quarta-feira, 10 de outubro de 2012

"Acho que a única coisa que faço muito bem é ser eu..."

(Paula Gomes, em http://quandoestiverassim.blogspot.com.br/)

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Perfeição em forma de som

Ivan Vilela tocando Asa Branca

Asa branca by Ivan Vilela on Grooveshark

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Walden

"Talvez exista o livro que nos explique nossos milagres e nos revele outros". Henry David Thoureau escreveu isso, provavelmente sem esperar que Walden, uma de suas obras mais importantes, se tornasse esse tipo de livro para inúmeras pessoas. Sou uma delas. A narrativa do livre pensador que decide ir morar no bosque, à beira do lago, construindo sua própria morada e vivendo essencialmente da natureza, inspira uma outra espécie de existência - mais elevada, porém, possível.
"As coisas atualmente inexpressáveis, talvez as encontremos expressas em algum lugar." O que há de mais sagrado e fundamental em minhas crenças e aspirações está ali, e, se algum dia, alguém quisesse me conhecer realmente e compreender meus motivos interiores e minha busca por sentido, encontraria em Walden  muito mais sobre mim do que qualquer ideia superficial ou pretensiosamente profunda que eu possa dar de mim mesma.

"A grande maioria dos homens leva uma vida de calado desespero. O que se chama resignação é desespero confirmado. Da cidade desesperada você vai para o campo desesperado, e tem de se consolar com a coragem das martas e dos ratos almiscarados. Um desespero estereotipado, mas inconsciente, se esconde mesmo sob os chamados jogos e prazeres da humanidade. Não há diversão neles, pois esta vem depois da obrigação. Mas uma característica da sabedoria é não fazer coisas desesperadas."

"(...) a riqueza de um homem é proporcional ao número de coisas das quais pode prescindir."

"Eu tinha três peças de calcário em minha escrivaninha, mas fiquei apavorado quando descobri que precisaria tirar o pó todo dia, enquanto a mobília de meu espírito ainda estava toda empoeirada, e de desgosto joguei fora as pedras pela janela. Então como poderia eu ter uma casa mobiliada? Prefiro sentar ao ar livre, pois o mato não junta pó, a não ser onde o homem pode fender o solo."

"Jamais homem algum decaiu em minha estima por usar uma roupa remendada; no entanto, tenho certeza de que os homens geralmente se preocupam mais em ter roupas elegantes, ou pelo menos asseadas e sem remendos, do que em ter uma consciência limpa.
(...) Uma questão interessante é até que ponto os homens conservariam sua posição social se tirassem suas roupas."

"Quando somos sábios e não temos pressa, percebemos que somente as coisas grandes e valiosas têm alguma existência absoluta e permanente - que os pequenos medos e os pequenos prazeres não passam de sombras da realidade."

"Os homens consideram a verdade muito remota, na periferia do sistema solar, atrás da estrela mais distante, antes de Adão e depois do último homem. Há, de fato, algo de verdadeiro e sublime na eternidade. Mas todos esses tempos, lugares e ocasiões existem aqui e agora. Deus culmina no momento presente, e não será mais divino no decorrer de todos os tempos. E só somos capazes de apreender o que é sublime e nobre com a perpétua instilação e absorção da realidade que nos cerca."

"Sempre lamentei não ser tão sábio  quanto no dia em que nasci."

"Qual o tipo de espaço que separa um homem de seus semelhantes e o faz solitário? Descobri que nem o maior esforço das pernas consegue aproximar dois espíritos."

"Só quando nos perdemos, em outras palavras, só quando perdemos o mundo é que começamos a nos encontrar, entendemos onde estamos e compreendemos a infinta extensão de nossas relações."

"Quando um homem dá ouvidos às sugestões levíssimas, mas constantes, de seu gênio interior, que certamente são verdadeiras, ele não sabe a que extremos, ou mesmo a que loucura, pode ser levado; e no entanto é aí, à medida que se torna mais firme e fiel, que se encontra seu caminho."

"Uma voz lhe disse: Por que você fica aqui e vive esta vida mesquinha e cansativa, quando lhe é possível uma existência gloriosa? Estas mesmas estrelas cintilam em outros campos. - Mas como sair desta condição e realmente migrar para lá? A única ideia que lhe ocorreu foi praticar alguma nova austeridade, deixar a mente lhe entrar no corpo e redimi-lo, e tratar a si mesmo com respeito sempre maior."

"Um homem mais sensato é capaz de se encontrar com bastante frequência 'em oposição formal' ao que é tido como 'as leis mais sagradas da sociedade', por obedecer a leis ainda mais sagradas, e assim pode testar sua resolução sem sair de seu caminho. Próprio de homem não é adotar tal atitude em relação à sociedade, e sim manter a atitude em que se encontra em sua obediência às leis de seu ser, que nunca será de oposição a um governo justo, se vier a encontrar algum."

"Aprendi com minha experiência pelo menos isto: se o homem segue confiante rumo a seus sonhos e se empenha em viver a vida que imaginou, ele terá um sucesso inesperado em momentos comuns. Deixará algumas coisas para trás, cruzará uma fronteira invisível; novas leis universais e mais liberais começarão a se estabelecer por si sós ao redor e dentro dele; ou as velhas leis se ampliarão e serão interpretadas em seu favor num sentido mais liberal, e ele viverá com a licença de uma ordem superior de seres. À medida que ele simplifica sua vida, as leis do universo se mostrarão menos complexas, e a solidão não será solidão, nem a pobreza pobreza, nem a fraqueza fraqueza. Se você tiver construído castelos no ar, não será trabalho perdido; é ali mesmo que eles devem estar. Agora ponha-lhes os alicerces."

"Por que havemos de ter uma pressa tão desesperada em conseguir sucesso, e em empreendimentos tão desesperados? Se um homem não mantém o passo com seus companheiros, talvez seja porque ouve um outro toque de tambor. Ele que acompanhe a música que ouve, por mais marcada ou distante que seja. Não importa que amadureça ao tempo de uma macieira ou de um carvalho. Converterá sua primavera em verão? Se a condição das coisas para as quais fomos feitos ainda não existe, qual é a realidade que podemos colocar em seu lugar? Não naufragaremos contra uma realidade vã. Iremos nos esforçar em erguer um céu de vidro azul sobre nós mesmos, mesmo sabendo que, depois de pronto, ainda estaremos fitando o verdadeiro céu etéreo lá no alto, como se o primeiro não existisse?"



sexta-feira, 14 de setembro de 2012

quero aprender a ver em silêncio.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

"Há quem, acompanhado pomposamente até a sua casa por um povo entusiasmado, de volta de alguma cerimônia pública, só encontre, ao despir a toga, mesquinharias e tormentos. E cai de tanto mais alto quanto mais bela a festa. E mesmo que os atos humildes da vida privada se ordenassem admiravelmente, fora preciso um juízo penetrante e particularmente lúcido para constatá-lo, pois a ordem é uma virtude sem brilho e que não atrai atenção. Tomar de assalto uma trincheira, desempenhar uma missão, governar um povo, são ações de realce; admoestar, rir, vender, comprar, amar, odiar, conversar com os seus e consigo mesmo, docemente, razoavelmente, sem relaxar nem se contradizer, são coisas mais raras, mais difíceis e menos notáveis. Os que vivem afastados da sociedade têm deveres tão complexos e árduos quanto os outros; e os simples cidadãos, diz Aristóteles, praticam a virtude em condições mais difíceis e elevadas do que os que desempenham funções públicas. É mais pelo desejo de glória do que por convicção e consciência que buscamos as situações de relevo. O meio mais eficiente de conquistar a glória deveria ser o de realizar o que por ela realizamos tão-somente por injunção da consciência. A própria coragem de Alexandre parece-me, no teatro em que se praticava, bastante inferior à que desenvolveu Sócrates no meio elevado e obscuro em que viveu. Imagino facilmente Sócrates no lugar de Alexandre, mas não vejo este no lugar daquele. Perguntai a Alexandre o que sabe fazer. Dirá: subjugar o mundo. Indagai o mesmo de Sócrates e responderá: viver a vida humana de acordo com as condições estabelecidas pela natureza. Ciência bem mais alta, mais pesada e mais digna.
O mérito da alma não consiste em se elevar mais alto e sim em se conduzir ordenadamente. Sua grandeza não se manifesta na grandeza, mas na mediocridade."

("Do arrependimento", Ensaios, Montaigne)

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Being Flynn

- É uma oportunidade para mim.
- Que oportunidade? A oportunidade de morrer congelado?
- A oportunidade de ver como vive a outra metade. Os pobres, os oprimidos. Eu faço a mesma coisa que você aqui, junto material.
- Não, eu não junto material. Esta é a minha vida.
- A vida é juntar material.



(Filme baseado no livro Another bullshit night in suck city, autobiografia do escritor Nick Flynn)

domingo, 26 de agosto de 2012

Brincando com as palavras

Já tinha colocado uma citação da Adriana Falcão aqui, mas depois de encontrá-la na Tarrafa Literária, deu vontade de mais Adriana Falcão.
"Gosto muito da palavra. Gosto muito de escrever o que quer que seja", foi uma das coisas que ela disse na conversa com o José Roberto Torero e o Roberto Muylaert. Depois de participar da contação de histórias na Tarrafinha (nessas horas, sobrinho é só desculpa para as crianças mais velhas se divertirem também...), do bate-papo sobre a arte de escrever crônicas e de ler alguns de seus livros, esse amor da Adriana pelas palavras e o gosto das palavras da Adriana ficam no fundo raso da alma, brigadeiro depois de comido, cheiro de café coado pela casa.
"Eu tenho essa brincadeira de pensar como criança", ela também disse. Pensa como criança, escreve brincando com o pensamento da gente.

"É tanto céu nesse mundo que mesmo que a gente juntasse todas as tampas, de todos os tipos, ainda ia sobrar muito céu para tampar." (A tampa do céu)

"Filósofo é quem, em vez de ver televisão, prefere ficar pensando pensamentos."
"(irritação é um alarme de carro que dispara bem no meio do seu peito)"
"Solidão é uma ilha com saudade de barco."
"Muito é quando os dedos da mão não são suficientes."
"Angústia é um nó muito apertado bem no meio do seu sossego."
"Antes é uma lagarta que ainda não virou borboleta."
"Indecisão é quando você sabe muito bem o que quer, mas acha que devia querer outra coisa."
"Certeza é quando a ideia cansa de procurar e para."
"Vaidade é um espelho em todos os lugares ao mesmo tempo."
"Ansiedade é quando faltam cinco minutos sempre para o que quer que seja."
"Interesse é um ponto de exclamação ou de interrogação no final do sentimento."
"Raiva é quando o cachorro que mora em você mostra os dentes."
"Felicidade é um agora que não tem pressa nenhuma."
(Mania de explicação)

Sem antes nem depois
O menino achava errado o antes e o depois não se encontrarem nunca.
E reclamava.
- Quando ainda é antes, o depois não chegou. Quando chega o depois, o antes já ficou pra trás.
Ele queria porque queria arranjar um encontro entre os dois.
E ficava pensando num jeito de tirar o agora do meio pra deixar o antes e o depois cara a cara.
O menino apostava que eles iam ficar amigos.
Já pensou? O antes e o depois bem unidos, tão unidos que não se largassem mais? Aí, tudo ia ser um só momento, sem antes nem depois, só agoras.
Enquanto o antes e o depois brincassem, o tempo inteiro ia ser brincadeira.
E, durante a brincadeira, os dias iam passar.
A vida ia passar brincando. Ninguém mais ia precisar tomar banho antes, arrumar o quarto depois.
Enquanto procurava um jeito de juntar o antes e o depois, o menino ficava pensando nas coisas que os dois poderiam fazer juntos.
Podiam brincar de esconder.
O antes se escondia, o depois ia procurar. Enquanto o depois não encontrasse o antes, só ia existir o daqui pra frente na vida das pessoas. Não importava o que elas tinham feito, aonde tinham ido, o que tinha acontecido. Todo mundo ia ficar sem lembranças, até o antes aparecer. E quando o antes aparecesse, trazendo de volta o passado das pessoas, era o depois que ia se esconder, deixando todo mundo sem planos, sem irei, sem farei, sem serei, sem amanhã.
O antes e o depois podiam apostar corrida.
E se o depois chegasse na frente ia fazer uma bagunça na vida das pessoas. Tudo ia ser ao contrário, se o depois chegasse primeiro que o antes. Primeiro a gente dizia alô, depois o telefone tocava. Primeiro botava a cabeça pra fora, depois é que abria a janela. Primeiro a gente ria, depois é que contavam a piada. Primeiro ganhava o jogo, depois é que fazia o gol. Primeiro a gente dizia, depois a gente pensava. Primeiro a gente chegava, depois e que a gente ia. Primeiro a gente se via, depois se olhava no espelho. Primeiro fazia a prova, e só depois estudava. Primeiro a gente comia, depois é que ficava com fome. Primeiro tinha a indigestão e depois exagerava. Primeiro a gente caía, depois é que tropeçava.
E se a gente não quisesse que acontecesse o que já sabia que ia acontecer, era só fazer outra coisa. Cada um ia ser dono do seu destino, cada um ia escrever a sua história. Não iriam mais existir consequências, resultados, surpresas, acasos.
Como achou isso bastante sem graça, o menino achou bem mais divertido deixar tudo como era antes.
(Uma das Sete histórias para contar)

Palavra
As gramáticas classificam as palavras em substantivo, adjetivo, verbo, advérbio, conjunção, pronome, numeral, artigo e preposição. Os poetas classificam as palavras pela alma porque gostam de brincar com elas e para brincar com elas é preciso ter intimidade primeiro. É a alma da palavra que define, explica, ofende ou elogia, se coloca entre o significante e o significado para dizer o que quer, dar sentimento às coisas, fazer sentido. Nada é mais fúnebre do que a palavra fúnebre. Nada é mais amarelo do que o amarelo-palavra. Nada é mais concreto do que as letras c, o, n, c, r, e, t, o, dispostas nessa ordem e ditas dessa forma, assim, concreto, e já se disse tudo, pois as palavras agem, sentem e falam por elas próprias. A palavra nuvem chove. A palavra triste chora. A palavra sono dorme. A palavra tempo passa. A palavra fogo queima. A palavra faca corta. A palavra carro corre. A palavra palavra diz. O que quer. E nunca desdiz depois. As palavras têm corpo e alma, mas são diferentes das pessoas em vários pontos. As palavras dizem o que querem, está dito, e pronto. As palavras são sinceras, as segundas intenções são das pessoas. A palavra juro não mente. A palavra mando não rouba. A palavra cor não destoa. A palavra sou não vira casaca. A palavra liberdade não se prende. A palavra amor não se acaba. A palavra ideia não muda. Palavras nunca mudam de ideia. Palavras sempre sabem o que querem. Quero não será desisto. Sim nunca jamais será não. Árvore não será madeira. Lagarta não será borboleta. Felicidade não será traição. Tesão nunca será amizade. Sexta-feira não vira sábado nem depois da meia-noite. Noite nunca vai ser manhã. Um não serão dois em tempo algum. Dois não será solidão. Dor não será constantemente. Semente nunca será flor.
(Trecho da crônica do livro Pequeno dicionário de palavras ao vento, lida pela Adriana na Tarrafa)

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Sem explicação

Emoção é um tango que ainda não foi feito.
Ainda é quando a vontade está no meio do caminho.
Vontade é um desejo que cisma que você é a casa dele.
Desejo é uma boca com sede.
Paixão é quando apesar da placa "perigo" o desejo vai e entra.
Amor é quando a paixão não tem outro compromisso marcado. Não. Amor é um exagero... Também não. É um desadoro... Uma batelada? Um enxame, um dilúvio, um mundaréu, uma insanidade, um destempero, um despropósito, um descontrole, uma necessidade, um desapego? Talvez porque não tivesse sentido, talvez porque não houvesse explicação, esse negócio de amor ela não sabia explicar, a menina.

(Mania de explicação, Adriana Falcão)

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Trilha sonora

Se vida tivesse trilha sonora... O fato é que tem. Embora a cena cotidiana da nossa existência não passe em slow motion, muitas vezes uma canção acompanha toda a ação (ou ausência dela).
A música varia, mas está lá.

Ultimamente, não uma, mas uma coleção de canções tem sido o acompanhamento musical dos meus devaneios e perambulações: Ukelele Songs, do Eddie Vedder.
Lançado em 2011, o álbum reúne músicas tocadas no ukelele, instrumento havaiano de quatro cordas. E a verdade é que outros instrumentos acabam não fazendo falta. A sonoridade simples e suave ressalta a beleza de letras e melodias, que tocam a alma e os sentidos de leve, como um carinho bom. As letras ácidas e pungentes do Pearl Jam dão lugar a canções de amor.
Ukelele Songs é o segundo trabalho solo de Vedder, após Into the Wild, trilha sonora para o filme "Na natureza selvagem" (falei um pouco sobre essa trilha aqui).  O álbum conta com a participação de Glen Hansard (The Frames e Swell Season) na faixa "Sleepless nights", e Cat Power em "Tonight you belong to me". Outras faixas incluem versões para "Can't keep" (Pearl Jam) e "Dream a little dream", além de composições inéditas de Vedder.

Algumas preciosidades:

Oh I believe in love and disaster. Sometimes the two are just the same. ("Sleeping by myself")

Cloud of tears it's a lot of weight to bear
And the sun, it may be shining
There's an ocean in my eyes
'Cause I know that this is goodbye
("Goodbye")

Don't have eyes for the world outside
They're closed and turned within
Trying to find the light inside
It's lit but growing dim
("Broken heart")

I've seen the light
I'm satisfied that the brightest star is you
Satellite, holding tight beaming back to you
("Satellite")

And when the time is right, I hope that you'll respond
Like when the wind gets tired
The ocean becomes calm
I may be dreaming but I'm longing to belong to you
("Longing to belong")

I bleed but I won't break.
("Light today")

E a favorita:

Without you
I'll grow when you grow
Let me loosen up the blindfold
I'll fly when you cry
Lift us out of this landslide
Wherever you go, whenever we part

I'll keep on healing all the scars
That we've collected from the start
I'd rather this than live without you
For every wish upon a star
That goes unanswered in the dark
There's a dream I've dream't about you

And from afar I lie awake
Close my eyes to find
I wouldn't be the same

I'll shine when you shine
Painted pictures on my mind
Sunsets on this ocean
Never once on my devotion
However you are or far that you fall

I'll keep on healing all the scars
That we've collected from the start
I'd rather this than live without you
For every wish upon a star
That goes unanswered in the dark
There's a dream I've dream't about you

And from afar I lie awake
Close my eyes to find
I wouldn't be the same
Without you
Without you

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Hunter S. Thompson, o mestre do Gonzo

Política, drogas e... jornalismo? A combinação parece explosiva. E é. Mas nada que cheire a convencionalismo ou limitação pode ser relacionado ao trabalho de Hunter S. Thompson, criador e mestre absoluto do chamado Jornalismo Gonzo.

"(...) e essa qualidade é a essência  do que, por nenhum motivo especial, decidi chamar de Jornalismo Gonzo. É um estilo de 'reportagem' baseada na ideia de William Faulkner de que a melhor ficção é muito mais verdadeira que qualquer tipo de jornalismo - e os melhores jornalistas sempre souberam disso.
Isso não significa que a Ficção seja necessariamente 'mais verdadeira' que o Jornalismo - ou vice-versa - mas que tanto 'ficção' quanto 'jornalismo' são categorias artificiais. As duas formas, em seus melhores momentos, são apenas dois meios diferentes para alcançar o mesmo fim. Isso está ficando meio pesado demais, então é melhor eu parar e explicar, a essa altura, que Medo e Delírio em Las Vegas é uma experiência fracassada de Jornalismo Gonzo. Minha ideia era compor um bloco de anotações bem grosso e registrar a coisa toda enquanto ela acontecia, e em seguida mandar as anotações para publicação - sem edição. Desse jeito, imaginei, o olho e a mente do jornalista funcionariam como uma câmera. O texto seria seletivo e necessariamente interpretativo - mas, uma vez que a imagem fosse registrada, as palavras seriam definitivas. Da mesma forma que uma fotografia de Cartier Bresson é sempre (de acordo com ele) um negativo de quadro inteiro. Nenhuma alteração no quarto escuro, nada de cortes ou aparadas, nada de procurar erros... nada de edição.
Mas isso é uma coisa difícil de fazer. No final das contas, acabei impondo uma estrutura essencialmente ficcional ao que começou como uma peça jornalística convencional/maluca. A verdadeira reportagem Gonzo requer os talentos de um mestre do jornalismo, o olho de um artista/fotógrafo e os colhões de um ator. Porque o escritor precisa participar da cena enquanto escreve sobre ela - ou pelo menos gravá-la ou mesmo desenhá-la. Ou as três coisas. Provavelmente a analogia mais próxima do ideal seria um diretor/produtor de cinema que escreve seus próprios roteiros, faz seu próprio trabalho de câmara e de algum modo consegue filmar a si mesmo em ação, como protagonista ou pelo menos um dos personagens principais." (Texto de Capa para Medo e Delírio em Las Vegas: uma Jornada Selvagem ao Coração do Sonho Americano)

A Grande Caçada aos Tubarões - Histórias estranhas de um tempo estranho reúne reportagens escritas por Thompson entre 1962 e 1978. Os bastidores e a decadência do Kentucky Derby, a cobertura das campanhas presidenciais de McGovern e Nixon, o caso Watergate, a viagem pela América do Sul (com direito a um episódio de tiroteio em Copacabana), um retrato dos hippies de San Francisco, a cidadezinha no meio do nada onde Hemingway escolheu passar os últimos anos de sua vida, a insanidade hilariante em um campeonato de pesca de tubarões em Cozumel, a entrevista com Muhammad Ali, a procura pelo sonho americano na degenerada Las Vegas. Essas e outras histórias alucinantes - e literalmente alucinadas, movidas a uma grande variedade de substâncias alucinógenas - dão forma, no entanto, a uma visão extremamente lúcida da realidade. A loucura como a única forma sã de realmente compreender o mundo. A liberdade de expressão - que, no caso de Thompson, é de fato liberdade de expressão -  ultrapassa todos os limites, normas e padrões estabelecidos, criando uma obra viva e enebriante. Impossível não se contagiar com tanta vivacidade e voracidade em cada palavra, em cada história.

"Conheci o peão andarilho na última noite. E, como ele estava duro e eu não, paguei um quarto de hotel para que ele não precisasse dormir na grama perto da estrada para Spokane. Mas, em vez de viajar no dia seguinte, ele pegou o que restava do seu dinheiro e se sentou sozinho num banquinho no bar Thunderbird, no centro de Missoula. Estava cabisbaixo e bebia seus drinques devagar, do mesmo jeito que ele tinha feito na noite anterior, enquanto punha seu troco na jukebox, que pode se tornar uma máquina muito cara para aqueles que precisam de barulho contínuo para evitar que comece a pensar.
Eram quatro da manhã quando ele bateu na porta do meu quarto de hotel. 'Desculpa te incomodar, parceiro', ele disse. 'Ouvi sua máquina de escrever, mas fiquei sozinho, cê sabe - precisava falar com alguém.'
'Bom', respondi, realmente não muito surpreso por vê-lo ainda na cidade. 'Acho que um café cairia bem pra nós dois. Vamos até o Oxford, fica aberto a noite inteira.' Descemos as escadas do hotel silencioso e atravessamos o saguão, onde um recepcionista sonolento levantou a cabeça e olhou curioso, com aquele olhar de oficial de justiça que os recepcionistas cultivam desde o início dos tempos. Parecia se perguntar que tipo de jornalista eu seria, a ponto de precisar ter vagabundos me chamando naquela hora imprópria numa manhã fria de Montana.
O que pode ser uma pergunta válida. Mas aí outra pessoa poderia perguntar que tipo de jornalista gastaria seis semanas viajando pelo Oeste sem escrever sobre Bobby Cleary, o peão andarilho sem lar, correndo ladeira abaixo para um túmulo precoce. Ou Bob Barnes, o caminhoneiro envolvido com prospecção, meio surdo, que nunca entendeu que sua vida era um desesperado jogo de dança das cadeiras. Ou o ruivo magro e gago da Pensilvânia que disse que seu nome era Ray e que tinha ido de carona até o Oeste atrás de um lugar 'onde um homem ainda pode ganhar a vida honestamente'.
Você os encontra ao longo das estradas, nas lanchonetes que abrem a noite inteira e em velhos bares tradicionais que ainda servem cerveja a 10 centavos - uma legião de homens heterogênea, variada e sempre falante, que não se encaixa em nenhum padrão exceto que todos parecem remanescentes dos dias da Grande Depressão. Você não os encontrará em nenhum lugar onde os homens usam terno e gravata ou trabalham em empregos fixos. Eles são os peões nômades, os andarilhos, os viajantes radicais e os trabalhadores sem endereço fixo que perambulam pelas estradas compridas do Oeste com a mesma regularidade e resistência que outros homens demonstram quando viajam pelo metrô de Nova York. Seu trabalho é onde eles o encontram, sua bagagem é raramente mais do que uma pequena maleta ou uma sacola de papel e sua visão do futuro é tão pessimista quanto limitada." (Vivendo no Tempo de Alger, Greeley, Debs)

Hunter S. Thompson por ele mesmo, sobre a autobiografia do escritor, aqui.

Para mais Thompson, outras duas indicações: o documentário Gonzo: a vida e obra do Dr. Hunter S. Thompson e o filme Diário de um Jornalista Bêbado, protagonizado por Johnny Depp e baseado na obra de Thompson.


sexta-feira, 10 de agosto de 2012

The Newsroom

"Não é o maior país do mundo, professor. Essa é a minha resposta.
Sharon, a NEA é um fracasso. Representa um centavo de nosso salário e age quando bem entende. Custa votos. Custa tempo no ar e espaço no jornal. Sabe por que ninguém gosta dos liberais? Eles perdem. Se os liberais são tão espertos por que sempre perdem? E com essa cara você dirá aos estudantes que os EUA são tão incríveis porque somos os únicos que temos liberdade? O Canadá tem liberdade. O Japão tem liberdade. Reino Unido, França, Itália, Alemanha, Espanha, Austrália. A Bélgica tem liberdade! São 207 estados soberanos e 180 deles têm liberdade. E você, garota da irmandade... Caso entre por acidente numa zona eleitoral, saiba do seguinte. Não há nenhuma evidência de que somos o maior país do mundo. Estamos em 7º lugar em alfabetização, 27º em matemática, 22º em ciência, 49º em expectativa de vida, 178º em mortalidade infantil, 3º em renda familiar média, 4º em força de trabalho e exportações. Lideramos o mundo só em três categorias. Número de presos per capita, adultos que crêem em anjos e gastos com defesa. Gastamos mais do que 26 países juntos sendo que 25 deles são aliados. Agora, nada disso é culpa de um jovem universitário, mas sem dúvida você faz parte da pior geração que já existiu. Então, ao perguntar por que somos o maior país do mundo, não sei do que você está falando."

Um seriado de televisão norte-americano que tem esse texto na cena de abertura merece alguma atenção. The Newsroom, nova série produzida pela HBO que estreou no Brasil nesta semana, explora os bastidores de um telejornal, mostrando as intricadas relações que estão por trás das notícias. O roteiro é de Aaron Sorkin, premiado pela série The West Wing e ganhador do Oscar de melhor roteiro adaptado por A rede social.
A trama gira em torno do temperamental âncora Will McAvoy (Jeff Daniels), em crise em meio a um certo conformismo profissional. Após o "surto" em uma universidade, ou seja, a declaração polêmica que abre o seriado, o jornalista sai de férias forçadas e, ao voltar, tem que lidar com uma nova situação: seu antigo produtor e equipe abandonaram o programa que passará a ser produzido por sua ex-namorada Mackenzie MacHale (Emily Mortimer).
Juntamente com o diretor de jornalismo da emissora Charlie Skinner (Sam Waterston, conhecido pelo papel de Jack MacCoy, de Law and Order), Mackenzie encarna a postura idealista de tentar fazer o bom jornalismo voltar a ser o que deveria ser. "As pessoas gostam de notícia com integridade. Não é todo mundo, mas 5%. E 5% a mais de qualquer coisa é o que faz a diferença nesse país. Então, podemos melhorar.", declara a otimista produtora executiva, após mencionar Dom Quixote.
Mas será que ainda existe espaço para idealismo no jornalismo? Se a realidade ainda nos leva a duvidar, para Mackenzie, é papel da imprensa ao menos iniciar o debate e tentar romper a mediocridade reinante.

"- O que é vencer pra você?
- É reivindicar o Quarto Poder. É reivindicar o jornalismo como uma profissão honrosa. E um telejornal noturno que promova um debate digno de uma grande nação. É civilidade, respeito e devida importância. É a morte da reclamação, das fofocas e do voyerismo. É falar a verdade aos idiotas. Não ter um ponto demográfico cômodo, mas um lugar onde todos possamos nos reunir. Estamos chegando a um ponto crítico e você sabe disso. A discussão será enorme. O governo é um instrumento do bem ou é cada um por si? Existe algo maior que queremos alcançar ou o interesse próprio é o que basta para nós? Você e eu temos a chance de propor esse debate.
- Isso é...
- Quixotesco?"

A série vai ao ar aos domingos, às 21 horas. O primeiro episódio está disponível no site da HBO Brasil.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Delicadeza

Dizer que um filme que tem como título "A delicadeza do amor" é delicado pode soar redundante demais, desnecessário. Mas se esse filme alcança sutilmente o alinhamento perfeito entre o tom e o tema, talvez a redundância na escolha das palavras se justifique.
Dirigida por David e Stéphane Foenkinos, a produção francesa narra a história de Nathalie, que, após a morte do marido François, com quem tinha uma vida perfeita, passa a se dedicar exclusivamente ao trabalho, abandonando seus sentimentos. A solidão voluntária a que se entrega é abalada por Markus, colega de trabalho com quem inicia um inesperado relacionamento.
A amizade, a empatia e intimidade crescente entre os dois vão dando forma a uma relação que, embora questionada por todos, vai se tornando cada vez mais profunda e... delicada. Se a pergunta que todos se fazem - até mesmo Nathalie - é "por que?" ou, mais especificamente "por que Markus"? (afinal o estranho sueco não é nenhum modelo de relacionamentos bem-sucedidos, muito menos um galã de cinema), a resposta vai sendo dada pelo próprio Markus, personificação da delicadeza.

A passagem final, bela em cada detalhe, me lembrou a canção Secret Garden, do Bruce Springsteen. (Pensando bem, a música é um bonito retrato da própria Nathalie...)

She'll lead you down a path
There'll be tenderness in the air
She'll let you just far enough
So you know she is really there.
She'll look at you and smile
And her eyes will say
She's got a secret garden
Where everything you want
Where eveything you need
Will always stay a million miles away.

Essa distância é vencida por Markus, que tem a chave para entrar no jardim secreto de Nathalie. "Andando aqui, eu piso em sua dor. E foi nesse local, no coração de todas as Nathalies, que decidi me esconder".

terça-feira, 31 de julho de 2012

"(...) quanto mais se tem dentro de si, menos se quer dos outros."
(A cura de Schopenhauer, Irvin D. Yalom)

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Sem tempo ruim

Acabo de conhecer o trabalho do fotógrafo francês Christophe Jacrot. Sua obra é marcada por uma escolha pouco usual: o gosto pela chuva, pela neve e pelo mau tempo. Para Jacrot, estes elementos são "um maravilhoso terreno fotográfico, um universo visual pouco explorado, com forte poder evocativo e rico em luzes sutis. Este universo escapa à maioria de nós, ocupados demais em encontrar abrigo."

A brincadeira com a água, a luz e as formas cria imagens que são verdadeiros quadros impressionistas. 

 Le petit chaperon rouge: 60x90 ed.12/70x105 ed.8 Last prints

Fuite: 60x90 cm ed.12 / 70x105 cm ed.8

 Pluie d'étoiles: 60x90 cm ed.12

Graines d'eau 2: 50x75 cm ed.12 ex

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Noites do Sertão

(Guimarães Rosa)

"A cada palavra dela, seu coração se saía." 

"A felicidade é o cheio de um copo de se beber meio-por-meio..."

"Tudo o que muda a vida vem quieto no escuro, sem preparo de avisar."

"Era bom, gostar dela assim, com aquela velhice de alma, com o coração preguiçoso."

"E ainda mais forte sutil do que o pedido do corpo, era aquela saudade sem peso, precisão de achar o poder de um direito bonito no avesso das coisas mais feias." 

"Soropita bebeu um gole de tranquilidade."

"Mas, Surupita, amor é coragem. E amor é sede depois de se ter bem bebido..."

"Querer-bem não tem beiradas..."

(Dão-Lalalão)
* 

"Perto dela, a gente vai sentindo a precisão de viver apenas o momento."

"Nem sei se gosto de Maria da Glória, se um encantamento assim, mesmo crescente, quer dizer amor. Sei que desejaria parar, demorado, perto dela. Da alegria."

"O amor é que é o destino verdadeiro."

"Daí, é dia. O sol sustenta um grande sossego."

"No silêncio nunca há silêncio."

"Envelhecer devia de ser bom - a gente ganhando maior acordo consigo mesmo."

"Quando encontrei Maria da Glória, aqui, foi como se terminasse, de repente, uma grande saudade, que eu não sabia que sentia."

"Cerrou as pálpebras - a noite era uma água. De estar só, completamente, tirou uma esquisita segurança. Segurou-se ao instante. E foi como o abrir-se de outros olhos, agudo uma pontada."

"Estar por estar. Lalinha se cerrava, espessava os olhos; em volta, chumbo de tudo, o mundo se lavava, veloz, mas ali no senseio da rede era um ninho."

"O sol não é os raios dele - é o fogo da bola. A gente é o coração caladinho..."

"Um sonho era o espírito, o desenho de uma coisa possível, querendo vir a ser verdade."

"O amor exigia mulheres e homens ávidos tãomente da essência do presente, donos de uma perfeição espessa, o espírito que compreendesse o corpo."

"O verdadeiro amor é um calafrio doce, um susto sem perigos..."

"A noite é o que não coube no dia, até."

"Numa criatura humana, quase sempre há tão pouca coisa. Tanto se desperdiçam, incompletos, bulhentos, na vãidade de viver."

"Não, o que agora perdia era nada, fora apenas o molde incerto de uma coisa que podia ter sido."

"Amava-os. E entendia: um despertar - despertava? E a vida inteira parecia ser assim, apenas assim, não mais que assim: um seguido despertar, de concêntricos sonhos - de um sonho, de dentro de outro sonho, de dentro de outro sonho... Até a um fim?"

"Morrer talvez seja voltar para a poesia..."

"Deus nos dá pessoas e coisas, para aprendermos a alegria... Depois, retoma coisas e pessoas, para ver se já somos capazes da alegria sozinha... Essa - a alegria que Ele quer..."

(Buriti)

segunda-feira, 25 de junho de 2012

"Porque em todas as circunstâncias da vida real, não é a alma dentro de nós, mas sua sombra, o homem exterior que geme, se lamenta e desempenha todos os papéis neste teatro de palcos múltiplos, que é a terra inteira." (Plotino)

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Mafalda


terça-feira, 12 de junho de 2012

Mais uma história de amor

Paper Heart, um filme (documentário? ficção?) para se ver com um sorriso no rosto.


segunda-feira, 4 de junho de 2012

Janela da alma

"Temos muitas coisas em excesso nos dias de hoje. A única coisa que não temos o suficiente é tempo, mas a maioria de nós tem tudo em excesso. E ter tudo em excesso significa que nada temos. A atual superabundância de imagens significa, basicamente, que somos incapazes de prestar atenção. Somos incapazes de nos comunicarmos com as imagens. Atualmente, as histórias têm que ser extraordinárias para nos comoverem. As histórias simples, não conseguimos mais vê-las." (Wim Wenders, no documentário Janela da Alma, de João Jardim e Walter Carvalho)

 

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Histórias sobre família

Toda família tem sua história. Toda história tem seu valor. E tudo que tem valor deve ser preservado e respeitado. Respeito não significa aceitação incondicional e resignação pacífica. Respeito significa aceitar o que foi e melhorar o que não foi. Esse é o caminho do meio.

A tia Rose: ela é a mulher mais legal do mundo!!! Amo muito a mamãe, mas a tia Rose é minha companheira de bagunças favorita!!! Ela faz simples caixas de papelão se transformarem em naves espaciais e depois em parede de desenho e depois em palco pra teatro de bonequinhos feitos no dedo!!! Com ela, aprendi a levar o Frederico (o cachorrinho dela) pra passear, eu mesmo é que levo a guia nas mãos!!!  Com ela, brinco de pega-pega, de esconde-esconde, de tirar disquetes velhos da caixinha. Na hora do almoço é sempre ela que põe o alface no meu prato e finge que vai roubar minha comida só para eu comer tudinho! Eu finjo que fico bravo, que não vou deixá-la roubar nada e aceito mais uma colherada. Nossa relação é de puro fingimento – fingimos que somos atletas, astronautas, navegadores, pintores, cientistas, exploradores e até fingimos ser quem a gente é! Ela me leva a castelos, labirintos e sobe comigo em foguetes! Ah, e ela me dá um banho tão gostoso, faz massagem com creminho e me deixa tão cheiroso...

O tio Randal: ele é um homem alto, que me pega, me gira, me faz voar, às vezes até voo montado na bicicleta!!! Todo domingo ele vem aqui e traz o meu primo Miguel – que farra!!! Corremos, pulamos,  jogamos bola, fazemos guerra de bexigas, brincamos de espada, até tênis nós já jogamos!!!  Precisa ver como fico alegre!!! Só não pulo bem alto porque ainda não consigo! Às vezes ainda choro na hora de dividir os brinquedos, mas aos poucos começo a entender que brincar junto é melhor que não brincar sozinho. Precisa ver como estamos crescendo juntos! No dia das mães, tio Randal e eu fizemos uma surpresa para a mamãe: ele comprou flores cor de laranja, uma das cores favoritas da mamãe, e me deu para eu dar pra ela!!! Elas vinham numa caixa bonita e tinham um cartão com uma joaninha, onde estava escrito assim: “feliz dia das mães, do Marcéu para a mamãe”. Ela ficou tão feliz!!! Tio Randal também traz filmes e desenhos legais pra eu assistir e no meu aniversário foi ele que desenhou o painel do Kung-fu Panda e encheu as bexigas!!! E a tia Maria, que é a esposa do tio e mãe do Miguel, enchia balões e com eles fazia bichos, espadas, chapéus...  que divertido!!! Eu tive uma festa de aniversário muuuuuuuuuuuito divertida!!!

A vovó: a vovó é meu reservatório ambulante de mimos, doces e brincadeiras! Fica sempre falando pra mamãe: “posso dar uma bolachinha? Posso dar um pirulito? Põe açúcar no chá dele!” E mamãe sempre diz: “Não, não, não...”. Então às vezes ela faz algumas dessas coisas escondido da mamãe... hihihi... Vovó me ensinou o que é grande e o que é pequeno. Hoje eu olho uma árvore e digo: “grande, grande, grande...”. Vovó larga tudo que estiver fazendo pra ficar comigo! E juntos brincamos de dobrar papel, depois de rasgar papel, depois de embrulhar coisas com papel e depois de fazer bolas de papel e fazer gooool!!! Ela me deu uma mesinha e um sofá na minha medida, só pra mim!!! E ali brinco de rabiscar, desenhar, pintar, montar liglig, lego, girafas e elefantes. E até assisto desenhos no computador da minha tia! Ela só fica brava comigo quando começo a jogar todos os brinquedos  no chão e espalhar tudo pela sala. Aí, ela engrossa a voz e diz: “Não, assim não!” Ela também faz comidinhas gostosas, principalmente uma omelete, que eu adoro! Ela confia em mim e me dá leite para beber na xícara!!!  Às vezes ela me faz dormir cantando: “Alecrim, alecrim dourado, o Marcéu fecha os olhos porque está cansado”. Aha, te peguei, você achou que conhecia a música? Pois não poderia conhecer, porque essa foi feita especialmente para mim. Agora sim, você conhece!

Essas pessoas são parte das minhas origens.
Mesmo sem entender muita coisa, eu as reverencio.
Mesmo entendendo tudo, eu as respeito.
Com elas eu cresço.
E com elas aprendo que ninguém é perfeito e nem precisa ser.
Porque como diz o tio Stupa: “o importante não é ser perfeito, o importante é ser feliz”.

(Marcéu e Mamãe)