia da vida real

Um antigo cajueiro, um par de luvas esquecido atrás de livros, uma borboleta amarela pelas ruas, um nadador no mar, uma manhã entre amantes. Qualquer assunto, por mais trivial ou corriqueiro que seja, pode se transformar em tema de crônica.
Mais que uma experiência ou verdade fundamental, a leitura de crônicas parece antes sugerir uma sensação, ou diferentes sensações que se seguem e que, no conjunto, criam uma espécie de empatia e formam uma imagem quase nítida daquele que escreve. A cumplicidade na banalidade poética do cotidiano rende um amigo. Um dos meus melhores amigos é o Rubem Braga.

Há algum tempo, vinha seguindo uma dieta - nada rígida, é verdade - de duas crônicas por dia. Lidas, em geral, depois do almoço e antes da sesta sagrada. A ideia era deixar que a sensação provocada pela leitura homeopaticamente prescrita e digerida pudesse me acompanhar ao longo do dia. Saborear cada texto lentamente, como toda boa crônica merece. Mas na última semana, num ímpeto de gula, devorei o livro inteiro. A sensação final e cristalizada de beleza da vida real, em sua realidade mais cotidiana e prosaica - e talvez por isso mais poética -, compensou a imprudência.

Cada início de crônica é uma promessa:

No centro do dia cinzento, no meio da banal viagem, e nesse momento em que a custo equilibramos todos os motivos de agir e de cruzar os braços, de insistir e desesperar, e ficamos quietos, neutros e presos ao mais medíocre equilíbrio - foi então que aconteceu. (Visão)

E o fim pode trazer uma revelação inesperada:

Ouvi-me, pois, insensatos; ouvi-me a mim e não a essa infame e horrenda serra que a vós e a mim tanto azucrina. Vamos para a praia. E se o proprietário vier, se o banqueiro vier, se o governo vier, e perguntar com ferocidade: "estais loucos?" - nós responderemos: "Não, senhores, não estamos loucos; estamos na praia jogando peteca". E eles recuarão, pálidos e contrafeitos. (Manifesto)

Entre o início e o fim, a beleza:

Houve um momento, aquele momento em que a carne se faz alma. (Às duas horas da tarde de domingo)

E que houve momentos perfeitos que passaram, mas não se perderam, porque ficaram em nossa vida; que a lembrança deles nos faz sentir maior a nossa solidão; mas que essa solidão ficou menos infeliz: que importa que uma estrela já esteja morta se ela ainda brilha no fundo de nossa noite e de nosso confuso sonho? (Despedida)

Deixo aqui um aperitivo:

A Palavra
(Rubem Braga)

Tanto que tenho falado, tanto que tenho escrito - como não imaginar que, sem querer, feri alguém? Às vezes sinto, numa pessoa que acabo de conhecer, uma hostilidade surda, ou uma reticência de mágoas. Imprudente ofício é este, de viver em voz alta.
Às vezes, também a gente tem o consolo de saber que alguma coisa que se disse por acaso ajudou alguém a se reconciliar consigo mesmo ou com a sua vida de cada dia; a sonhar um pouco, a sentir uma vontade de fazer alguma coisa boa.
Agora sei que outro dia eu disse uma palavra que fez bem a alguém. Nunca saberei que palavra foi; deve ter sido alguma frase espontânea e distraída que eu disse com naturalidade porque senti no momento - e depois esqueci.
Tenho uma amiga que certa vez ganhou um canário, e o canário não cantava. Deram-lhe receitas para fazer o canário cantar; que falasse com ele, cantarolasse, batesse alguma coisa ao piano; que pusesse a gaiola perto quando trabalhasse em sua máquina de costura; que arranjasse para lhe fazer companhia, algum tempo, outro canário cantador; até mesmo que ligasse o rádio um pouco alto durante uma transmissão de jogo de futebol... mas o canário não cantava.
Um dia a minha amiga estava sozinha em casa, distraída, e assobiou uma pequena frase melódica de Beethoven - e o canário começou a cantar alegremente. Haveria alguma secreta ligação entre a alma do velho artista morto e o pequeno pássaro cor de ouro?
Alguma coisa que eu disse distraído - talvez palavras de algum poeta antigo - foi despertar melodias esquecidas dentro da alma de alguém. Foi como se a gente soubesse que de repente, num reino muito distante, uma princesa muito triste tivesse sorrido. E isso fizesse bem ao coração do povo; iluminasse um pouco as suas pobres choupanas e as suas remotas esperanças.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

O eu e o tempo

"O tempo é particularmente significante para o homem porque é inseparável do conceito do eu. Somos conscientes de nosso próprio crescimento orgânico e psicológico no tempo. O que chamamos eu, pessoa ou indivíduo, é experimentado e conhecido somente contra o fundo da sucessão de momentos e mudanças temporais que constituem sua biografia. Mas como é possível que aquilo que está sujeito a constante mutação possa ser chamado de mesma pessoa ou de um eu idêntico? Como pode o homem ser 'para si mesmo' se ele sempre sente a si mesmo como diferente e se é conhecido como diferente de momento a momento no tempo? O que é o homem afinal, se nada mais é do que uma vítima da sucessão e da mudança temporais? O que perdura - se algo perdura - através do fluxo sempre mutável de consciência do indivíduo? Por conseguinte, a pergunta 'o que é o homem' reporta-se à pergunta 'o que é o tempo'. A busca de um conhecimento do eu leva à recherche du temps perdu. E quanto mais seriamente os seres humanos se engajam nessa busca, mais se tornam preocupados e envolvidos com a consciência do tempo e seu significado para a vida humana."

(O tempo na literatura, Hans Meyerhoff)

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Música inesperada



domingo, 2 de janeiro de 2011

O Poder do Mito

Acabei de reler O Poder do Mito, livro que resultou do encontro entre Joseph Campbell e o jornalista Bill Moyers, em formato de série para a tv.
Apaixonado e grande estudioso de mitologia, Campbell nos ajuda a repensar nossa própria existência em termos mitológicos, a partir de histórias arquetípicas e temas universais, alcançando a compreensão última de que não existe sentido para a vida além da própria vida, a grande e misteriosa experiência de estar vivo.

"Eu penso na mitologia como a pátria das Musas, as inspiradoreas da arte, as inspiradoras da poesia. Encarar a vida como um poema, e a você mesmo como participante de um poema, é o que o mito faz por você. Quer dizer, um vocabulário, não de palavras, mas de atos e aventuras, que conota algo transcendente à ação localizada, de modo que você se sinta sempre em acordo com o ser universal."

"[A ideia de reencarnação] Sugere que você é mais do que pensa. Existem dimensões do seu próprio ser e um potencial de realizações e ampliação da consciência que não estão incluídos no conceito que você faz de si mesmo. Sua vida é mais profunda do que você a concebe, aqui. O que você está vivendo é só uma fração infinitesimal daquilo que realmente se abriga no seu interior, aquilo que lhe dá vida, alento e profundidade. E você pode viver em termos dessa profundidade, e quando chega a essa experiência, você percebe, instantaneamente, que é disso que falam todas as religiões."

"Você normalmente pensa nas coisas em termos práticos, mas poderia pensar em qualquer coisa em termos de mistério. Pense em como é misterioso que alguma coisa possa ser."

"A eternidade não é um tempo vindouro. Não é sequer um tempo de longa duração. Eternidade não tem nada a ver com tempo. Eternidade é aquela dimensão do aqui e agora que todo pensar em termos temporais elimina. Se você não a atingir aqui, não vai atingi-la em parte alguma. O problema com o Paraíso é que você vai ter uma vida tão boa, lá, que sequer vai pensar em eternidade. Você vai simplesmente experimentar o interminável deleite, na visão beatífica de Deus. Mas experimentar a eternidade aqui mesmo e agora, em todas as coisas, não importa se encaradas como boas ou más, esta é a função da vida."

"Ora, esse fundamento último de todos os seres pode ser experimentado em dois sentidos, um em que há forma e outro que não contém forma ou a excede. Quando você experimenta seu deus como forma, há a sua mente, que contempla, e há o deus. Há um sujeito e um objeto. Mas o objetivo místico final é unir-se a deus. Com isso, a dualidade é superada e as formas desaparecem. Não há ninguém, nem deus, nem você. Sua mente, ultrapassando todos os conceitos, dissolveu-se na identifcação com o fundamento de seu próprio ser, porque aquilo a que se refere a imagem metafórica de seu deus é o mistério último do seu próprio ser, o qual é também o mistério do ser do mundo."

"Toda referência espiritual derradeira é ao silêncio para além do som."

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

"Em sã consciência podemos com o pensamento estar além de nós mesmos. Por meio de um lúcido esforço da mente podemos nos manter à distância das ações e suas conseqüências; e todas as coisas, boas e más, passam por nós como uma torrente. Não estamos integralmente envolvidos na natureza. Tanto posso ser um pedaço de madeira flutuando à deriva da corrente, quanto Indra no céu contemplando-o da altura. Posso ficar impressionado com um espetáculo de teatro e, por outro lado, não me comover com um acontecimento real que parece muito mais dizer-me respeito. Só me conheço como entidade humana, o palco, por assim dizer, de pensamentos e emoções; e sou consciente de certa duplicidade pela qual posso ficar tão distante de mim mesmo quanto de qualquer outra pessoa. Por mais intensa que seja a minha experiência, estou cônscio da presença e da crítica de uma parte de mim, que, como se não me pertencesse, fosse um espectador sem nenhuma participação na experiência, apenas anotando-a; e essa parte de mim não é mais eu do que é vós. Quando chega ao fim a comédia ou, quem sabe, a tragédia da vida, o espectador vai-se embora. Até onde lhe dizia respeito foi uma espécie de ficção, uma simples obra de imaginação."

(Walden, H. D. Thoreau)

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

O meio e as massagens

De tanto ouvir as expressões "aldeia global" e "o meio é a mensagem", de Marshall McLuhan, acabei, num atitude absolutamente estúpida de minha parte, me cansando por antecipação de qualquer coisa que ele pudesse me dizer.
Hoje, lendo finalmente seu livro The medium is the massage, vejo o quanto estava perdendo de ideias realmente revolucionárias, para além das expressões e jargões "ambientalizados" no jornalismo.
Seguem trechos do livro:

O poeta, o artista, o detetive - quem quer que aguce nossa capacidade de perceber tende a ser anti-social; raramente "bem ajustados", não podem seguir as correntes e tendências. Um estranho vínculo existe entre os tipos anti-sociais por sua capacidade de "ver" os meios ambientais como eles realmente são. Essa necessidade de contrapor, de confrontar os meios ambientais com uma certa força anti-social, é manifesta na famosa história "As Novas Roupas do Rei". Os cortesãos "bem-ajustados", por terem interesses a defender, viam o Rei belamente ataviado. O fedelho "anti-social", não condicionado pelo antigo meio ambiental, viu claramente que o Rei estava nu. O novo meio ambiental era claramente visível para ele.

*
amador

"Minha educação foi a mais comum possível, consistindo em pouco mais que os rudimentos de leitura, escrita e aritmética de uma escola igual às outras. Minhas horas fora da escola eu passava nas ruas ou em casa."
Michael Faraday, que pouco conhecia de matemática e quase não tinha instrução formal além da escola primária, é famoso como um experimentador que descobriu a eletricidade induzida. Foi um dos fundadores da moderna física. E é geralmente reconhecido que o fato de Faraday ignorar matemática contribuiu para sua inspiração, e o compeliu a desenvolver um conceito simples e não-matemático enquanto procurava explicação para seus fenômenos elétricos e magnéticos. Faraday possuía duas qualidades que compensavam com sobras sua falta de instrução: uma intuição fantástica e independência e originalidade mentais.
O profissionalismo é ambiental. O amadorismo é anti-ambiental. O profissionalismo funde o indivídulo em padrões de total acomodação ambiental. O amadorismo procura o desenvolvimento da consciência total do indivíduo e a consciência crítica das regras básicas da sociedade. O amador pode dar-se ao luxo de perder. O profissional tende a classificar e especializar, a aceitar sem crítica as regras básicas da sociedade. As regras básicas fornecidas pela reação de massa de seus colegas servem como meio ambiente penetrante do quel ele extrai satisfação sem dele ter consciência. O "especialista" é o homem que fica parado.

"Há crianças brincando nas ruas que poderiam resolver alguns dos meus mais complexos problemas de física, porque elas possuem maneiras de percepção sensorial que perdi há muito tempo." (J. Robert Oppenheimer)

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Poesia em imagens






























































































































Nova York, A vida na grande cidade
Will Eisner

sábado, 16 de outubro de 2010

Distrações

Meu trabalho de conclusão de concurso (o famigerado tcc) é uma monografia sobre jornalismo em quadrinhos, a partir da obra de Joe Sacco.
Pesquisando algumas coisas na internet, acabei me distraindo. Mas acredito que tenho uma boa justificativa, afinal ler o trabalho do Sacco e conhecer o artista-cartunista-jornalista me parece muito mais atraente do que devanear sobre questões de gênero jornalístico...
Enfim, pelo menos, essa é a vantagem de estudar um tema desses... a gente sempre pode se distrair com o próprio trabalho...

O vídeo com uma apresentação de Sacco é longo e é em inglês, sem legenda. Mas pra quem se interessa por quadrinhos e/ou jornalismo (e/ou pessoas interessantes, que, por sinal, não se acham nada interessantes, mas têm coisas realmente interessantes para falar), vale muito a pena. Uma verdadeira aula! Ou melhor, uma ótima distração!


E, por falar em distração, por causa do Sacco (sinceramente, ele não me deixa trabalhar!), acabei descobrindo um blog que é um verdadeiro deleite: Dois Espressos!
"Notas sobre livros, música, artes visuais, gastronomia, gadgets, blogs, wanderlust e café espresso". Com uma apresentação dessas, acompanhada de duas xícaras de café fumegante, foi paixão à primeira vista!
Adorei a ideia das listas de leituras, ilustradas por fotografias de pilhas de livros. E eu, que adoro listas e livros, já ia longe, longe... do meu trabalho.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

A santa apaixonada

Na conversa entre Cíntia Moscovich e Maria Valéria Rezende, surgiu o assunto dos escritores com mais de dois nomes. Teriam sucesso ou reconhecimento? A brincadeira e a resposta a um amigo estavam num texto de Maria Valéria. Carlos Drummond de Andrade e João Guimarães Rosa eram apenas alguns exemplos de que, sim, escritores com mais de dois nomes poderiam se tornar reconhecidos.

A lista incluía Rosa Amanda Strausz. Desconhecia a autora, mas o título do livro mencionado me era familiar: Teresa, a santa apaixonada.
Não que tivesse lido, mas tinha em casa um exemplar da minha irmã (Rosa também), que sempre se interessou por Teresa de Ávila, ou Teresa de Jesus. Nunca havia me despertado interesse especial, a não ser pela curiosidade de conhecer a vida de uma santa. Mas a Cíntia e a Maria Valéria falavam não apenas da santa, mas do livro da Rosa contar a história da Teresa escritora.

Foi neste momento que o Senhor lhe disse:
"Não te aflijas, eu te darei um livro vivo."

O livro vivo é uma das mais belas imagens do misticismo cristão. É o livro da experiência interior. Como se fosse uma obra encantada, se expressa de maneira diferente para cada leitor/autor, mas suas páginas contam apenas uma história: a da porta de comunicação que liga cada alma a Deus.

Seu tomo invisível se constrói a cada dia. Muda, se aperfeiçoa. Receber o livro vivo das mãos de Sua Majestade significa transformar a própria vida em obra. Nessa biblioteca incorpórea e infinita, homens, mulheres, intelectuais, conversos, cristãos-velhos, nobres e pobres estão unidos em um só texto: o das criaturas que transformam o amor divino em palavras.


Buscando a escritora, encontrei a alumbrada, que vivia sob o signo da paixão a busca pelo amor divino. A monja carmelita que ousou travar uma amizade com Deus, numa época em que a figura predominante era a do Pai que julga e pune. A santa que, por meio do silêncio, da entrega e do desapego, conseguiu realizar seu desejo de união.