"Tô estudando para saber ignorar."
(Tom Zé)
quarta-feira, 11 de junho de 2008
terça-feira, 10 de junho de 2008
Os casos da vara
“O caso da vara” é um conto de Machado de Assis que narra a fuga do seminário de Damião e seu pedido de auxílio à Sinhá Rita, amiga de seu padrinho. Todo o episódio se passa em um dia na sala de Sinhá, que se dedica a ensinar renda e bordado a criadas negras. Assegurada a intercessão da mulher junto ao padrinho, dá-se um momento de descontração e Damião põe-se a contar anedotas que fazem rir à pequena Lucrécia, criando simpatia e promessa íntima de apadrinhamento por parte do moço. Ao final do dia, não tendo terminado seu trabalho, a menina é duramente castigada por Sinhá, que pede a Damião que lhe passe a vara. Dividido entre a promessa e o dever da gratidão, Damião entrega a vara.
O filme “Quanto vale ou é por quilo?”, do diretor Sérgio Bianchi, é inspirado em “Pai contra mãe”, outro conto de Machado de Assis, mas bem poderia ter como mote “O caso da vara”. Mostrando as complexas relações que envolvem o assistencialismo no Brasil, o filme é uma história sobre imagem e cooptação – imagens que se criam e devem ser mantidas ao custo de ações cooptadas em uma intricada rede de relacionamentos. É o famoso “toma lá, dá cá” ou “uma mão lava a outra”. No constante jogo de interesses, alguém sempre acaba entregando a vara. Afinal, quanto vale uma “boa” ação?
O tema da responsabilidade social como embuste para geração de lucro é central. Empresas e organizações não-governamentais usam o disfarce do assistencialismo para ganhar dinheiro. Campanhas de auxílio a crianças carentes, doação de roupas e alimentos a moradores de rua, projetos implantados em comunidades desfavorecidas – todas elas ações que entram na pauta do politicamente correto e socialmente aplaudido, escondendo, porém, falcatruas e interesses bem menos nobres: superfaturamento por meio de doações, dedução de imposto de renda, lavagem de dinheiro, corrupção. Nesta grande encenação, o que vale é a imagem. O jogo das representações é sustentado por bem elaboradas campanhas de marketing que divulgam as boas ações e intenções das empresas e tentam convencer com imagens como a foto da madame socialmente engajada segurando a mão de crianças pobres. E sorrindo. Sempre. O sorriso – vale dizer, a imagem – é quem (res)guarda o simulacro da responsabilidade, generosidade e comprometimento social. No processo de legitimação da imagem, estes valores são apenas elementos que compõem o discurso do bem agir, tomado de empréstimo em lugar da ação propriamente dita. Mostrar que se faz é mais importante que fazer e, neste sentido, os meios de comunicação são usados e se deixam usar como veículos de cooptação, em que a aparência de realidade acaba tornando-se real e sendo aceita como tal. Dançando conforme a música do sistema, a informação desobriga-se de seu compromisso com a verdade. Mais uma vez, as varas são entregues.
Outro tema fortemente presente no filme é a questão do negro – objeto e alvo principal das ações assistencialistas – e os resquícios de escravidão em uma sociedade que se diz livre. Crônicas retiradas dos autos do Arquivo Nacional do Rio de Janeiro são atualizadas. Relações escravocratas – reflexos de relações econômicas e sociais complexas – são reencarnadas em situações contemporâneas, mostrando que a máscara da liberdade é mais uma das imagens vendidas pela retórica da democracia. O recurso narrativo empregado é a transposição, do século XIX para a atualidade, das mesmas situações históricas, fazendo uso dos mesmos atores. O resultado é eficaz. E constrangedor. Casos como o do capitão-do-mato capturando a escrava fugida que acaba por abortar o filho, transforma-se na história de Candinho, recém-casado, à espera de um filho e desempregado, que se torna matador de aluguel para ganhar dinheiro. O capitão-do-mato moderno termina matando a única pessoa disposta a denunciar os desmandos das empresas “socialmente responsáveis” e tentar mudar alguma coisa, rompendo com o sistema de cooptação. Esta é a história de “Pai contra mãe”, e, nesta luta, a mãe que se recusa a entregar a vara não sai vitoriosa.
O filme “Quanto vale ou é por quilo?”, do diretor Sérgio Bianchi, é inspirado em “Pai contra mãe”, outro conto de Machado de Assis, mas bem poderia ter como mote “O caso da vara”. Mostrando as complexas relações que envolvem o assistencialismo no Brasil, o filme é uma história sobre imagem e cooptação – imagens que se criam e devem ser mantidas ao custo de ações cooptadas em uma intricada rede de relacionamentos. É o famoso “toma lá, dá cá” ou “uma mão lava a outra”. No constante jogo de interesses, alguém sempre acaba entregando a vara. Afinal, quanto vale uma “boa” ação?
O tema da responsabilidade social como embuste para geração de lucro é central. Empresas e organizações não-governamentais usam o disfarce do assistencialismo para ganhar dinheiro. Campanhas de auxílio a crianças carentes, doação de roupas e alimentos a moradores de rua, projetos implantados em comunidades desfavorecidas – todas elas ações que entram na pauta do politicamente correto e socialmente aplaudido, escondendo, porém, falcatruas e interesses bem menos nobres: superfaturamento por meio de doações, dedução de imposto de renda, lavagem de dinheiro, corrupção. Nesta grande encenação, o que vale é a imagem. O jogo das representações é sustentado por bem elaboradas campanhas de marketing que divulgam as boas ações e intenções das empresas e tentam convencer com imagens como a foto da madame socialmente engajada segurando a mão de crianças pobres. E sorrindo. Sempre. O sorriso – vale dizer, a imagem – é quem (res)guarda o simulacro da responsabilidade, generosidade e comprometimento social. No processo de legitimação da imagem, estes valores são apenas elementos que compõem o discurso do bem agir, tomado de empréstimo em lugar da ação propriamente dita. Mostrar que se faz é mais importante que fazer e, neste sentido, os meios de comunicação são usados e se deixam usar como veículos de cooptação, em que a aparência de realidade acaba tornando-se real e sendo aceita como tal. Dançando conforme a música do sistema, a informação desobriga-se de seu compromisso com a verdade. Mais uma vez, as varas são entregues.
Outro tema fortemente presente no filme é a questão do negro – objeto e alvo principal das ações assistencialistas – e os resquícios de escravidão em uma sociedade que se diz livre. Crônicas retiradas dos autos do Arquivo Nacional do Rio de Janeiro são atualizadas. Relações escravocratas – reflexos de relações econômicas e sociais complexas – são reencarnadas em situações contemporâneas, mostrando que a máscara da liberdade é mais uma das imagens vendidas pela retórica da democracia. O recurso narrativo empregado é a transposição, do século XIX para a atualidade, das mesmas situações históricas, fazendo uso dos mesmos atores. O resultado é eficaz. E constrangedor. Casos como o do capitão-do-mato capturando a escrava fugida que acaba por abortar o filho, transforma-se na história de Candinho, recém-casado, à espera de um filho e desempregado, que se torna matador de aluguel para ganhar dinheiro. O capitão-do-mato moderno termina matando a única pessoa disposta a denunciar os desmandos das empresas “socialmente responsáveis” e tentar mudar alguma coisa, rompendo com o sistema de cooptação. Esta é a história de “Pai contra mãe”, e, nesta luta, a mãe que se recusa a entregar a vara não sai vitoriosa.
sábado, 17 de maio de 2008
sábado, 3 de maio de 2008
Amor e seu tempo
Amor é privilégio de maduros
estendidos na mais estreita cama,
que se torna a mais larga e mais relvosa,
roçando, em cada poro, o céu do corpo.
É isto, amor: o ganho não previsto,
o prêmio subterrâneo e coruscante,
leitura de relâmpago cifrado,
que, decifrado, nada mais existe
valendo a pena e o preço do terrestre,
salvo o minuto de ouro no relógio
minúsculo, vibrando no crepúsculo.
Amor é o que se aprende no limite,
depois de se arquivar toda a ciência
herdada, ouvida. Amor começa tarde.
(Carlos Drummond de Andrade)
estendidos na mais estreita cama,
que se torna a mais larga e mais relvosa,
roçando, em cada poro, o céu do corpo.
É isto, amor: o ganho não previsto,
o prêmio subterrâneo e coruscante,
leitura de relâmpago cifrado,
que, decifrado, nada mais existe
valendo a pena e o preço do terrestre,
salvo o minuto de ouro no relógio
minúsculo, vibrando no crepúsculo.
Amor é o que se aprende no limite,
depois de se arquivar toda a ciência
herdada, ouvida. Amor começa tarde.
(Carlos Drummond de Andrade)
quarta-feira, 23 de abril de 2008
domingo, 20 de abril de 2008
sábado, 19 de abril de 2008
Tapa na cara
"Velho burocrata, meu companheiro aqui presente, ninguém nunca fez com que te evadisses, e não és responsável por isso. Construíste tua paz tapando com cimento, como fazem as térmitas, todas as saídas para a luz. Ficaste enroscado em tua segurança burguesa, em tuas rotinas, nos ritos sufocantes de tua vida provinciana; ergueste essa humilde proteção contra os ventos, e as marés, e as estrelas. Não queres te inquietar com os grandes problemas e fizeste um grande esforço para esquecer a tua condição de homem. Não és o habitante de um planeta errante e não lanças perguntas sem solução: és um pequeno-burguês de Toulouse. Ninguém te sacudiu pelos ombros quando ainda era tempo. Agora a argila de que és feito já secou, e endureceu, e nada mais poderá despertar em ti o músico adormecido, ou o poeta, ou o astrônomo que talvez te habitassem."
Terra dos Homens, Antoine de Saint-Exupéry
Terra dos Homens, Antoine de Saint-Exupéry
segunda-feira, 14 de abril de 2008
Felicidade realista
"Ser feliz de uma forma realista é fazer o possível e aceitar o improvável. Fazer exercícios sem almejar passarelas, trabalhar sem almejar o estrelato, amar sem almejar o eterno. Olhe para o relógio: hora de acordar. "
(Martha Medeiros)
(Martha Medeiros)
terça-feira, 8 de abril de 2008
Acordar
Eu adoro todas as coisas
E o meu coração é um albergue aberto toda a noite.
Tenho pela vida um interesse ávido
Que busca compreendê-la sentindo-a muito.
Amo tudo, animo tudo, empresto humanidade a tudo,
Aos homens e às pedras, às almas e às máquinas,
Para aumentar com isso a minha personalidade.
Pertenço a tudo para pertencer cada vez mais a mim próprio
E a minha ambição era trazer o universo ao colo
Como uma criança a quem a ama beija.
Eu amo todas as coisas, umas mais do que as outras,
Não nenhuma mais do que outra, mas sempre mais as que estou vendo
Do que as que vi ou verei.
Nada para mim é tão belo como o movimento e as sensações.
A vida é uma grande feira e tudo são barracas e saltimbancos.
Penso nisto, enterneço-me mas não sossego nunca.
Dá-me lírios, lírios
E rosas também.
Dá-me rosas, rosas,
E lírios também,
Crisântemos, dálias,
Violetas, e os girassóis
Acima de todas as flores...
Trecho do poema "Acordar", de Álvaro de Campos (heterônimo de Fernando Pessoa)
E o meu coração é um albergue aberto toda a noite.
Tenho pela vida um interesse ávido
Que busca compreendê-la sentindo-a muito.
Amo tudo, animo tudo, empresto humanidade a tudo,
Aos homens e às pedras, às almas e às máquinas,
Para aumentar com isso a minha personalidade.
Pertenço a tudo para pertencer cada vez mais a mim próprio
E a minha ambição era trazer o universo ao colo
Como uma criança a quem a ama beija.
Eu amo todas as coisas, umas mais do que as outras,
Não nenhuma mais do que outra, mas sempre mais as que estou vendo
Do que as que vi ou verei.
Nada para mim é tão belo como o movimento e as sensações.
A vida é uma grande feira e tudo são barracas e saltimbancos.
Penso nisto, enterneço-me mas não sossego nunca.
Dá-me lírios, lírios
E rosas também.
Dá-me rosas, rosas,
E lírios também,
Crisântemos, dálias,
Violetas, e os girassóis
Acima de todas as flores...
Trecho do poema "Acordar", de Álvaro de Campos (heterônimo de Fernando Pessoa)
sábado, 5 de abril de 2008
Redenção pela palavra
A gente se distrai e, quando vê, está levando a vida que não queria. Mas, assim como a distração, a redenção também vem. Pode ser uma palavra, um encontro, qualquer coisa que revele a epifania da existência e recoloque nossa alma no caminho. No meu caso, foram textos. Já não sabia por que estava fazendo o que estava fazendo, mas foi ler alguns textos e eu lembrei exatamente o que queria fazer. Os textos são do jornalista e professor Marcus Vinícius Batista. São inspiradores por mostrar o poder de articulação de idéias e a capacidade de expressá-las. É bom ter modelos.
Lembrei de uma certeza que me veio quando eu li A idade do serrote, do Murilo Mendes. Foi a de que o pecado maior da vida é ser menos do que a gente pode ser. Essa sensação de querer ser melhor do que se é... talvez seja isso o que inspirem pessoas e textos assim.
Será que uma pessoa, ao escrever, tem consciência plena do poder que exerce sobre outras pessoas? Acredito não ser possível ter noção total do alcance de algumas palavras, e, talvez, aquele que lê vê algo muito maior do que quem escreve. Mas o caso é que, para alguém apaixonado por palavras e idéias, um texto bem escrito não apenas seduz e instiga por seu conteúdo e composição, mas também fortalece algumas convicções. No meu caso, foi a de uma paixão antiga e a razão pela qual decidi me tornar jornalista.
Lembrei de uma certeza que me veio quando eu li A idade do serrote, do Murilo Mendes. Foi a de que o pecado maior da vida é ser menos do que a gente pode ser. Essa sensação de querer ser melhor do que se é... talvez seja isso o que inspirem pessoas e textos assim.
Será que uma pessoa, ao escrever, tem consciência plena do poder que exerce sobre outras pessoas? Acredito não ser possível ter noção total do alcance de algumas palavras, e, talvez, aquele que lê vê algo muito maior do que quem escreve. Mas o caso é que, para alguém apaixonado por palavras e idéias, um texto bem escrito não apenas seduz e instiga por seu conteúdo e composição, mas também fortalece algumas convicções. No meu caso, foi a de uma paixão antiga e a razão pela qual decidi me tornar jornalista.
quarta-feira, 2 de abril de 2008
Música Noturna
O poder da música de nos resgatar e transportar para outras realidades já foi proclamado em prosa e verso de muita e pouca qualidade. Músicos de rua também já renderam belas crônicas. Ontem, no ônibus das onze, fui agraciada com estes dois fenômenos.
O tocador de violão cantava e tocava como se não estivesse ali. As pessoas não viam, nem ouviam, como se ele não estivesse ali. Mas a mim, ele fez o favor de emocionar com a despretensão artística e a surpresa de encontrar alegria em um lugar inusitado.
As músicas não eram lá grande coisa, mas me fizeram sorrir. Pela graça da situação. A primeira foi Borbulhas de Amor (sim, sucesso, tempos atrás, de Fagner... "tenho um coração, dividido entre a esperança e a razão. Tenho um coração, bem melhor que não tivera..."). Sem perceber, estava cantarolando junto (em pensamento, claro) e lembrando emoções antigas... E ria sozinha. Depois veio Alma Gêmea, sucesso de Peninha. Sim, eu também fiz argh acompanhado de careta ao princípio, mas lá estava eu de novo cantarolando e relembrando... A última canção salvou um pouquinho o repertório: Maluco Beleza, de Raul Seixas. A esta altura do campeonato eu já estava em outros lugares, outras épocas, e ouvir "e este caminho que eu mesmo escolhi, é tão fácil seguir por não ter aonde ir..." foi a cereja do bolo.
Voltei para casa em estado de graça.
Abençoada seja a música (mesmo as ruins. Bom, algumas ruins...) e abençoado o seresteiro ignorado do ônibus das onze...
O tocador de violão cantava e tocava como se não estivesse ali. As pessoas não viam, nem ouviam, como se ele não estivesse ali. Mas a mim, ele fez o favor de emocionar com a despretensão artística e a surpresa de encontrar alegria em um lugar inusitado.
As músicas não eram lá grande coisa, mas me fizeram sorrir. Pela graça da situação. A primeira foi Borbulhas de Amor (sim, sucesso, tempos atrás, de Fagner... "tenho um coração, dividido entre a esperança e a razão. Tenho um coração, bem melhor que não tivera..."). Sem perceber, estava cantarolando junto (em pensamento, claro) e lembrando emoções antigas... E ria sozinha. Depois veio Alma Gêmea, sucesso de Peninha. Sim, eu também fiz argh acompanhado de careta ao princípio, mas lá estava eu de novo cantarolando e relembrando... A última canção salvou um pouquinho o repertório: Maluco Beleza, de Raul Seixas. A esta altura do campeonato eu já estava em outros lugares, outras épocas, e ouvir "e este caminho que eu mesmo escolhi, é tão fácil seguir por não ter aonde ir..." foi a cereja do bolo.
Voltei para casa em estado de graça.
Abençoada seja a música (mesmo as ruins. Bom, algumas ruins...) e abençoado o seresteiro ignorado do ônibus das onze...
segunda-feira, 31 de março de 2008
Quando Nietzsche chorou
Ontem acabei de ler Quando Nietzsche chorou. Livro fascinante que mistura psicanálise com filosofia. E personagens reais! Nietzsche, Breuer, Freud, Lou Salomé... Que mais se poderia pedir?!
Logo, logo, sai a resenha. Por enquanto, coloco aqui alguns aforismos do personagem Nietzsche:
“Nossa responsabilidade para com a vida é criar o superior, não reproduzir o inferior.”
“É mais fácil, muito mais fácil, obedecer a outro do que dirigir a si mesmo.”
“É preciso ter caos e frenesi dentro de si para dar à luz uma estrela dançante.”
“(...) os amantes da verdade não temem águas tempestuosas ou turvas. O que tememos são águas rasas.”
“Uma perspectiva cósmica sempre atenua a tragédia. Se subirmos bastante, alcançaremos uma altura da qual a tragédia deixará de parecer trágica.”
“Viver de maneira segura é perigoso.”
“Torna-te quem tu és.”
Logo, logo, sai a resenha. Por enquanto, coloco aqui alguns aforismos do personagem Nietzsche:
“Nossa responsabilidade para com a vida é criar o superior, não reproduzir o inferior.”
“É mais fácil, muito mais fácil, obedecer a outro do que dirigir a si mesmo.”
“É preciso ter caos e frenesi dentro de si para dar à luz uma estrela dançante.”
“(...) os amantes da verdade não temem águas tempestuosas ou turvas. O que tememos são águas rasas.”
“Uma perspectiva cósmica sempre atenua a tragédia. Se subirmos bastante, alcançaremos uma altura da qual a tragédia deixará de parecer trágica.”
“Viver de maneira segura é perigoso.”
“Torna-te quem tu és.”
domingo, 30 de março de 2008
sexta-feira, 28 de março de 2008
Novidade
Mais uma disciplina, mais uma tarefa, mais um blog!
Este caderno que se pretendia filosófico, sempre namorou um tantinho com a poesia e a literatura. A nova cria é puramente literária (ao menos por enquanto...). É um blog dedicado a resenhas.
Aos interessados:
http://www.apontamentosliterarios.blogspot.com/
Este caderno que se pretendia filosófico, sempre namorou um tantinho com a poesia e a literatura. A nova cria é puramente literária (ao menos por enquanto...). É um blog dedicado a resenhas.
Aos interessados:
http://www.apontamentosliterarios.blogspot.com/
quarta-feira, 19 de março de 2008
O silêncio
Rubem Alves
Tagarelas alegres são emissários do demônio - com suas palavras tolas eles nos tiram das águas profundas
O vento frio, aos golpes, anunciava que o inverno estava se aproximando. Nuvens cinzentas cobriam os Alpes, como navios que navegavam velozes, levadas pelo vento. Era um velho mosteiro de freiras que praticavam o silêncio, costume abençoado que libertava as pessoas da obrigação de conversar com os vizinhos às mesas de refeições. Não ser obrigado a conversar é uma felicidade.
É raro que as pessoas entendam isso. Eu iria dar uma fala, faltava ainda meia hora e procurei um lugar escondido onde pudesse ficar quieto com os meus pensamentos. Achei-o sob uma escada, quase invisível e ali me escondi. Foi então que uma pessoa delicada me viu ali sozinho e bondosamente pensou: "O professor Rubem Alves está abandonado..." Dois minutos depois meu refúgio estava cheio de pessoas falantes que destruíram a minha solidão... Os tagarelas alegres são emissários do demônio porque com suas palavras tolas eles nos tiram das águas profundas em que nos encontrávamos. Deus é o Grande Mar. A alma é um peixe. Os poetas sabem disso.
T.S. Eliot escreveu: "Nosso olhar é submarino. Olhamos para cima e vemos a luz que se fratura através das águas inquietas..."Hóspede naquele mosteiro, eu deveria obedecer aos horários e participar dos eventos. Um deles me horrorizou: participar das celebrações litúrgicas às 6h, às 12h e às 18h.
O santuário era um velho celeiro de madeira octogonal, muito grande e escuro, sem janelas. Os arquitetos, para pôr luz nas sombras, abriram buracos nas paredes, cobrindo-os com vidros coloridos. A luz do sol, entrando pelos orifícios e atravessando os vidros coloridos, faziam desenhos no espaço vazio, desenhos que se deslocavam à medida em que o sol caminhava pelo céu.Os bancos, poucos, seguiam três lados do octógono; a mesa, iluminada com velas, tinha no seu centro um ícone de Jesus ao estilo bizantino. Cheguei no horário. Poucas pessoas. Os mosteiros não são lugares que atraiam turistas.
Fiquei à espera do início da liturgia, que deveria iniciar-se suiçamente ao repicar dos sinos às 6h da manhã. Os sinos repicaram mas nada aconteceu, nenhuma reza, nenhum hino, nenhuma leitura bíblica.
Pus-me a examinar o espaço e as luzes que se entrecruzavam. O exercício de simplesmente ver tem o efeito de fazer parar o pensamento. Alberto Caeiro já dizia que "pensar é estar doente dos olhos..."
Os pensamentos, produtos internos da cabeça, são perturbações que distorcem a pureza da visão.
Aí, ao misticismo do ver seguiu-se o misticismo do ouvir. O vento descia furioso das montanhas, em golpes, lufadas que torciam a estrutura de madeira, provocando aqueles ruídos típicos de navios à vela batidos pelo vento. Ao lado do santuário havia uma plantação de macieiras nuas, o vento havia arrancado suas folhas todas, somente seus galhos pelados ficaram. Quando o vento sacudia a galharia era como se houvesse um mar enraivecido quebrando ondas. Aí os sons e as cores começaram a invocar poemas ancestrais.
"E a terra era um abismo sem forma e o vento de Deus soprava violentamente sobre a superfície das águas... E disse Deus: "Haja luz..." E aí meus pensamentos foram possuídos pela poesia.
Mas e a liturgia? Já eram 6h20. Percebi então que a liturgia havia começado às 6h, quando os sinos tocaram... Só silêncio...
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff1803200803.htm
Tagarelas alegres são emissários do demônio - com suas palavras tolas eles nos tiram das águas profundas
O vento frio, aos golpes, anunciava que o inverno estava se aproximando. Nuvens cinzentas cobriam os Alpes, como navios que navegavam velozes, levadas pelo vento. Era um velho mosteiro de freiras que praticavam o silêncio, costume abençoado que libertava as pessoas da obrigação de conversar com os vizinhos às mesas de refeições. Não ser obrigado a conversar é uma felicidade.
É raro que as pessoas entendam isso. Eu iria dar uma fala, faltava ainda meia hora e procurei um lugar escondido onde pudesse ficar quieto com os meus pensamentos. Achei-o sob uma escada, quase invisível e ali me escondi. Foi então que uma pessoa delicada me viu ali sozinho e bondosamente pensou: "O professor Rubem Alves está abandonado..." Dois minutos depois meu refúgio estava cheio de pessoas falantes que destruíram a minha solidão... Os tagarelas alegres são emissários do demônio porque com suas palavras tolas eles nos tiram das águas profundas em que nos encontrávamos. Deus é o Grande Mar. A alma é um peixe. Os poetas sabem disso.
T.S. Eliot escreveu: "Nosso olhar é submarino. Olhamos para cima e vemos a luz que se fratura através das águas inquietas..."Hóspede naquele mosteiro, eu deveria obedecer aos horários e participar dos eventos. Um deles me horrorizou: participar das celebrações litúrgicas às 6h, às 12h e às 18h.
O santuário era um velho celeiro de madeira octogonal, muito grande e escuro, sem janelas. Os arquitetos, para pôr luz nas sombras, abriram buracos nas paredes, cobrindo-os com vidros coloridos. A luz do sol, entrando pelos orifícios e atravessando os vidros coloridos, faziam desenhos no espaço vazio, desenhos que se deslocavam à medida em que o sol caminhava pelo céu.Os bancos, poucos, seguiam três lados do octógono; a mesa, iluminada com velas, tinha no seu centro um ícone de Jesus ao estilo bizantino. Cheguei no horário. Poucas pessoas. Os mosteiros não são lugares que atraiam turistas.
Fiquei à espera do início da liturgia, que deveria iniciar-se suiçamente ao repicar dos sinos às 6h da manhã. Os sinos repicaram mas nada aconteceu, nenhuma reza, nenhum hino, nenhuma leitura bíblica.
Pus-me a examinar o espaço e as luzes que se entrecruzavam. O exercício de simplesmente ver tem o efeito de fazer parar o pensamento. Alberto Caeiro já dizia que "pensar é estar doente dos olhos..."
Os pensamentos, produtos internos da cabeça, são perturbações que distorcem a pureza da visão.
Aí, ao misticismo do ver seguiu-se o misticismo do ouvir. O vento descia furioso das montanhas, em golpes, lufadas que torciam a estrutura de madeira, provocando aqueles ruídos típicos de navios à vela batidos pelo vento. Ao lado do santuário havia uma plantação de macieiras nuas, o vento havia arrancado suas folhas todas, somente seus galhos pelados ficaram. Quando o vento sacudia a galharia era como se houvesse um mar enraivecido quebrando ondas. Aí os sons e as cores começaram a invocar poemas ancestrais.
"E a terra era um abismo sem forma e o vento de Deus soprava violentamente sobre a superfície das águas... E disse Deus: "Haja luz..." E aí meus pensamentos foram possuídos pela poesia.
Mas e a liturgia? Já eram 6h20. Percebi então que a liturgia havia começado às 6h, quando os sinos tocaram... Só silêncio...
***
Publicado na Folha de São Paulo, em 18/03/08:http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff1803200803.htm
quinta-feira, 6 de março de 2008
Sem café e sem chocolate!
Existem coisas sem as quais a gente imagina que não poderia sobreviver. A maioria dessas coisas que me são indispensáveis está relacionada a comida, por motivos que não consigo compreender... Vivo plenamente a asserção de que comer é uma das melhores coisas da vida.
Em geral, associo visitas a lugares às delícias que experimento, o que torna esses lugares ainda mais inesquecíveis. Cuca de uva e cueca virada de Gramado, croquete de ovo, churros e chocolate quente de Salamanca, tortinha de framboesa de Paris, barra de chocolate maravilhoso a 80 centavos do mercado Champion, café da manhã num boteco à beira da estrada no Paraná, o croissant de chocolate do café da História na usp. Coisas que, depois de provadas, me levam a pergutar: e agora? Como poderei viver sem isso? À felicidade do encontro junta-se a tristeza da separação e a constatação de uma ausência prolongada. Ainda sofro enormemente a distância de minhas últimas descobertas, todas em Florianópolis. A empanada integral do barzinho da Armação, o sorvete de ferrero rocher (sim, isso existe!), o cavaco do Angeloni (lembranças de minha avó...), a torta brownie de Santo Antônio de Lisboa.
Embora cada coisa seja única e insubstituível, a gente sempre pode descobrir novas alegrias ou celebrar as antigas. Assim, tento compensar as ausências com o que se encontra perto: o kibe do Empório Beirute, os churros da divisa, os pastéis do Carioca e do Toninho, o café Caracol, a cocada do posto do canal 6, a torta de banana do Sevilla...
Atualmente, circunstâncias do meu duodeno estão restringindo meus pequenos prazeres. A pior das restrições é a proibição de café e chocolate. Como assim? Sem café e sem chocolate?!? Mas sem café eu não vivo, seu doutor! Tudo bem, mas só com leite! Ele não sabe a falta que me faz... No entanto, apesar da falta, começo a perceber que as coisas que a gente tanto preza podem não ser tão indispensáveis quanto a gente imagina. E isso, até certo ponto, é triste. Perceber que a gente não precisa de algo do qual até gostava de depender. É parte do longo e contínuo processo de dizer adeus. Dramática, não? Mas é que eu estou falando de café e chocolate...
Em geral, associo visitas a lugares às delícias que experimento, o que torna esses lugares ainda mais inesquecíveis. Cuca de uva e cueca virada de Gramado, croquete de ovo, churros e chocolate quente de Salamanca, tortinha de framboesa de Paris, barra de chocolate maravilhoso a 80 centavos do mercado Champion, café da manhã num boteco à beira da estrada no Paraná, o croissant de chocolate do café da História na usp. Coisas que, depois de provadas, me levam a pergutar: e agora? Como poderei viver sem isso? À felicidade do encontro junta-se a tristeza da separação e a constatação de uma ausência prolongada. Ainda sofro enormemente a distância de minhas últimas descobertas, todas em Florianópolis. A empanada integral do barzinho da Armação, o sorvete de ferrero rocher (sim, isso existe!), o cavaco do Angeloni (lembranças de minha avó...), a torta brownie de Santo Antônio de Lisboa.
Embora cada coisa seja única e insubstituível, a gente sempre pode descobrir novas alegrias ou celebrar as antigas. Assim, tento compensar as ausências com o que se encontra perto: o kibe do Empório Beirute, os churros da divisa, os pastéis do Carioca e do Toninho, o café Caracol, a cocada do posto do canal 6, a torta de banana do Sevilla...
Atualmente, circunstâncias do meu duodeno estão restringindo meus pequenos prazeres. A pior das restrições é a proibição de café e chocolate. Como assim? Sem café e sem chocolate?!? Mas sem café eu não vivo, seu doutor! Tudo bem, mas só com leite! Ele não sabe a falta que me faz... No entanto, apesar da falta, começo a perceber que as coisas que a gente tanto preza podem não ser tão indispensáveis quanto a gente imagina. E isso, até certo ponto, é triste. Perceber que a gente não precisa de algo do qual até gostava de depender. É parte do longo e contínuo processo de dizer adeus. Dramática, não? Mas é que eu estou falando de café e chocolate...
quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008
Paciência e humildade
"Tudo está em levar a termo e, depois, dar à luz. Deixar amadurecer inteiramente, no âmago de si, nas trevas do indizível e do inconsciente, do inacessível a seu próprio intelecto, cada impressão e cada germe de sentimento e aguardar com profunda humildade e paciência a hora do parto de uma nova claridade: só isto é viver artisticamente na compreensão e na criação."
Cartas a um jovem poeta, Rainer Maria Rilke
Cartas a um jovem poeta, Rainer Maria Rilke
domingo, 17 de fevereiro de 2008
Mais Clarice
Ontem citei Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres. Neste exato momento, é o meu livro favorito. Reli e agora parece fazer muito mais sentido. É a história de Lóri, uma professora primária, apaixonada por Ulisses, professor de filosofia, seu guia e mentor na "aprendizagem". Acostumada a viver através da dor, ela deve aprender a alegria e a ser para poder vivenciar verdadeiramente o amor e a grandiosidade de sua própria existência.
Mas qualquer simplificação ou tentativa de descrição vai diminuir o livro. O melhor é ler.
Aqui vai um trecho:
"Ulisses ouvira de testa franzida. E depois dissera:
- E então você não quis mais nada disso. E parou com a possibilidade de dor, o que nunca se faz impunemente. Apenas parou e nada encontrou além disso. Eu não digo que eu tenha muito, mas tenho ainda a procura intensa e uma esperança violenta. Não esta sua voz baixa e doce. E eu não choro, se for preciso um dia eu grito, Lóri. Estou em plena luta e muito mais perto do que se chama de pobre vitória humana do que você, mas é vitória. Eu já poderia ter você com o meu corpo e minha alma. Esperarei nem que sejam anos que você também tenha corpo-alma para amar. Nós ainda somos moços, podemos perder algum tempo sem perder a vida inteira. Mas olhe para todos ao seu redor e veja o que temos feito de nós e a isso considerado vitória nossa de cada dia. Não temos amado, acima de todas as coisas. Não temos aceito o que não se entende porque não queremos passar por tolos. Temos amontoado coisas e seguranças por não termos um ao outro. Não temos nenhuma alegria que já não tenha sido catalogada. Temos construído cadetrais, e ficado do lado de fora pois as catedrais que nós mesmos construímos, tememos que sejam armadilhas. Não nos temos entregue a nós mesmos, pois isso seria o começo de uma vida larga e nós a tememos. Temos evitado cair de joelhos diante do primeiro de nós que por amor diga: tens medo. Temos organizado associações e clubes sorridentes onde se serve com ou sem soda. Temos procurado nos salvar mas sem usar a palavra salvação para não nos envergonharmos de ser inocentes. Não temos usado a palavra amor para não termos de reconhecer sua contextura de ódio, de amor, de ciúme e de tantos outros contraditórios. Temos mantido em segredo a nossa morte para tornar nossa vida possível. Muitos de nós fazem arte por não saber como é a outra coisa. Temos disfarçado com falso amor a nossa indiferença, sabendo que nossa indiferença é angústia disfarçada. Temos disfarçado com o pequeno medo o grande medo maior e por isso nunca falamos no que realmente importa. Falar no que realmente importa é considerado uma gafe. Não temos adorado por termos a sensata mesquinhez de nos lembrarmos a tempo dos falsos deuses. Não temos sido puros e ingênuos para não rirmos de nós mesmos e para que no fim do dia possamos dizer 'pelo menos não fui tolo' e assim não ficarmos perplexos antes de apagar a luz. Temos sorrido em público do que não sorriríamos quando ficássemos sozinhos. Temos chamado de fraqueza a nossa candura. Temo-nos temido um ao outro, acima de tudo. E a tudo isso consideramos a vitória nossa de cada dia. Mas eu escapei disso, Lóri, escapei com a ferocidade com que se escapa da peste, Lóri, e esperarei até você também estar mais pronta."
Mas qualquer simplificação ou tentativa de descrição vai diminuir o livro. O melhor é ler.
Aqui vai um trecho:
"Ulisses ouvira de testa franzida. E depois dissera:
- E então você não quis mais nada disso. E parou com a possibilidade de dor, o que nunca se faz impunemente. Apenas parou e nada encontrou além disso. Eu não digo que eu tenha muito, mas tenho ainda a procura intensa e uma esperança violenta. Não esta sua voz baixa e doce. E eu não choro, se for preciso um dia eu grito, Lóri. Estou em plena luta e muito mais perto do que se chama de pobre vitória humana do que você, mas é vitória. Eu já poderia ter você com o meu corpo e minha alma. Esperarei nem que sejam anos que você também tenha corpo-alma para amar. Nós ainda somos moços, podemos perder algum tempo sem perder a vida inteira. Mas olhe para todos ao seu redor e veja o que temos feito de nós e a isso considerado vitória nossa de cada dia. Não temos amado, acima de todas as coisas. Não temos aceito o que não se entende porque não queremos passar por tolos. Temos amontoado coisas e seguranças por não termos um ao outro. Não temos nenhuma alegria que já não tenha sido catalogada. Temos construído cadetrais, e ficado do lado de fora pois as catedrais que nós mesmos construímos, tememos que sejam armadilhas. Não nos temos entregue a nós mesmos, pois isso seria o começo de uma vida larga e nós a tememos. Temos evitado cair de joelhos diante do primeiro de nós que por amor diga: tens medo. Temos organizado associações e clubes sorridentes onde se serve com ou sem soda. Temos procurado nos salvar mas sem usar a palavra salvação para não nos envergonharmos de ser inocentes. Não temos usado a palavra amor para não termos de reconhecer sua contextura de ódio, de amor, de ciúme e de tantos outros contraditórios. Temos mantido em segredo a nossa morte para tornar nossa vida possível. Muitos de nós fazem arte por não saber como é a outra coisa. Temos disfarçado com falso amor a nossa indiferença, sabendo que nossa indiferença é angústia disfarçada. Temos disfarçado com o pequeno medo o grande medo maior e por isso nunca falamos no que realmente importa. Falar no que realmente importa é considerado uma gafe. Não temos adorado por termos a sensata mesquinhez de nos lembrarmos a tempo dos falsos deuses. Não temos sido puros e ingênuos para não rirmos de nós mesmos e para que no fim do dia possamos dizer 'pelo menos não fui tolo' e assim não ficarmos perplexos antes de apagar a luz. Temos sorrido em público do que não sorriríamos quando ficássemos sozinhos. Temos chamado de fraqueza a nossa candura. Temo-nos temido um ao outro, acima de tudo. E a tudo isso consideramos a vitória nossa de cada dia. Mas eu escapei disso, Lóri, escapei com a ferocidade com que se escapa da peste, Lóri, e esperarei até você também estar mais pronta."
Para o Vinícius
Pequenos presentes... Porque ele me fez lembrar de algo tão bonito e disse as palavras perfeitas...
"Tenho que não indagar do mistério para não trair o milagre."
"Seu desespero vinha de que não sabia sequer por onde e pelo que começar. Só sabia que já começara uma coisa nova e nunca mais poderia voltar à sua dimensão antiga. E sabia também que devia começar modestamente, para não se desencorajar. E sabia que devia abandonar para sempre a estrada principal. E entrar pelo seu verdadeiro caminho que eram os atalhos estreitos."
"A tragédia de viver existe sim e nós sentimos. Mas isto não impede que tenhamos uma profunda aproximação da alegria com essa mesma vida."
"(...) de quase tudo o que importa não se sabe falar."
"Um dia será o mundo com sua impersonalidade soberba versus a minha individualidade de pessoa mas seremos um só."
"Mas já existem demais os que estão cansados. Minha alegria é áspera e eficaz, e não se compraz em si mesma, é revolucionária. Todas as pessoas poderiam ter essa alegria mas estão ocupadas demais em ser cordeiros de deuses."
"Lembrou-se de como era antes destes momentos de agora. Ela era antes uma mulher que procurava um modo, uma forma. E agora tinha o que na verdade era tão mais perfeito: era a grande liberdade de não ter modos nem formas."
Trechos do livro Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres, da Clarice Lispector.
"Tenho que não indagar do mistério para não trair o milagre."
"Seu desespero vinha de que não sabia sequer por onde e pelo que começar. Só sabia que já começara uma coisa nova e nunca mais poderia voltar à sua dimensão antiga. E sabia também que devia começar modestamente, para não se desencorajar. E sabia que devia abandonar para sempre a estrada principal. E entrar pelo seu verdadeiro caminho que eram os atalhos estreitos."
"A tragédia de viver existe sim e nós sentimos. Mas isto não impede que tenhamos uma profunda aproximação da alegria com essa mesma vida."
"(...) de quase tudo o que importa não se sabe falar."
"Um dia será o mundo com sua impersonalidade soberba versus a minha individualidade de pessoa mas seremos um só."
"Mas já existem demais os que estão cansados. Minha alegria é áspera e eficaz, e não se compraz em si mesma, é revolucionária. Todas as pessoas poderiam ter essa alegria mas estão ocupadas demais em ser cordeiros de deuses."
"Lembrou-se de como era antes destes momentos de agora. Ela era antes uma mulher que procurava um modo, uma forma. E agora tinha o que na verdade era tão mais perfeito: era a grande liberdade de não ter modos nem formas."
Trechos do livro Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres, da Clarice Lispector.
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