domingo, 5 de abril de 2009

Pano de fundo

Uma história sobre policiais que exterminam jovens pobres da periferia de São Paulo não é das minhas leituras preferidas. Entendo a importância do assunto, mas não quero saber de detalhes sobre corpos e modos de assassinato. É o tipo de coisa que eu não posso ficar sabendo antes de dormir, senão tenho pesadelos. Fraqueza, criancice, seja o que for, eu assumo. Não consigo. O livro é Rota 66, de Caco Barcellos, para a disciplina Jornalismo Investigativo.
Sempre leio em silêncio, mas com esse livro, tive que me embriagar de música para conseguir seguir em frente. Música, muita música. Conhecidas, alegres, do tipo que eu canto junto. Só pra manter as coisas em perspectiva (ou totalmente fora de perspectiva). Hoje, resolvi experimentar algo novo e colocar um cd que eu nunca tinha ouvido: Janis Joplin, Greatest Hits. Maaaan, onde eu tava com a cabeça ficando tanto tempo sem conhecer essa mulher? Piece of my heart, Summertime, Try, Cry Baby, Get it while you can, Ball and chain... faixa após faixa, o livro é que se tornou o pano de fundo.
Aqui Ball and chain break down, na versão ao vivo de Ball and chain:

"I don't understand how come you're gone, man. I don't understand why half the world is still crying, man, when the other half the world is still crying too, man. And I can't get it together. I mean, if you gotta care for one day, man. I don't mean, if you, say maybe you wanna care for 365 days, right? You ain't got 365 days. You got it for one day, man. I'll tell you, that one day, man, better be your life, man. Because, you know, you can say all, you may cry about the other 364, but you're gonna lose that one day. That's all you got. You gotta call that love, man. That is what it is. If you gotta today, you don't wear it tomorow, because you don't need it. Because as a matter of fact, as we discovered on a train, tomorrow never happens. It's all the same fucking day."

sábado, 28 de março de 2009

Conversas roubadas

Ontem, estava vendo uma entrevista com Rubem Alves, no programa Sempre um Papo, da TV Câmara . Ouvi-lo falar de amor, vida, morte, poesia, com uma profundidade tão despojada, faz lembrar o tipo de pessoa que um dia eu quero ser. Ter aquela espécie de alegria sábia - ou sabedoria alegre - que contagia e ao mesmo tempo acalma.
Toda essa conversa com ele me fez pensar na poesia perdida. Não a poesia escrita, mas a poesia viva. Às vezes, a poesia some. Tira férias. E eu fico me questionando se foi ela quem me abandonou ou o contrário.
Pois bem, outro dia, roubei uma conversa. Melhor, ganhei de presente. Peguei o ônibus com três professoras de pré-escola que às vezes pegam o mesmo ônibus que eu para ir à faculdade. Não as conheço, mas sei que são professoras pelas conversas que costumam ter (e para quem julga que eu costumo ouvir conversas alheias, fique perto de três professoras e tente não ouvir o que elas dizem). Nesse dia, falavam de alunos, alunos e... uma atividade chamada "apreciação", ou coisa parecida. Os alunos fazem um exercício de criação e depois comentam uns os trabalhos dos outros. Mateus - acho que era o nome dele - resolveu pintar o céu de verde. E, segundo a professora, ele conseguiu um tom realmente incrível de verde. No momento da apreciação, outro aluno, ao ver a obra de Mateus, comentou: "quando olho pra esse verde, eu sinto cheiro de limão". E lá estava eu, sorrindo sozinha no ônibus.
A conversa das professoras e a conversa com o Rubem Alves não me trouxeram a poesia de volta, só me fizeram ver que ela sempre esteve aqui.
***
Lembrei da sequência de O Carteiro e o Poeta em que Mario grava para Pablo Neruda as coisas belas de sua terra. "Ondas de Cala di Sotto. Pequenas. Ondas grandes. Vento no penhasco. Vento através dos arbustos. Redes tristes do meu pai. Sino da Igreja de Nossa Senhora das Dores, com o padre. Céu estrelado da ilha. Coração de Pablito". Poesia viva. Pura e simples.

Link para assistir ao programa: http://www.sempreumpapo.com.br/audiovideo/player.php?id=149


quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

A arte do encontro

Sempre acreditei que escrevia aqui para manter uma espécie de conversa com algumas poucas pessoas que são extremamente importantes na minha vida. Mas conversar pessoalmente é muito melhor. Conversar em plena sintonia com alguém é um dos maiores prazeres da vida. A conversa flui e a gente nem sente, e mesmo os breves momentos de silêncio não são nada constrangedores, daqueles em que se buscam palavras à toa para preencher o vazio. Ao contrário, é aquela espécie de silêncio confortável, que nos deixa completamente à vontade. Tão simples e aconchegante como estar em casa. Conversar de alma para alma é isso mesmo, é estar em casa e ao mesmo tempo na casa do outro e, de tão à vontade, descobrir que tudo é uma casa só.
Pois outro dia estive na casa do meu amigo Vinícius. O encontro não poderia ter sido em lugar melhor. O píer do emissário era um convite aos devaneios e elucubrações mais malucos e interessantes. Filosofia, música, poesia, física qüântica, a essência da vida e do universo, os canais, os portais, a densidade de tudo e o sublime de tudo, a beleza, a sabedoria escondida e a nossa insensatez declarada, os caminhos, a aprendizagem e a nossa vocação infinita para o amor, o amor e o Amor. O tempo passava e a gente não via. Ou via mas fingia não ver porque a prosa tava tão boa... Cada instante foi a vivência plena da verdade de um outro grande Vinícius. Sim, a vida realmente é a arte do encontro.

sábado, 31 de janeiro de 2009

Uma paixão a mais

Pão e circo. Distração para as massas. Quando considerados apenas do ponto de vista da lógica do entretenimento (ou seja, do mercado), os esportes são compreendidos como mero instrumento de manipulação e mais uma peça na engrenagem vertiginosa do consumo, em que atletas se tornam marcas tão vendáveis quanto as camisas que vestem e torcedores são obrigados a se atualizar a cada seis meses com novos modelos de uniforme do seu time favorito.
No entanto, dentro da mesma lógica do entretenimento - ou, talvez, por isso mesmo - é impossível negar todo o apelo exercido pelos esportes, assim como suas promessas, quase sempre cumpridas, de diversão. Jogo de futebol, seja em estádio, televisão ou campinho de terra batida, sempre atrai seus seguidores. Esportes nacionais, Olimpíadas, Copa do Mundo - eventos que movimentam quantias absurdas de dinheiro e... divertem.
Será que o esporte pode ser apenas resumido à relação mercadológica e política de domínio e alienação? Entre a massa indistinta de consumidores de esportes, existem pessoas que pensam, agem e sentem e que, por motivos não tão redutíveis ou fáceis de se explicar, têm aquilo que se costuma chamar paixão por esportes. Sou uma delas.
Ontem, percebi isso de modo mais nítido do que a minha consciência já permitia. Assistindo à semifinal do Aberto de Tênis da Austrália, disputada entre os espanhóis Rafael Nadal e Fernando Verdasco, pude perceber, quase intuitivamente, o que realmente faz o mundo girar. Excetuando-se as leis da física, claro. O jogo, considerado um dos maiores duelos dos últimos tempos, durou mais de cinco horas, mostrando, no limite do limite, as exigências técnicas e psicológicas de um esporte fascinante. Dentro da quadra, não víamos marcas, contratos ou patrocinadores. Víamos apenas dois homens lutando com o melhor e o pior de si mesmos.
O que me leva à minha recém-descoberta paixão por futebol americano. Alguns momentos furtados entre o zapping costumeiro de canais e pronto. Sedução total. Gladiadores debatendo-se em campo, materializando jogadas altamente pensadas e que, ao mesmo tempo, lembram brincadeira de criança. Um jogo em que ataque e defesa, simetricamente equivalentes, criam um dos balés mais violentos e mais belos de se assistir.
O mundo pode ser, de fato, apenas a grande selva capitalista. Mas as pessoas ainda são feitas de carne, osso e coração. E talvez esse tipo de lógica, da qual o esporte faz parte e é expressão, não seja compreensível às mentes puramente cartesianas. Visão ingênua ou romântica demais? Talvez seja apenas paixão...

***
Amanhã, a final do Aberto da Autrália entre Nadal e Roger Federer (o ídolo!) e o Super Bowl (a grande final entre Arizona Cardinals e Pittsburgh Steelers, com direito a show de Bruce Springsteen no intervalo!!!) reservam ainda mais emoções.

domingo, 11 de janeiro de 2009

Sobre morcergos e borboletas

Outro dia, tive uma lição valiosa sobre a "realidade", ou, como vulgarmente se costuma chamar, "a vida como ela é". A discussão, já bem batida, teve um diferencial (para usar um dos termos do meu opositor) interessante: foi a primeira vez que encontrei um defensor apaixonado do sistema capitalista. Sua paixão por toda a insanidade da "gestão corporativa", se justifica em grande medida por sua profissão. A lógica dos argumentos chega até a fascinar, pela lógica em si, como se falássemos em estratégias do jogo War. É o "mundo real", ele dizia. O mundo em que, como descreveu Maquiavel, os fins justificam os meios. E completou a discussão com uma analogia didática: no mundo, existem dois tipos de pessoas: as borboletas e os morcegos. Fora a tentativa de simplificar de tal maneira a vida, a divisão entre presa e predador sintetiza bem a visão competitiva e altamente agressiva defendida e valorizada por um sistema que não tem nada de bonito (para não dizer justo...).
Mas a grande lição da discussão foi o contato com uma perspectiva totalmente inusitada e contrária à minha, o que mostra que, para além de borboletas e morcegos, a vida pode ser bem mais interessante pela infinita pluralidade que apresenta.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008


"A infelicidade é uma questão de prefixo."


(Guimarães Rosa)

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Ausência

Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces.
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado.
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne como nódoa do passado.
Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face.
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada.
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos portos silenciosos.
Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.

Vinícius de Moraes

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

O ator e o poeta

No palco, Ayrton Salvanini: Vinícius de Moraes.
O ator mambembe, de tão raro, quase não existe. Diz viver para a força e a beleza da palavra. Seus espetáculos - doze ao total - resumem-se a isto: o palco e a poesia. Poesia que povoou meus quinze anos em apresentações na escola Martim Afonso. Com ele, fui seduzida por Fernando Pessoa e seus heterônimos. Com ele, vivi a grandiosidade e o frenesi da Semana de 22. Com ele, a poesia ganhou corpo e eu senti a palavra pulsando dentro do meu ser.
Já pensava que era apenas uma boa lembrança. Reencontrá-lo, ontem, no palco do Sesc, não foi voltar ao passado. Foi viver, mais uma vez e sempre, a poesia. Desta vez, a de Vinícius. Ver o ator encarnar o poetinha, declamando Operário em construção, recitando Para viver um grande amor, entre outros textos, ou cantando suas canções, sempre acompanhado de seu filho - "músico, graças a Deus!" -, fez sentir a beleza e a força da palavra. Ouvir o poeta fez lembrar, mais que a paixão, a passionalidade de um jeito de ser que simplesmente não aceita a vida pela metade.


quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Para entrar na lista dos favoritos



"Apenas Uma Vez resulta assim não um longa que usa a música apenas como linguagem, mas um que a emprega também como tema. O romance é menos físico e mais pelo processo criativo. O relacionamento se torna colaboração - e há poucas coisas tão românticas quanto isso." (Érico Borgo)







Falling Slowly (Glen Hansard/Marketa Irglova)
I don't know you
But I want you
All the more for that
Words fall through me
And always fool me
And I can't react
And games that never amount
To more than they're meant
Will play themselves out
Take this sinking boat and point it home
We've still got time
Raise your hopeful voice you have a choice
You'll make it now
Falling slowly, eyes that know me
And I can't go back
Moods that take me and erase me
And I'm painted black
You have suffered enough
And warred with yourself
It's time that you won
Take this sinking boat and point it home
We've still got time
Raise your hopeful voice you had a choice
You've made it now
Falling slowly sing your melody
I'll sing along

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Pais e filhos e sonhos de bicicletas

Ontem, estava lendo A Cidade Vazia, livro de crônicas de Fernando Sabino. Em "A bicicleta", ele conta a história, tirada de uma notícia de jornal, de um homem pobre, preso por tentar roubar uma bicicleta que daria ao filho como presente de Natal, há muitos anos prometida. É o tipo de história que me comove: pais e filhos e sonhos de bicicletas.
Pois bem. Hoje, fui na bicicletaria levar minha bicicleta para trocar a câmara do pneu. Aguardava o conserto na porta da loja, quando se aproximaram duas bicicletas: um pai e um filho. "Dá uma olhada e diz pra mim qual que te apaixona", disse o pai. O inusitado da proposta me fez sorrir. O menino, mais surpreso que feliz, parecia não entender e permaneceu parado. O pai repetiu e completou, sorrindo para ele e para mim: "Quero te dar uma bicicleta nova". A sua era realmente velha e já estava ficando pequena. Com a insistência do pai, o filho entrou na loja e começou a olhar as bicicletas, uma por uma. O menino examinava com cuidado e parecia indeciso, ainda duvidando da possibilidade verdadeira de ganhar uma bicicleta nova. Acho que se apaixonou por uma vermelha, pois foi a única em que tocou. O pai levava aquele sorriso que traduz o sentimento de dignidade e alegria por poder comprar uma bicicleta nova ao filho.
A minha bicicleta ficou pronta antes de eu me inteirar do final da história e não sei se o pai realmente comprou e qual bicicleta o filho escolheu. Mas ainda na calçada, lembrei da crônica lida no dia anterior e fiquei com os olhos cheios de lágrimas. Sim, histórias de pais e filhos e sonhos de bicicletas realmente me comovem.

domingo, 30 de novembro de 2008

Crônica do anonimato

(A lição do olhar)

O uniforme azul e branco facilita a identificação. Podemos identificá-los, mas não os reconhecemos. Simplesmente porque não os conhecemos. Eles estão em quase todos os lugares, porém não os vemos. Falar com eles, apenas em caso de necessidade. O paradoxo é sensivelmente real: por mais onipresentes que sejam, eles tornam-se invisíveis, inexistentes. Parecem compor o cenário em que estão inseridos como figurantes, e perdem-se nele. Transformados em funções, ou melhor, vistos somente como funções, perdem um pouco de sua humanidade. Afinal, quem são os funcionários da universidade?
Existem os “clássicos”, conhecidos de todos, que são referência em seus pontos de atuação: o Marcílio e a Dona Terezinha, da biblioteca de Comunicação; a Helen, da biblioteca de Educação (para aqueles que a freqüentam); a Célia, da secretaria; a Beth, da sala dos professores; o Hugo, dos auditórios. Mas há, também, um exército de anônimos, reconhecidos apenas pela calça azul e a camisa branca (ou colete azul, no caso das mulheres). Como é mesmo o nome do rapaz que fica no laboratório? E da moça que nos atende quando a Célia não está na secretaria? E daquelas duas senhoras simpáticas – uma loira, a outra negra, as duas sempre sorridentes – que trabalham na biblioteca do primeiro andar? Além destes, ainda tem os funcionários que trabalham escondidos em salas em que nunca entramos. Muito raramente cruzamos com eles pelos corredores. Deles, sabemos menos ainda: nem nome, nem o que fazem.
Seja no caso dos conhecidos ou dos apenas reconhecíveis, nossa percepção é a mesma: eles não passam de funções. Ou simples uniformes. Será que eles, por sua vez, nos vêem apenas como uma massa indistinta e perturbadora de alunos? Massa de cá, exército de lá, e perdem-se os relacionamentos humanos. Pois não se pode dizer que haja relacionamento entre nós. O contato diário resume-se à troca de sorrisos e cumprimentos e ao pedido de auxílio, quando necessário. Mas o que sabemos deles? Qual é a sua história? Seus sonhos, suas frustrações? Afinal, quem são eles? Então, damo-nos conta, tristemente, de que talvez estas questões não nos preocupem ou sequer tenham suscitado nossa curiosidade. Limitamo-nos a aceitar sua condição de função e anonimato – assim como a nossa, de massa igualmente anônima – e esquecer sua humanidade.
Às vezes, peculiaridades de temperamento e personalidade vencem estas limitações. Alguns dos funcionários, com os quais sentimos uma proximidade maior, vão se revelando a nós, formando, aos poucos, o mosaico de quem são. A revelação, porém, acontece lentamente, a partir de conversas esparsas e breves – seria perigoso, talvez, romper a barreira do uniforme de modo súbito. A aproximação exige cautela e respeito aos papéis: eles, funcionários, nós, alunos. Mas a ocorrência, ainda que casual, de conversas mais pessoais, mostra que é possível nos relacionarmos como os seres humanos que somos.
Esta seria, talvez, uma boa oportunidade para exercitar esta aproximação. Poderia ter me aventurado a conversar com um dos funcionários desconhecidos e arriscar um perfil, mas preferi fazer uma crônica do anonimato. Continuo não sabendo quem são eles, quais são seus sonhos, o que os faz chorar ou sorrir. Mas posso dizer que, com um simples exercício do olhar, eles já não são apenas uniformes para mim.

domingo, 23 de novembro de 2008

Conversatório com Fabrício Carpinejar

Foi há duas semanas, mas acho que ainda vale o comentário.
Antes do Conversatório, eu estava lendo seu livro de crônicas
O amor esquece de começar. Leve, profundo, engraçado, poético. Com várias daquelas frases perfeitas pra se anotar num caderninho. Pois encontrar o Fabrício foi encontrar o autor daquele livro, o que parece um tanto óbvio mas não é. O que eu quero dizer é que ele é exatamente o que escreve. O jeito de falar (o sotaque gaúcho já pressuposto na escrita), os assuntos (amor, mulheres, filhos, família, relacionamentos, a escrita, a poesia), a graça, o humor, o lirismo, a veia subversiva descontruindo idéias banais. Ouvi-lo falar era o mesmo que ler seu livro.
Algumas de suas frases (do Conversatório, não do livro):

"Os livros nascem conversados."

"Ensinar é seduzir porque tu ensina pra passar o contrabando pelo afeto."

"Xícaras quebradas nunca serão roubadas." (história da avó dele)

"A escrita é um próprio rosto."

"É importante conhecer a chuva."

"Tu não escreve pra falar de ti, tu escreve pra sair de ti."

"O livro é saudade que a gente tem de alguém."

"(...) começa a escrever porque os principais livros da vida dele, que são pessoas, não foram escritos."

"Se eu não escrever, ninguém vai conhecer minha vó."

"A gente escreve depois de se suportar sozinho." (em relação aos blogs)

"É importante ser cafona no amor. Quem não for cafona, nunca será nobre."

"A poesia é meu espaço de desaforo."

"O exagero reequilibra."

"A crônica devolve a intimidade das coisas (...) A crônica é um efeito colateral da poesia."

"Poesia não é escolha, é temperamento. É jeito de reconhecer minha própria casa."

*
Para mais Carpinejar: http://www.carpinejar.blogspot.com/

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Itinerário (ou a crônica de um dia perfeito)

Estamos na Luz. Lu e eu. Luz. Algo bom de se dizer. É metrô, é trem, é pinacoteca, é estado de espírito. Início de jornada. O descuido na rua e a bronca carinhosa. Primeiros sinais de uma gentileza inesperada. Cedo demais. Os caminhos sem mapa. O arco-íris de concreto ao longe. Longe? Perto. A conspiração do universo. A intuição dos passos. A supresa em cada esquina. O pensamento e o desejo mais rápidos que a imagem que surgia como mágica. Edifício Martinelli. O outro também. Sol chuvoso. Avenida Júlio Prestes. Avenida Ipiranga! Cadê a São João? A vida vivida como música. Santa Ifigênia: a rua, o largo, a igreja. Viaduto do Chá e a pureza contagiante do ar impuro de São Paulo. Mosteiro de São Bento. A lição do silêncio e dos vitrais. Cachoeira de luz. As fotos proibidas. A tempo. O café Girondino. 25 de março: uma data, uma rua, uma festa. Carinho na cabeça ao virar a esquina. Arrepio de pele. Lojas árabes. Bolsas árabes, pulseiras árabes, doces árabes. Enfeites de Natal e a caixinha de música descoberta sem querer. Mercado Municipal. O templo. Simpatia em cada barraca. Banquete de cores, de cheiros, desejos. A sardela italiana, o queijo brasileiro. Damasco com chocolate. Salada de fruta. Pão com mortadela e a descoberta de si mesmo. Pessoas. Mais simpatia, mais gentileza. Avenida Senador Queirós. Bolo de goiaba. Chuva ensolarada. Caminho de volta. Luz mais perto ainda. Sala São Paulo. Os mistérios do som, os segredos da música. Museu da Resistência. DOI-CODI. História na parede de celas. Universidade Livre de Música. Corredores musicais. A música da janela. O céu de papel crepom. Museu da Língua Portuguesa. Machado de Assis. Paredes de luz e som. A palavra comunicar no jogo do labirinto. A surpresa por trás da tela de cinema. As palavras eram mar. As palavras choviam belezas no escuro, e a gente embaixo se molhando. O piano na estação Júlio Prestes. "Toque-me. Sou todo seu". Toco. A brincadeira em dedilhado, o jazzinho infantil arranhado. Volta pelo metrô. A rememoração do dia que ainda não terminou. Muitos risos. As histórias acompanhadas por um livro de fachada. "Onde estamos? Quem somos nós?", "Ana Rosa", entregou-se o livro. Fim de linha. Destino: a praia. Mais histórias e mais risos. Amanteigados e biscoitos de leite. A serra. O verde e a lembrança de verde.
A Lu dormindo. O céu em cor-de-rosa encerrando o dia. A paisagem familiar. Canal 1. O bafo quente de Santos. Fim de jornada. A plenitude à exaustão. Pés cansados, mas felizes.

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

O lado humano das coisas

As aulas e a maioria dos professores parecem criar (ou recriar) o modelo de jornalista soldado: tem que ser agresssivo, tem que ser mal educado, nada de mostrar emoção; se importar com o "personagem" só quando for útil ou interessante à matéria, e quando a intenção for fazer da notícia sensação ou uma novelinha melodramática; tem que procurar a notícia conforme a cartilha (segundo o que a cartilha considera notícia) e escrever conforme a cartilha. O principal critério de noticiabilidade é a morte. Tal como na guerra. Morte alheia (de gente importante, melhor ainda) é alegria de jornalista. E assim, muitos candidatos à tal da "profissão repórter" se desencantam, enquanto outros, com tendências sádicas, se realizam. Os chamados "sensíveis" são delicados demais, segundo dizem. E delicadeza não tem vez no jornalismo. Será?
Ontem, a palestra com o jornalista Vladir Lemos (apresentador do programa Cartão Verde, da TV Cultura) mostrou com palavras, histórias e, mais ainda, com seu próprio jeito de ser, que ainda é possível não abraçar o lado sanguinário do jornalismo e valorizar o traço humano da profissão que, para ele, ainda é a arte de contar histórias. Trabalhando com esportes, o jornalista diz não querer saber de técnicas e táticas (em geral, o foco dos principais programas de esporte), mas de pessoas. Lembrando o início de sua carreira na TV Tribuna, quando ainda cobria assuntos gerais, falou de seu sofrimento quando era obrigado a cobrir as editorias de Política e Polícia. Certo dia, na redação, surgiu a notícia da mulher que supostamente teria matado o marido e enterrado no quintal de casa. Único repórter disponível no momento, não teve como escapar, e lá foi o Vladir fazer a matéria. Chegando ao local junto com o cinegrafista, acompanhou o interrogatório dos policiais. De início, a mulher negou. Depois, indicou o lugar em que estava o marido. Primeira enxadada, nada. Segunda, apareceu um dedão. Imediatamente, o repórter se dispôs a abandonar o local, com a justificativa de fazer uma passagem externa. "Ô, Vladir, você não vai ver?", foi a pergunta do cinegrafista. "E você acha que ela enterrou só o dedo do marido?". E saiu.
Histórias como esta, ou a entrevista em que fez o Adhemar Ferreira da Silva, conhecido pelo jeito turrão, cantar, ou a matéria com os detentos do Carandiru e a lenda de serem de maioria corinthiana, iluminam o lado humano das coisas e mostram que delicadeza não é sinônimo de frescura ou fraqueza, mas a capacidade de reconhecer no outro, uma pessoa, e na notícia, a possibilidade de uma verdadeira história.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

"Se ao menos pudesse voltar a ser tão distraída, a sentir tanto amor sem saber, tomando-o por engano pelo riso e pelo pão com um levíssimo cheiro de geléia espalhado por cima."

(A menina que roubava livros, Markus Zusak)

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Poema Se

Se, ao final desta existência,
Alguma ansiedade me restar
E conseguir me perturbar;
Se eu me debater aflito
No conflito, na discórdia...
Se ainda ocultar verdades
Para ocultar-me,
Para ofuscar-me com fantasias por mim criadas...
Se restar abatimento e revolta
Pelo que não consegui
Possuir, fazer, dizer e mesmo ser...
Se eu retiver um pouco mais
Do pouco que é necessário
E persistir indiferente ao grande pranto do mundo...
Se algum ressentimento,
Algum ferimento
Impedir-me do imenso alívio
Que é o irrestritamente perdoar,
E, mais ainda,
Se ainda não souber sinceramente orar
Por quem me agrediu e injustiçou...
Se continuar a mediocremente
Denunciar o cisco no olho do outro
Sem conseguir vencer a treva e a trave
Em meu próprio...
Se seguir protestando
Reclamando, contestando,
Exigindo que o mundo mude
Sem qualquer esforço para mudar eu...
Se, indigente da incondicional alegria interior,
Em queixas, ais e lamúrias,
Persistir e buscar consolo, conforto, simpatia
Para a minha ainda imperiosa angústia...
Se, ainda incapaz
para a beatitude das almas santas,
precisar dos prazeres medíocres que o mundo vende...
Se insistir ainda que o mundo silencie
Para que possa embeber-me de silêncio,
Sem saber realizá-lo em mim...
Se minha fortaleza e segurança
São ainda construídas com os materiais
Grosseiros e frágeis
Que o mundo empresta,
E eu neles ainda acredito...
Se, imprudente e cegamente,
Continuar desejando
Adquirir,
Multiplicar,
E reter
Valores, coisas, pessoas, posições, ideologias,
Na ânsia de ser feliz...
Se, ainda presa do grande embuste,
Insistir e persistir iludido
Com a importância que me dou...
Se, ao fim de meus dias,
Continuar
Sem escutar, sem entender, sem atender,
Sem realizar o Cristo, que,
Dentro de mim,
Eu Sou,
Terei me perdido na multidão abortada
Dos perdulários dos divinos talentos,
Os talentos que a Vida
A todos confia,
E serei um fraco a mais,
Um traidor da própria vida,
Da Vida que investe em mim,
Que de mim espera
E que se vê frustrada
Diante de meu fim.
Se tudo isto acontecer
Terei parasitado a Vida
E inutilmente ocupado
O tempo
E o espaço
De Deus.
Terei meramente sido vencido
Pelo fim,
Sem ter atingido a Meta.

Professor Hermógenes


quarta-feira, 8 de outubro de 2008

"Deixá-lo; vou descendo o caminho rápido da vida, sem temores e sem projetos, ora rindo, ora chorando; e, às vezes, rindo e chorando ao mesmo tempo, ou então cantarolando qualquer velho estribilho para me distrair ao longo do caminho. "

(Viagem à roda do meu quarto, Xavier de Maistre)

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Poema ao Seu Moço

Seu Moço
sumiu da minha vista,
sumiu da minha vida,
até das letras perdidas.
Sinal não manda mais
e as conversas de esquina
já são lembranças.
Seu Moço,
faz assim, não.
Lembra que amigo é coisa
pra se guardar
pra aproveitar
e abusar
até se perder
de vista,
mas não do coração.

(Deixar amigo assim com saudade é pecado... )

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Sobre o medo

"Medo é necessário, faz sentido. Só não dá para ter medo de ter medo, paralisar e deixar as histórias passarem sem encontrar quem as conte (...) Por mais que você escolha não viver, a vida te agarra em alguma esquina. O melhor é logo se lambuzar nela, enfiar o pé na jaca, emlamear os sapatos. Se quiser um conselho, vá. Vá com medo, apesar do medo. Se atire. Se quiser outro, não há como viver sem pecado. Então, faça um favor a si mesmo: peque sempre pelo excesso."
(Eliane Brum)

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

O mar serenou

Acordei com Clara Nunes cantando...

"Ah, e agora
Você passa e eu acho graça
Nessa vida tudo passa
E você também passou..."